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    O Festim dos Corvos

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    Data de inscrição : 09/04/2012

    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Ter Jun 19, 2012 2:07 pm

    Esse homem está morto. Aeron afogara-se e renascera do mar, como
    o profeta do próprio deus. Não havia mortal que fosse capaz de o assustar, e
    o mesmo podia-se dizer da escuridão… e das memórias, os ossos da alma.
    O som de uma porta abrindo, o grito de uma dobradiça de ferro
    enferrujada.
    Euron regressou. Não importava. Ele era o sacerdote Cabelo
    Molhado, o amado do deus.
    — Chegará à guerra? — Perguntou Greydon Goodbrother quando o
    sol iluminou os montes. — Uma guerra de irmão contra irmão?
    — Se o Deus Afogado o desejar. Nenhum homem sem deus pode
    sentar-se na Cadeira da Pedra do Mar.
    O Olho de Corvo lutará, isso é certo.
    Nenhuma mulher seria capaz de derrotá-lo, nem mesmo Asha; as
    mulheres eram feitas para travar as suas batalhas na cama de partos. E
    Theon, se ainda vivesse, era igualmente impotente, um rapaz de amuos e
    sorrisos.
    Em Winterfell demonstrara o seu valor, aquele que tinha, mas o
    Olho de Corvo não era nenhum rapaz aleijado. Os conveses do navio de
    Euron estavam pintados de vermelho, para melhor esconder o sangue que os
    ensopava.
    Victarion. O rei tem de ser Victarion, senão a tempestade matará a
    todos.
    Greydon o deixou depois de o sol nascer, para ir levar a notícia da
    morte de Balon aos primos, nas suas torres em Covabaixa, no Forte do
    Espigão do Corvo e no Lago do Cadáver. Aeron prosseguiu sozinho, subindo
    montes e descendo vales ao longo de um trilho pedregoso que se ia tornando
    mais largo e mais nítido à medida que se ia aproximando do mar. Em todas
    as aldeias fazia uma pausa para pregar, e o mesmo fazia nos pátios dos
    pequenos senhores.
    — Nascemos do mar, e ao mar voltaremos — dizia-lhes. A sua voz
    era profunda como o oceano, e trovejava como as ondas. — O Deus da
    Tempestade, na sua ira, arrancou Balon ao seu castelo e derrubou-o, e ele
    agora se banqueteia sob as ondas nos salões aquáticos do Deus Afogado.
    Ergueu as mãos.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Ter Jun 19, 2012 2:07 pm

    — Balon está morto! O rei está morto! Mas um rei voltará! Pois o
    que está morto não pode morrer, mas volta a se erguer, mais duro e mais
    forte! Um rei se erguerá!
    Alguns daqueles que o escutavam largavam as enxadas e as picaretas
    para segui-lo, de modo que quando ouviu o bater das ondas uma dúzia de
    homens caminhava atrás do seu cavalo, tocados pelo deus e desejosos de se
    afogar.
    Seixeira era o lar de vários milhares de pescadores, cujas cabanas se
    aglomeravam em volta da base de uma casa torre quadrada com um torreão
    em cada canto. Quatro dezenas dos afogados de Aeron o esperavam ali,
    acampados ao longo de uma praia de areia cinzenta em tendas de peles de
    foca e abrigos construídos com madeira trazida pelo mar. As suas mãos
    tinham sido endurecidas pela maresia, marcadas pelas redes e linhas, tinham
    ganhado calos devido a remos, picaretas e machados, mas agora essas mãos
    empunhavam maças duras como ferro, feitas de madeira trazida pelo mar,
    pois o deus armara-os com o seu arsenal submarino.
    Tinham construído um abrigo para o sacerdote logo acima da linha
    das marés. Enfiou-se lá dentro de bom grado, depois de afogar os seus mais
    recentes seguidores.
    Meu deus, orou, fale-me com o estrondo das ondas, e me diz o que
    fazer. Os capitães e os reis esperam a tua palavra. Quem será nosso rei no
    lugar de Balon? Canta-me na língua do leviatã, para que eu possa saber o
    seu nome. Diz-me, oh Senhor sob as ondas, quem tem força para combater
    as tempestades em Pyke?
    Embora a cavalgada até Cornartelo tivesse o deixado fatigado,
    Aeron Cabelo Molhado não conseguiu ficar quieto no seu abrigo de madeira
    trazida pelo mar, com teto de algas negras. As nuvens chegaram para
    esconder a lua e as estrelas, e a escuridão caiu tão densa sobre o mar como
    sobre a sua alma.
    Balon favorecia Asha, a filha do seu corpo, mas uma mulher não
    pode governar os homens de ferro. Tem de ser Victarion.
    Nove filhos tinham nascido das virilhas de Quellon Greyjoy, e
    Victarion era o mais forte de todos, um autêntico touro, destemido e
    obediente.
    E é aí que se encontra o perigo. Um irmão mais novo deve
    obediência a um irmão mais velho, e Victarion não era homem que velejasse
    contra a tradição. Mas ele não tem qualquer simpatia por Euron, não a tem
    desde que a mulher morreu.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Ter Jun 19, 2012 2:08 pm

    Lá fora, sob o ressonar dos seus afogados e os lamentos do vento,
    ouviu o rebentar das ondas, o martelo do seu deus a chamar para a batalha.
    Aeron gatinhou para fora do seu pequeno abrigo, e penetrou no frio da noite.
    Pôs-se em pé, nu, pálido, descarnado e alto, e nu caminhou até o negro mar
    salgado. A água estava gelada, mas a carícia do seu deus não o fez vacilar.
    Uma onda esmagou-lhe contra o peito, o fazendo cambalear.
    A seguinte se quebrou por cima da sua cabeça. Sentiu o sabor do sal
    nos lábios e a presença do deus à sua volta, e os ouvidos ressoaram-se com a
    glória da sua canção.
    Nove filhos nasceram das virilhas de Quellon Greyjoy e eu fui o
    último, tão fraco e assustado como uma menina. Mas já não. Esse homem
    afogou-se, e o deus fez-me forte. O frio mar salgado rodeou-o, abraçou-o,
    avançou através da sua carne fraca de homem e tocou-lhe os ossos.
    Ossos, pensou. Os ossos da alma. Os ossos de Balon, e os de Urri. A
    verdade encontra-se nos nossos ossos, pois a carne decompõe-se e o osso
    resiste. E no monte de Nagga, os ossos do Palácio do Rei Cinzento…
    E descarnado, pálido e tremendo, Aeron Cabelo Molhado lutou por regressar
    a terra, mais sábio do que fora quando entrara no mar. Pois encontrara a
    resposta nos seus ossos, e o caminho que tinha em frente lhe era claro. A
    noite estava tão fria que o corpo pareceu fumegar quando regressou em
    silêncio ao abrigo, mas havia uma fogueira ardendo em seu coração, e por
    uma vez o sono chegou facilmente, sem ser quebrado pelo grito de
    dobradiças de ferro.
    Quando acordou, o dia estava soalheiro e ventoso. Aeron quebrou o
    jejum com um caldo de mariscos e algas marinhas cozido numa fogueira de
    madeira trazida pelo mar. Tinha acabado de terminar quando Merlyn desceu
    da sua casa-torre com meia dúzia de guardas, à sua procura.
    — O rei está morto — disse-lhe o Cabelo Molhado.
    — Sim. Recebi uma ave. E agora outra. — Merlyn era um homem
    calvo, redondo e carnudo que chamava a si próprio “lorde” ao jeito das terras
    verdes, e se vestia de peles e veludos. — Um corvo me convoca a Pyke, e
    outro às Dez Torres. Vocês, as lulas gigantes, possuem muitos tentáculos,
    despedaçam um homem. Que diz, sacerdote? Para onde devo enviar os meus
    dracares?
    Aeron franziu as sobrancelhas.
    — Dez Torres, diz? Que lula gigante você chama aí? Dez Torres era
    a sede do Senhor de Harlaw.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Ter Jun 19, 2012 2:08 pm

