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    O Festim dos Corvos

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Ter Jun 19, 2012 2:13 pm

    Cersei - 62


    Sonhou que estava sentada no Trono de Ferro, bem alto acima de
    todos eles.
    Os cortesãos eram ratos brilhantemente coloridos lá em
    baixo. Grandes senhores e orgulhosas senhoras ajoelhavam perante
    si. Valentes jovens cavaleiros depositavam as espadas aos seus pés e
    suplicavam-lhe favores, e a rainha sorria-lhes. Até que o anão apareceu,
    como que vindo de parte nenhuma, apontando para ela e uivando de riso. Os
    senhores e as senhoras começaram também a soltar risinhos, escondendo os
    sorrisos atrás das mãos. Foi só então que a rainha se percebeu que estava
    nua.
    Horrorizada, tentou cobrir-se com as mãos. As farpas e lâminas do
    Trono de Ferro morderam-lhe a carne quando se abaixou para esconder a
    vergonha. O sangue escorreu vermelho, pelas pernas abaixo, enquanto
    dentes de aço lhe roíam as nádegas. Quando tentou levantar, enfiou o pé
    numa fenda no metal retorcido. Quanto mais lutava, mais o trono a engolia,
    arrancando pedaços de carne dos seus seios e barriga, cortando-lhe os braços
    e pernas até os deixar cintilantes de vermelho.
    E o irmão não parava de brincar lá em baixo, rindo.
    O divertimento dele ainda lhe ecoava aos ouvidos quando sentiu um
    leve toque no ombro e acordou de repente. Durante meio segundo, a mão
    pareceu fazer parte do pesadelo, e Cersei gritou, mas era apenas Senelle. O
    rosto da criada estava branco e assustado.
    Não estamos sós, apercebeu-se a rainha. Sombras erguiam-se à volta
    da sua cama, silhuetas altas com cota de malha brilhando debilmente por
    baixo dos seus mantos. Homens armados não tinham nada a fazer ali. Onde
    estão os meus guardas? O quarto encontrava-se mergulhado na escuridão, à
    exceção da lanterna que um dos intrusos segurava bem alto. Não posso
    mostrar medo. Cersei afastou para trás cabelos desgrenhados pelo sono, e
    disse:
    — Que quereis de mim? — Um homem avançou para baixo da luz
    da lanterna e ela viu que o manto dele era branco. — Jaime? — Sonhei com
    um irmão, mas o outro veio acordar-me.
    — Vossa Graça? — A voz não era a do irmão. — O Senhor
    Comandante disse para virmos te buscar.—O cabelo dele encaracolava-se,
    como o de Jaime, mas o cabelo do irmão era ouro batido, tal como o dela, ao

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Ter Jun 19, 2012 2:13 pm

    passo que o deste homem era negro e oleoso. Fitou-o, confusa, enquanto ele
    resmungava qualquer coisa acerca de uma latrina e uma besta, e dizia o
    nome do pai. Ainda estou a sonhar, pensou Cersei. Não acordei, e o meu
    pesadelo não terminou. Tyrion sairá em breve a gatinhar de debaixo da
    cama e começará a rir de mim.
    Mas isso era uma loucura. O irmão anão encontrava-se nas celas
    negras, condenado a morrer precisamente naquele dia. Olhou para as mãos,
    virando-as para se certificar de que ainda lá tinha todos os dedos. Quando
    passou uma mão pelo braço, a pele estava eriçada em pele de galinha, mas
    sem golpes. Não havia cortes nas suas pernas, nenhum rasgão nas solas dos
    pés. Um sonho, foi só isso, um sonho. Bebi demasiado na noite passada,
    estes medos são só humores nascidos do vinho. Quem rirá serei eu, ao
    chegar o ocaso. Os meus filhos estarão a salvo, o trono de Tommen estará
    seguro, e o meu retorcido pequeno valonqar terá uma cabeça a menos e
    estará a apodrecer.
    Jocelyn Swyft estava junto ao seu cotovelo, pressionando-a para que
    pegasse numa taça. Cersei bebeu um gole: água, misturada com umas gotas
    de limão, tão azeda que a cuspiu. Ouvia o vento noturno a agitar as janelas, e
    via com uma estranha clareza penetrante. Jocelyn estava a tremer como uma
    folha, tão assustada como Senelle. Sor Osmund Kettleblack pairava acima
    dela. Atrás dele encontrava-se Sor Boros Blount, com uma lanterna. À porta
    havia guardas Lannister com leões dourados a cintilar no topo dos capacetes.
    Também pareciam assustados. Poderá ser? perguntou a rainha a si própria.
    Poderá ser verdade?
    Ergueu-se, e permitiu que Senelle lhe pusesse um roupão sobre os
    ombros para esconder a sua nudez. Foi a própria Cersei a atar o cinto,
    sentindo os dedos rígidos e desastrados.
    — O senhor meu pai mantém guardas à sua volta, de noite e de dia —
    disse. Sentia a língua pesada. Bebeu outro gole de água com limão e
    bochechou com ela para lhe refrescar o hálito. Uma mariposa entrara na
    lanterna que Sor Boros segurava; conseguia ouvi-la a zumbir e via a sombra
    das suas asas enquanto ela batia no vidro.
    — Os guardas estavam nos seus postos, Vossa Graça — disse
    Osmund Kettleblack. — Encontramos uma porta escondida atrás da lareira.
    Uma passagem secreta. O Senhor Comandante desceu para ver onde vai dar.
    — Jaime? — O terror capturou-a, súbito como uma tempestade. —
    O Jaime devia estar com o rei…
    — O rapaz nada sofreu. Sor Jaime enviou uma dúzia de homens para
    ver como ele se encontrava. Sua Graça está pacificamente a dormir.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Ter Jun 19, 2012 2:13 pm

    Que tenha um sonho melhor do que o meu, e um acordar mais
    suave.
    — Quem está com o rei?
    — Sor Loras tem essa honra, se vos aprouver.
    Não aprazia. Os Tyrell não passavam de intendentes que os reis do
    dragão tinham elevado muito acima do seu estatuto. A sua vaidade era
    apenas excedida pela sua ambição. Sor Loras podia ser tão lindo como um
    sonho de donzela, mas por baixo do manto branco era Tyrell até ao osso.
    Tanto quanto sabia, o maligno fruto daquela noite fora plantado e nutrido em
    Jardim de Cima. Mas essa era uma suspeita que não se atrevia a exprimir em
    voz alta.
    — Permiti-me um momento para que me vista. Sor Osmund,
    acompanhe-me à Torre da Mão. Sor Boros desperte os carcereiros e
    certifique-se de que o anão continua na sua cela. — Não queria proferir o seu
    nome. Ele nunca teria encontrado coragem para erguer uma mão contra o
    pai, disse a si própria, mas tinha de ter a certeza.
    — Às ordens de Vossa Graça. — Blount entregou a lanterna a Sor
    Osmund. Cersei não se sentiu insatisfeita por o ver pelas costas. O pai nunca
    lhe devia ter devolvido o branco. O homem provara ser um covarde.
    Quando abandonaram a Fortaleza de Maegor, o céu tomara um
    profundo tom de azul-cobalto, embora as estrelas ainda brilhassem. Todas
    menos uma, pensou Cersei. A estrela brilhante do oeste caiu, e as noites
    serão agora mais escuras. Fez uma pausa sobre a ponte levadiça que
    transpunha o fosso seco, fitando os espigões, no fundo deste. Eles não se
    atreveriam a mentir-me acerca de uma coisa destas.
    — Quem foi que o encontrou?
    — Um dos seus guardas — disse Sor Osmund. — Lum. Sentiu o
    chamamento da natureza, e encontrou sua senhoria na latrina.
    Não, isso não pode ser. Não é assim que um leão morre. A rainha
    sentia-se estranhamente calma. Lembrou-se da primeira vez que perdera um
    dente, quando não era mais que uma rapariguinha. Não doera, mas o buraco
    com que ficara na boca era tão estranho que não conseguia parar de o tocar
    com a língua. Agora há um buraco no mundo onde estava o pai, e os
    buracos querem algo que os encha.
    Se Tywin Lannister estava realmente morto, ninguém se encontrava
    a salvo… principalmente o seu filho, no trono. Quando o leão cai, as feras
    menores avançam: os chacais, os abutres e os cães bravios. Iriam tentar pô-la

