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    O Festim dos Corvos

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 1:53 pm

    — Não? Vamos perguntar ao meu irmão?
    — Trystane?
    — Quentyn"
    — O que tem ele?
    — Onde ele está?
    — Ele está como hóspede de Lorde Yronwood, no Espinhaço.
    — Você mente bem, pai, eu reconheço isso. Você nem sequer
    piscou. Quentyn foi para Lys.
    — De onde você tirou essa idéia?
    — Um amigo me contou. — Ela também podia ter segredos.
    — Seu amigo mentiu. Você tem a minha palavra, seu irmão não foi
    para Lys. Juro pelo sol, pela lança e pelos Sete.
    Arianne não podia ser enganada tão facilmente.
    — Myr, então? Tyrosh? Eu sei que ele está em algum lugar além do
    mar estreito, contratando mercenários para roubar o que é meu por direito
    como primogênita.
    O rosto de seu pai escureceu.
    — Essa desconfiança que você tem não a honra, Arianne. Quentyn
    deveria ser o único a conspirar contra mim. Mandei-o embora quando ele era
    apenas uma criança, jovem demais para entender as necessidades de Dorne.
    Anders Yronwood tem sido mais pai para ele do que eu, mas o seu irmão
    permanece fiel e obediente.
    — Por que não? Você sempre foi a favor dele. Ele se parece com
    você, ele pensa como você, e você tem o intento de lhe dar Dorne, nem tente
    negar isso. Eu li a sua carta. — As palavras ainda queimavam brilhantes
    como o fogo em sua memória. — Um dia você vai sentar onde eu sento e
    reger todos os dorneses, você escreveu para ele. Diga-me, pai, quando você
    decidiu me deserdar? Foi no dia em que Quentyn nasceu, ou no dia em que
    eu nasci? O que fiz para você me odiar assim? — Devido a fúria, havia
    lágrimas em seus olhos.
    — Nunca odiei você. — A voz do Príncipe Doran era como
    pergaminho fino e cheio de tristeza. — Arianne, você não entende.
    — Você nega que você escreveu essas palavras?

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 1:53 pm

    — Não. Foi quando Quentyn foi para Paloferro. Tinha a intenção de
    que ele me sucedesse. Eu tinha outros planos para você.
    — Oh, sim, — disse ela com desdém, — tinha planos. Gyles Rosby.
    Ben Beesbury, o Cego. Grandison Barbacinzenta. Eles eram seus planos. —
    Ela não lhe deu chance para resposta. — Eu sei que é meu dever fornecer um
    herdeiro para Dorne, eu nunca me esqueci disso. Eu teria casado, e de bom
    grado, mas os homens que você trouxe para mim eram insultos. Com cada
    um você cuspiu em mim. Se você já sentiu qualquer amor por mim, por que
    me ofereceu a Walder Frey?
    — Porque eu sabia que você o iria desprezar. Eu tinha que ser visto
    tentando encontrar um companheiro para você, quando você atingesse a
    idade propícia, senão teria levantado suspeitas, mas não me atrevi a lhe
    trazer qualquer homem que pudesse aceitar. Estava prometida, Arianne.
    Prometida? Arianne olhou para ele, incrédula.
    — O que você está dizendo? É esta outra mentira? Você nunca
    disse...
    — O pacto foi selado em segredo. Eu queria lhe dizer quando tivesse
    idade o suficiente... quando você tivesse idade, pensei, mas...
    — Eu tenho vinte e três anos, faz sete que sou uma mulher adulta.
    — Eu sei. Se tenho te matido tempo demais na ignorância, foi só
    para protegê-la. Arianne, a sua natureza... para você, um segredo é apenas
    um conto divertido para sussurrar para Garin e Tyene, em sua cama, de
    noite. Garin fofoca como só os órfãos conseguem, e Tyene conta tudo a
    Obara e a Senhora Nym. E se elas soubessem... Obara é muito chegada a
    vinho, e Nym é demasiada próxima das gêmeas Fowler. E quem pode
    confiar nas gêmeas Fowler? Eu não poderia correr o risco.
    Ela estava perdida, confusa. Prometida. Eu estava prometida.
    — Quem? A quem fui prometida em casamento, por todos esses
    anos?
    — Tanto faz, não importa. Ele está morto.
    Isso a deixou mais perplexa do que nunca.
    — Os mais velhos são tão frágeis. Foi uma fratura no quadril, um
    resfriado, a gota?
    — Foi um pote de ouro derretido. Nós príncipes fazemos nossos
    planos com cuidado, e os deuses os esmagam. — Príncipe Doran fez um
    gesto cansado com uma mão irritada e vermelha. — Dorne será seu. Você