    — A Princesa Asha. Virou as velas para casa. O Leitor envia corvos,
    convocando todos os seus amigos a Harlaw. Diz que Balon tencionava que
    fosse ela a ocupar a Cadeira da Pedra do Mar.
    — Será o Deus Afogado que decidirá quem deve ocupar a Cadeira
    da Pedra do Mar — disse o sacerdote. — Ajoelhai, para que possa lhe
    abençoar.
    O Lorde Merlyn caiu sobre os joelhos, e Aeron tirou a rolha ao odre
    e despejou-lhe um gole de água do mar na careca.
    — Senhor Deus que te afogaste por nós, permite que Meldred, teu
    criado, renasça do mar. Abençoe-o com o sal, abençoe-o com a pedra,
    abençoe-o com o aço.
    A água escorria pelas gordas bochechas de Merlyn e ensopava-lhe a
    barba e a capa de pele de raposa. — O que está morto não pode
    morrer — terminou Aeron. — Mas volta a se erguer, mais duro e
    mais forte.
    Mas quando Merlyn se ergueu, disse-lhe.
    — Fique e escute, para que possas espalhar a palavra de deus.
    A um metro da borda de água as ondas se arrebentavam em volta de
    um pedregulho redondo de granito. Foi aí que Aeron Cabelo Molhado subiu,
    para que todo o seu cardume pudesse vê-lo e ouvir as palavras que tinha a
    dizer.
    — Nascemos do mar, e ao mar regressaremos, começou como
    começara cem vezes antes. O Deus da Tempestade, na sua ira, arrancou
    Balon ao seu castelo e o derrubou, e ele agora banqueteia-se sob as ondas.
    Ergueu as mãos.
    — O rei de ferro está morto! Mas um rei voltará a surgir! Pois o que
    está morto não pode morrer, mas volta a erguer-se, mais duro e mais forte!
    — Um rei se erguerá! — Gritaram os afogados.
    — Se erguerá. Tem de se erguer. Mas quem?
    O Cabelo Molhado escutou por um momento, mas apenas as ondas
    lhe responderam.
    Quem será o nosso rei?
    Os afogados puseram-se a bater com as maças umas nas outras.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Ter Jun 19, 2012 2:08 pm

    — Cabelo Molhado! — Gritaram. — Cabelo Molhado Rei! Aeron
    Rei! Dê-nos o Cabelo Molhado!
    Aeron abanou a cabeça.
    — Se um pai tem dois filhos e dá a um deles um machado e ao outro
    uma rede, qual deles pretende que seja o guerreiro?
    — O machado é para o guerreiro — gritou Rus em resposta. — A
    rede para um pescador dos mares.
    — Sim — disse Aeron. — O deus levou-me até às profundezas sob
    as águas e afogou a coisa imprestável que eu era. Quando voltou a atirar-me
    para a terra, deu-me olhos para ver, orelhas para ouvir, e uma voz para
    espalhar a sua palavra, para que eu pudesse ser o seu profeta e ensinar a sua
    verdade àqueles que a esqueceram. Não fui feito para me sentar na Cadeira
    da Pedra do Mar… tal como Euron Olho de Corvo não o foi. Pois eu escutei
    o deus, que diz: Nenhum homem sem deus pode sentar-se na minha Cadeira
    da Pedra do Mar!
    O Merlyn cruzou os braços ao peito.
    — Então é Asha? Ou Victarion? Diga-nos, sacerdote!
    — O Deus Afogado os dirá, mas não aqui. — Aeron apontou para a
    gorda face branca de Merlyn. — Não olhe para mim, nem para as leis do
    homem, mas sim para o mar. Içai as velas e estendei os remos, senhor, e vá
    até Velha Wyk. Você, e todos os capitães e reis. Não vá para Pyke, baixar a
    cabeça perante o infiel, nem para Harlaw, ligar-se a mulheres intriguentas.
    Aponte a proa a Velha Wyk, onde se erguia o Palácio do Rei Cinzento. Em
    nome do Deus Afogado os convoco. Convoco a todos! Deixe os seus salões
    e cabanas, os seus castelos e as suas fortalezas, e regressem ao monte de
    Nagga para uma assembleia de homens livres!
    Merlyn olhou de boca aberta.
    — Uma assembleia de homens livres? Não há uma verdadeira
    assembleia há…
    —… demasiado tempo! Gritou Aeron numa angústia. Mas na
    alvorada dos dias, os homens de ferro escolhiam os seus próprios reis,
    promovendo os mais valorosos dentre eles. É tempo de regressarmos ao
    Costume Antigo, pois só isso nos devolverá a grandeza. Foi uma assembleia
    de homens livres que escolheu Urras Pé de Ferro para Rei Supremo, e lhe
    pôs uma coroa de madeira trazida pelo mar na cabeça. Sylas Nariz Chato,
    Harrag Hoare, a Velha Lula Gigante, foi a assembleia que os ergueu a todos.
    E desta assembleia emergirá um homem capaz de terminar o trabalho que o

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Ter Jun 19, 2012 2:08 pm

    Rei Balon iniciou de nos devolver a liberdade. Não vão para Pyke, nem para
    as Dez Torres de Harlaw, mas para a Velha Wyk, repito. Demandai o monte
    de Nagga e os ossos do Palácio do Rei Cinzento, pois nesse lugar sagrado,
    quando a lua se afogar e renascer, elegeremos um rei respeitável, um rei
    devoto.
    Voltou a erguer bem alto as mãos ossudas.
    — Escutem! Escutem as ondas! Escutem o deus! Ele está a nos falar
    e diz: Não teremos rei a menos que seja escolhido pela assembleia de
    homens livres!
    Ergueu-se um rugido em resposta e os afogados bateram as suas
    maças umas nas outras.
    — Uma assembleia de homens livres! — Gritaram. — Uma
    assembleia, uma assembleia. Não há rei sem ser pela assembleia!
    O clamor que fizeram foi tão forte que certamente Olho de Corvo
    ouviu os gritos em Pyke, bem como o maligno Deus da Tempestade no seu
    salão de nuvens.
    E Aeron Cabelo Molhado soube que agiu bem.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Ter Jun 19, 2012 2:09 pm

    O Capitão Dos Guardas 42



    As laranjas de sangue já estão mais que maduras. —
    Observou o príncipe numa voz cansada quando o capitão
    empurrou sua cadeira para a varanda.
    Depois disso não voltou a falar durante horas.
    Era verdade sobre as laranjas. Algumas tinham caído e estourado no
    mármore rosa pálido. O penetrante cheiro doce que exalavam enchia as
    narinas de Hotah a cada vez que inspirava. Sem dúvida, o príncipe podia
    cheirá-las também enquanto estava sentado sob as árvores na cadeira de
    rodas que o Meistre Caleotte tinha feito para ele, com as suas almofadas de
    penas de ganso e ruidosas rodas de ébano e ferro.
    Durante um longo tempo os únicos sons que se ouviram foram os
    das crianças chapinhando nas lagoas e fontes, e uma vez mais um suave plop
    quando outra laranja caiu na varanda e estourou-se. Então o capitão ouviu o
    fraco tamborilar de botas no mármore vindo do outro lado do palácio.
    Obara. Ele conhecia sua passada; passos longos, apressados, irados.
    Nos estábulos junto aos portões o seu cavalo estaria espumando e
    ensanguentado pelas suas esporas. Ela sempre montava garanhões, e foi
    ouvida vangloriando-se de que era capaz de domar qualquer cavalo em
    Dorne… e qualquer homem também. O capitão podia ouvir outros passos
    também, o rápido arrastar de pés do Meistre Caleotte que se apressava para
    acompanhar o ritmo da mulher.
    Obara Sand sempre caminhava muito rápido. Ela persegue algo que
    nunca poderá alcançar, disse uma vez o príncipe a sua filha ao alcance dos
    ouvidos do capitão.
    Quando ela surgiu sob o arco triplo, Areo Hotah estendeu o seu
    machado de cabo longo para o lado bloqueando seu caminho. A cabeça da
    arma estava presa a um cabo de um metro e oitenta, e ela não podia rodeá-lo.
    — Minha Senhora, pare. — Sua voz era um murmúrio pesado com o
    sotaque de Norvos. — O príncipe não quer ser incomodado.
    O rosto de Obara já era rígido antes que ele falasse, depois, ele
    tornou-se de pedra.
    — Está em meu caminho, Hotah. — Obara era a mais velha das
    Serpentes da Areia, uma mulher de ossos grandes de aproximadamente trinta
    anos, com os olhos juntos e o cabelo castanho de ratazana da prostituta de