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Ter Jun 19, 2012 2:13 pm

    de lado, como sempre tinham feito. Iria ter de se mover depressa, como
    quando Robert morrera. Aquilo podia ser obra de Stannis Baratheon, por
    intermédio de algum homem a soldo. Podia perfeitamente ser o prelúdio de
    outro ataque contra a cidade. Esperava que o fosse. Que ele venha. Vou
    esmagá-lo, tal como o pai fez, e desta vez morrerá.
    Stannis não a assustava mais do que Mace Tyrell. Ninguém a
    assustava. Era uma filha do Rochedo, um leão. Não haverá mais conversas
    acerca de me obrigarem a voltar a casar. O Rochedo Casterly era agora seu,
    com todo o poder da Casa Lannister.
    Nunca mais ninguém a menosprezaria. Mesmo quando Tommen
    deixasse de ter necessidade de um regente, a Senhora de Rochedo Casterly
    continuaria a ser uma força a ter em conta.
    O sol nascente pintara os topos das torres de um vermelho-vivo, mas
    a noite ainda se acumulava sob as muralhas. O castelo exterior estava tão
    silencioso que poderia imagina-lo com toda a gente morta. E devia estar.
    Não é próprio que o Lorde Tywin morra só. Um tal homem merece uma
    comitiva para cuidar das suas necessidades no inferno.
    Quatro lanceiros com mantos vermelhos e elmos coroados por leões
    estavam colocados à porta da Torre da Mão.
    — Ninguém deverá entrar ou sair sem a minha autorização — disselhes.
    O comando veio-lhe fácil. O meu pai também tinha aço na voz.
    Dentro da torre, a fumaça dos archotes irritou-lhe os olhos, mas
    Cersei não chorou, como o pai não teria chorado. Sou o único verdadeiro
    filho que ele teve. Os calcanhares raspavam na pedra enquanto subia, e ainda
    conseguia ouvir a mariposa a esvoaçar furiosamente dentro da lanterna de
    Sor Osmund. Morre, pensou a rainha, irritada, voa para a chama e acaba
    com isso.
    No topo da escada encontravam-se mais dois guardas de mantos
    vermelhos. O Lester Vermelho murmurou uma condolência quando ela
    passou. A respiração da rainha estava rápida e pouco profunda, e ela sentia o
    coração a tamborilar no peito. Os degraus, disse a si própria, esta maldita
    torre tem degraus a mais. Estava meio decidida a deita-la abaixo.
    O salão estava cheio de palermas que falavam em murmúrios, como
    se o Lorde Tywin estivesse a dormir e tivessem medo de o acordar. Tanto os
    guardas como os criados se encolhiam perante ela, com as bocas a adejar.
    Via-lhes as gengivas cor-de-rosa e as línguas a abanar, mas as suas palavras

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Ter Jun 19, 2012 2:14 pm

    não faziam mais sentido do que o zumbido da mariposa. Que estão eles a
    fazer aqui? Como souberam? O correto teria sido chamarem-na primeiro.
    Ela era a Rainha Regente, tinham esquecido disso?
    À porta do quarto da Mão encontrava-se Sor Meryn Trant com a sua
    armadura e manto brancos. A viseira do seu elmo estava aberta, e os papos
    sob os olhos davam-lhe um ar de quem ainda estava meio a dormir.
    — Levai esta gente daqui — disse-lhe Cersei. — O meu pai está na
    latrina?— Levaram-no de volta para a cama, senhora. — Sor Meryn abriu a
    porta para ela entrar.
    A luz da manhã entrava em diagonal através das portadas, e ia pintar
    barras douradas nas esteiras espalhadas pelo chão do quarto. O tio Kevan
    estava de joelhos ao lado da cama, tentando rezar, mas quase não conseguia
    forçar as palavras a sair. Guardas aglomeravam-se perto da lareira. A porta
    secreta de que Sor Osmund falara encontrava-se escancarada por trás das
    cinzas, não ultrapassando o tamanho de um forno. Um homem teria de
    gatinhar.
    Mas Tyrion é só meio homem. O pensamento irritou-a. Não, o anão
    está trancado numa cela negra. Aquilo não podia ser obra sua. Stannis, disse
    a si própria, é Stannis quem está por trás disto. Ele ainda tem partidários na
    cidade. Ele, ou os Tyrell…
    Sempre se falara de passagens secretas no interior da Fortaleza
    Vermelha. Supunha-se que Maegor, o Cruel, tinha morto os homens que
    construíram o castelo para manter o conhecimento sobre elas secreto.
    Quantos outros quartos terão portas escondidas? Cersei teve uma
    súbita visão do anão a sair de gatas de detrás de uma tapeçaria no quarto de
    Tommen com uma lâmina na mão. Tommen está bem guardado, disse a si
    própria. Mas o Lorde Tywin também estivera bem guardado.
    Por um momento, não reconheceu o morto. Sim, tinha um cabelo
    semelhante ao do pai, mas aquele era decerto outro homem qualquer, um
    homem mais pequeno, e muito mais velho. Tinha o roupão puxado para cima
    em redor do peito, o que o deixava nu abaixo da cintura. O dardo atingira-o
    na virilha, entre o umbigo e o membro viril, e penetrara tão profundamente
    que apenas se viam as penas. Os pêlos púbicos tinham sido deixados rígidos
    pelo sangue seco. Mais sangue coagulava no umbigo. O cheiro que ele
    exalava a fez franzir o nariz.
    — Tirai-lhe o dardo do corpo — ordenou. — Este homem é a Mão
    do Rei! — E o meu pai. O senhor meu pai. Deveria gritar e arrancar os
    cabelos?

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Ter Jun 19, 2012 2:14 pm

    Dizia-se que Catelyn Stark rasgara o próprio rosto em tiras
    sangrentas quando os Frey lhe mataram o precioso Robb. Gostarias disso,
    pai?, desejou perguntar-lhe. Ou quererias que eu fosse forte? Choraste pelo
    teu pai?
    O avô morrera quando Cersei tinha apenas um ano de idade, mas
    conhecia a história. O Lorde Tytos tornara-se muito gordo, e o coração
    rebentara-lhe um dia, enquanto subia as escadas para ir ter com a amante. O
    pai de Cersei encontrava-se em Porto Real quando isso acontecera, servindo
    como Mão do Rei Louco. Lorde Tywin estivera com frequência em Porto
    Real quando ela e Jaime eram jovens. Se ele chorara quando lhe trouxeram a
    notícia da morte do pai, fizera-o onde ninguém pudesse ver as lágrimas.
    A rainha sentia as unhas a enterrar-se nas palmas das mãos.
    — Como pudestes deixa-lo assim? O meu pai foi Mão de três reis, o
    maior homem que alguma vez caminhou nos Sete Reinos. Os sinos têm de
    soar por ele, tal como soaram por Robert. Tem de ser banhado e vestido
    como é próprio do seu estatuto, de arminho, pano de ouro e seda carmesim.
    — Onde está Pycelle? Onde está Pycelle? — Virou-se para os
    guardas. — Puckens, traga aqui o Grande Meistre Pycelle. Ele tem de ver
    Lorde Tywin.
    — Ele já o viu, Vossa Graça — disse Puckens. — Veio, viu e foi-se,
    para chamar as irmãs silenciosas.
    Foram me buscar em último lugar. Perceber daquilo deixou-a quase
    demasiado furiosa para falar. E Pycelle corre a enviar uma mensagem em
    vez de sujar as suas mãos moles e enrugadas. O homem é um inútil. —
    Encontre o Meistre Ballabar — ordenou. — Encontre o Meistre Frenken.
    Qualquer um dos dois. — Puckens e o Orelha-Curta correram a obedecer.
    — Onde está o meu irmão?
    — Lá em baixo no túnel. Há um poço, com degraus de ferro presos à
    pedra. Sor Jaime foi ver até que profundidade chega.
    Ele só tem uma mão, quis gritar-lhes. Devia ter sido um de vós a ir.
    Ele não tem nada que andar a trepar escadas. Os homens que assassinaram
    o pai podem estar lá em baixo, à espera dele.
    O gêmeo sempre fora demasiado impetuoso, e, segundo parecia,
    nem mesmo perder uma mão o ensinara a ter cautela. Apressava a ordenar
    aos guardas para descerem à sua procura e o trazerem de volta quando
    Puckens e o Orelha-Curta regressaram com um homem de cabelo grisalho
    entre os dois.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Ter Jun 19, 2012 2:15 pm

