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    O Festim dos Corvos

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    O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Ter Jun 19, 2012 1:57 pm

    O Prologo


    Dragões — disse Mollander. Pegou numa maçã estragada
    que estava no chão e a jogou de uma mão para a outra.


    - Atire a maçã — pediu Alleras, o Esfinge. Puxou uma
    seta da aljava e prendeu-a na corda do arco.
    — Eu gostaria de ver um dragão. — Roone era o mais novo do
    grupo, um rapaz atarracado ainda a dois anos de se fazer homem. —
    Gostaria muito mesmo.
    E eu gostaria de dormir com os braços da Rosey à minha volta,
    pensou Pate. Mexeu-se inquieto no banco. De manhã a garota podia bem ser
    sua.
    Vou levá-la para longe de Vilavelha, para o outro lado do mar
    estreito até uma das Cidades Livres. Lá não havia meistres, não existia
    ninguém que o acusasse.
    Ouvia as gargalhadas de Emma, vindas de uma janela fechada por
    cima da sua cabeça, misturadas com a voz mais profunda do homem que
    estava recebendo. Era a mais velha das mulheres que serviam no Pena e
    Caneca, tinha pelo menos quarenta anos, mas ainda era bonita ao seu jeito
    carnudo. Rosey era sua filha, com quinze anos e acabada de florir.
    Emma decretara que a virgindade de Rosey custaria um dragão de
    ouro. Pate poupara nove veados de prata e um cântaro de estrelas e dinheiros
    de cobre, mas isso de nada lhe serviria. Teria tido mais chance de trazer ao
    mundo um dragão verdadeiro do que de poupar moedas suficientes para um
    de ouro.
    — Nasceu tarde demais para dragões, moço — disse a Roone
    Armen, o Acólito. Armen usava uma tira de couro em volta do pescoço,
    amarrada com elos de peltre de estanho, chumbo e cobre, e tal como a
    maioria dos acólitos, parecia pensar que os noviços tinham nabos crescendo
    entre os ombros no lugar das cabeças. — O último morreu durante o reinado
    do Rei Aegon Terceiro.
    — O último dragão em Westeros — insistiu Mollander.
    — Atire a maçã — voltou a pedir Alleras. Era um jovem bem
    apessoado, o Esfinge. Todas as criadas tinham um fraco por ele. Até Rosey
    lhe tocava por vezes no braço quando lhes trazia vinho, e Pate tinha de
    ranger os dentes e fingir não ver

    — O último dragão em Westeros foi o último dragão — disse Armen
    com teimosia. — Isso é bem sabido.
    — A maçã — disse Alleras. — A menos que queira comer ela.
    — Aqui. — Arrastando a perna de pau, Mollander deu um curto
    salto, rodopiou e arremessou horizontalmente a maçã para as névoas que
    pairavam sobre o Vinhomel. Se não fosse o pé, teria sido um cavaleiro como
    o pai. Tinha a força necessária naqueles braços grossos e ombros largos. A
    maçã voou para longe rápido…
    … mas não tão rápido como a seta que assobiou no seu encalço, um
    metro de haste de madeira dourada com penas escarlates. Pate não viu a seta
    atingir a maçã, mas ouviu-a. Um tchunc suave ecoou por sobre o rio, seguido
    por um esparrinhar de água.
    Mollander assobiou.
    — Mesmo em cheio. Boa.
    Nem de perto tão boa como Rosey. Pate adorava os seus olhos cor de
    avelã e os seus seios em botão, e o modo como ela sorria sempre que o via.
    Adorava as covinhas no seu rosto. Ela por vezes andava descalça enquanto
    servia, para sentir a erva sob os pés. Também adorava isso. Adorava o cheiro
    limpo e fresco que ela exalava, o modo como o cabelo se lhe curvava sob as
    orelhas. Até adorava os seus dedos dos pés. Uma noite deixara-o esfregar-lhe
    os pés e brincar com eles, e ele inventara uma história divertida para cada
    dedo, a fim de pô-la aos risinhos.
    Talvez fizesse melhor em permanecer deste lado do mar estreito.
    Podia comprar um burro com o dinheiro que poupara, e ele e Rosey podiam
    montá-lo por turnos enquanto vagueavam por Westeros. Ebrose podia não o
    achar merecedor da prata, mas Pate sabia como endireitar um osso e curar
    uma febre com sanguessugas. O povo ficaria grato pela sua ajuda. Se
    conseguisse aprender a cortar cabelo e a fazer barbas, podia mesmo tornar-se
    barbeiro. Isso seria o bastante, disse a si próprio, desde que tivesse a Rosey.
    Rosey era tudo o que desejava no mundo.
    Nem sempre fora assim. Em tempos sonhara em ser um meistre num
    castelo, ao serviço de qualquer senhor generoso que o honrasse pela sua
    sabedoria e lhe concedesse um belo cavalo branco a fim de lhe agradecer
    pelos seus serviços. E quão alto o montaria, quão nobremente, concedendo
    sorrisos aos plebeus quando passasse por eles na estrada… Uma noite na
    sala comum do Pena e Caneca, após a segunda caneca de uma cidra
    terrivelmente forte, Pate gabara-se de que não seria noviço para sempre.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Ter Jun 19, 2012 1:57 pm

    — É verdade — gritara o Leo Preguiçoso. — Vais ser um antigo
    noviço, criando porcos.
    Ele esvaziou sua caneca. A varanda iluminada pelos archote do
    Pena e Caneca era naquela manhã uma ilha de luz num mar de névoa. Rio
    abaixo, o distante brilho de uma alta torre, flutuava no relento da noite como
    uma lua alaranjada e brumosa, mas a luz pouco fez para lhe melhorar o
    estado de espírito. O Arquimeiestre já devia ter chegado há esta hora. Teria
    sido tudo alguma despedida cruel, ou teria algo acontecido ao homem? Não
    seria a primeira vez que a sorte cobria Pate de amargura. Uma vez achara-se
    sortudo por ter sido escolhido para ajudar o velho Arquimeistre Walgrave
    com os corvos, sem sonhar que em breve estaria também buscando as
    refeições do homem, varrendo os seus aposentos e a vestindo-o todas as
    manhãs.
    Todos diziam que Walgrave esquecera mais da criação de corvos do
    que a maior parte dos meistres achava, portanto Pate assumira que um elo
    negro de ferro era o mínimo que poderia esperar, mas acabara por descobrir
    que Walgrave não poderia dar. O velho continuava a ser arquimeistre apenas
    por cortesia. Por maior que tivesse sido como meistre, agora o mais
    frequente era que as suas vestes escondessem a roupa interior emporcalhada,
    e meio ano antes um grupo de acólitos tinha-no encontrado chorando na
    Biblioteca, sem ser capaz de encontrar o caminho de volta aos seus
    aposentos. Era o Meistre Gormon que se sentava sob a máscara de ferro no
    lugar de Walgrave, o mesmo Gormon que um dia acusara Pate de roubo.
    Na macieira, junto à água, um rouxinol começou a cantar. Era um
    som doce, uma pausa bem vinda nos gritos roucos e no crocitar sem fim dos
    corvos de que cuidara o dia inteiro. Os corvos brancos conheciam o seu
    nome, e o resmungavam uns para os outros sempre que o vislumbravam,
    “Pate, Pate, Pate”, até deixá-lo a ponto de gritar. As grandes aves brancas
    eram o orgulho do arquimeistre Walgrave. Desejava que o comessem
    quando morresse, mas Pate andava meio desconfiado de que os corvos
    também pretendiam comê-lo. Talvez fosse a cidra terrivelmente forte — não
    viera para beber, mas Alleras estava pagando para festejar o seu elo de
    cobre, e a culpa dera-lhe sede — mas quase soava como se o rouxinol
    estivesse a trinar ouro por ferro, ouro por ferro, ouro por ferro. O que era
    muitíssimo estranho, pois fora isso o que o estranho dissera na noite em que
    Rosey os juntara.
    — Quem é você? — quisera saber Pate, e o homem respondera:
    — Um alquimista. Sei transformar ferro em ouro. — E então tinha a
    moeda na mão, dançando sobre os nós dos dedos, fazendo brilhar o suave
    ouro amarelo à luz das velas. De um lado tinha um dragão de três cabeças,