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Ter Jun 19, 2012 2:09 pm

    Vilavelha que lhe deu à luz. Sob o manto de sedareia mosqueado de
    castanho-escuro e dourado suas roupas de montar eram de couro marrom e
    velho, desgastado e flexível. Eram as coisas mais suaves sobre ela. Em um
    quadril trazia um chicote enrolado, nas costas um escudo redondo de aço e
    cobre.
    Ela deixou a lança lá fora. Areo Hotah deu graças por isso. Apesar
    da sua força e rapidez, sabia que a mulher não era páreo para ele… mas ela
    não sabia, e o capitão não sentia nenhum desejo de ver o sangue dela sobre o
    mármore rosa pálido.
    O Meistre Caleotte mudou o peso de um pé para o outro.
    — Senhora Obara, eu tentei te dizer…
    — Ele sabe que o meu pai está morto? — Perguntou Obara ao
    capitão, sem prestar mais atenção ao meistre do que prestaria a uma mosca,
    se alguma mosca fosse tola o suficiente para zumbir sobre sua cabeça.
    — Sabe. — Disse o capitão. — Recebeu uma ave…
    A morte tinha chegado a Dorne em asas de corvo, escrita em letras
    pequenas e selada com uma gota de dura cera vermelha. Caleotte devia ter
    pressentido o que estava naquela carta, pois deu a Hotah para que a
    entregasse.
    O príncipe agradeceu, mas por muito tempo não quis quebrar o selo.
    Ficou sentado à tarde inteira com o pergaminho em seu colo, observando as
    brincadeiras das crianças. Observou-as até que o sol se pôs e o ar do fim da
    tarde esfriou o suficiente para levá-lo para dentro; então observou a luz das
    estrelas refletida na água. A lua já nascia quando mandou Hotah buscar uma
    vela para que pudesse ler sua carta debaixo das laranjeiras, na escuridão da
    noite.
    Obara tocou seu chicote.
    — Milhares de homens estão atravessando as areias a pé para subir o
    Caminho do Espinhaço e ajudar Ellaria a trazer o meu pai para casa. Os
    septos estão cheios até o ponto de estourarem e os sacerdotes vermelhos
    acenderam as fogueiras em seus templos. Nas casas de almofadas as
    mulheres copulam com qualquer homem que vá atrás delas, recusando
    pagamento. Em Lançassolar, no Braço Partido, ao longo do Sangueverde,
    nas montanhas, nas areias profundas, em todos os lugares, as mulheres
    arrancam os cabelos e os homens gritam de raiva. Ouve-se a mesma
    pergunta em todas as línguas: o que fará Doran? O que fará o seu irmão para
    vingar o nosso príncipe assassinado?

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Ter Jun 19, 2012 2:09 pm

    Ela aproximou-se do capitão. — E você diz que ele não quer ser
    incomodado!
    — Ele não quer ser incomodado — Voltou a dizer Areo Hotah.
    O capitão dos guardas conhecia o príncipe que guardava. Um dia, há
    muito tempo, um fedelho chegou de Norvos, um rapaz grande e de ombros
    largos com uma cabeleira escura. Esse cabelo era branco agora, e seu corpo
    ostentava as cicatrizes de muitas batalhas… mas conservava a força e
    mantinha o seu machado afiado como os sacerdotes barbudos haviam lhe
    ensinado. Ela não passará, disse a si mesmo, e em voz alta disse:
    — O príncipe está assistindo as crianças brincarem. Ele nunca deve
    ser incomodado quando está assistindo as crianças brincarem.
    — Hotah. — Disse Obara Sand. — Você vai sair do meu caminho,
    ou pegarei esse machado e…
    — Capitão. — Veio a ordem de trás dele. — Deixe-a passar. Eu
    falarei com ela. — A voz do príncipe estava rouca.
    Areo Hotah pôs o machado na vertical e deu um passo para o lado.
    Obara lançou-lhe um último e prolongado olhar e passou por ele a passos
    largos com o meistre correndo perto de seus calcanhares. Caleotte não tinha
    mais de um metro e meio de altura e era calvo como um ovo. O seu rosto era
    tão liso e gordo que era difícil calcular sua idade, mas ele estava aqui desde
    antes do capitão e serviu até mesmo a mãe do príncipe. Apesar da idade e
    amplitude da cintura, ele ainda era bastante ágil e esperto como poucos, mas
    também era dócil. Ele não é um oponente à altura de nenhuma das
    Serpentes da Areia, pensou o capitão.
    À sombra das laranjeiras, o príncipe ocupava sua cadeira com as
    pernas gotosas apoiadas à sua frente e pesadas olheiras sob os olhos…
    embora Hotah não soubesse dizer se aquilo que o mantinha sem dormir era o
    pesar ou a gota. Abaixo, nas fontes e lagoas, as crianças prosseguiam os seus
    jogos. As mais novas não tinham mais de cinco anos, as mais velhas nove e
    dez. Metade eram garotas e metade rapazes. Hotah as ouvia chapinhar e
    gritar umas com as outras em vozes altas e estridentes.
    — Não foi assim há tanto tempo que você era uma das crianças
    naquelas lagoas, Obara. — Disse o príncipe quando ela ajoelhou-se diante da
    sua cadeira de rodas.
    Ela fungou.
    — Foi há vinte anos, ou tão perto disso que não faz diferença. E não
    estava aqui nesse tempo. Sou a cria da prostituta, ou será que se esqueceu?

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Ter Jun 19, 2012 2:09 pm

    — Quando ele não respondeu, ela levantou-se e colocou as mãos nos
    quadris. — Meu pai foi assassinado.
    — Foi morto em combate singular durante um julgamento por
    batalha. — Disse o Príncipe Doran. — Pela lei, isso não é assassinato.
    — Ele era seu irmão.
    — Ele era.
    — O que pretende fazer a respeito de sua morte?
    O príncipe virou laboriosamente a cadeira para encará-la. Embora
    não tivesse mais de cinquenta e dois anos, Doran Martell parecia muito mais
    velho. Seu corpo era mole e disforme sob suas roupas de linho, e era difícil
    olhar para suas pernas. A gota inchou e avermelhou suas articulações de
    forma grotesca; o joelho esquerdo era uma maçã, o direito um melão, e os
    dedos dos pés transformaram-se em uvas vermelhas escuras, tão maduras
    que parecia que bastaria um toque para estourarem. Até o peso de uma
    colcha conseguia fazê-lo estremecer, embora suportasse a dor sem queixas.
    O silêncio é amigo de um príncipe, o capitão ouviu-o dizer à filha uma vez.
    As palavras são como flechas, Arianne. Depois de disparadas não podem
    ser chamadas de volta.
    — Escrevi ao Lorde Tywin…
    — Escreveu? Se você fosse metade do homem que o meu pai era…
    — Eu não sou o seu pai.
    — Eu sei disso. — A voz de Obara estava carregada de desprezo.
    — Você quer que eu parta para a guerra.
    — Não espero tal coisa. Você nem precisa sair de sua cadeira.
    Deixe-me vingar meu pai. Você possui uma tropa no Passo do Príncipe. O
    Lorde Yronwood tem outra no Caminho do Espinhaço. Entregue-me uma
    delas e outra a Nym. Deixe que ela percorra a Estrada do Rei enquanto eu
    tiro os senhores da Marca dos seus castelos e dou a volta para marchar sobre
    Vilavelha.
    — E como você espera controlar Vilavelha?
    — Bastará saqueá-la. A riqueza da Alta torre…
    — O que deseja é ouro?
    — O que desejo é sangue.
    — Lorde Tywin nos entregará a cabeça da Montanha.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Ter Jun 19, 2012 2:10 pm