    — Vossa Graça — disse o Orelha-Curta — este diz que era um
    meistre. — O homem fez uma profunda vénia.
    — Como posso servir Vossa Graça?
    O rosto do homem era-lhe vagamente familiar, embora não fosse
    capaz de o situar. Velho, mas não tão velho como Pycelle. Este ainda tem em
    si alguma força. Era alto, embora tivesse as costas ligeiramente tortas, e
    mostrava rugas em volta dos ousados olhos azuis. Tem a garganta nua.
    — Não usais corrente de meistre.
    — Foi-me tirada. O meu nome é Qyburn, se aprouver a Sua Graça.
    Tratei a mão do vosso irmão.
    — O seu coto, quereis vós dizer. — Agora se lembrava dele. Viera
    com Jaime de Harrenhal.
    — Não consegui salvar a mão de Sor Jaime, é verdade. As minhas
    artes salvaram-lhe o braço, porém, e talvez mesmo a vida. A Cidadela tiroume
    a corrente, mas não puderam tirar-me os conhecimentos.
    — Talvez sejais suficiente — decidiu. — Se me falhar vai perder
    mais do que uma corrente, garanto. Tire o dardo da barriga do meu pai e
    prepare-o para as irmãs silenciosas.
    — Às ordens da minha rainha. — Qyburn dirigiu-se à cama, fez uma
    pausa, olhou para trás.
    — E como é que lido com a garota, Vossa Graça?
    — Garota? — Cersei não reparara no segundo corpo. Aproximou-se
    a passos largos da cama, atirou para o lado a pilha de colchas
    ensangüentadas e lá estava ela, nua, fria, e rosada… exceto a cara, que se
    tornara tão negra como a de Joff no banquete de casamento. Uma corrente de
    mãos de ouro ligadas umas às outras estava meio enterrada na carne da sua
    garganta, torcida com tanta força que lhe rasgara a pele. Cersei silvou como
    uma gata irritada.
    — Que está ela a fazer aqui?
    — Encontramos ela ali, Vossa Graça — disse o Orelha-Curta. — É a
    rameira do Duende. — Como se isso explicasse porque estava ela ali.
    O senhor meu pai não tinha nenhuma utilidade a dar a rameiras,
    pensou. Depois da nossa mãe morrer, nunca tocou numa mulher. Deitou ao
    guarda um olhar gelado.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Ter Jun 19, 2012 2:16 pm

    — Isto não é… quando o pai de Lorde Tywin morreu, ele regressou
    a Rochedo Casterly e foi encontrar uma… uma mulher desta espécie…
    adornada com as jóias da senhora sua mãe, usando um dos seus vestidos. Ele
    arrancou-lhes, e arrancou tudo o mais também. Durante uma quinzena, ela
    foi obrigada a desfilar nua pelas ruas de Lanisporto, para confessar a todos
    os homens que encontrasse que era ladra e meretriz. Era assim que o Lorde
    Tywin Lannister lidava com rameiras. Ele nunca… esta mulher estava aqui
    para outro fim qualquer, não para…
    — Talvez sua senhoria estivesse a interrogar a garota acerca da sua
    ama — sugeriu Qyburn. — Sansa Stark desapareceu na noite em que o rei
    foi assassinado, segundo ouvi dizer.
    — É verdade. — Cersei adotou avidamente a sugestão. — Estava a
    Interroga-la com certeza. Não pode haver qualquer dúvida. — Conseguia ver
    Tyrion a olhá-la de esguelha, com a boca torcida num esgar de macaco sob
    as ruínas do nariz. E que melhor maneira de a interrogar do que nua, com as
    pernas bem abertas? Sussurrou o anão. Também é assim que eu gosto de a
    interrogar.
    A rainha virou as costas à cena. Não olharei para ela. De súbito, até
    estar na mesma sala da morta era demasiado. Passou por Qyburn com um
    empurrão e saiu para o salão. Sor Osmund estava em companhia dos irmãos
    Osney e Osfryd.
    — Há uma mulher morta no quarto da Mão — disse Cersei aos três
    Kettleblack. — Ninguém deverá saber que ela estava aqui.
    — Sim, senhora. — Sor Osney tinha tênues arranhões no rosto, onde outra
    das rameiras de Tyrion o tinha esgatanhado.
    — E o que faremos com ela?
    — De aos seus cães. Mantenha a como companheira de cama. Que
    me importa? Ela nunca esteve aqui. Mandarei cortar a língua de qualquer
    homem que se atreva a dizer que esteve. Me compreendem?
    Osney e Osfryd trocaram um olhar.
    — Sim, Vossa Graça.
    Seguiu-os de volta ao quarto e ficou os vendo enrolarem a garota nos
    cobertores ensanguentados do pai. Shae, o nome dela era Shae. A última vez
    que tinham conversado fora na noite anterior ao julgamento por combate do
    anão, depois daquele dornês sorridente se ter oferecido como seu campeão.
    Shae inquirira acerca de umas jóias que Tyrion lhe oferecera, e de certas
    promessas que Cersei poderia ter feito, uma mansão na cidade e um

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Ter Jun 19, 2012 2:16 pm

    cavaleiro que a desposasse. A rainha tornara claro que a rameira não obteria
    nada dela até que lhes dissesse para onde fora Sansa Stark.
    — Era a aia dela. Espera que eu acredite que não sabia nada de seus
    planos? — dissera. Shae partira lavada em lágrimas.
    Sor Osfryd pôs o cadáver entrouxado ao ombro.
    — Quero aquela corrente — disse Cersei. — Assegure-se de não
    riscar o ouro. — Osfryd acenou com a cabeça e dirigiu-se à porta.
    — Não, pelo pátio não. — Gesticulou para a passagem secreta. —
    Há um poço que vai dar às masmorras. Por ali.
    Quando Sor Osfryd se apoiou num joelho à frente da lareira, a luz lá
    dentro tornou-se mais brilhante, e a rainha ouviu ruídos. Jaime emergiu,
    dobrado sobre si próprio como uma velha, com as botas a fazer voar
    nuvenzinhas de fuligem do último fogo de Lorde Tywin.
    — Sai da minha frente — disse aos Kettleblack. Cersei correu para
    ele.
    — Encontrou? Encontrou os assassinos? Quantos eram? — Decerto
    que teriam sido mais do que um. Um homem sozinho não poderia ter morto
    o pai deles.
    O rosto do gêmeo trazia um ar descomposto.
    — O poço desce até uma câmara onde se encontram meia dúzia de
    túneis. Estão fechados por portões de ferro, acorrentados e trancados. Tenho
    de encontrar chaves. — Lançou um relance pelo quarto. — Quem quer que
    tenha feito isto pode ainda estar escondido nas paredes. Aquilo ali é um
    labirinto, e escuro. — Cersei imaginou Tyrion a gatinhar entre as paredes
    como uma ratazana monstruosa. Não. Está sendo tola. O anão está na sua
    cela.
    — Arrebenta as paredes com martelos. Põe esta torre abaixo, se tiver
    de ser. Quero-os encontrados. Quem quer que tenha feito isto. Quero-os
    mortos. Jaime abraçou-a, com a mão boa a apertar-lhe o fundo das costas.
    Ele cheirava a cinza, mas tinha o sol da manhã no cabelo, dando-lhe um
    brilho dourado. Desejou puxar a cara dele para a sua e beija-lo. Mais tarde,
    disse a si própria, ele mais tarde virá ter comigo, para me confortar.
    — Somos os seus herdeiros, Jaime — sussurrou. — Nos cabe
    terminar a sua obra. Tens de tomar o lugar do pai como Mão. Agora vês isso,
    certamente. Tommen irá precisar de ti… Ele afastou-a e ergueu o braço,
    pondo-lhe o coto em frente dos olhos.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Ter Jun 19, 2012 2:16 pm