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 1:53 pm

    tem minha palavra, se a minha palavra ainda tem algum significado para
    você. Seu irmão Quentyn tem uma estrada mais difícil para percorrer.
    — Que estrada? — Arianne continuava suspeitando dele. — O que
    você está ocultando? Os Sete me perdoem, mas estou cansada de segredos.
    Diga-me o resto, pai... ou então nomeie Quentyn seu herdeiro e me envie
    para Hotah e o seu machado, e deixe-me morrer ao lado de meus primos.
    — Você realmente acredita que eu iria prejudicar as crianças do meu
    irmão? — O pai dela fez uma careta. — Obara, Nym e Tyene nada falta,
    exceto liberdade, e Ellaria e suas filhas estão felizes refugiadas em Jardim da
    Água. Dorea tira laranjas das árvores com sua maça, e Elia e Obella se
    tornaram o terror das piscinas. — Suspirou. — Não faz tanto tempo que você
    brincava nessas piscinas. Você costumava a montar nos ombros de uma
    menina mais velha... uma menina alta com pouco cabelo amarelo...
    — Jeyne Fowler, ou sua irmã Jennelyn. — Fazia anos que Arianne
    não pensava nisso. — Oh, e Frynne, seu pai era um ferreiro. Seu cabelo era
    castanho. Garin era o meu favorito, no entanto. Quando eu montava Garin
    ninguém podia nos derrotar, nem mesmo Nym e a menina de cabelo verde, a
    Tyroshi.
    — Aquela garota de cabelo verde era filha do Arconte. Eu devia ter
    mandado você para Tyrosh em seu lugar. Você teria servido o Arconte como
    copeira e se encontraria com seu noivo em segredo, mas sua mãe ameaçava
    fazer mal a si mesma se eu roubasse outro de seus filhos, e eu... Eu não
    poderia fazer isso com ela.
    Seu conto cresce cada vez mais estranho.
    — É para lá que Quentyn foi? Para Tyrosh, para cortejar a filha do
    Arconte?
    Seu pai pegou uma peça de cyvasse.
    — Eu preciso saber como você descobriu que Quentyn estava no
    exterior. Seu irmão foi com Cletus Yronwood, Mesitre Kedry, e três dos
    melhores jovens cavaleiros de Lorde Yronwood em uma viagem longa e
    perigosa, com uma acolhida incerta em seu fim. Ele foi para nos trazer de
    volta o desejo do nosso coração.
    Ela estreitou os olhos.
    — O que é o desejo do nosso coração?
    — Vingança. — Sua voz era suave, como se estivesse medo de que
    alguém pudesse estar ouvindo. — Justiça. — Príncipe Doran pressionou o
    dragão de ônix em sua palma inchada, com os dedos gotosos, e sussurrou: —
    Fogo e sangue.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 1:53 pm

    Alayne 729



    Virou o anel de ferro e abriu a porta com um empurrão, só um pouco.
    — Pisco-doce? — chamou. — Posso entrar?
    — Tenha cuidado, senhora — avisou a velha Gretchel,
    apertando as mãos. — Sua senhoria atirou o penico ao meistre.
    — Então não tem penico para me atirar. Não há trabalho que devia
    estar fazendo? E você também, Maddy... as janelas estão todas fechadas e as
    portadas trancadas? A mobília já foi toda coberta?
    — Toda, senhora — disse Maddy.
    — É melhor ir se certificar. — Alayne penetrou no quarto escurecido.
    — Sou só eu, pisco-doce.
    Alguém fungou na escuridão.
    — Está sozinha?
    — Estou, senhor.
    — Então se proxime. Só você.
    Alayne fechou firmemente a porta atrás de si. Era de carvalho sólido,
    com dez centímetros de espessura; Maddy e Gretchel podiam tentar escutar
    o que quisessem, que nada ouviriam. E ainda bem. Gretchel sabia controlar
    a língua, mas Maddy mexericava desavergonhadamente.
    — Foi o Meistre Colemon que te mandou cá? — perguntou o rapaz.
    — Não — mentiu. — Ouvi dizer que o meu pisco-doce estava aflito.
    — Depois do seu encontro com o penico, o meistre correra para Sor Lothor,
    e Brune viera ter com ela.
    — Se a senhora conseguir convencê-lo a sair da cama, ótimo — dissera
    o cavaleiro — não terei de o arrancar de lá.
    E isso não pode ser, disse a si mesma. Quando Robert era tratado
    com rudeza costumava ter ataques de tremores.
    — Tem fome, senhor? — perguntou ao pequeno lorde. — Quer que
    mande Maddy até lá embaixo para te trazer bagas com creme, ou um pouco
    de pão quente com manteiga? — Tarde demais, lembrou-se de que não
    havia pão quente; as cozinhas estavam fechadas, os fornos frios. Se isso