    — E quem nos entregará a cabeça de Lorde Tywin? A Montanha
    sempre foi o seu animal de estimação.
    O príncipe fez um gesto na direção das lagoas.
    — Obara, olhe para as crianças, se te agradar.
    — Não me agrada. Obteria mais prazer em enfiar minha lança na
    barriga do Lorde Tywin. Vou fazê-lo cantar “As Chuvas de Castamere”
    enquanto lhe tiro as tripas e procuro por ouro.
    — Olha. — Repetiu o príncipe. — Ordeno-te.
    Algumas das crianças mais velhas jaziam de barriga para baixo no
    mármore liso e rosado, bronzeando-se ao sol. Outras nadavam no mar mais
    adiante. Três estavam construindo um castelo de areia com um grande
    espigão que se assemelhava à Torre da Lança do Palácio Antigo. Vinte ou
    mais se reuniram na lagoa grande para ver as batalhas em que as crianças
    menores lutavam montadas nos ombros das maiores, tentando empurrar
    umas às outras na água. Sempre que um par caía, o chapinhar era seguido
    por uma revoada de gargalhadas. Eles assistiram a uma menina morena
    como uma noz puxar um rapaz muito louro dos ombros de seu irmão e cair
    de cabeça na lagoa.
    — O seu pai jogou esse mesmo jogo uma vez, tal como eu fiz antes
    dele. — Disse o príncipe. — Tínhamos dez anos de diferença, portanto eu já
    tinha deixado as lagoas quando ele era velho suficiente para jogar, mas
    costumava observá-lo quando vinha visitar nossa mãe. Ele era tão feroz,
    mesmo quando rapaz… Rápido como uma cobra d’água. Muitas vezes o vi
    derrubar rapazes muito maiores do que ele. Lembrou-me disso no dia em que
    partiu para Porto Real. Jurou que faria isso mais uma vez, caso contrário
    nunca o teria deixado ir.
    — Deixado ir? — Obara soltou uma gargalhada. — Como se você
    pudesse impedi-lo. A Víbora Vermelha de Dorne ia onde bem entendia.
    — Ele ia. Eu gostaria de ter alguma palavra de conforto para…
    — Não vim visitá-lo em busca de conforto. — A voz dela estava
    cheia de escárnio. — No dia em que o meu pai veio me reclamar como filha,
    a minha mãe não quis que eu partisse. “Ela é uma menina”, ela disse, “e eu
    não acho que ela seja sua. Tive outros mil homens.” Ele jogou sua lança aos
    meus pés e deu com as costas da mão na cara da minha mãe, a fazendo
    chorar. “Menina ou rapaz, nós travamos as nossas batalhas”, ele disse, “mas
    os deuses nos deixam escolher nossas armas”. Ele apontou para a lança, e
    depois para as lágrimas da minha mãe, e eu peguei a lança. “Eu te disse que
    ela era minha”, disse o meu pai, e me levou com ele. Minha mãe bebeu até a

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Ter Jun 19, 2012 2:10 pm

    morte dentro de um ano. Dizem que ela estava chorando quando morreu. —
    Obara aproximou-se da cadeira do príncipe. — Deixe-me usar a lança; não
    lhe peço mais nada.
    — É muito o que me pede, Obara. Pensarei sobre o assunto.
    — Você já pensou demais.
    — Talvez tenha razão. Mandarei uma mensagem para Lançassolar.
    — Desde que a mensagem seja a guerra. — Obara girou sobre os
    calcanhares e caminhou para fora de modo tão irritado como quando chegou,
    dirigindo-se aos estábulos em busca de um cavalo descansado e outro galope
    impetuoso estrada fora.
    O Meistre Caleotte deixou-se ficar para trás.
    — Meu príncipe? — Perguntou o homenzinho redondo. — Não te
    doem as pernas?
    O príncipe sorriu levemente.
    — O sol é quente?
    — Devo buscar algo para a dor?
    — Não. Preciso de minha cabeça limpa.
    O meistre hesitou.
    — Meu príncipe, será… será prudente permitir que a Senhora Obara
    retorne a Lançassolar? Ela irá certamente inflamar o povo. Eles também
    amavam muito seu irmão.
    — Assim como todos nós. — Ele comprimiu as têmporas com os
    dedos. — Não. Você tem razão. Tenho que voltar a Lançassolar também.
    O homenzinho redondo hesitou.
    — Será isso sensato?
    — Não é sensato, mas é necessário. Melhor enviar um mensageiro a
    Ricasso e lhe ordenar que abra os meus aposentos na Torre do Sol. Informe
    minha filha Arianne de que estarei lá amanhã.
    A minha pequena princesa. O capitão sentia amargamente a sua
    falta.
    — Você será visto. — Advertiu o meistre.
    O capitão compreendeu. Dois anos antes, quando trocaram
    Lançassolar pela paz e isolamento dos Jardins de Água, a gota do Príncipe

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Ter Jun 19, 2012 2:10 pm

    Doran não estava nem de perto tão ruim. Naqueles dias ele ainda caminhava,
    embora lentamente, apoiando-se numa bengala e fazendo caretas a cada
    passo. O príncipe não desejava que os seus inimigos soubessem como ele
    tinha se tornado fraco, e o Palácio Antigo e a sua cidade sombria estavam
    cheios de olhos. Olhos, pensou o capitão, e degraus que ele não podia subir.
    Ele precisaria voar para chegar ao topo da Torre do Sol.
    — Eu devo ser visto. Alguém precisa despejar óleo na água. Dorne
    tem de ser lembrada de que ainda tem um príncipe. — Ele sorriu com ar
    triste. — Por mais velho e gotoso que ele seja.
    — Se regressar a Lançassolar, terá de conceder audiência à Princesa
    Myrcella. — Disse Caleotte. — O seu cavaleiro branco estará com ela… e
    sabe que ele envia cartas à rainha.
    — Suponho que sim.
    O cavaleiro branco. O capitão franziu o cenho. Sor Arys tinha
    chegado a Dorne para servir a sua princesa, como Areo Hotah um dia
    também chegou com a sua. Mesmo seus nomes soavam estranhamente
    parecidos: Areo e Arys. Mas as semelhanças terminavam aí. O capitão tinha
    deixado Norvos e os seus sacerdotes barbudos, mas Sor Arys Oakheart ainda
    servia o Trono de Ferro. Hotah sentia uma certa tristeza sempre que via o
    homem com o longo manto branco como a neve nas vezes que o príncipe o
    enviou a Lançassolar. Um dia, ele pressentia, os dois lutariam; nesse dia
    Oakheart morreria, com o machado de cabo longo do capitão rachando seu
    crânio. Ele deslizou sua mão ao longo do liso cabo de freixo do machado e
    se perguntou se esse dia estava se aproximando.
    — A tarde quase já chegou ao fim. — O príncipe estava dizendo. —
    Esperaremos pela manhã. Assegure-se de que a minha liteira esteja pronta à
    primeira luz da aurora.
    — Às suas ordens. — Caleotte executou uma reverência. O capitão
    afastou-se para deixá-lo passar e ouviu seus passos desaparecerem.
    — Capitão? — A voz do príncipe era suave.
    Hotah deu um passo à frente, uma mão fechada sobre o machado. O
    cabo parecia tão suave quanto a pele de uma mulher contra a sua palma.
    Quando chegou à cadeira de rodas, bateu fortemente com a base no chão
    para anunciar sua presença, mas o príncipe só tinha olhos para as crianças.
    — Você tinha irmãos, capitão? — Perguntou. — Lá em Norvos,
    quando você era jovem? Irmãs?