    — Uma Mão sem mão? Mau gracejo, irmã. Não me peças para
    governar. — O tio ouviu a recusa. Qyburn também, e os Kettleblack
    igualmente, lutando para fazer passar a sua trouxa pelas cinzas. Até os
    guardas ouviram, Puckens e Hoke e o Perna de Cavalo e o Orelha-Curta.
    Todo o castelo saberá ao cair da noite. Cersei sentiu o calor a subir-lhe ao
    rosto.
    — Governar? Nada disse de governar. Eu governarei até o meu filho
    ter idade.
    — Não sei de quem tenho mais pena — disse o irmão. — Se de
    Tommen, se dos Sete Reinos.
    Ela esbofeteou-o. O braço de Jaime ergueu-se para apanhar o golpe, com a
    rapidez de um gato… mas aquele gato tinha um coto de aleijado no lugar de
    uma mão direita. Os dedos dela deixaram marcas vermelhas da sua face.
    O som levou o tio a erguer-se.
    — O vosso pai jaz aqui morto. Tende a decência de levar a discussão
    lá para fora. — Jaime inclinou a cabeça, num pedido de desculpa.
    — Perdoai-nos, tio. A minha irmã está doente de dor. Ela esquece o
    que é próprio.
    Cersei desejou voltar a esbofeteá-lo por aquilo. Devia estar louca
    quando pensei que ele podia ser Mão. Mais depressa aboliria o cargo.
    Quando lhe teria uma Mão trazido algo além de pesar? Jon Arryn
    pusera Robert Baratheon na sua cama, e antes de morrer começara também a
    farejar em volta dela e de Jaime. Eddard Stark apanhara o fio à meada onde
    Arryn o deixara; a sua intromissão forçara-a a livrar-se de Robert mais
    depressa do que teria desejado, antes de ter tempo de tratar dos seus
    pestilentos irmãos. Tyrion vendera Myrcella aos dorneses, tomara um dos
    seus filhos como refém e assassinara o outro. E quando Lorde Tywin
    regressara a Porto Real… O próximo Mão conhecerá o seu lugar, prometeu
    a si própria.
    Teria de ser Sor Kevan. O tio era incansável, prudente,
    infalivelmente obediente. Poderia contar com ele, tal como o pai contara. A
    mão não discute com a cabeça. Tinha um reino para governar, mas teria
    necessidade de novos homens para a ajudar a governa-lo. Pycelle era um
    lambe botas trêmulo, Jaime perdera a coragem com a mão da espada, e Mace
    Tyrell e os seus amiguinhos Redwyne e Rowan não eram dignos de
    confiança. Tanto quanto sabia, podiam ter desempenhado um papel naquilo.
    O Lorde Tyrell tinha de saber que nunca governaria os Sete Reinos enquanto
    Tywin Lannister vivesse.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Ter Jun 19, 2012 2:16 pm

    Terei de me mover com cautela relativamente a esse. A cidade
    estava cheia dos seus homens, e ele até conseguira plantar um dos seus filhos
    na Guarda Real, e pretendia plantar a filha na cama de Tommen.
    Ainda a deixava furiosa pensar que o pai concordara em prometer
    Tommen a Margaery Tyrell. A garota tem o dobro da idade dele e é duas
    vezes viúva. Mace Tyrell afirmava que a filha ainda era virgem, mas Cersei
    tinha as suas dúvidas. Joffrey fora assassinado antes de se poder deitar com a
    garota, mas ela fora primeiro casada com Renly… Um homem pode preferir
    o sabor do hipocraz, mas se puser uma caneca de cerveja na sua frente,
    emborca-a bem depressa. Teria de ordenar ao Lorde Varys para descobrir o
    que pudesse.
    Aquilo a fez estacar. Esquecera-se de Varys. Ele devia estar aqui.
    Está sempre aqui. Sempre que algo de importância acontecia na Fortaleza
    Vermelha, o eunuco aparecia como que saído de parte nenhuma.
    Jaime está aqui, bem como o tio Kevan, Pycelle chegou e partiu,
    mas Varys não. Um dedo frio tocou-lhe a espinha. Ele participou nisto. Deve
    ter temido que o pai quisesse cortar-lhe a cabeça, portanto atacou primeiro.
    O Lorde Tywin nunca sentira nenhuma amizade pelo afetado mestre
    dos sussurros. E se havia homem que conhecia os segredos da Fortaleza
    Vermelha, era certamente o mestre dos sussurros. Ele deve ter feito causa
    comum com Lorde Stannis. Afinal de contas, serviram juntos no conselho de
    Robert…
    Cersei dirigiu-se à porta do quarto, para falar com Sor Meryn Trant.
    — Trant, traga-me o Lorde Varys. Guinchando e esperneando, se
    tiver de ser, mas ileso.
    — Às ordens de Sua Graça.
    Mas assim que um homem da Guarda Real partiu, outro regressou.
    Sor Boros Blount estava corado e ofegava da corrida precipitada pelos
    degraus acima.
    — Desapareceu — arquejou, quando viu a rainha. Caiu sobre um
    joelho. — O Duende… tem a cela aberta, Vossa Graça… não há sinal dele
    em sítio nenhum… — O sonho era verdadeiro.
    — Eu dei ordens — disse. — Ele deveria ser mantido sob guarda, de
    dia e de noite…
    O peito de Blount palpitava.
    — Um dos carcereiros também desapareceu. Chamava-se Rugen.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Ter Jun 19, 2012 2:16 pm

    Dois outros homens foram encontrados a dormir.
    Foi com dificuldade que evitou gritar.
    — Espero que não os tenha acordado, Sor Boros. Deixe-os dormir.
    — Dormir? — Ergueu o olhar, queixudo e confuso. — Sim, Vossa
    Graça. Quanto tempo deverá…
    — Para sempre. Certifique-se de que eles durmam para sempre, sor.
    Não admitirei que guardas durmam em serviço. — Ele está nas paredes. Ele
    matou o pai, tal como matou a mãe, e tal como matou Joff.
    O anão também viria atrás dela, a rainha sabia, tal como a velha
    vaticinara na escuridão daquela tenda. Eu ri na cara dela, mas a mulher
    tinha poderes. Vi o meu futuro numa gota de sangue. A minha perdição.
    Sentia as pernas fracas como água. Sor Boros tentou pegar-lhe no
    braço, mas a rainha afastou-se do seu toque. Tanto quanto sabia, ele podia
    ser uma das criaturas de Tyrion.
    — Afaste-se de mim — disse. — Afaste-se! — Cambaleou até um
    banco.
    — Vossa Graça? — disse Blount. — Deverei ir buscar uma taça de
    água? — Eu preciso é de sangue, não de água. O sangue de Tyrion, o
    sangue do valonqar.
    Os archotes rodopiaram à sua volta. Cersei fechou os olhos, e viu o
    anão a sorrir-lhe. Não, pensou, não, já me tinha quase visto livre de ti. Mas
    os dedos dele tinham-se fechado em torno do seu pescoço, e sentia-os a
    começar a apertar.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Qua Jun 20, 2012 2:16 pm

    Arya 110


    A luz ardia tênue e distante, baixa no horizonte, brilhando através das
    névoas marítimas.
    — Parece uma estrela — disse Arya.
    — A estrela do lar — disse Denyo.
    O pai dele gritava ordens. Marinheiros subiam e desciam os três
    grandes mastros e moviam-se pelo cordame, recolhendo as pesadas velas
    púrpuras. Em baixo, remadores arquejavam e esforçavam-se em duas
    grandes fileiras de remos. Os conveses inclinaram-se, rangendo, quando a
    galeota Filha do Titã adernou para estibordo e começou a mudar de bordo.
    A estrela do lar. Arya estava em pé, à proa, com uma mão pousada
    na figura de proa dourada, uma donzela que segurava uma cesta de frutas.
    Durante meio segundo permitiu-se fingir que o que tinha em frente era o seu
    lar.
    Mas isso era estúpido. O seu lar desaparecera, os pais estavam
    mortos, e todos os irmãos tinham sido assassinados, salvo Jon Snow, que
    estava na Muralha. Fora para aí que quisera ir. Dissera isso mesmo ao
    capitão, mas nem mesmo a moeda de ferro conseguira convencê-lo. Arya
    nunca parecia encontrar os lugares que se propunha alcançar. Yoren jurara
    entregá-la em Winterfell, mas acabara em Harrenhal e Yoren na sepultura.
    Quando fugira de Harrenhal em direção de Correrio, o Lem, Anguy e o Tom
    das Sete a capturaram e arrastaram-na em vez disso para o monte oco. Então
    o Cão de Caça a raptara e a arrastara para as Gêmeas. Arya deixara-o
    moribundo junto ao rio e prosseguira até Salinas, esperando arranjar
    passagem para Atalaialeste-do-Mar, só que…
    Bravos pode não ser muito mau. Syrio era de Bravos, e Jaqen
    também pode estar lá. Fora Jaqen quem lhe dera a moeda de ferro. Ele não
    fora realmente seu amigo, como Syrio fora, mas que bem lhe tinham feito os
    amigos? Não preciso de amigos, desde que tenha a Agulha. Esfregou a ponta
    do polegar no suave botão de punho da espada, desejando, desejando…
    Na verdade, Arya não sabia o que desejar, tal como não sabia o que
    a esperava sob aquela luz distante. O capitão dera-lhe passagem, mas não
    tivera tempo de conversar com ela. Alguns dos membros da tripulação a
    evitavam, mas outros lhe davam presentes — um garfo de prata, luvas sem
    dedos, um chapéu mole de lã remendado com couro. Um homem mostraralhe
    como fazer nós de marinheiro. Outro lhe servia dedais de vinho ardente.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Qua Jun 20, 2012 2:17 pm