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Ter Jun 19, 2012 1:57 pm

    Do outro a cabeça de um rei qualquer morto. Ouro por ferro recordou Pate,
    não vai conseguir fazer melhor. Você a quer? Você a ama?
    — Não sou nenhum ladrão — dissera ao homem que se designava
    por alquimista. — Sou um noviço da Cidadela. — O alquimista inclinara a
    cabeça e dissera:
    — Se reconsiderar, voltarei aqui dentro de três dias com o meu
    dragão. Tinham-se passado três dias. Pate regressara ao Pena e Caneca,
    ainda incerto do que seria, mas em vez do alquimista encontrara Mollander,
    Armen e o Esfinge, com Roone a reboque. Teria levantado suspeitas se não
    se juntasse a eles.
    O Pena e Caneca nunca fechava. Havia seiscentos anos que se erguia
    a sua ilha no Vinhomel, e nem por uma vez tivera as portas fechadas ao
    negócio. Embora o alto edifício de madeira se inclinasse para sul como os
    noviços por vezes se inclinavam após beberem uma caneca, Pate supunha
    que a estalagem continuaria em pé por mais seiscentos anos, vendendo
    vinho, cerveja e cidra terrivelmente forte a homens do rio e do mar, a
    ferreiros e cantores, a sacerdotes e príncipes, e aos noviços e acólitos da
    Cidadela.
    — Vilavelha não é o mundo — declarou Mollander, alto demais. Era
    filho de um cavaleiro, e não poderia estar mais bêbado. Desde que lhe
    tinham trazido a notícia da morte do pai na Água Negra, embebedava-se
    quase todas as noites. Até em Vilavelha, longe da luta e em segurança atrás
    das suas muralhas, a Guerra dos Cinco Reis tocara-os a todos… embora o
    Arquimeistre Benedict insistisse que nunca houvera uma guerra de cinco
    reis, uma vez que Renly Baratheon fora morto antes de Balon Greyjoy se ter
    coroado.
    — O meu pai sempre disse que o mundo era maior do que o castelo
    de qualquer senhor — prosseguiu Mollander. — Os dragões devem ser a
    menor das coisas que um homem poderá encontrar em Qarth, Asshai e Yi Ti.
    Estas histórias dos marinheiros…
    —… são histórias contadas por marinheiros — interrompeu Armen.
    — Marinheiros, meu caro Mollander. Vai lá abaixo às docas, e
    aposto que irá encontrar marinheiros que te falarão das sereias com que
    dormiram, ou de como passaram um ano na barriga de um peixe.
    — Como é que você sabe que não passaram? — Mollander bateu os
    pés pela relva a fora, à procura de mais maçãs. — Tinha de estar você
    próprio na barriga para jurar que não passaram. Um marinheiro com uma
    história está bem, um homem podia rir-se dela, mas quando remadores

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Ter Jun 19, 2012 1:58 pm

    vindos de quatro navios diferentes contam a mesma história em quatro
    línguas diferentes…
    — A história não é a mesma — insistiu Armen. — Dragões em
    Asshai, dragões em Qarth, dragões em Meereen, dragões dothraki, dragões
    libertando escravos… todos os contos são diferentes uns dos outros.
    — Só nos detalhes. — Mollander ficava mais teimoso quando bebia,
    e até sóbrio era obstinado. — Todos falam de dragões, e de uma bela jovem
    rainha.
    O único dragão que interessava a Pate era feito de ouro amarelo.
    Perguntou a si próprio o que teria acontecido ao alquimista. Ao terceiro dia.
    Ele disse que estaria aqui.
    — Há outra maçã perto do seu pé — gritou Alleras a Mollander — e
    eu ainda tenho duas setas na aljava.
    — Que se foda a tua aljava. — Mollander apanhou o fruto caído. —
    Esta tem bicho — protestou, mas atirou-a assim mesmo. A seta atingiu a
    maçã quando ela começava a cair e cortou-a ao meio. Uma metade caiu no
    telhado de um torreão, tombou até um telhado mais baixo, saltou, e não
    acertou em Armen por meio metro.
    — Se cortar um verme em dois, vai criar dois vermes — informou-
    os o acólito.
    — Se ao menos acontecesse o mesmo com as maçãs, nunca ninguém
    precisaria passar fome — disse Alleras com um dos seus sorrisos suaves.
    O Esfinge andava sempre a sorrir, como se conhecesse algum
    gracejo secreto. Isso lhe dava um aspecto malicioso que combinava bem
    com o queixo pontiagudo, com o bico que a linha do cabelo formava a meio
    da testa, e com o denso matagal de caracóis negros de azeviche cortados
    curtos. Alleras chegaria a meistre. Só estava na Cidadela há um ano, mas já
    forjara três elos da sua corrente de meistre. Armen podia ter mais, mas levara
    um ano para ganhar cada um dos seus. Mesmo assim, ele também chegaria a
    meistre. Roone e Mollander continuavam a ser noviços de pescoço rosado,
    mas Roone era muito novo e Mollander gostava mais de beber do que de ler.
    Mas Pate… Estava na Cidadela há cinco anos, tendo chegado com
    não mais de treze, mas o seu pescoço permanecia tão rosado como fora no
    dia em que viera das terras ocidentais. Julgara-se pronto por duas vezes. Da
    primeira apresentara-se ao Arquimeistre Vaellyn para demonstrar o seu
    conhecimento dos céus. Em vez disso ficara sabendo como fora que o
    Vinagre Vaellyn ganhara esse nome. Pate levara dois anos a reunir coragem
    para voltar a tentar. Dessa vez, submetera-se ao velho e amável Arquimeistre

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Ter Jun 19, 2012 1:58 pm

    Ebrose, famoso pela sua voz suave e mãos gentis, mas os suspiros de Ebrose
    revelaram-se tão dolorosos como as farpas de Vaellyn.
    — Uma última maçã — prometeu Alleras — e eu contarei a vocês as
    minhas suspeitas acerca desses dragões.
    — O que você pode saber que eu não saiba? — resmungou
    Mollander.
    Localizou uma maçã num ramo, saltou, arrancou‑a e arremessou‑a.
    Alleras puxou a corda do arco até a orelha, virando‑se habilmente para
    seguir o alvo em voo. Largou a seta precisamente no momento em que a
    maçã começava a cair.
    — Você sempre falha no último tiro — disse Roone.
    A maçã mergulhou no rio, intacta.
    — Viu? — disse Roone.
    — No dia em que acertar todos é o dia em que irei parar de
    melhorar. — Alleras desprendeu a corda do arco e enfiou-o no seu estojo de
    couro.
    O arco fora esculpido em amagodouro, uma madeira rara e lendária
    das Ilhas do Verão. Pate tentara uma vez dobra-lo, e falhara. O Esfinge
    parece franzino, mas há força naqueles braços magros, refletiu, enquanto
    Alleras fazia passar uma perna por sobre o banco e estendia a mão para a
    taça de vinho.
    — O dragão tem três cabeças — anunciou, na sua arrastada
    pronúncia dornesa.
    — Isso é um enigma? — quis saber Roone. — Nas histórias, as
    esfinges falam sempre por enigmas.
    — Não é enigma nenhum. — Alleras bebericou do vinho.
    Os outros emborcavam canecas da cidra terrivelmente forte pela qual
    o Pena e Caneca era famoso, mas ele preferia os estranhos vinhos doces do
    país da mãe. Mesmo em Vilavelha, tais vinhos não se obtinham a baixo
    preço. Fora o Leo Preguiçoso quem apelidara Alleras como “o Esfinge”.
    Uma esfinge é um pouco disto, um pouco daquilo: uma cara
    humana, o corpo de um leão, as asas de um falcão. Alleras era igual: o pai
    era dornês, a mãe uma mulher de pele negra das Ilhas do Verão. A sua pele
    era escura como teca. E, tal como as esfinges de mármore verde que
    flanqueavam o portão principal da Cidadela, Alleras tinha olhos de ônix.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Ter Jun 19, 2012 1:58 pm

    - Nunca nenhum dragão teve três cabeças, exceto em escudos e
    bandeiras — disse com firmeza Armen, o Acólito. — Isso é um símbolo
    heráldico, nada mais. Além disso, os Targaryen estão todos mortos.
    — Nem todos — disse Alleras. — O Rei Pedinte tinha uma irmã.
    — Julgava que a cabeça dela tinha sido esmagada contra uma parede
    — disse Roone.
    — Não — disse Alleras. — Foi a cabeça do jovem filho do Príncipe
    Rhaegar que foi atirada contra uma parede pelos bravos homens do Leão de
    Lannister. Estamos falando da irmã de Rhaegar, nascida em Pedra do Dragão
    antes do castelo cair. Aquela a quem chamaram Daenerys.
    — A Nascida na Tormenta. Agora lembro. — Mollander ergueu
    bem alto a caneca, agitando a cidra que restava. — A ela! — Emborcou,
    bateu com a caneca vazia na mesa, arrotou, e limpou a boca com as costas da
    mão. — Onde está a Rosey? A nossa legítima rainha merece outra rodada de
    cidra, não acham?
    Armen, o Acólito, fez uma expressão de alarme.
    — Baixe a voz, palerma. Nem devia brincar com essas coisas.
    Nunca se sabe quem poderia ouvir. A Aranha tem ouvidos por todo o lado.
    — Oh, não se mije, Armen. Estava a propor uma bebida, não uma
    rebelião.
    Pate ouviu um risinho abafado. Uma voz suave e zombeteira gritou
    atrás dele.
    — Sempre soube que você era um traidor, Salto de Rã. — Leo
    Preguiçoso estava encostado à base da antiga ponte de pranchas, envolto em
    cetim listado de verde e dourado, com uma meia capa de seda negra presa ao
    ombro por uma rosa de jade. O vinho que deixara pingar na parte da frente
    do traje era de um robusto tinto, ajuizando pela cor das manchas. Uma
    madeixa do seu cabelo louro acinzentado caia por sobre um olho.
    Mollander irritou-se ao vê-lo.
    — Que se lixe isso. Vai embora. Não é bem vindo aqui. — Alleras
    colocou uma mão no braço dele para acalmá-lo, enquanto Armen franzia a
    sobrancelha
    — Leo. Senhor. Achava que estava confinado à Cidadela durante…
    —… mais três dias. — Leo Preguiçoso encolheu os ombros. — O
    Perestan diz que o mundo tem quarenta mil anos. Mollos diz que tem
    quinhentos mil. Que são três dias, eu pergunto? — Embora houvesse uma