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 1:54 pm

    tirar Robert da cama, poderá valer a pena o incómodo de acender um fogo,
    disse a si mesma.
    — Não quero comida — disse o pequeno lorde, numa voz esganiçada
    e petulante. — Hoje vou ficar na cama. Poderia ler para mim, se quiser.
    — Aqui está escuro demais para ler. — As pesadas cortinas que cobriam
    as janelas tornavam o quarto negro como a noite. — O meu piscodoce
    esqueceu-se de que dia é hoje?
    — Não — disse — mas não vou. Quero ficar na cama. Podia me ler
    histórias do Cavaleiro Alado.
    O Cavaleiro Alado era Sor Artys Arryn. A lenda rezava que ele
    expulsara os Primeiros Homens do Vale e voara até ao topo da Lança do
    Gigante sobre o dorso de um enorme falcão para matar o Rei Grifo. Havia
    uma centena de histórias sobre as suas aventuras. O pequeno Robert
    conhecia-as a todas tão bem que as poderia recitar de memória, mas mesmo
    assim gostava que lessem para ele.
    — Querido, nós temos de ir — disse ela ao rapaz — mas eu prometo,
    quando chegarmos aos Portões da Lua leio duas histórias do Cavaleiro
    Alado.
    — Três — disse ele de imediato. Independentemente do que lhe era
    oferecido, Robert queria sempre mais.
    — Três — concordou ela. — Posso deixar entrar um pouco de sol?
    — Não. A luz magoa-me os olhos. Vem para a cama, Alayne.
    Ela foi na mesma até às janelas, contornando o penico partido. Conseguia
    cheirá-lo melhor do que o via.
    — Não as abrirei muito. Só o suficiente para ver a cara do meu piscodoce.
    Ele fungou.
    — Se tem mesmo de ser.
    As cortinas eram feitas de veludo felpudo azul. Puxou uma delas um
    dedo para trás e atou-a. Partículas de poeira puseram-se a dançar num raio
    da luz pálida da manhã. As pequenas vidraças em forma de diamante da
    janela estavam obscurecidas por geada. Alayne esfregou uma com a base da
    mão, o suficiente para vislumbrar um brilhante céu azul e um clarão branco
    vindo do flanco da montanha. O Ninho da Águia estava envolto num manto
    de gelo, e a Lança do Gigante, mais acima, enterrada num metro de neve.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 1:54 pm