    Os amigáveis batiam nos peitos, dizendo os nomes uma e outra vez até que
    Arya os repetisse, embora nenhum tivesse tido a ideia de perguntar o seu
    nome. A chamavam de Salgada, visto ter embarcado em Salinas, perto da foz
    do Tridente. Supunha que era um nome tão bom como qualquer outro.
    As últimas das estrelas da noite tinham desaparecido… todas menos
    o par que estava mesmo em frente.
    — Agora são duas estrelas.
    — Dois olhos — disse Denyo. — O Titã está nos vendo.
    O Titã de Bravos. A Velha Ama contara-lhes histórias sobre o Titã,
    em Winterfell. Era um gigante alto como uma montanha, e sempre que
    Bravos estava em perigo acordava com fogo nos olhos, fazendo trovejar e
    ranger os membros de pedra enquanto entrava no mar para esmagar os
    inimigos.
    — Os bravosianos o alimentam com a carne sumarenta e cor-de-rosa
    de garotinhas bem nascidas — terminava Velha Ama, e Sansa soltava um
    guincho estúpido. Mas o Meistre Luwin dizia que o Titã era apenas uma
    estátua, e as histórias da Velha Ama não passavam de histórias.
    Winterfell ardeu e caiu, recordou Arya a si própria. A Velha Ama e
    o Meistre Luwin estavam ambos mortos, provavelmente, e Sansa também.
    Não fazia bem nenhum pensar neles. Todos os homens têm de morrer. Era
    isso que as palavras queriam dizer, as palavras que Jaqen H’ghar lhe
    ensinara quando lhe dera a gasta moeda de ferro.
    Aprendera mais palavras bravosianas desde que deixara Salinas, as
    palavras para por favor, obrigado, mar, estrela e vinho ardente, mas chegara
    até eles sabendo que todos os homens têm de morrer. A maior parte da
    tripulação da Filha conhecia um pouco do idioma comum, das noites
    passadas em terra, em Vilavelha, Porto Real e Lagoa da Donzela, embora
    apenas o capitão e os filhos o falassem suficientemente bem para conversar
    com ela. Denyo era o mais novo desses filhos, um rapaz gorducho e alegre
    de doze anos que cuidava da cabina do pai e ajudava o irmão mais velho
    com as somas.
    — Espero que o seu Titã não esteja com fome — disse-lhe Arya.
    — Fome? — disse Denyo, confuso.
    — Não interessa. — Mesmo se o Titã realmente comesse carne
    sumarenta e rosada de garotinhas, Arya não o temeria. Era uma coisinha
    magricela, não uma refeição decente para um gigante, e tinha quase onze

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Qua Jun 20, 2012 2:18 pm

    anos, praticamente uma mulher feita. E, além disso, a Salgada não é bemnascida.
    — O Titã é o deus de Bravos? — perguntou. — Ou são os Sete?
    — Todos os deuses são honrados em Bravos. — O filho do capitão
    gostava quase tanto de falar sobre a sua cidade como gostava de falar sobre o
    navio do pai.
    — Os seus Sete têm aqui um septo, o Septo-do-Ultramar, mas só os
    marinheiros de Westeros que vão cultuá-los.
    Não são os meus Sete. Eram os deuses da minha mãe, e deixaram
    que os Frey a assassinassem nas Gêmeas. Perguntou a si própria se
    encontraria um bosque sagrado em Bravos, com um represeiro no coração.
    Denyo talvez soubesse, mas não lhe podia perguntar. A Salgada era de
    Salinas, e o que saberia uma garota de Salinas dos velhos deuses do norte?
    Os velhos deuses estão mortos, disse a si própria, com a Mãe, o Pai, Robb,
    Bran e Rickon, todos mortos. Lembrava-se do pai ter dito há muito tempo
    que quando os ventos frios sopram, o lobo solitário morre e a alcatéia
    sobrevive. Agora tinha as coisas ao contrário. Arya, a loba solitária,
    sobrevivia, mas os lobos da alcatéia tinham sido capturados, mortos e
    esfolados.
    — Os Cantores da Lua nos trouxe para este refúgio, onde os dragões
    de Valíria não conseguissem nos encontrar — disse Denyo. — O templo
    deles é o maior. Estimamos também o Pai das Águas, mas a sua casa é
    construída de novo sempre que toma a sua noiva. O resto dos deuses vivem
    juntos numa ilha no centro da cidade. É aí que você pode encontrar o… o
    Deus das Muitas Caras.
    Os olhos do Titã pareciam agora brilhantes, e mais afastados um do
    outro. Arya não conhecia nenhum Deus das Muitas Caras, mas se respondia
    a preces, podia ser o deus que procurava. Sor Gregor, ela pensou, Dunsen,
    Raff, o Querido, Sor Ilyn, Sor Meryn, Rainha Cersei. São apenas seis agora.
    Joffrey estava morto, o Cão de Caça matara Polliver e ela própria apunhalara
    o Cócegas, e aquele estúpido escudeiro com a espinha. Não o teria morto se
    ele não me tivesse agarrado. O Cão de Caça estava moribundo quando o
    deixara nas margens do Tridente, ardendo em febre devido ao ferimento.
    Devia ter-lhe oferecido a dádiva da misericórdia e enfiado uma faca no seu
    coração.
    — Salgada, olha! — Denyo puxou-a pelo braço e a fez virar. —
    Consegue ver? Ali. — E apontou.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Qua Jun 20, 2012 2:18 pm

    As névoas cederam à frente do navio, cortinas cinzentas esfarrapadas
    afastadas pela proa. A Filha do Titã abria caminho através das águas cinzaesverdeadas,
    apoiada em asas enfunadas de cor púrpura. Arya ouvia os gritos
    das aves marinhas por cima da sua cabeça. Ali, no local para onde Denyo
    apontava, uma linha de picos rochosos erguia-se de súbito do mar, com
    vertentes íngremes cobertas de pinheiros marciais e abetos negros. Mas
    mesmo em frente o mar abrira caminho, e aí, sobre as águas abertas, erguiase
    o Titã, com os seus olhos em fogo e o seu longo cabelo verde soprado
    pelo vento.
    As suas pernas erguiam-se sobre a abertura, com um pé plantado em
    cada montanha, e os ombros a subir bem acima dos cumes irregulares. As
    pernas tinham sido esculpidas na pedra sólida, o mesmo granito negro dos
    montes submarinos sobre os quais se erguia, embora usasse em torno dos
    quadris uma saia couraçada de bronze esverdeado. A placa de peito era
    também de bronze e a cabeça era um meio elmo com crista. O cabelo que o
    vento soprava era feito de cordas de cânhamo tingidas de verde, e enormes
    fogueiras ardiam nas grutas que eram os seus olhos. Uma mão descansava no
    topo do pico da esquerda, com dedos de bronze enrolados em volta de uma
    protuberância de pedra; a outra projetava-se no ar, agarrando o cabo de uma
    espada quebrada.
    É só um pouco maior do que a estátua do Rei Baelor em Porto Real,
    disse ela a si própria quando ainda se encontravam bem ao largo. Mas à
    medida que a galeota se aproximou do local onde as ondas rebentavam
    contra a cumeada, o Titã cresceu ainda mais. Arya ouvia o pai de Denyo a
    berrar ordens com a sua voz profunda, e, no cordame, os homens enrolavam
    as velas. Vamos passar por baixo das pernas do Titã a remos. Arya viu as
    seteiras abertas na grande placa de peito em bronze, e manchas e salpicos
    nos braços e ombros do Titã, nos locais onde as aves marinhas faziam os
    ninhos. Esticou o pescoço para cima. Baelor, o Abençoado, não lhe chegaria
    ao joelho. Podia passar por cima das muralhas de Winterfell.
    Então o Titã soltou um poderoso rugido. O som foi tão monstruoso
    como ele, um terrível trovejar e ranger, tão forte que até encobriu a voz do
    capitão e o estrondo que as ondas faziam contra aquelas elevações revestidas
    de pinheiros. Um milhar de aves marinhas levantou voo ao mesmo tempo, e
    Arya encolheu-se até ver que Denyo estava rindo.
    — Ele previne o Arsenal da nossa chegada, é só isso — gritou. —
    Não precisa ter medo.
    — Não tive — gritou Arya em resposta. — Foi do barulho, só isso.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Qua Jun 20, 2012 2:18 pm