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Ter Jun 19, 2012 1:58 pm

    Dúzia de mesas vazias na varanda, Leo sentou-se na deles. — Compre para
    mim uma taça de dourado da Árvore, Salto de Rã, e eu talvez não informe o
    meu pai sobre o teu brinde. As pedras viraram-se contra mim na Sorte
    Xadrez, e desperdicei o meu último veado no jantar. Leitão com molho de
    ameixas, recheado de castanhas e trufas brancas. Um homem tem de comer.
    O que vocês comeram rapazes?
    — Carneiro — resmungou Mollander. Não soava nada satisfeito
    com isso. — Partilhamos um quarto de carneiro cozido.
    — Tenho certeza que estão satisfeitos. — Leo virou-se para Alleras.
    — O filho de um senhor devia ser generoso, Esfinge. Soube que ganhaste o
    teu elo de cobre. Bebo a isso.
    Alleras sorriu-lhe.
    — Eu só pago aos amigos. E não sou nenhum filho de senhor, já te
    tinha dito. A minha mãe era uma mercadora.
    Os olhos de Leo eram cor de avelã, brilhantes de vinho e malícia.
    — A sua mãe era uma macaca das Ilhas do Verão. Os dorneses
    fodem qualquer coisa que tenha um buraco entre as pernas. Sem ofensa.
    Podes ser castanho como uma noz, mas pelo menos tomas banho. Ao
    contrário do nosso criador de porcos malhado. — Indicou Pate com um
    aceno de mão.
    Se batesse a caneca na sua boca, podia partir-lhe metade dos
    dentes, pensou Pate. Pate Malhado, o criador de porcos, era o herói de mil
    histórias libertinas: um rústico de bom coração e cabeça vazia que conseguia
    sempre levar a melhor sobre os fidalgos gordos, os altivos cavaleiros, e os
    septões pomposos que lhe criavam dificuldades. De algum modo, a sua
    estupidez revelava ser uma espécie de astúcia rude; as histórias terminavam
    sempre com o Pate Malhado sentado no cadeirão de um lorde ou dormindo
    com a filha de um cavaleiro. Mas isso eram as histórias. No mundo real, os
    criadores de porcos nunca se davam tão bem. Pate por vezes achava que a
    mãe devia tê-lo odiado, para lhe dar o nome que dera.
    Alleras já não estava sorrindo.
    — Tens que pedir desculpa.
    — Ah tenho? — disse Leo. — Como serei capaz de tal, com a
    garganta tão seca…
    — Envergonha a tua Casa com cada palavra que fala — disse-lhe
    Alleras. — Envergonha a Cidadela por ser um de nós

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Ter Jun 19, 2012 1:59 pm

    — Eu sei. Portanto paga-me um pouco de vinho, para que eu possa
    afogar a minha vergonha.
    Mollander disse:
    — Eu gostaria de te arrancar a língua pela raiz.
    — A sério? Então como é que eu contaria sobre os dragões? — Leo
    voltou a encolher os ombros. — O mestiço tem razão. A filha do Rei Louco
    está viva, e conseguiu fazer nascerem três dragões.
    — Três? — disse Roone, espantado.
    Leo deu-lhe palmadinhas na mão.
    — Mais do que dois e menos do que quatro. Eu se fosse você não
    tentava ganhar o elo dourado por enquanto.
    — Deixa-o em paz — avisou Mollander.
    — Que Salto de Rã tão cavalheiresco. Como quiser. Todos os
    homens de todos os navios que velejaram a menos de cem léguas de Qarth
    estão falando desses dragões. Alguns até dizem que os viram. O Mago está
    inclinado a crer neles.
    Armen apertou os lábios com desaprovação.
    — Marwyn é insano. O Arquimeistre Perestan seria o primeiro a te
    dizer isso.
    — O Arquimeistre Ryam diz o mesmo — disse Roone.
    Leo bocejou.
    — O mar é molhado, o sol é quente, e os animais enjaulados odeiam
    o mastim.
    Ele tem um apelido para todo mundo, pensou Pate, mas não podia
    negar que Marwyn se parecia mais com um mastim do que com um meistre.
    É como se quisesse nos morder. O Mago não era como os outros meistres.
    Dizia-se que ele se fazia acompanhar de prostitutas e de feiticeiros andantes,
    que falava com ibbeneses peludos e ilhéus do verão, negros como breu nas
    suas próprias línguas, e fazia sacrifícios a deuses estranhos nos pequenos
    templos dos marinheiros que se erguiam junto aos molhes. Os homens
    falavam de o terem visto na parte escura da cidade, em arenas de ratazanas e
    bordéis negros, na companhia de saltimbancos, cantores, mercenários, até
    pedintes. Alguns chegavam mesmo a sussurrar que ele uma vez matara um
    homem com os punhos.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Ter Jun 19, 2012 1:59 pm

    Quando Marwyn regressara a Vilavelha, depois de passar oito anos
    no leste mapeando terras distantes em busca de livros perdidos, e estudando
    com feiticeiros e umbromantes, o Vinagre Vaellyn apelidara-o de “Marwyn,
    o Mago”. O nome espalhara-se rapidamente por toda a Vilavelha, para
    grande aborrecimento de Vaellyn.
    — Deixe os feitiços e as preces para os sacerdotes e os septões, e
    vire a inteligência para a aprendizagem de verdades em que um homem
    possa confiar — aconselhara o Arquimeistre Ryam uma vez a Pate, mas o
    anel, bastão e máscara de Ryam eram de ouro amarelo, e a sua corrente de
    meistre não incluía um elo de aço valiriano.
    Armen olhou ao longo do nariz para o Leo Preguiçoso. Tinha o nariz
    perfeito para isso, longo, estreito e pontiagudo.
    — O Arquimeistre Marwyn acredita em muitas coisas curiosas —
    disse — mas não tem mais provas sobre os dragões do que Mollander. Só
    tem mais histórias de marinheiro.
    — Está enganado — disse Leo. — Há uma vela de vidro ardendo
    nos aposentos do Mago.
    Um silêncio caiu sobre a varanda iluminada por archotes. Armen
    suspirou e abanou a cabeça. Mollander pôs-se a rir. O Esfinge estudou Leo
    com os seus grandes olhos negros. Roone pareceu não compreender. Pate
    sabia das velas de vidro, embora nunca tivesse visto uma ardendo. Era o
    segredo mais mal guardado da Cidadela. Dizia-se que tinham sido trazidas
    de Valíria para Vilavelha mil anos antes da Perdição. Ouvira dizer que havia
    quatro; uma era verde e três negras, e todas eram altas e retorcidas.
    — O que são essas velas de vidro? — perguntou Roone.
    Armen, o Acólito, pigarreou.
    — Antes de um acólito proferir os seus votos, tem de passar a noite
    anterior de vigília na cave. Não lhe é permitida lanterna, archote, lâmpada ou
    círio… só uma vela de obsidiana. Tem de passar a noite na escuridão, a
    menos que seja capaz de acender essa vela. Alguns tentam. Os tolos e os
    teimosos, aqueles que estudaram os ditos mistérios superiores. É freqüente
    cortarem os dedos, pois se diz que as arestas das velas são afiadas como
    navalhas. Então, com mãos ensanguentadas, têm de esperar a alvorada,
    cismando sobre o seu fracasso. Homens mais sensatos vão simplesmente
    dormir, ou passam a noite em oração, mas todos os anos há sempre alguns
    que têm de tentar.
    — Sim. — Pate ouvira as mesmas histórias. — Mas de que serve
    uma vela que não dá luz?