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Ter Jun 19, 2012 2:10 pm

    — Ambos. — Disse Hotah. — Dois irmãos, três irmãs. Eu era o
    caçula. — O caçula e não desejado. Outra boca para alimentar, um rapaz
    grande que comia demais e cuja roupa deixava rapidamente de servir.
    Não era de se admirar que eles o tivessem vendido aos sacerdotes
    barbudos.
    — Eu era o mais velho. — Disse o príncipe. — E ainda assim, eu
    sou o último. Depois de Mors e Olyvar terem morrido em seus berços, perdi
    a esperança de chegar a ter irmãos. Tinha nove anos quando Elia chegou e eu
    era um escudeiro a serviço na Costa do Sal. Quando o corvo chegou com a
    notícia de que a minha mãe tinha entrado em trabalho de parto um mês antes
    do tempo, eu já tinha idade suficiente para saber que o bebê não
    sobreviveria. Mesmo quando o Lorde Gargalen me disse que eu tinha uma
    irmã, garanti-lhe que ela deveria morrer em breve. No entanto, ela
    sobreviveu, graças à misericórdia da Mãe. E um ano depois Oberyn chegou,
    berrando e chutando. Eu era um homem feito na época em que eles
    brincavam nestas lagoas. Mas aqui estou, e eles se foram.
    Areo Hotah não sabia o que responder a isso. Ele era apenas o
    capitão dos guardas, e ainda se mantinha um estranho àquela terra e ao seu
    deus de sete faces mesmo após todos esses anos. Servir. Obedecer. Proteger.
    Prestou aqueles votos aos dezesseis anos, no dia em que se casou com seu
    machado. Votos simples para homens simples, os sacerdotes barbudos
    tinham lhe dito. Não foi treinado para consolar príncipes de luto.
    Ele ainda tateava em busca de algumas palavras para dizer quando
    outra laranja caiu com um pesado som úmido, a não mais de meio metro de
    onde o príncipe estava sentado. Doran estremeceu ao som, como se de
    alguma forma ele o tivesse magoado.
    — Basta. — Ele suspirou. — É o suficiente. Vá embora, Areo.
    Deixe-me observar as crianças por mais algumas horas.
    Quando o sol se pôs, o ar esfriou e as crianças foram para dentro em
    busca do jantar, o príncipe ainda permaneceu sob as suas laranjeiras, olhando
    as lagoas paradas e o mar que se estendia mais além. Um criado trouxe-lhe
    uma tigela de azeitonas roxas, pão folha, queijo e pasta de grão-de-bico. Ele
    comeu um pouco e bebeu um cálice do doce e pesado vinho-forte que
    adorava. Quando este se esvaziou, voltou a enchê-lo. Ás vezes, nas horas
    profundas e negras da madrugada, o sono vinha encontrá-lo em sua cadeira.
    Só então o capitão o empurrava ao longo da galeria iluminada pelo luar,
    passando por uma fileira de pilares canelados e através de uma graciosa
    arcada até uma grande cama com frescos lençóis de linho num aposento com

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Ter Jun 19, 2012 2:10 pm

    vista para o mar. Doran gemeu quando o capitão o deslocou, mas os deuses
    mostraram-se bondosos e ele não acordou.
    A cela onde o capitão dormia era adjacente ao quarto do seu
    príncipe. Ele sentou-se na cama estreita, tirou a pedra de amolar e o oleado
    do seu nicho e começou a trabalhar. Mantém o machado afiado, tinham-lhe
    dito os sacerdotes barbudos no dia em que o marcaram. Ele sempre manteve.
    Enquanto amolava o machado Hotah pensou em Norvos, na cidade
    no alto da colina e na pequena perto do rio. Ainda recordava o som dos três
    sinos, o modo como os profundos repiques de Noom o faziam estremecer até
    os ossos, a voz forte e orgulhosa de Narrah, o riso doce e prateado de Nyel.
    O sabor do bolo de inverno voltou a encher sua boca, rico em gengibre,
    pinhões e pedacinhos de cereja, com nahsa para empurrá-lo para baixo, o
    leite de cabra fermentado servido numa caneca de ferro e temperado com
    mel. Viu sua mãe em seu vestido com gola de esquilo, aquele que não usava
    mais do que uma vez por ano, quando iam ver a dança dos ursos ao longo da
    Escadinha dos Pecadores. E ele sentiu o fedor de pelos queimados de quando
    o sacerdote barbudo lhe tocara o centro do peito com o ferrete. A dor foi tão
    violenta que ele pensou que o seu coração pararia, mas ainda assim Areo
    Hotah não se encolheu. Os pelos nunca mais voltaram a crescer sobre o
    machado.
    O capitão só pousou sua esposa de freixo e ferro na cama quando
    ambos os gumes ficaram suficientemente afiados. Bocejando, ele despiu a
    roupa suja, atirou-a no chão e estendeu-se no colchão de palha. Pensar no
    ferrete fizera sua marca comichar, então ele teve que se coçar antes de fechar
    os olhos. Eu devia ter apanhado as laranjas que caíram, ele pensou, e
    adormeceu sonhando com o seu gosto ácido e doce, com a sensação pegajosa
    que o sumo vermelho deixava em seus dedos.
    A aurora chegou cedo demais. À porta dos estábulos a menor das
    três liteiras transportadas por cavalos estava pronta, a de madeira de cedro
    com cortinas de seda vermelha. O capitão escolheu vinte lanceiros para
    acompanhá-la, fora os trinta que estavam postados nos Jardins de Água; o
    resto ficaria para proteger o terreno e as crianças, algumas das quais eram os
    filhos e filhas de grandes senhores e mercadores ricos.
    Embora o príncipe tivesse falado em partir à primeira luz da aurora,
    Areo Hotah sabia que se atrasaria. Enquanto o meistre ajudava Doran
    Martell a tomar banho e enfaixava suas articulações inchadas com ataduras
    de linho embebidas em loções calmantes, o capitão vestiu o blusão de cobre
    que era próprio de seu posto, e um manto ondulante de sedareia castanha
    escura e amarela para manter o sol afastado do cobre. O dia prometia ser
    quente, e o capitão há muito tinha descartado a pesada capa de crina de