    O vento e as ondas tinham agora a Filha do Titã bem presa nas
    mãos, empurrando-a rapidamente para o canal. A dupla fileira de remos
    mergulhava ritmicamente, fustigando o mar com espuma branca enquanto a
    sombra do Titã caía sobre eles. Por um momento pareceu certo que iriam se
    esmagar contra as rochas sob as pernas dele. Aninhada à proa com Denyo,
    Arya sentia o sabor do sal onde a maresia lhe tocara o rosto. Tinha que olhar
    diretamente para cima para ver a cabeça do Titã.
    — Os bravosianos alimentam-no com a carne sumarenta e cor-derosa
    de garotinhas bem nascidas — ouviu de novo a Velha Ama dizer, mas
    ela não era uma garotinha, e não iria se deixar assustar por causa de uma
    estúpida estátua. Mesmo assim, manteve uma mão pousada na Agulha
    enquanto se esgueiravam por entre as pernas do Titã. Mais seteiras
    pontilhavam o interior daquelas grandes coxas de pedra, e quando Arya
    virou o pescoço para ver o cesto da gávea passar com uns bons dez metros
    de folga, vislumbrou alçapões por baixo das saias couraçadas do Titã, e
    rostos pálidos a fitá-los de detrás das barras de ferro. E então estavam do
    lado de lá.
    A sombra ergueu-se, as elevações cobertas de pinheiros afastaram-se
    de ambos os lados, os ventos reduziram-se, e acharam-se em movimento por
    uma grande lagoa. Em frente erguia-se outro monte submarino, uma
    protuberância de rocha que se projetava da água como um punho coberto de
    espigões, com ameias rochosas eriçadas de balistas, catapultas de fogo e
    trabucos.
    — O Arsenal de Bravos — chamou-lhe Denyo, tão orgulhoso como
    se o tivesse construído. — Ali conseguem construir uma galé de guerra num
    dia. — Arya via dezenas de galés amarradas ao cais e empoleiradas em
    rampas de lançamento. As proas pintadas de outras galés espreitavam de
    dentro de um sem-número de galpões de madeira erguidos ao longo das
    costas rochosas, como se fossem cães de caça num canil, esguias, más e
    famintas, à espera de serem chamadas pelo corno de um caçador. Tentou
    contá-las, mas havia muitas, e viam-se mais docas, galpões e cais onde a
    linha da costa fazia uma curva e se afastava.
    Duas galés tinham vindo ao seu encontro. Pareciam pairar sobre a
    água como libélulas, com os remos de cor clara a relampejar. Arya ouviu o
    capitão gritar para elas e os capitães delas responderem, mas não
    compreendeu as palavras. Um grande corno soou. As galés puseram-se de
    ambos os lados do navio deles, tão próximas que conseguia ouvir o som
    abafado dos tambores a soar dentro dos seus cascos de cor púrpura, bum bum
    bum bum bum bum bum bum, como o bater de corações vivos.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Qua Jun 20, 2012 2:19 pm

    Então as galés ficaram para trás, e o Arsenal também. Em frente
    estendeu-se uma vastidão de água cor de ervilha, encrespada como uma
    folha de vidro colorido. Do seu coração úmido ergueu-se a cidade
    propriamente dita, uma grande extensão de cúpulas, torres e pontes,
    cinzentas, douradas e vermelhas. As cem ilhas de Bravos no mar.
    O Meistre Luwin lhe havia falado sobre Bravos, mas Arya esquecera
    a maior parte do que ele dissera. Era uma cidade plana, isso ela podia ver
    mesmo de longe, ao contrário de Porto Real, que se erguia nas suas três
    grandes colinas. As únicas colinas que ali havia eram aquelas que os homens
    tinham erguido com tijolo e granito, bronze e mármore. Havia algo mais em
    falta, embora Arya demorasse alguns momentos a compreender o que era. A
    cidade não tem muralhas. Mas quando disse isso a Denyo, ele riu dela.
    — As nossas muralhas são feitas de madeira e pintadas de púrpura — disselhe.
    — As nossas muralhas são as nossas galés. Não precisamos de outras.
    O convés rangeu sob os seus pés. Arya virou-se para descobrir o pai
    de Denyo a erguer-se acima dela com o seu grande casaco de capitão feito de
    lã púrpura. O Capitão mercador Ternesio Terys não usava barba e mantinha
    o cabelo grisalho curto e bem tratado, emoldurando o rosto quadrado e
    queimado pelo sol. Durante a travessia o vira com frequência a trocar
    brincadeiras com a tripulação, mas quando franzia a testa, os homens fugiam
    dele como quem foge de uma tempestade. Ele estava de cenho franzido
    agora.
    — A nossa viagem está no fim — disse a Arya. — Vamos para o
    Porto Axadrezado, onde os oficiais da alfândega do Senhor do Mar virão a
    bordo inspecionar os nossos porões. Levarão nisso meio dia, sempre levam,
    mas não há necessidade de que você espere. Junte as suas coisas. Vou baixar
    um bote, e Yorko vai colocá-la em terra.
    Em terra. Arya mordeu o lábio. Atravessara o mar estreito para
    chegar ali, mas se o capitão tivesse perguntado, teria lhe dito que queria ficar
    a bordo da Filha do Titã. A Salgada era pequena demais para manejar um
    remo, agora sabia disso, mas podia aprender a amarrar cordas e a rizar velas
    e a traçar um rumo através do grande mar salgado. Denyo a levara uma vez
    até ao cesto da gávea, e não tivera medo nenhum, embora o convés parecesse
    uma coisinha minúscula lá em baixo. E também sei fazer somas, e manter
    uma cabine arrumada. Mas a galeota não precisava de um segundo moço de
    cabina. Além do mais, bastava olhar para a cara do capitão para saber como
    ele estava ansioso por se ver livre dela. Portanto, Arya limitou-se a anuir.
    — Em terra firme — disse, embora em terra significasse apenas
    estranhos.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Qua Jun 20, 2012 2:19 pm

    — Valar dohaeris. — Levou dois dedos à testa. — Peço que se
    lembre de Ternesio Terys e do serviço que ele te prestou.
    — Eu lembrarei — disse Arya em voz baixa. O vento lhe puxava
    pelo manto, insistente como um fantasma. Era tempo de ir embora. Junte as
    suas coisas, dissera o capitão, mas elas eram bem poucas.
    Só as roupas que usava, a sua pequena bolsa de moedas, os presentes
    que a tripulação lhe dera, o punhal que trazia no quadril à esquerda e a
    Agulha que usava à direita.
    O bote ficou pronto antes dela, e Yorko pôs-se aos remos. Era
    também filho do capitão, mas mais velho do que Denyo e menos amigável.
    Não cheguei a me despedir de Denyo, pensou enquanto descia para se juntar
    a Yorko. Ela se perguntou se algum dia voltaria a ver o rapaz. Eu devia ter
    dito adeus.
    A Filha do Titã diminuía, enquanto a cidade crescia a cada
    movimento dos remos de Yorko. Um porto estava visível à direita, um
    emaranhado de piers e cais repletos de baleeiros de casco largo vindos de
    Ibben, navios cisne das Ilhas do Verão, e mais galés do que uma garota
    conseguiria contar. Outro porto, mais distante, via-se à esquerda, para lá de
    uma ponta de terreno afundado, onde os topos de edifícios meio afogados se
    projetavam da água. Arya nunca vira tantos edifícios de grandes dimensões
    juntos num mesmo lugar. Porto Real tinha a Fortaleza Vermelha, o Grande
    Septo de Baelor e o Fosso dos Dragões, mas Bravos parecia fazer alarde de
    inúmeros templos, torres e palácios de igual tamanho ou até maiores.
    Voltarei a ser um rato, pensou sombriamente, tal como era em Harrenhal
    antes de fugir.
    De onde o Titã se encontrava, a cidade parecera construída numa
    grande ilha, mas à medida que Yorko os levava para mais perto, Arya foi
    vendo que se erguera em muitas ilhas pequenas e muito próximas, ligadas
    por pontes arqueadas de pedra que transpunham um sem-número de canais.
    Para lá do porto, vislumbrou ruas de casas de pedra cinzenta, tão próximas
    umas das outras que se encostavam. Aos olhos de Arya tinham um aspecto
    estranho, com quatro e cinco andares de altura e muito estreitas, com
    telhados de telha pontiagudos que eram como chapéus bicudos. Não viu
    colmo, e viu apenas algumas casas de madeira, do tipo que conhecia de
    Westeros. Eles não têm árvores, compreendeu. Bravos é toda em pedra, uma
    cidade cinzenta num mar verde.
    Yorko virou para norte das docas e para o interior da desembocadura
    de um grande canal, uma larga estrada aquática e verde que corria em linha
    reta para o coração da cidade. Passaram sob os arcos de uma ponte de pedra