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Ter Jun 19, 2012 1:59 pm

    — É uma lição — disse Armen — a última lição que temos de
    aprender antes de pormos as nossas correntes de meistre. A vela de vidro
    pretende representar a verdade e a aprendizagem, coisas raras, belas e
    frágeis. Tem a forma de uma vela para nos lembrar de que um meistre deve
    iluminar o lugar em que prestar serviço, e é cortante para nos lembrar de que
    o conhecimento pode ser perigoso. Os sábios podem tornar-se arrogantes da
    sua sabedoria, mas um meistre deve permanecer sempre humilde. A vela de
    vidro lembra-nos também disso. Mesmo depois de ter proferido os votos,
    colocado a corrente e partido para servir, um meistre recordará a escuridão
    da sua vigília e irá se lembrar de que nada do que fizera conseguira fazer
    com que a vela ardesse… pois mesmo com o conhecimento, algumas coisas
    não são possíveis.
    O Leo Preguiçoso desatou à gargalhada.
    — Não são possíveis para você, quer dizer. Eu vi a vela ardendo
    com os meus próprios olhos.
    — Vistes uma vela ardendo, não duvido — disse Armen. — Uma
    vela de cera negra, talvez.
    — Eu sei o que vi. A luz era estranha e brilhante, muito mais
    brilhante do que a de qualquer vela de cera de abelha ou de sebo. Gerava
    sombras estranhas e a chama nunca oscilava, nem mesmo quando uma brisa
    soprou pela porta aberta atrás de mim.
    Armen cruzou os braços.
    — A obsidiana não arde.
    — Vidro de dragão — disse Pate. — O povo chama de vidro de
    dragão. — Não sabia por que, mas aquilo parecia importante.
    — Chamam. — meditou Alleras, o Esfinge — e se houver de novo
    dragões no mundo…
    — Dragões e coisas mais escuras — disse Leo. — As ovelhas
    cinzentas fecharam os olhos, mas o mastim vê a verdade. Velhos poderes
    acordam. Sombras agitam-se. Uma era de maravilha e terror cairá em breve
    sobre nós, uma era para deuses e heróis. — Espreguicou-se, exibindo o seu
    sorriso indolente.
    — Isto vale uma rodada, julgo eu.
    — Já bebemos o suficiente — disse Armen. — A manhã chegará
    mais depressa do que gostaríamos, e o Arquimeistre Ebrose irá falar sobre as
    propriedades da urina. Aqueles que tencionam forjar um elo de prata fariam
    bem em não perder a sua palestra.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Ter Jun 19, 2012 1:59 pm

    — Longe de mim afastar vocês da prova de mijo — disse Leo. — Eu
    por mim, prefiro o sabor do dourado da Árvore.
    — Se a escolha for entre você e o mijo, eu bebo o mijo. —
    Mollander afastou-se da mesa. — Vem, Roone.
    O Esfinge estendeu a mão para o estojo do arco.
    — Para mim também é cama. Imagino que sonharei com dragões e
    velas de vidro.
    — Todos? — Leo encolheu os ombros. — Bem, a Rosey fica.
    Talvez acorde a nossa pequena doçura e faça dela uma mulher.
    Alleras viu a expressão no rosto de Pate.
    — Se ele não tem um cobre para uma taça de vinho, não pode ter um
    dragão para a moça.
    — Verdade — disse Mollander. — Além disso, é preciso ser homem
    para fazer de uma garota uma mulher. Vem com a gente, Pate. O Velho
    Walgrave há de acordar quando o sol nascer. Ele vai precisar que o ajude a ir
    à latrina.
    Se hoje se lembrar de quem sou. O Arquimeistre Walgrave não tinha
    dificuldade em distinguir os corvos uns dos outros, mas não era tão bom com
    as pessoas. Havia dias em que parecia pensar que Pate era alguém chamado
    Cressen.
    — Ainda não — disse aos amigos. — Vou ficar por algum tempo.
    — A alvorada ainda não rompera, não propriamente. O alquimista podia
    ainda vir, e Pate pretendia estar ali se ele viesse.
    — Como quiser — disse Armen. Alleras deitou a Pate um olhar
    demorado, e então pendurou o arco num ombro magro e seguiu os outros na
    direção da ponte.
    Mollander estava tão bêbado que tinha de caminhar com uma mão
    no ombro de Roone para evitar cair. A Cidadela não ficava a uma grande
    distância em voo de corvo, mas nenhum deles era um corvo, e Vilavelha era
    um verdadeiro labirinto, cheia de ruelas, vielas entrecruzadas e ruas estreitas
    e tortuosas.
    — Cuidado — ouviu Armen dizer quando as névoas do rio
    engoliram os quatro — a noite está úmida, e as pedras vão estar
    escorregadias.
    Quando desapareceram, Leo Preguiçoso observou amargamente Pate
    por cima da mesa.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Ter Jun 19, 2012 2:00 pm

    — Que tristeza. O Esfinge falou com toda a sua prata, abandonando
    com o Pate Malhado, o criador de porcos. — Espreguicou-se, bocejando. —
    Como anda a nossa adorável Roseyzinha, diga-me?
    — Está dormindo — disse Pate secamente.
    — Nua, com certeza. — Leo fez um sorriso. — Achas que ela vale
    mesmo um dragão? Suponho que um dia tenho de verificar.
    Pate sabia que não era boa ideia dar resposta àquilo.
    Leo não precisava de resposta.
    — Suponho que uma vez que eu sangre a garota, o preço dela caia
    de forma que até criadores de porcos consigam pagá-la. Devia me agradecer.
    Devia te matar, pensou Pate, mas estava longe de se encontrar
    suficientemente bêbado para jogar a vida fora. Leo recebera treino de armas,
    e tinha fama de ser mortífero com espada de sicário e punhal. E se Pate de
    algum modo conseguisse mata-lo, isso iria lhe custar também a cabeça. Leo
    tinha dois nomes, enquanto que Pate não possuía mais do que um, e o
    segundo era Tyrell. Sor Moryn Tyrell, comandante da Patrulha da Cidade de
    Vilavelha, era pai de Leo. Mace Tyrell, Senhor de Jardim de Cima e Protetor
    do Sul, era primo de Leo. E o Velho de Vilavelha, lorde Leyton de uma alta
    torre, que incluía “Protetor da Cidadela” entre os seus muitos títulos, era
    vassalo ajuramentado à Casa Tyrell. Deixa estar, disse Pate a si próprio. Ele
    diz estas coisas só para me ferir.
    As névoas estavam se iluminado a leste. A alvorada compreendeu
    Pate. A alvorada chegou, e o alquimista não. Não sabia se deveria rir ou
    chorar. Ainda serei um ladrão se devolver tudo e ninguém souber de nada?
    Era outra pergunta para a qual não tinha resposta, como aquelas que Ebrose
    e Vaellyn em tempos lhe tinham feito. Quando se afastou do banco e se pôs
    em pé, a cidra terrivelmente forte subiu-lhe à cabeça toda ao mesmo tempo.
    Teve de pousar uma mão na mesa para se equilibrar.
    — Deixe Rosey em paz — disse, em jeito de despedida. — Deixe
    ela em paz, senão pode ser que te mate.
    Leo Tyrell afastou o cabelo do olho num movimento rápido.
    — Não travo duelos com criadores de porcos. Vá embora.
    Pate virou-se e atravessou a varanda. Os seus calcanhares ressoaram
    nas pranchas desgastadas da velha ponte. Quando chegou ao outro lado, o
    céu oriental estava tornando-se rosado. O mundo é grande, disse a si próprio.
    Se comprasse tal burro, ainda podia vaguear pelas estradas e atalhos dos
    Sete Reinos, sangrando o povo e catando-lhe lêndeas dos cabelos. Podia me

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Ter Jun 19, 2012 2:00 pm

    Oferecer num navio qualquer, puxar um remo, e velejar para Qarth, a dos
    Portões de Jade, para ver esses malditos dragões com os meus próprios
    olhos. Não teria de voltar para o velho Walgrave e os corvos.
    Mas sem saber como, os pés levaram-no na direção da Cidadela.
    Quando o primeiro raio de sol perfurou as nuvens a leste, os sinos matinais
    começaram a repicar no Septo do Marinheiro, junto ao porto. O Septo do
    Senhor juntou-se um momento mais tarde, seguido pelos Sete Santuários nos
    seus jardins do outro lado do Vinhomel, e por fim o Septo Estrelado, que
    fora a sede do Alto Septão durante os mil anos que antecederam o
    desembarque de Aegon em Porto Real. Faziam uma música poderosa.
    Embora não tão doce como um pequeno rouxinol.
    Também ouvia cantos, sob o repique dos sinos. Todas as manhãs, à
    primeira luz da aurora, os sacerdotes vermelhos reuniam-se para dar as boas
    vindas ao sol no exterior do seu modesto templo erguido junto aos molhes.
    Pois a noite é escura e cheia de terrores. Pate ouvira-os gritar aquelas
    palavras uma centena de vezes, pedindo ao seu deus R’hllor para protegê-los
    da escuridão. Os Sete eram deuses suficientes para ele, mas ouvira dizer que
    Stannis Baratheon orava agora às fogueiras noturnas. Até pusera o coração
    flamejante de R’hllor nos seus estandartes, em vez do veado coroado.
    Se ele conquistar o Trono de Ferro, vamos todos ter de aprender a
    letra da canção dos sacerdotes vermelhos, pensou Pate, mas isso não era
    provável. Tyrion Lannister esmagara Stannis e R’hllor na Água Negra, e em
    breve acabaria com eles e espetaria a cabeça do pretendente Baratheon num
    espigão por cima dos portões de Porto Real.
    À medida que as névoas da noite se dissipavam, Vilavelha ia
    tomando forma à sua volta, emergindo fantasmagoricamente das sombras
    que antecediam a alvorada. Pate nunca vira Porto Real, mas sabia que era
    uma cidade de taipa, uma extensão de ruas lamacentas, telhados de colmo e
    telheiros de madeira. Vilavelha era construída em pedra, e todas as suas ruas
    eram empedradas, até a mais escusa das vielas. A cidade nunca era tão bela
    como ao romper da aurora. A oeste do Vinhomel, as sedes das Guildas
    orlavam a margem como uma fileira de palácios. A montante, as cúpulas e
    torres da Cidadela erguiam-se de ambos os lados do rio, ligadas por pontes
    de pedra repletas de casas e edifícios públicos. Logo abaixo, sob as muralhas
    de mármore negro e janelas arqueadas do Septo Estrelado, as mansões dos
    piedosos aglomeravam-se como crianças reunidas em torno dos pés de uma
    velha viúva rica.
    E mais para diante, onde o Vinhomel se alargava e mergulhava na
    Enseada dos Murmúrios, erguia-se a Alta torre, com as suas fogueiras de