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Ter Jun 19, 2012 2:10 pm

    cavalo e a túnica de couro batido que usara em Norvos, capazes de cozinhar
    um homem em Dorne. Ele manteve o meio elmo de ferro com a sua crista de
    espigões afiados, mas agora ele usava-o enrolado em seda cor de laranja,
    entrançando o tecido entre e em volta dos espigões. De outro modo, o sol
    batendo no metal deixaria sua cabeça latejando antes de avistarem o palácio.
    O príncipe ainda não estava pronto para partir. Ele decidiu quebrar o
    jejum antes de ir, com uma laranja de sangue e uma bandeja de ovos de
    gaivota cortados em cubos com pedaços de presunto e pimenta. Então não
    pôde deixar de se despedir das várias crianças que tinham se tornadas
    favoritas em especial: o rapaz Dalt, os filhos da Senhora Blackmont e a órfã
    de cara redonda cujo pai vendera tecidos e especiarias ao longo do
    Sangueverde. Doran manteve um magnífico cobertor de Myr sobre as pernas
    enquanto falava com eles para poupar os pequenos da visão de suas
    articulações inchadas e enfaixadas.
    Era meio-dia quando se puseram a caminho; o príncipe em sua
    liteira, o Meistre Caleotte montado em um jumento, os outros a pé. Cinco
    lanceiros caminhavam à frente e outros cinco atrás, com outros dez
    flanqueando a liteira de ambos os lados. Areo Hotah ocupou seu lugar
    familiar à esquerda do príncipe, apoiando o machado num ombro enquanto
    caminhava. A estrada entre Lançassolar e os Jardins de Água corria junto ao
    mar, então eles tinham uma brisa fresca para mitigar o calor enquanto
    avançavam por uma região de terra vermelha acastanhada com pedras, areia
    e árvores retorcidas e raquíticas.
    No meio do caminho, a segunda Serpente da Areia apanhou-os.
    Ela apareceu de repente sobre uma duna, montada em um corcel
    dourado com uma crina que era branca e fina como a seda. Até a cavalo, a
    Senhora Nym parecia graciosa, vestida com vestes lilás cintilantes e uma
    grande capa de seda em tons de creme e cobre que se levantava a cada sopro
    do vento, fazendo parecer que ela podia levantar voo. Nymeria Sand tinha
    vinte e cinco anos, e era esguia como um salgueiro. O seu cabelo negro e
    liso, usado em uma longa trança atada com um fio vermelho-ouro, começava
    em um pico de viúva acima de seus olhos escuros, à semelhança de seu pai.
    Com as suas maçãs do rosto altas, lábios cheios e pele branca como leite, ela
    possuía toda a beleza que faltava à sua irmã mais velha… mas a mãe de
    Obara tinha sido uma prostituta de Vilavelha, enquanto que Nym nascera do
    mais nobre sangue da antiga Volantis. Uma dúzia de lanceiros montados a
    seguia, os seus escudos redondos brilhando ao sol. Seguiram-na duna abaixo.
    O príncipe tinha amarrado as cortinas da liteira para aproveitar
    melhor a brisa que soprava do mar. A Senhora Nym pôs-se a seu lado,
    retardando a sua bela égua dourada para igualar o ritmo da liteira.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Ter Jun 19, 2012 2:11 pm

    — É bom vê-lo, tio. — Ela cantou, como se tivesse sido o acaso a
    trazê-la ali. — Posso seguir contigo até Lançassolar? — O capitão estava do
    lado oposto da liteira, mas ainda conseguia ouvir cada palavra que a Senhora
    Nym dizia.
    — Ficaria feliz com isso. — Respondeu o Príncipe Doran, embora
    não soasse feliz aos ouvidos do capitão. — A gota e a tristeza dão fracos
    companheiros de estrada. — Com aquilo, o capitão soube que cada seixo do
    caminho era uma pontada em suas articulações inchadas.
    — Não posso ajudar quanto à gota. — Disse ela. — Mas meu pai
    não tinha nenhum uso para a tristeza. A vingança era mais de seu gosto. É
    verdade que Gregor Clegane admitiu ter assassinado Elia e seus filhos?
    — Rugiu sua culpa para que toda a corte ouvisse. — Admitiu o
    príncipe. — O Lorde Tywin prometeu-nos sua cabeça.
    — E um Lannister sempre paga suas dívidas. — Disse a Senhora
    Nym. — E, no entanto, me parece que Lorde Tywin pretende nos pagar com
    as nossas próprias moedas. Recebi uma ave do nosso querido Sor Daemon,
    que jura que o meu pai fez cócegas àquele monstro mais de uma vez durante
    a luta. Se assim for, Sor Gregor é um homem morto, e não graças a Tywin
    Lannister.
    O príncipe fez uma careta. Se foi devido à dor causada pela gota ou
    às palavras de sua sobrinha, o capitão não saberia dizer.
    — Pode ser verdade.
    — Pode ser? Eu digo que é.
    — Obara quer que eu parta para a guerra.
    Nym soltou uma gargalhada.
    — Sim, ela quer passar uma tocha por Vilavelha. Ela odeia tanto
    essa cidade quanto a nossa irmãzinha a ama.
    — E você?
    Nym olhou de relance por sobre um ombro para onde seus
    companheiros a seguiam uma dúzia de metros atrás.
    — Eu estava na cama com os gêmeos Fowler quando a notícia
    chegou até mim. — O capitão ouviu-a dizer. — Conhece o lema dos Fowler?
    Deixe-me pairar! É tudo o que te peço. Deixe-me pairar, tio. Não preciso de
    nenhuma tropa poderosa, só de uma doce irmã.
    — Obara?

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Ter Jun 19, 2012 2:11 pm

    — Tyene. Obara é muito ruidosa. Tyene é tão doce e gentil que
    ninguém suspeitará dela. Obara transformaria Vilavelha na pira funerária do
    nosso pai, mas eu não sou assim tão ambiciosa. Quatro vidas me bastariam.
    Os gêmeos dourados de Lorde Tywin, como pagamento pelos filhos de Elia.
    O velho leão, pela própria Elia. E por fim o reizinho, pelo meu pai.
    — O rapaz nunca nos ofendeu.
    — O rapaz é um bastardo nascido da traição, incesto e adultério, se é
    possível acreditar em Lorde Stannis. — O tom divertido tinha desaparecido
    de sua voz, e o capitão deu por si mesmo observando-a através de olhos
    semicerrados.
    Sua irmã Obara usava o chicote no quadril e carregava uma lança
    onde qualquer um podia vê-la. A Senhora Nym não era menos mortífera,
    embora mantivesse as suas facas bem escondidas. — Só sangue real pode
    limpar o assassinato de meu pai.
    — Oberyn morreu durante combate singular, lutando por um assunto
    que não lhe dizia respeito. Não chamo a isso de assassinato.
    — Chame do que quiser. Enviamos-lhes o melhor homem de Dorne,
    e eles nos mandam de volta um saco de ossos.
    — Ele foi além de qualquer coisa que eu lhe pedi. “Avalie esse rei
    menino e seu conselho, e tome nota de seus pontos fortes e fracos”, eu disse
    a ele, na varanda. Estávamos comendo laranjas. “Encontre para nós amigos,
    se for possível encontrar algum. Descubra o que possa sobre o fim de Elia,
    mas trate de não provocar indevidamente o Lorde Tywin”, essas foram
    minha palavras para ele. Oberyn riu e disse: “Quando foi que eu provoquei
    qualquer homem… indevidamente? Você faria melhor em avisar aos
    Lannister para não me provocarem.” Ele queria justiça por Elia, mas não
    quis esperar…
    — Ele esperou dezessete anos. — Interrompeu a Senhora Nym. —
    Se fosse a você que eles tivessem matado, meu pai teria levado seus vassalos
    para o norte antes que seu cadáver esfriasse. Se fosse você, as lanças
    estariam caindo como chuva agora.
    — Não duvido disso.
    — Assim como não deve duvidar disso, meu príncipe: minhas irmãs
    e eu não esperaremos dezessete anos por nossa vingança. — Ela enterrou as
    esporas na égua e desapareceu a galope na direção de Lançassolar,
    perseguida a grande velocidade por sua comitiva.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Ter Jun 19, 2012 2:11 pm