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Qua Jun 20, 2012 2:19 pm

    esculpida, decorada com meia centena de espécies de peixes, caranguejos e
    lulas. Uma segunda ponte surgiu em frente, esta esculpida com vinhedos
    frondosos, e depois dessa uma terceira, que os fitava com centenas de olhos
    pintados. As embocaduras de canais menores abriam-se de ambos os lados, e
    as de outros ainda menores abriam-se nesses. Arya viu que algumas das
    casas eram construídas por cima dos canais, transformando-os numa espécie
    de túnel. Barcos esguios deslizavam de um lado para o outro, talhados de
    modo a tomarem a forma de serpentes aquáticas com cabeças pontiagudas e
    caudas erguidas. Arya viu que esses barcos não se moviam a remos, mas sim
    à vara, por homens que se mantinham em pé nas suas popas, envoltos em
    mantos cinzentos, castanhos ou de um profundo verde musgo. Viu também
    enormes barcaças de fundo chato, carregadas com grandes pilhas de caixotes
    e barris e empurradas por vinte remadores de cada lado, e elegantes casas
    flutuantes com lanternas de vidro colorido, cortinas de veludo e figuras de
    bronze à proa.
    A uma grande distância, erguendo-se tanto sobre os canais como
    sobre as casas, via-se uma espécie de maciça estrada de pedra, suportada por
    três camadas de poderosos arcos que marchavam para sul, para o interior da
    neblina.
    — O que é aquilo? — perguntou Arya a Yorko, apontando.
    — O rio de água doce — disse-lhe ele. — Traz água doce do
    continente, através dos mangues e dos baixios salgados. Boa água doce para
    as fontes.
    Quando ela olhou para trás, o porto e a lagoa estavam fora de vista.
    Em frente, uma fileira de grandes estátuas erguia-se de ambos os lados do
    canal, homens solenes de pedra com longas vestes de bronze, salpicados com
    os excrementos de aves marinhas. Alguns seguravam livros, outros punhais,
    outros martelos. Um tinha uma estrela dourada na mão erguida. Outro, com
    um jarro de pedra, derramava um infindável jorro de água no canal.
    — São deuses? — perguntou Arya.
    — Senhores do Mar — disse Yorko. — A Ilha dos Deuses é mais
    adiante. Vê? Seis pontes abaixo, na margem direita. Aquele é o Templo dos
    Cantores da Lua.
    Era um daqueles edifícios que Arya vislumbrara da lagoa, uma
    massa grandiosa de mármore branco como a neve, encimada por uma
    enorme cúpula prateada, cujas janelas de vidro leitoso mostravam todas as
    fases da lua. Um par de donzelas de mármore flanqueava os seus portões, tão
    altas como os Senhores do Mar, suportando um lintel em forma de crescente.
    Depois erguia-se outro templo, um edifício de pedra vermelha, tão severo

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Qua Jun 20, 2012 2:19 pm

    como qualquer fortaleza. No topo da sua grande torre quadrada ardia uma
    fogueira num braseiro de ferro com seis metros de largura, enquanto
    fogueiras menores flanqueavam as suas portas de bronze.
    — Os sacerdotes vermelhos adoram as suas fogueiras — disse
    Yorko. — O seu deus é o Senhor da Luz, o R’hllor vermelho.
    Eu sei. Arya lembrou-se de Thoros de Myr com os seus pedaços
    velhos de armadura, usados sobre vestes tão desbotadas que parecia mais um
    sacerdote cor-de-rosa do que vermelho. Mas o seu beijo trouxera o Lorde
    Beric de volta à vida. Observou a casa do deus vermelho enquanto passava
    por ela, perguntando a si mesma se aqueles sacerdotes bravosianos de
    R’hllor seriam capazes de fazer a mesma coisa.
    A seguir surgiu uma enorme estrutura de tijolo coberta de líquenes.
    Arya poderia tê-la tomado por um armazém, se Yorko não tivesse dito:
    — Aquele é o Refúgio Sagrado, onde honramos os deuses menores
    que o mundo esqueceu. Você também pode ouvir a chamarem de Coelheira.
    — Um pequeno canal corria entre as altas paredes cobertas de líquens da
    Coelheira, e foi aí que ele virou o barco para a direita. Passaram por um
    túnel e voltaram a sair para a luz do dia. Mais templos se erguiam de ambos
    os lados.
    — Não sabia que existiam tantos deuses — disse Arya.
    Yorko soltou um grunhido. Fizeram uma curva e passaram por baixo
    de outra ponte. À esquerda surgiu um pequeno monte rochoso com um
    templo sem janelas de pedra cinzenta escura no topo. Um lance de escadas
    de pedra levava das suas portas a uma doca coberta. Yorko inverteu o
    sentido da remada, e o bote colidiu suavemente com estacas de pedra.
    Agarrou numa argola de ferro destinada a segura-los por um momento.
    — É aqui que te deixo.
    A doca estava na sombra, os degraus eram íngremes. O telhado de
    telhas negras do templo fazia um bico aguçado, como os das casas ao longo
    dos canais. Arya mordeu o lábio. Syrio veio de Bravos. Pode ter visitado este
    templo. Pode ter subido estes degraus. Agarrou numa argola e içou-se para a
    doca.
    — Sabe o meu nome — disse Yorko de dentro do barco. — Yorko
    Terys.
    — Valar dohaeris. — Empurrou o cais com o remo e flutuou para
    águas mais profundas. Arya ficou a vê-lo remar de volta por onde tinham
    vindo, até que o barco desapareceu nas sombras da ponte. Quando o