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Ter Jun 19, 2012 2:03 pm

    aviso brilhantes contra o fundo da aurora. Desde o local onde ela se erguia
    no topo das escarpas da Ilha da Batalha, a sua sombra cortava a cidade como
    uma espada. Os nascidos e criados em Vilavelha sabiam dizer as horas pelo
    ponto onde a sombra caía. Alguns diziam que do topo da torre se conseguia
    ver tudo, até a Muralha. Talvez fosse por isso que Lorde Leyton não descia
    havia mais de uma década, preferindo governar a sua cidade a partir das
    nuvens. A carroça de um açougueiro passou por Pate trovejando ao longo da
    estrada do rio, levando cinco leitões que guinchavam numa aflição.
    Afastando- se do seu caminho, evitou por pouco ser salpicado quando uma
    mulher esvaziou um balde de dejetos noturnos de uma janela por cima dele.
    Quando for um meistre num castelo terei um cavalo para montar, pensou.
    Então tropeçou numa pedra e perguntou a si próprio quem estava
    enganando. Para ele não haveria corrente, não haveria lugar à mesa de honra
    de um senhor, não haveria nenhum alto cavalo branco para montar. Os seus
    dias seriam passados a ouvir o cuorc dos corvos e a lavar manchas de merda
    da roupa interior do Arquimeistre Walgrave. Estava apoiado num joelho,
    tentando limpar a lama da sua veste quando uma voz disse:
    — Bom dia, Pate.
    O alquimista estava em pé ao seu lado.
    Pate ergueu-se.
    — O terceiro dia… disse que estaria no Pena e Caneca.
    — Estava com seus amigos. Não queria me intrometer na
    camaradagem de vocês. — O alquimista trazia um manto de viajante com
    capuz, castanho e incaracterístico. O sol nascente espreitava por sobre os
    telhados atrás do seu ombro, tornando difícil distinguir o rosto dentro do
    capuz. — Já decidiste o que és?
    Será que ele tem de me obrigar a dizê-lo?
    — Suponho que sou um ladrão.
    — Achei que talvez fosse.
    A parte mais difícil fora pôr-se de quatro para puxar a caixa forte de
    debaixo da cama do Arquimeistre Walgrave. Embora a caixa fosse robusta e
    reforçada com ferro, tinha a fechadura quebrada. O Meistre Gormon
    suspeitara que fora Pate que quebrá-la, mas isso não era verdade. Fora o
    próprio Walgrave quem quebrara a fechadura, depois de perder a chave que
    a abria.
    Lá dentro, Pate encontrara um saco de veados de prata, uma madeixa
    de cabelo amarelo atada com uma fita, uma miniatura pintada de uma mulher
    22

    que se assemelhava a Walgrave (até no bigode), e uma manopla de cavaleiro
    feita de aço articulado. A manopla pertencera a um príncipe, segundo
    Walgrave afirmava, embora já não parecesse ser capaz de recordar qual
    deles. Quando Pate a sacudira, a chave caíra ao chão. Se apanhar aquilo, sou
    um ladrão, lembrava-se de ter pensado. A chave era velha e pesada, feita de
    ferro negro; supostamente, abria todas as portas da Cidadela. Só os
    arquimeistres possuíam chaves daquelas. Os outros transportavam as suas
    consigo ou escondiam em algum local seguro, mas se Walgrave tivesse
    escondido a sua, nunca mais ninguém a veria. Pate apanhara a chave e
    percorrera metade do caminho até a porta antes de voltar para trás para
    apanhar também a prata. Um ladrão era um ladrão, quer roube muito, quer
    roube pouco. “Pate” chamara um dos corvos brancos, “Pate, Pate, Pate”.
    — Você tem o meu dragão? — perguntou ao alquimista.
    — Se você tiver o que eu quero.
    — Dê ele aqui. Quero ver. — Pate não tencionava permitir que o
    enganassem.
    — A estrada do rio não é lugar para isso. Vem.
    Não teve tempo de pensar, de pesar as suas hipóteses. O alquimista
    estava afastando-se. Pate tinha de segui-lo ou perderia tanto Rosey como o
    dragão, e para sempre. Seguiu-o. Enquanto caminhavam, enfiou a mão na
    manga. Conseguia sentir a chave, em segurança dentro do bolso escondido
    que cosera aí. As vestes de meistre tinham bolsos por todo o lado. Pate sabia
    disso desde rapaz.
    Tinha de se apressar para conseguir acompanhar os passos mais
    longos do alquimista. Desceram por uma viela, viraram uma esquina,
    atravessaram o antigo Mercado dos Ladrões, percorreram a Ruela do
    Trapeiro. Por fim, o homem virou para outra viela, mais estreita do que a
    primeira.
    — Já chega — disse Pate. — Não há ninguém à nossa volta. Vamos
    fazer aqui.
    — Como quiser.
    — Quero o meu dragão.
    — Com certeza. — A moeda surgiu. O alquimista a fez caminhar
    por sobre os nós dos dedos, como fizera quando Rosey os juntara. À luz da
    manhã, o dragão cintilava enquanto se movia, e dava aos dedos do
    alquimista um brilho dourado.
    23

    Pate tirou a moeda da mão do outro. O ouro parecia-lhe morno
    contra a pele da mão. Levou-o à boca e trincou-o, como vira os homens
    fazer.
    Na verdade, não tinha a certeza de qual era suposto ser o sabor do
    ouro, mas não queria parecer um tolo.
    — A chave? — inquiriu educadamente o alquimista.
    Algo levou Pate a hesitar.
    — É algum livro que você quer? — Dizia-se que alguns dos velhos
    pergaminhos valirianos trancados nas caves eram as únicas cópias que
    sobreviviam no mundo.
    — O que eu quero não é da tua conta.
    — Não. — Está feito, disse Pate a si próprio. Vai. Corre de volta ao
    Pena e Caneca, acorda Rosey com um beijo e diz-lhe que te pertence. Mas
    ainda se deixou ficar. — Mostre-me seu rosto.
    — Como quiser. — O alquimista baixou o capuz.
    Era apenas um homem, e o seu rosto era apenas um rosto. Um rosto
    de jovem, comum, com faces cheias e a sombra de uma barba. Uma tênue
    cicatriz entrevia-se na bochecha direita. Tinha um nariz adunco, e uma densa
    cabeleira preta que se encaracolava, bem apertada, em volta das orelhas.
    Não era um rosto que Pate reconhecesse.
    — Não te conheço.
    — Nem eu a ti.
    — Quem é você?
    — Um estranho. Ninguém. A sério.
    — Oh. — Pate ficara sem palavras. Puxou da chave e a pos na mão
    do estranho, sentindo a cabeça leve, sentindo-se quase com vertigens. Rosey
    recordou a si próprio. — Então é tudo.
    Já tinha percorrido metade da viela quando o empedrado começou a
    mover-se por baixo dos seus pés. As pedras estão escorregadias e úmidas,
    pensou, mas não era isso. Sentia o coração martelando no peito.
    — O que está acontecendo? — disse. Suas pernas tinham se
    transformado em água. — Não compreendo.
    — E nunca vai compreender — disse uma voz num tom triste.
    24

    O empedrado saltou para beijá-lo. Pate tentou gritar por ajuda, mas a
    voz também estava falhando.
    O seu último pensamento foi para Rosey