    O príncipe recostou-se nas almofadas e fechou os olhos, mas Hotah
    sabia que ele não estava dormindo. Ele estava com dores. Por um momento
    pensou em chamar o Meistre Caleotte até a liteira, mas se o Príncipe Doran o
    quisesse, ele mesmo o teria chamado.
    As sombras da tarde tornaram-se longas e escuras, o sol tão
    vermelho e inchado como as articulações do príncipe, antes que eles
    vislumbrassem as torres de Lançassolar a leste. Primeiro a esguia Torre da
    Lança, com quarenta e cinco metros de altura e coroada com uma lança de
    aço dourada que lhe acrescentava outros nove metros; em seguida, a
    grandiosa Torre do Sol, com sua cúpula de ouro e vidro; e por fim, o Navio
    de Areia de cor parda, que se parecia a uma gigantesca dromunda que tinha
    se chocado à costa e se transformado em pedra.
    Apenas três léguas de estrada costeira separavam Lançassolar dos
    Jardins de Água, mas tratava-se de dois mundos diferentes. Lá, as crianças
    divertiam-se nuas ao sol, música era tocada em pátios azulejados, e o ar
    estava perfumado com o cheiro penetrante dos limões e laranjas de sangue.
    Aqui, o ar cheirava a poeira, suor e fumaça, e as noites eram vivas com o
    murmúrio de vozes. Em vez do mármore cor-de-rosa dos Jardins de Água,
    Lançassolar foi construída a partir do barro e palha, toda em tons de marrom
    e castanho. A antiga fortaleza da Casa Martell erguia-se na extremidade mais
    oriental de uma pequena saliência de pedra e areia, com o mar cercando três
    dos seus lados. A oeste, à sombra das maciças muralhas de Lançassolar,
    lojas de adobe e casebres sem janelas agarravam-se ao castelo como cracas
    ao casco de uma galé. Estábulos, estalagens, tabernas e casas de almofadas
    tinham crescido a oeste das lojas e dos casebres, muitos rodeados por seus
    próprios muros, e mais casebres tinham se erguido à sombra desses muros. E
    por aí a fora, e assim por diante, como diriam os sacerdotes barbudos.
    Comparada com Tyrosh, Myr ou com a Grande Norvos, a cidade
    sombria não era mais que uma vila, mas era a coisa mais próxima a uma
    cidade de verdade que aqueles dorneses possuíam.
    A chegada da Senhora Nym precedera a deles por algumas horas, e
    não havia dúvidas de que ela tinha avisado aos guardas de sua vinda, pois o
    Portão Triplo encontrava-se aberto quando se aproximaram. Só ali os portões
    estavam alinhados um atrás do outro para permitir que os visitantes
    passassem direto sob todas as três Muralhas Sinuosas e se dirigissem
    diretamente ao Palácio Antigo sem terem primeiro que passar através de
    quilômetros de ruas estreitas, pátios escondidos e bazares ruidosos.
    O Príncipe Doran fechara as cortinas de sua liteira assim que a Torre
    da Lança tornou-se visível, mas mesmo assim o povo gritou-lhe enquanto a

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Ter Jun 19, 2012 2:11 pm

    liteira passava. As Serpentes da Areia os fizeram ferver, pensou o capitão,
    preocupado. Atravessaram a
    Hotah desistiu de procurar por quem falava; a multidão era muito
    densa, e um terço dela estava gritando. “Às lanças! Vingança pela Víbora!”
    No momento em que atingiram o terceiro portão, os guardas estavam
    empurrando as pessoas para os lados, a fim de abrir caminho para a liteira do
    príncipe, e a multidão atirava coisas. Um rapaz esfarrapado conseguiu passar
    correndo pelos lanceiros com uma romã meio podre em uma mão, mas
    quando viu Areo Hotah em seu caminho com seu machado pronto, deixou a
    fruta cair e bateu em rápida retirada. Outros mais atrás jogaram limões, limas
    e laranjas, gritando “Guerra! Guerra! Às lanças!”. Um dos guardas foi
    atingido no olho por um limão, e o próprio capitão viu uma laranja se
    arrebentar em seu pé.
    Nenhuma resposta veio de dentro da liteira. Doran Martell mantevese
    oculto no interior de suas paredes de seda até que as muralhas mais
    grossas do castelo engoliram a todos eles, e a ponte levadiça desceu atrás
    deles com um estrondo chocalhante. A gritaria desapareceu gradualmente. A
    Princesa Arianne estava esperando no pátio exterior para saudar seu pai com
    metade da corte ao seu redor: o velho e cego senescal Ricasso, Sor Manfrey
    Martell, o castelão, o jovem Meistre Myles com suas vestes cinzentas e
    barba sedosa e perfumada, quarenta cavaleiros de Dorne vestidos em linho
    leve de meia centena de cores. A pequena Myrcella Baratheon estava
    acompanhada por sua septã e Sor Arys da Guarda Real, o qual sufocava em
    sua armadura esmaltada de branco.
    A Princesa Arianne caminhou para a liteira em sandálias de pele de
    cobra atadas até as coxas. Seu cabelo era uma juba de caracóis negros como
    o azeviche que caíam até sua cintura, e em volta da testa trazia uma faixa de
    sóis de cobre. Ela ainda é uma coisinha pequena, pensou o capitão.
    Enquanto as Serpentes da Areia eram altas, Arianne parecia-se com a mãe,
    que não tinha mais de um metro e cinquenta e sete. Mas sob o seu cinturão
    incrustado de jóias e camadas soltas de leve seda púrpura e samito amarelo
    ela possuía um corpo de mulher, exuberante e cheio de curvas.
    — Pai. — Anunciou quando as cortinas se abriram. — Lançassolar
    rejubila com o vosso regresso.
    — Sim, eu ouvi o júbilo. — O príncipe sorriu languidamente e
    envolveu o rosto da filha com uma mão avermelhada e inchada. — Você
    parece bem. Capitão, tenha a bondade de me ajudar a descer daqui.
    Hotah enfiou o machado na correia de couro que trazia às costas e
    pegou o príncipe em seus braços com delicadeza para não sacudir suas

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Ter Jun 19, 2012 2:12 pm

    articulações inchadas. Mesmo assim, Doran Martell reprimiu um gemido de
    dor.
    — Ordenei aos cozinheiros que preparassem um banquete para esta
    noite. — Disse Arianne — Com todos os seus pratos preferidos.
    — Temo que não possa fazer justiça a ele. — O príncipe olhou
    lentamente o pátio a seu redor. — Não estou vendo Tyene.
    — Ela suplica por uma conversa em particular. Mandei-a esperar sua
    chegada na sala do trono.
    O príncipe suspirou.
    — Muito bem. Capitão? Quanto mais depressa despachar isso, mais
    depressa posso descansar.
    Hotah carregou-o pelas longas escadas de pedra da Torre do Sol até
    a grande sala redonda sob a cúpula, onde a última luz da tarde entrava em
    diagonal através de espessas janelas de vidro multicolorido e tingia o
    mármore pálido com losangos de meia centena de cores. Aí os esperava a
    terceira Serpente da Areia. Ela estava sentada de pernas cruzadas numa
    almofada sob o estrado onde se situavam os tronos, mas levantou-se quando
    entraram, trajando um vestido justo de samito azul-claro com mangas de
    renda de Myr que a fazia parecer tão inocente quanto a própria Donzela. Em
    uma mão segurava um pedaço de bordado em que estivera trabalhando, na
    outra um par de agulhas douradas. Seu cabelo também era dourado, e os
    olhos eram profundas lagoas azuis… e, no entanto, de alguma forma eles
    lembravam ao capitão os olhos de seu pai, embora os de Oberyn tivessem
    sido negros como a noite. Todas as filhas do Príncipe Oberyn têm os seus
    olhos de víbora, percebeu Hotah de repente. A cor não importa.
    — Tio. — Disse Tyene Sand. — Tenho estado à sua espera.
    — Capitão, me ajude a sentar no trono.
    Havia dois tronos no estrado, quase gêmeos um do outro, exceto que
    um tinha a lança Martell folheada a ouro no espaldar, enquanto o outro
    ostentava o sol ardente de Roine, o mesmo que flutuava nos mastros dos
    navios de Nymeria quando eles chegaram a Dorne pela primeira vez. O
    capitão colocou o príncipe sob a lança e afastou-se.
    — Dói muito? — A voz da Senhora Tyene era gentil, e ela parecia
    tão doce como morangos de verão. Sua mãe era uma septã, e Tyene possuía
    um ar de inocência quase de outro mundo sobre ela. — Há alguma coisa que
    eu possa fazer por você para aliviar sua dor?