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Qua Jun 20, 2012 2:19 pm

    marulhar dos remos desapareceu, quase conseguiu ouvir o bater do seu
    coração. De súbito, estava noutro lugar… de volta a Harrenhal com Gendry,
    talvez, ou com o Cão de Caça nas florestas ao longo do Tridente.
    A Salgada é uma criança estúpida, disse a si própria. Sou uma loba,
    e não vou ter medo. Afagou o cabo da Agulha para lhe dar sorte e mergulhou
    nas sombras, subindo os degraus dois a dois para que ninguém pudesse
    alguma vez dizer que tinha medo.
    No topo encontrou um conjunto de portas esculpidas em madeira
    com três metros e meio de altura. A porta da esquerda era feita de represeiro
    branco como osso, a da direita de reluzente ébano. No centro encontrava-se
    esculpido um rosto de lua; ébano do lado do represeiro, represeiro no do
    ébano. O aspecto das portas a fez se lembrar, sem saber porquê, da árvore
    coração no bosque sagrado de Winterfell. As portas estão me observando,
    pensou. Empurrou ambas as portas ao mesmo tempo com o lado das mãos
    enluvadas, mas nenhuma se moveu. Trancadas.
    — Me deixem entrar, suas estúpidas — disse. — Atravessei o mar
    estreito. — Fez um punho e bateu. — Jaqen me disse para vir. Tenho a
    moeda de ferro. — Tirou-a da bolsa e a mostrou. — Vê? Valar morghulis.
    As portas não responderam, exceto abrindo-se.
    Abriram para dentro, num silêncio total, sem mão humana que as
    movesse. Arya deu um passo em frente, e depois outro. As portas fecharamse
    atrás dela, e por um momento ficou cega. Tinha a Agulha na mão, embora
    não se recordasse de a ter desembainhado.
    Algumas velas ardiam ao longo das paredes, mas davam tão pouca
    luz que Arya não conseguia ver os próprios pés. Alguém estava a sussurrar,
    baixo demais para que distinguisse palavras. Outra pessoa chorava. Ouviu
    passos leves, couro a deslizar sobre pedra, uma porta a abrir e a fechar.
    Água, também ouço água.
    Lentamente, os olhos ajustaram-se. O templo parecia muito maior
    por dentro do que parecera de fora. Os septos de Westeros tinham sete lados,
    com sete altares para os sete deuses, mas ali havia mais deuses do que sete.
    Estátuas deles erguiam-se ao longo das paredes, maciças e ameaçadoras. Em
    volta dos seus pés, velas vermelhas tremeluziam, tênues como estrelas
    distantes. O deus mais próximo era uma mulher de mármore com seis metros
    e meio de altura. Lágrimas verdadeiras escorriam dos olhos e iam encher a
    bacia que embalava nos braços. Atrás dela estava um homem com cabeça de
    leão sentado num trono, esculpido em ébano. Do outro lado das portas, um
    enorme cavalo de bronze e ferro empinava-se em duas grandes patas. Mais
    adiante conseguia distinguir um grande rosto de pedra, um bebê pálido com

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Qua Jun 20, 2012 2:19 pm

    uma espada, uma cabra preta com o pelo emaranhado do tamanho de um
    auroque, um homem encapuzado apoiado num bastão. O resto era para ela
    apenas grandes silhuetas, entrevistas na escuridão. Entre os deuses havia
    alcovas escondidas, carregadas de sombras, aqui e ali com uma vela a arder.
    Silenciosa como uma sombra, Arya avançou por entre filas de
    longos bancos de pedra, de espada na mão. Os pés disseram-lhe que o chão
    era feito de pedra; não de mármore polido como o chão do Grande Septo de
    Baelor, mas algo mais áspero. Passou por algumas mulheres que
    sussurravam juntas. O ar estava quente e pesado, tão pesado que bocejou.
    Sentiu o cheiro das velas. O odor não era familiar, e atribuiu-o a algum tipo
    estranho de incenso, mas à medida que penetrava mais profundamente no
    templo, elas pareceram cheirar a neve, a agulhas de pinheiro e a cozido
    quente. Bons cheiros, disse Arya a si mesma, e se sentiu um pouco mais
    corajosa. Suficientemente corajosa para voltar a embainhar Agulha.
    No centro do templo encontrou a água que ouvira; um tanque com
    três metros de largura, negro como tinta e iluminado por fracas velas
    vermelhas. Ao lado encontrava-se sentado um homem jovem com um manto
    prateado, chorando baixinho. O viu mergulhar uma mão na água, fazendo
    ondulações atravessarem o tanque. Quando tirou os dedos da água chupouos,
    um por um. Deve ter sede. Havia taças de pedra ao longo da borda do
    tanque. Arya encheu uma e levou para ele beber. O jovem fitou-a por um
    longo momento quando lhe ofereceu a água.
    — Valar morghulis — disse.
    — Valar dohaeris — respondeu ela.
    Ele bebeu até ao fim e deixou cair a taça no tanque com um plop
    suave. Então pôs-se em pé, cambaleando, segurando a barriga. Por um
    momento, Arya pensou que o homem ia cair. Foi só então que viu a mancha
    escura sob o seu cinto, que se espalhava perante os seus olhos.
    — Você foi esfaqueado — exclamou, mas o homem não lhe deu
    atenção. Arrastou-se na direção da parede com um andar instável, e enfiouse
    numa alcova, estendendo-se numa dura cama de pedra. Quando Arya
    olhou em volta, viu outras alcovas. Em algumas havia velhos dormindo.
    Não, pareceu ouvir uma voz meio lembrada a sussurrar na sua
    cabeça. Estão mortos, ou a morrer. Olha com os olhos.
    Uma mão tocou seu braço. Arya rodopiou para longe, mas era só
    uma menininha: uma menininha pálida usando uma veste encapuzada que a
    parecia engolir, negra do lado direito e branca do esquerdo. Sob o capuz

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Qua Jun 20, 2012 2:20 pm

    estava uma cara lúgubre e ossuda, um rosto chupado, e olhos escuros que
    pareciam grandes como pires.
    — Não me agarre — disse Arya à criança abandonada, num aviso.
    — Matei o último rapaz que me agarrou.
    A menina disse algumas palavras que Arya não reconheceu. Ela
    balançou a cabeça.
    — Você não fala o idioma comum?
    Uma voz atrás dela disse:
    — Eu falo.
    Arya não gostava da maneira como não paravam de a surpreender. O
    homem encapuzado era alto, envolto numa versão maior da veste preta e
    branca que a menina usava. Sob o capuz, tudo o que ela conseguia ver era a
    tênue cintilação vermelha da luz das velas, que refletia nos olhos.
    — Que lugar é este? — perguntou.
    — Um lugar de paz. — A voz do homem era gentil. — Aqui está em
    segurança. Esta é a Casa do Preto e Branco, filha. Embora seja nova para
    procurar o favor do Deus de Muitas Faces.
    — É como o deus do sul, aquele com sete rostos?
    — Sete? Não. As faces dele são incontáveis, pequena, tantas como
    as estrelas que há no céu. Em Bravos, os homens rezam como entenderem…
    mas no fim de todos os caminhos está O das Muitas Faces, à espera. Ele
    estará lá para ti um dia, não temas. Não precisas correr para os seus braços.
    — Só vim à procura de Jaqen H’ghar.
    — Não conheço esse nome.
    O coração de Arya afundou-se.
    — Ele era de Lorath. O cabelo era branco de um lado e vermelho do
    outro. Disse que me ensinaria segredos, e me deu isto. — Tinha a moeda de
    ferro apertada no punho. Quando abriu os dedos ficou colada à palma suada
    da sua mão.
    O sacerdote estudou a moeda, embora não tenha feito nenhum
    movimento para lhe tocar. A criança abandonada dos olhos grandes também
    estava a olhá-la. Por fim, o homem encapuzado disse:
    — Diz-me o teu nome, filha.
    — Salgada. Venho de Salinas, junto do Tridente.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Qua Jun 20, 2012 2:20 pm

    Embora não conseguisse ver o rosto, de algum modo sentiu o velho
    sorrir.
    — Não — disse o homem. — Diz-me o teu nome.
    — Pombinha — respondeu daquela vez.
    — O teu nome verdadeiro, filha.
    — A minha mãe me chamou Nan, mas todos me chamavam de
    Doninha…
    — O teu nome.
    Arya engoliu em seco.
    — Arry. Sou Arry.
    — Está mais perto. E agora a verdade?
    O medo golpeia mais profundamente que as espadas, disse a si
    mesma.
    — Arya. — Da primeira vez murmurou a palavra. Da segunda
    atirou-a. — Sou Arya, da Casa Stark.
    — Pois é — disse ele — mas a Casa do Preto e Branco não é lugar
    para Arya da Casa Stark.
    — Por favor — disse ela. — Não tenho lugar para onde ir.
    — Temes a morte?
    Arya mordeu o lábio.
    — Não.
    — Vejamos. — O sacerdote baixou o capuz. Por baixo não tinha
    rosto; só uma caveira amarelada com uns restos de pele ainda agarrados às
    bochechas, e um verme branco a se contorcer numa órbita vazia. — Beijame,
    filha — crocitou, numa voz tão seca e enrouquecida como o matraquear
    da morte.
    Será que ele quer me assustar? Arya beijou-o no lugar onde o nariz
    deveria estar e tirou-lhe o verme do olho tencionando come-lo, mas ele
    derreteu-se como uma sombra na sua mão. A caveira amarela também estava
    a derreter-se, e o velho mais amável que já vira sorria para ela.
    — Nunca ninguém tinha tentado comer o meu verme — disse. —
    Tens fome, filha?
    Sim, pensou ela, mas não de comida.

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    Re: O Festim dos Corvos

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