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Ter Jun 19, 2012 2:04 pm

    O profeta 25


    O profeta estava afogando homens em Grande Wyk quando vieram lhe
    dizer que o rei estava morto.
    Era uma manhã de ventania e fria, e o mar mostrava o
    mesmo tom cinzento do céu. Os primeiros três homens tinham oferecido sem
    temor as suas vidas ao Deus Afogado, mas o quarto era fraco na fé e
    começou a se debater quando os pulmões gritaram por ar. Mergulhado até à
    cintura na rebentação, Aeron segurou o rapaz nu pelos ombros e empurroulhe
    a cabeça para baixo quando ele tentou inspirar um pouco de ar.
    — Tenha coragem — disse. Viemos do mar, e ao mar temos de
    regressar.
    Abre a boca e bebe profundamente a bênção de deus. Encha os
    pulmões de água, para que possa morrer e renascer. Lutar não adianta nada.
    Ou o rapaz não o conseguia ouvir com a cabeça submersa nas ondas,
    ou a fé o tinha abandonado por completo. Desatou a espernear e a sacudir-se
    com tamanha violência que Aeron teve de pedir ajuda. Quatro dos seus
    ajudantes afogados entraram na água para segurar o desgraçado e mantê-lo
    submerso.
    — Senhor Deus que te afogaste por nós — orou o sacerdote, numa
    voz profunda como o mar. — Permita que Emmond, teu servo, renasça do
    mar, tal como tu. Abençoe-o com sal, abençoe-o com pedra, abençoe-o com
    aço.
    Por fim, terminou. Não havia mais bolhas de ar saindo-lhe da boca, e
    toda a força sumira dos membros do rapaz. Emmond flutuava de cabeça para
    baixo no mar pouco profundo, branco, frio e em paz.
    Foi então que Cabelo Molhado percebeu que três cavaleiros tinham
    juntado aos seus afogados na costa pedregosa. Aeron conhecia o Sparr, um
    velho com cara de machadinha e olhos aguados, cuja voz trêmula era lei
    naquela parte de Grande Wyk. O filho Steffarion o acompanhava, com outro
    jovem, cujo manto vermelho-escuro e forrado de peles estava preso ao
    ombro com um ornamentado broche que mostrava o corno de guerra negro e
    dourado dos Bons Irmãos.
    Um dos filhos de Gorold, decidiu o sacerdote num relance. A esposa
    do Goodbrother dera tardiamente à luz três filhos altos, após uma dúzia de
    filhas, e dizia-se que não havia homem capaz de distinguir um filho dos

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Ter Jun 19, 2012 2:04 pm

    demais. Aeron Cabelo Molhado não se dignou a tentar. Fosse aquele
    Greydon, Gormond ou Gran, o sacerdote não tinha tempo para ele.
    Rosnou uma ordem brusca, e os seus afogados pegaram no rapaz
    morto pelos braços e pernas para leva-lo até acima da linha da maré. O
    sacerdote seguiu-os, vestido apenas com uma tanga de pele de foca que lhe
    cobria as partes pudicas. Com a pele arrepiada e pingando, voltou para terra,
    atravessando areia molhada e fria e seixos polidos pelo mar. Um dos seus
    afogados entregou-lhe uma veste de pesado tecido grosseiro, tingido com
    tons variados de verde, azul e cinza, as cores do mar e do Deus Afogado.
    Aeron envergou a veste e libertou o cabelo. Negro e molhado, seu cabelo;
    nenhuma lâmina tocara desde que o mar o erguera. Envolvia-lhe os ombros
    como um manto esfarrapado e filamentoso, e lhe caía até abaixo da cintura.
    Aeron entrelaçava-o com cordões de algas, e fazia o mesmo à barba
    emaranhada e por cortar.
    Os seus afogados formavam um círculo em volta do rapaz morto,
    orando. Norjen trabalhava com os seus braços, enquanto Rus estava sentado
    em cima do rapaz, comprimindo-lhe ritmicamente o peito, mas todos se
    afastaram para deixar Aeron passar. Este afastou com os dedos os lábios
    frios do rapaz e deu a Emmond o beijo da vida, e voltou a dar-lhe, e de novo
    o deu, até que o mar jorrou da sua boca. O rapaz tossiu e cuspiu e os olhos
    abriram-se, cheios de medo.
    Outro que regressou.
    Era um sinal do favor do Deus Afogado, diziam os homens. Todos
    os outros sacerdotes perdiam alguém de vez em quando, até Tarle, o
    Triplamente Afogado, que fora um dia considerado tão santo que fora
    escolhido para coroar um rei. Mas Aeron Greyjoy, nunca. Ele era o Cabelo
    Molhado, aquele que vira os salões aquáticos do próprio deus e regressara
    para falar deles.
    — Erga-se — disse ao rapaz ofegante enquanto lhe dava uma
    palmada nas costas nuas. — Afogou-se e fora devolvido. O que está morto
    não pode morrer.
    — Mas volta. O rapaz tossiu violentamente, cuspindo mais água. —
    Volta a erguer-se. Cada palavra era arrancada com dor, mas o mundo era
    assim, um homem tinha de lutar para viver. Volta a erguer-se.
    Emmond pôs-se instavelmente em pé. Mais duro. E mais forte.
    — Agora pertence ao deus — disse-lhe Aeron. Os outros afogados
    reuniram-se em volta do rapaz e todos lhe deram um murro e um beijo para
    lhe dar as boas-vindas à irmandade. Um deles o ajudou a envergar uma veste

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Ter Jun 19, 2012 2:04 pm

    de tecido grosseiro tingido com tons variados de verde, azul e cinza. Outro o
    presenteou com uma maça feita de madeira trazida pelo mar. — Agora
    pertence ao mar, e por isso o mar te armou — disse Aeron. —Oramos para
    que maneje a sua maça com ferocidade, contra todos os inimigos do nosso
    deus.
    Só então o sacerdote virou-se para os três cavaleiros que observavam
    de cima das selas.
    — Vieram ser afogados, senhores?
    O Sparr tossiu.
    — Fui afogado em rapaz — disse. E o meu filho no dia do seu nome.
    Aeron soltou uma fungada. Que Steffarion Sparr fora entregue ao
    Deus Afogado pouco depois de nascer não duvidava. Também conhecia o
    modo como isso acontecera, um rápido mergulho numa tina de água do mar
    que quase não molhava a cabeça do bebê. Pouco admirava que os homens de
    ferro tivessem sido conquistados, eles que em tempos tinham dominado
    todos os locais onde o som das ondas conseguisse ser ouvidos.
    — Isso não foi um verdadeiro afogamento, disse aos cavaleiros.
    Aquele que não morre de verdade não pode esperar erguer-se da morte.
    Porque viestes, se não foi para demonstrar a vossa fé?
    — O filho do Lorde Gorold veio à sua procura com notícias.
    O Sparr indicou o jovem do manto vermelho.
    O rapaz parecia não ter mais de dezesseis anos.
    — Sim, e qual deles é você? — Quis saber Aeron.
    — Gormond. Gormond Goodbrother, se agradar ao senhor.
    — É ao Deus Afogado que devemos agradar. Foi afogado, Gormond
    Goodbrother?
    — No dia do meu nome, Cabelo Molhado. O meu pai me mandou te
    procurar e leva-lo até ele.
    Precisa te ver.
    — Aqui estou eu. Que Lorde Gorold venha e banqueteie os olhos. —
    Aeron pegou num odre de couro que Rus lhe entregou, acabado de encher
    com água do mar. O sacerdote tirou a rolha e bebeu um gole.
    — Devo levá-lo até a fortaleza — insistiu o jovem Gormond, de
    cima do seu cavalo.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Ter Jun 19, 2012 2:05 pm

    Ele tem medo de desmontar, não vá ficar com as botas molhadas.
    — Tenho o trabalho do deus a fazer. — Aeron Greyjoy era um
    profeta. Não admitia que pequenos senhores lhe ordenassem o que fazer
    como se fosse algum servo.
    — Gorold recebeu uma ave — disse o Sparr.
    — Uma ave de meistre, vinda de Pyke — confirmou Gormond.
    Asas escuras, palavras escuras.
    — Os corvos voam sobre sal e pedra. Se há novas que me dizem
    respeito, dai-me já.
    — Novas como aquelas que trazemos são apenas para os vossos
    ouvidos, Cabelo Molhado — disse o Sparr. — Estes não são assuntos de que
    eu queira falar aqui, perante estes outros.
    — Estes outros são os meus afogados, servos do deus, tal como eu.
    Não tenho segredos para eles, nem para o nosso deus, junto a cujo mar me
    encontro.
    Os cavaleiros trocaram um olhar.
    — Diga-o — disse o Sparr, e o jovem do manto vermelho reuniu
    coragem.
    — O rei está morto — disse com toda a simplicidade. Quatro
    pequenas palavras, e, no entanto o próprio mar tremeu quando as
    pronunciou.
    Havia quatro reis em Westeros, mas Aeron não precisou perguntar
    sobre qual ele falava. Balon Greyjoy, e nenhum outro, governavam as Ilhas
    de Ferro.
    O rei está morto. Como pode ser? Aeron vira o irmão mais velho
    ainda não havia uma volta de lua, quando regressara às Ilhas de Ferro depois
    de assolar a Costa Pedregosa. O cabelo grisalho de Balon tornara-se quase
    branco enquanto o sacerdote andara por fora, e a inclinação dos seus ombros
    tornara-se mais pronunciada do que quando os dracares partiram. Mas apesar
    disso, o rei não parecera enfermo. Aeron Greyjoy construíra a sua vida sobre
    dois poderosos pilares. Aquelas quatro pequenas palavras tinham derrubado
    um deles.
    Só me resta o Deus Afogado. Que me torne tão forte e incansável
    como o mar.
    — Conte-me o modo como o meu irmão morreu.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Ter Jun 19, 2012 2:05 pm