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Ter Jun 19, 2012 2:12 pm

    — Diga-me o que tem a dizer e deixe-me descansar. Estou cansado,
    Tyene.
    — Fiz isto para você, tio. — Tyene desdobrou a peça que esteve
    bordando. Ela mostrava o pai, o Príncipe Oberyn, montado em um corcel cor
    de areia e envergando uma armadura vermelha, sorrindo. — Quando
    terminar ele será seu, para ajudá-lo a se lembrar dele.
    — Não é provável que me esqueça do seu pai.
    — É bom saber. Muitos têm tido dúvidas.
    — O Lorde Tywin me prometeu a cabeça da Montanha.
    — Ele é tão gentil… mas a espada de um carrasco não é um fim
    adequado para o bravo Sor Gregor. Temos rezado muito por sua morte, é
    apenas justo que ele reze por ela também. Eu conheço o veneno que o meu
    pai usava, e não há nenhum outro mais lento ou mais doloroso. Em breve
    poderemos ouvir a Montanha gritar, até mesmo aqui em Lançassolar.
    O Príncipe Doran suspirou.
    — Obara choraminga comigo pela guerra. Nym se contentaria com o
    assassinato. E você?
    — A guerra. — Disse Tyene. — Embora não a guerra da minha
    irmã. Os dorneses lutam melhor em casa, então eu digo para afiarmos nossas
    lanças e esperar. Quando os Lannister e os Tyrell caírem sobre nós, os
    sangraremos nos passos e os enterraremos sob as areias sopradas pelo vento,
    como fizemos uma centena de vezes antes.
    — Se eles caírem sobre nós.
    — Oh, mas eles precisarão, se não quiserem ver o reino despedaçado
    de novo, como era antes de nos casarmos com os dragões. Foi meu pai que
    me disse isso. Ele disse que tinha que agradecer ao Duende por nos enviar a
    Princesa Myrcella. Ela é tão linda, não acha? Gostaria de ter caracóis como
    os dela. Foi feita para ser rainha, assim como sua mãe. — Covinhas
    apareceram nas bochechas de Tyene. — Eu ficaria honrada em organizar as
    bodas e também de orientar a fabricação das coroas. Trystane e Myrcella são
    tão inocentes que pensei que talvez ouro branco… com esmeraldas, para
    combinar com os olhos de Myrcella. Oh, diamantes e pérolas também
    serviriam, desde que os pequenos sejam casados e coroados. Então
    precisaremos apenas saudar Myrcella como a Primeira do Seu Nome, Rainha
    dos Ândalos, dos Roinares e dos Primeiros Homens, e legítima herdeira dos
    Sete Reinos de Westeros, e esperar que os leões venham.
    — A herdeira legítima? — O príncipe fungou.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Ter Jun 19, 2012 2:12 pm

    — Ela é mais velha do que seu irmão. — Explicou Tyene, como se
    ele fosse algum idiota. — Por lei, o Trono de Ferro deverá passar para ela.
    — Pela lei de Dorne.
    — Quando o bom Rei Dareon casou com a Princesa Myriah e nos
    juntou ao seu reino, foi acordado que em Dorne sempre dominaria a lei de
    Dorne. E acontece que Myrcella está em Dorne.
    — Pois ela está. — Seu tom era relutante. — Deixe-me pensar sobre
    isso.
    Tyenne zangou-se.
    — Você pensa demais, tio.
    — Penso?
    — Meu pai dizia que sim.
    — Oberyn não pensava o suficiente.
    — Alguns homens pensam, porque têm medo de fazer.
    — Há uma diferença entre medo e cautela.
    — Oh, eu preciso rezar para nunca vê-lo assustado, tio. Talvez se
    esqueça de respirar. — Ela ergueu uma mão…
    O capitão bateu o cabo do machado contra o mármore com um
    estrondo surdo.
    — Minha senhora, você já ultrapassou o limite. Afaste-se do estrado,
    por favor.
    — Não pretendi ofender, capitão. Eu amo o meu tio, assim como sei
    que ele amava o meu pai. — Tyene ajoelhou-se perante o príncipe. — Disse
    tudo o que vim dizer, tio. Perdoe-me se te ofendi; meu coração está
    despedaçado. Ainda tenho o seu amor?
    — Sempre.
    — Dê-me então a sua bênção e eu partirei.
    Doran hesitou durante meio segundo antes de colocar a mão na
    cabeça da sobrinha.
    — Seja corajosa, filha.
    — Oh, como não seria? Sou filha dele.
    Assim que ela se retirou, o Meistre Caleotte correu para o estrado.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Ter Jun 19, 2012 2:12 pm

    — Meu príncipe, ela não… aqui, deixe-me ver sua mão. — Ele
    examinou primeiro a palma, depois virou-a gentilmente ao contrário para
    farejar a parte de trás dos dedos do príncipe. — Não, ótimo. Muito bom. Não
    há arranhões, então…
    O príncipe retirou a mão.
    — Meistre, eu poderia incomodá-lo por um pouco de leite de
    papoula? Um dedal será suficiente.
    — A papoula. Sim, com certeza.
    — Agora, eu acho. — Insistiu Doran Martell com gentileza, e
    Caleotte correu para as escadas.
    Lá fora, o sol tinha se posto. A luz dentro da cúpula era o azul do
    crepúsculo, e todos os losangos no chão estavam expirando-se. O príncipe
    continuava sentado em seu trono sob a lança Martell, o rosto pálido de dor.
    Após um longo silêncio, ele virou-se para Areo Horah.
    — Capitão — Ele disse — Quantos de meus guardas são leais?
    — Leais. — O capitão não sabia o que mais dizer.
    — Todos eles? Ou alguns?
    — Eles são homens de bem. Bons homens de Dorne. Cumprirão as
    minhas ordens. — Ele bateu com o machado no chão. — Trarei a cabeça de
    qualquer homem que te traia.
    — Não quero cabeças. Quero obediência.
    — É sua. — Servir. Obedecer. Proteger. Votos simples para um
    homem simples. — Quantos homens são necessários?
    — Deixarei isso ao seu critério. Pode ser que alguns homens de boa
    vontade nos sirvam melhor do que vinte. Quero isso feito tão rápida e
    silenciosamente como for possível, sem derramamento de sangue.
    — Rápido, silencioso e sem derramamento de sangue, sim senhor.
    Quais são suas ordens?
    — Você vai encontrar as filhas do meu irmão, levá-las sob custódia,
    e confiná-las nas celas do topo da Torre da Lança.
    — As Serpentes da Areia? — A garganta do capitão estava seca. —
    Todas… todas as oito, meu príncipe? As pequenas também?
    O príncipe refletiu sobre aquilo.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Ter Jun 19, 2012 2:12 pm

    — As meninas de Ellaria são jovens demais para serem um perigo,
    mas há aqueles que poderiam procurar usá-las contra mim. Seria melhor
    mantê-las a salvo e ao nosso alcance. Sim, as pequenas também… mas
    primeiro prenda Tyene, Nymeria e Obara.
    — Às suas ordens, meu príncipe. — Seu coração estava perturbado.
    Minha princesinha não irá gostar disso. — E Sarella? Ela é uma mulher feita,
    quase com vinte anos.
    — A menos que ela retorne para Dorne, não há nada que eu possa
    fazer a respeito de Sarella, exceto rezar para que mostre mais bom senso do
    que as irmãs. Deixe-a com o seu… jogo. Reúna as outras. Não dormirei até
    saber que estão em segurança e sob guarda.
    — Será feito. — O capitão hesitou. — Quando isso for conhecido
    nas ruas, o povo irá fazer barulho.
    — Toda a Dorne fará barulho. — Disse Doran Martell numa voz
    cansada. — Só rezo para que o Lorde Tywin os ouça em Porto Real, para
    que fique sabendo como é leal o amigo que tem em Lançassolar.

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    Re: O Festim dos Corvos

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