    — Sua Graça estava atravessando uma ponte em Pyke quando caiu e
    foi atirado contra as rochas, em baixo.
    O castelo Greyjoy erguia-se sobre um promontório quebrado, e as
    suas torres e fortalezas tinham sido construídas no topo de maciças colunas
    de pedra que se projetavam do mar. Pontes uniam Pyke; pontes em arco de
    pedra esculpida e pontes oscilantes de corda de cânhamo e tábuas de
    madeira.
    — A tempestade soprava quando ele caiu? — Perguntou-lhes Aeron.
    — Sim — disse o jovem. — Soprava.
    — O Deus da Tempestade derrubou-o — anunciou o sacerdote. —
    Havia milhares de anos que o mar e o céu estavam em guerra.
    Do mar tinham vindo os homens de ferro, e os peixes que os
    sustentavam mesmo no auge do inverno, mas as tempestades traziam apenas
    angústia e desgosto.
    — O meu irmão Balon nos tornou de novo grandes, o que atraiu a ira
    do Deus da Tempestade. Agora se banqueteie nos salões aquáticos do Deus
    Afogado, com sereias a obedecer ao seu mínimo desejo. Caberá a nós, que
    ficamos para trás neste vale seco e sombrio, terminarmos a sua grande obra.
    Voltou a enfiar a rolha no odre.
    — Falarei com o senhor teu pai. A que distância estamos de
    Cornartelo?
    — Seis léguas. Pode cavalgar comigo.
    — Um cavalga mais depressa do que dois. Dê-me o seu cavalo, e o
    Deus Afogado te abençoará.
    — Leve o meu cavalo, Cabelo Molhado. — Ofereceu Steffarion
    Sparr.
    — Não. A montada dele é mais forte. O seu cavalo, rapaz.
    O jovem hesitou por meio segundo, após o que desmontou e
    entregou as rédeas ao Cabelo Molhado. Aeron enfiou um pé descalço e
    negro num estribo e içou-se para a sela. Não gostava de cavalos, eram
    criaturas das terras verdes e ajudavam a tornar os homens fracos. Mas a
    necessidade obrigava à cavalgada.
    Asas escuras, palavras escuras. Preparava-se uma tempestade,
    ouvia-o nas ondas, e as tempestades nada traziam que não fosse maligno.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Ter Jun 19, 2012 2:06 pm

    — Encontrem-me em Seixeira, sob a torre do Lorde Merlyn — disse
    aos seus afogados, enquanto virava a cabeça do cavalo.
    O caminho era duro, por montes, florestas e desfiladeiros
    pedregosos, ao longo de uma trilha estreita que parecia com frequência
    desaparecer sob os cascos dos cavalos. A Grande Wyk era a maior das Ilhas
    de Ferro, tão vasta que alguns dos seus senhores tinham propriedades que
    não confinavam com o mar sagrado. Gorold Goodbrother era um desses
    homens. A sua fortaleza ficava nos Montes Pedra-dura, o mais longe dos
    domínios do Deus Afogado que se podia estar nas ilhas. O povo de Gorold
    trabalhava nas minas de Gorold, na escuridão rochosa por baixo da terra.
    Alguns viviam e morriam sem pôr os olhos em água salgada.
    Pouco admira que uma tal gente seja complicada e estranha.
    Enquanto Aeron cavalgava, os seus pensamentos viraram-se para os
    irmãos. Nove filhos tinham nascido das virilhas de Quellon Greyjoy, o
    Senhor das Ilhas de Ferro. Harlon, Quenton e Donel tinham nascido da
    primeira mulher do Lorde Quellon, uma mulher de Pedrarbor. Balon, Euron,
    Victarion, Urrigon e Aeron eram os filhos da segunda mulher, uma Sunderly
    de Salésia. Para terceira esposa, Quellon escolhera uma garota das terras
    verdes, que lhe deu um rapaz enfermiço e idiota chamado Robin, o irmão
    que era melhor esquecer. O sacerdote não tinha memória de Quenton ou
    Donel, que tinham morrido na infância. Recordava Harlon apenas
    vagamente, sentado de rosto cinzento e imóvel numa sala de torre sem
    janelas, e falando em sussurros que se iam tornando mais tênues a cada dia
    que passava, à medida que a escamagris ia lhe transformando a língua e os
    lábios em pedra.
    Um dia banquetearemos juntos com peixe, nos salões aquáticos do
    Deus Afogado, nós os quatro, e Urri também.
    Nove filhos tinham nascido das virilhas de Quellon Greyjoy, mas só
    quatro tinham sobrevivido até a idade adulta. Era assim este mundo frio, no
    qual os homens pescavam no mar, escavavam o solo e morriam, enquanto as
    mulheres davam à luz crianças de vida breve em camas de sangue e dor.
    Aeron foi à última e a menor das quatro lulas gigantes, e Balon o
    mais velho e o mais ousado, um rapaz feroz e destemido que vivia apenas
    para devolver aos homens de ferro a sua antiga glória. Aos dez anos, escalara
    os Penhascos de Pederneira até a torre assombrada do Senhor Cego. Aos
    treze conseguia governar os remos de um dracar e dançar a dança dos dedos
    tão bem como qualquer homem das ilhas. Aos quinze velejara com Dagmer
    Boca Fendida até aos Degraus, e passara um verão na ceifa. Matara aí o
    primeiro homem, e tomara as duas primeiras esposas de sal. Aos dezessete,

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Ter Jun 19, 2012 2:06 pm

    Balon capitaneava o seu primeiro navio. Era tudo aquilo que um irmão mais
    velho devia ser, embora nunca tivesse mostrado a Aeron nada a não ser
    desprezo.
    Eu era fraco e cheio de pecado, e desprezo era mais do que eu
    merecia. Era melhor ser desprezado por Balon, o Bravo, do que ser amado
    por Euron Olho de Corvo.
    E se a idade e o desgosto tinham tornado Balon amargo com os anos,
    tinham também o deixado mais determinado do que qualquer outro homem
    vivo.
    Ele nasceu como filho de um lorde, e morreu como um rei,
    assassinado por um deus ciumento, pensou Aeron, e agora a tempestade
    está chegando, uma tempestade tal como estas ilhas nunca conheceram.
    Já havia escurecido há muito quando o sacerdote vislumbrou as
    pontiagudas ameias de ferro de Cornartelo, que tentavam agarrar o crescente
    da lua. A fortaleza de Gorold tinha um aspecto desajeitado e pesado, e foi
    feita com grandes pedras cortadas ao monte que se erguia por detrás. Sob as
    muralhas, as entradas de grutas e antigas minas abriam-se como bocas
    negras e desdentadas. Os portões de ferro de Cornartelo tinham sido
    fechados e trancados para a noite. Aeron bateu neles com uma pedra até que
    o barulho acordou um guarda.
    O jovem que o deixou entrar era a imagem de Gormond, cujo cavalo
    tomara.
    — Quem é você? — Quis saber Aeron.
    — Gran. O meu pai o espera lá dentro.
    O salão era escuro e amplo, cheio de sombras. Uma das filhas de
    Gorold ofereceu ao sacerdote um corno de cerveja. Outra espevitou um fogo
    sombrio que gerava mais fumaça do que calor. O próprio Gorold
    Goodbrother estava a conversar em voz baixa com um homem magro que
    envergava uma veste de bom tecido cinzento e usava em volta do pescoço
    uma corrente de muitos metais que o identificava como um meistre da
    Cidadela.
    — Onde está Gormond? — Perguntou Gorold quando viu Aeron.
    — Regressa a pé. Mande embora as mulheres, senhor. E o meistre
    também. Não gostava de meistres. Os seus corvos eram criaturas do Deus da
    Tempestade, e desde Urri que não confiava nas suas curas. Nenhum homem
    verdadeiro escolheria uma vida de escravatura, nem forjaria uma corrente de
    servidão para usar em volta da garganta.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Ter Jun 19, 2012 2:06 pm

    — Gysella, Gwin, deixe-nos — disse Goodbrother secamente. —
    Você também, Gran. O Meistre Murenmure ficará.
    — Ele sairá.
    — Este salão é meu, Cabelo Molhado. Não cabe a você dizer quem
    deve ir e quem deve ficar. O meistre fica.
    O homem vive longe demais do mar, pensou Aeron.
    — Então vou eu embora — disse a Goodbrother. Esteiras secas
    estalejaram sob os seus pés descalços e negros quando virou e se dirigiu à
    porta. Parecia que tinha cavalgado muito tempo para nada.
    Aeron estava quase junto da porta quando o meistre pigarreou e
    disse:
    — Euron Olho de Corvo ocupa a Cadeira de Pedra do Mar.
    O Cabelo Molhado virou-se. O salão arrefecera de um momento para
    o outro.
    O Olho de Corvo está a meio mundo de distância. Balon mandou-o
    embora há dois anos, e jurou que se regressasse isso lhe custaria a vida.
    — Conte-me — disse, com voz rouca.
    — Entrou em Fidalporto no dia seguinte ao da morte do rei, e
    reclamou o castelo e a coroa na condição de irmão mais velho de Balon —
    disse Gorold Goodbrother. — Agora está enviando corvos, convocando a
    Pyke os capitães e os reis de todas as ilhas, para dobrarem os joelhos e lhe
    prestarem homenagem como o seu rei.
    — Não. — Aeron Cabelo Molhado não pesou as palavras. — Só um
    homem devoto pode sentar-se na Cadeira da Pedra do Mar. O Olho de Corvo
    não adora nada a não ser o seu próprio orgulho.
    — Esteve em Pyke não há muito tempo e viu o rei — disse
    Goodbrother.
    — Balon disse-lhe alguma coisa acerca da sucessão?
    Sim. Tinham conversado na Torre do Mar, enquanto o vento uivava
    do lado de fora das janelas e as ondas se esmagavam sem descanso em
    baixo. Balon abanara a cabeça em desespero, quando ouvira o que Aeron
    tinha a lhe dizer sobre o último filho que lhe restava.
    — Os lobos fizeram dele um fraco, tal como eu temia — dissera o
    rei. — Rezo ao deus para que o tenham matado, para que não se possa
    atravessar no caminho de Asha. — Era essa a cegueira de Balon; se via na

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Ter Jun 19, 2012 2:07 pm

    filha selvagem e obstinada, e acreditava que ela podia suceder-lhe. Nisso
    enganava-se e Aeron tentara dizer-lhe.
    — Nenhuma mulher governará algum dia os homens de ferro, nem
    mesmo uma mulher como Asha — insistira, mas Balon sabia ficar surdo
    para aquilo que não desejava ouvir.
    Antes que o sacerdote tivesse tempo de responder a Gorold
    Goodbrother, a boca do meistre abriu-se uma vez mais.
    — Pelo direito, a Cadeira da Pedra do Mar pertence à Theon, ou a
    Asha, se o príncipe estiver morto. A lei é essa.
    — Lei da terra verde — disse Aeron com desprezo. — Que nos
    interessa isso? Somos homens de ferro, os filhos do mar, os escolhidos do
    Deus Afogado. Nenhuma mulher pode nos governar, tal como nenhum
    homem sem deus pode fazer.
    — E Victarion? — Perguntou Gorold Goodbrother. — Ele tem a
    Frota de Ferro. Irá Victarion avançar com uma pretensão, Cabelo Molhado?
    — Euron é o irmão mais velho… — Começou o meistre.
    Aeron silenciou-o com um olhar. Fosse em pequenas vilas de
    pescadores, fosse em grandes fortalezas de pedra, um olhar assim do Cabelo
    Molhado fazia com que donzelas perdessem a força nas pernas e punha
    crianças a correr aos gritos para junto das mães, e era mais do que o
    suficiente para dominar o servo com a corrente ao pescoço.
    — Euron é mais velho disse o sacerdote. Mas Victarion é mais
    devoto.
    — Chegaria a haver guerra entre eles? — Perguntou o meistre.
    — Os homens de ferro não devem derramar o sangue de homens de
    ferro.
    — Um sentimento piedoso, Cabelo Molhado. — Disse Goodbrother.
    — Mas não é algo que vosso irmão partilhe. Mandou afogar Sawane Botley
    por dizer que a Cadeira de Pedra do Mar pertencia por direito a Theon.
    — Se ele foi afogado, nenhum sangue foi derramado — disse Aeron.
    O meistre e o lorde trocaram um olhar.
    — Tenho de mandar uma mensagem a Pyke, e em breve — disse
    Gorold Goodbrother.
    — Cabelo Molhado, gostaria de obter o seu conselho.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Ter Jun 19, 2012 2:07 pm

    O que será homenagem ou desafio? — Aeron puxou pela barba e
    refletiu.
    Vi a tempestade, e o seu nome é Euron Olho de Corvo.
    — Por agora, envie só o silêncio — disse ao lorde. Tenho de rezar
    sobre isto.
    — Reze o tanto que quiser — disse o meistre. Isso não muda a lei.
    Theon é o legítimo herdeiro e Asha vem depois.
    — Silêncio! — Rugiu Aeron. — Foi demasiado o tempo passado
    pelos homens de ferro ouvindo os meistres de correntes ao pescoço
    tagarelando sobre as terras verdes e as suas leis. É tempo de voltarmos a
    escutar o mar. É tempo de escutarmos a voz de deus. — A sua própria voz
    ressoou no salão fumacento, tão cheia de poder que nem Gorold
    Goodbrother nem o seu meistre se atreveram a responder.
    O Deus Afogado está comigo, pensou Aeron. Ele me mostrou o
    caminho.
    Goodbrother ofereceu-lhe o conforto do castelo para a noite, mas o
    sacerdote declinou. Raramente dormia sob o teto de um castelo, e nunca o
    fazia tão longe do mar.
    — O conforto, conheço-o nos salões aquáticos do Deus Afogado,
    sob as ondas. Nascemos para sofrer, para que o nosso sofrimento nos faça
    fortes. Não preciso mais do que um cavalo repousado para me levar até
    Seixeira.
    Isso, Goodbrother sentiu-se feliz por fornecer. Enviou também o
    filho Greydon, a fim de mostrar ao sacerdote o caminho mais curto através
    dos montes, até ao mar. A aurora ainda tardava uma hora quando partiram,
    mas as montadas eram resistentes e de patas seguras, e fizeram um bom
    tempo, apesar da escuridão. Aeron fechou os olhos e proferiu uma prece
    silenciosa, e passado algum tempo pôs-se a cochilar na sela.
    O som chegou tênue, o grito de uma dobradiça enferrujada.
    — Urri! — Murmurou e acordou, temeroso.
    Não há aqui dobradiças, não há porta, não há Urri.
    Um machado voador levara metade da mão de Urri quando ele tinha
    catorze anos e brincava à dança dos dedos, enquanto o pai e os irmãos mais
    velhos estavam longe, na guerra. A terceira esposa do Lorde Quellon fora
    uma Piper do Castelo de Donzela-rosa, uma garota com grandes seios fofos e
    olhos castanhos de corça. Em vez de curar a mão de Urri pelo Costume

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Ter Jun 19, 2012 2:07 pm

    Antigo, com fogo e água do mar, entregara-o ao seu meistre das terras
    verdes, que jurara que conseguiria voltar a coser os dedos em falta. Fizera-o,
    e depois usara poções, cataplasmas e ervas, mas a mão gangrenara e Urri
    apanhara uma febre. Quando o meistre lhe serrara o braço, era tarde demais.
    Lorde Quellon nunca regressara da sua última viagem; o Deus
    Afogado, na sua bondade, concedera-lhe uma morte no mar. Fora Lorde
    Balon quem voltara, com os irmãos Euron e Victarion. Quando Balon ouvira
    contar o que acontecera a Urri, removera três dos dedos do meistre com um
    cutelo de cozinheiro e mandara-lhe a mulher Piper do pai para que lhos
    cosesse. Cataplasmas e poções funcionaram tão bem para o meistre como
    para Urrigon. O homem morrera em delírio, e a terceira esposa do Lorde
    Quellon seguira-o pouco depois, quando a parteira removera uma filha
    natimorta do seu ventre. Aeron sentira-se feliz. Tinha sido o seu machado
    que cortara a mão de Urri, enquanto dançavam juntos a dança dos dedos,
    como os amigos e irmãos costumavam fazer.
    Ainda o envergonhava recordar os anos que se seguiram à morte de
    Urri. Aos dezesseis intitulava-se homem, mas na verdade fora um saco de
    vinho com pernas. Cantava, dançava (mas não a dança dos dedos, essa nunca
    mais), gracejava, falava sem parar e fazia brincadeiras. Tocava gaita, fazia
    malabarismo, montava a cavalo e era capaz de beber mais do que todos os
    Wynch e os Botley e também metade dos Harlaw. O Deus Afogado concede
    a todos os homens um dom, até a ele; nenhum homem era capaz de mijar por
    mais tempo ou até mais longe do que Aeron Greyjoy, coisa que ele provava
    em todos os banquetes. Uma vez, apostara o seu novo dracar contra uma
    manada de cabras que seria capaz de apagar uma lareira sem recorrer a nada
    mais do que a pica. Aeron banqueteara-se com cabra durante um ano, e
    chamara o navio de Tempestade Dourada, embora Balon tivesse ameaçado
    enforca-lo no mastro do navio quando lhe contaram que tipo de esporão o
    irmão tencionava montar na sua proa.
    No fim das contas, o Tempestade Dourada fora ao fundo ao largo da
    Ilha Bela durante a primeira rebelião de Balon, cortado ao meio por uma
    enorme galé de guerra chamada Fúria, quando Stannis Baratheon apanhara
    Victarion na armadilha que montara e esmagara a Frota de Ferro. Mas o deus
    ainda não se cansara de Aeron, e levara-o para terra. Um grupo de
    pescadores o tomara cativo e o levara agrilhoado para Lanisporto, e ele
    passara o resto da guerra nas entranhas de Rochedo Casterly, provando que
    as lulas gigantes eram capazes de mijar durante mais tempo e até mais longe
    do que os leões, os javalis ou as galinhas.

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    Re: O Festim dos Corvos

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