    Quando se virou, Robert Arryn estava encostado à almofada,
    olhando-a. O Senhor do Ninho da Águia e Defensor do Vale. Uma manta de
    lã cobria-o abaixo da cintura. Acima dela estava nu, um rapaz pálido com o
    cabelo tão longo como o de qualquer menina. Robert tinha membros
    alongados, um peito liso e côncavo e uma pequena barriga, e olhos que
    estavam sempre vermelhos e ramelosos. Ele não pode evitar ser como é.
    Nasceu pequeno e enfermiço.
    — Parece muito forte hoje de manhã, senhor. — Ele adorava que lhe
    dissessem como era forte. — Quer que mande Maddy e Gretchel trazer água
    quente para o banho? Maddy pode esfregar suas costas e lavar seus cabelos,
    para te deixar limpo e senhorial para a viagem. Não é bom?
    — Não. Odeio a Maddy. Tem uma verruga no olho, e esfrega com
    tanta força que magoa. A minha mamã nunca me magoava ao esfregar.
    — Eu digo à Maddy para não esfregar o meu pisco-doce com tanta
    força. Se sentirá melhor quando estiver limpo e fresco.
    — Não quero banho, já te disse, dói-me horrivelmente a cabeça.
    — Quer que te traga um pano quente para a testa? Ou uma taça de
    vinho de sonhos? Mas só uma pequena. Mya Stone está à espera lá em
    baixo, em Céu, e ficará magoada se adormecer. Sabe como ela gosta de
    você.
    — Mas eu não gosto dela. É só a menina das mulas. — Robert fungou.
    — O Meistre Colemon colocou uma coisa nojenta qualquer no leite
    ontem à noite, eu senti o gosto. Disse que queria leite doce, mas ele não quis
    trazer. Nem sequer quando ordenei. O senhor sou eu, ele devia fazer o que
    eu dissesse. Ninguém faz o que eu digo.
    — Eu falo com ele — prometeu Alayne — mas só se sair da cama.
    Está um dia lindo lá fora, pisco-doce. O sol brilha, está um dia perfeito para
    descer a montanha. As mulas estão à espera em Céu com Mya...
    A boca dele estremeceu.
    — Odeio essas mulas malcheirosas. Uma vez houve uma que me tentou
    morder! Vai dizer a essa Mya que eu vou ficar aqui. — Soava como se
    estivesse prestes a chorar. — Ninguém pode me fazer mal desde que eu
    fique aqui. O Ninho da Águia é inexpugnável.
    — Quem quereria fazer mal ao meu pisco-doce? Os seus senhores e
    cavaleiros te adoram, e o povo aclama o seu nome. — Ele tem medo,
    pensou, e com bons motivos. Desde que a senhora sua mãe caíra, o rapaz
    nem sequer queria sair para uma varanda, e o caminho que levava do Ninho

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 1:54 pm

    da Águia aos Portões da Lua era suficientemente perigoso para assustar
    qualquer um. Alayne tivera o coração na garganta quando subira com a
    Senhora Lysa e o Lorde Petyr, e todos concordavam que a descida ainda era
    mais aflitiva, uma vez que se passava o tempo todo olhando para baixo. Mya
    podia falar de grandes senhores e ousados cavaleiros que tinham empalidecido
    e molhado a roupa interior na montanha. E nenhum deles tinha a
    doença dos tremores.
    Mas mesmo assim, não podia ficar ali. No fundo do vale o outono
    ainda se demorava, morno e dourado, mas o inverno fechara-se em volta dos
    picos das montanhas. Já tinham suportado três tempestades de neve, e uma
    de gelo que transformara o castelo em cristal durante quinze dias. O Ninho
    da Águia podia ser inexpugnável, mas em breve seria também inacessível, e
    a descida tornava-se dia a dia mais perigosa. A maior parte dos criados e
    soldados do castelo já tinha feito a descida. Só uma dúzia ainda permanecia
    ali em cima, para servir Lorde Robert.
    — Pisco-doce — disse ela com suavidade — a descida vai ser tão
    alegre, verá. Sor Lothor estará conosco, e Mya também. As mulas dela já
    subiram e desceram mil vezes esta velha montanha.
    — Odeio mulas — insistiu ele. — As mulas são más. Já te disse, uma
    tentou me morder quando eu era pequeno.
    Alayne sabia que Robert nunca aprendera a montar como devia ser.
    Mulas, cavalos, burros, não importava; para ele eram todos feras temíveis,
    tão aterrorizadoras como dragões ou grifos. Fora trazido para o Vale aos
    seis anos, com a cabeça aninhada entre os seios de leite da mãe, e nunca
    deixara o Ninho da Águia desde então.
    Mesmo assim, tinham de ir, antes do gelo se fechar de vez em volta
    do castelo. Não havia maneira de saber quanto tempo mais o tempo se
    aguentaria.
    — Mya evitará que as mulas mordam — disse Alayne — e eu seguirei
    logo atrás de você. Sou só uma menina, não tão corajosa e forte como
    você. Se eu sou capaz de fazer, sei que você também será, pisco-doce.
    — Eu podia fazê-lo — disse o Lorde Robert — mas decidi não o
    fazer. — Limpou o nariz ranhoso com as costas da mão. — Diga à Mya que
    vou ficar na cama. Talvez desça amanhã, se me sentir melhor. Hoje está
    demasiado frio lá fora, e dói-me a cabeça, você também pode beber um
    pouco de leite doce, e eu vou dizer a Gretchel para que nos traga uns favos
    de mel para comermos. Vamos dormir, trocar beijos e jogar jogos, e você
    podes me ler histórias sobre o Cavaleiro Alado.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 1:54 pm

    — Lerei. Três histórias, como prometi... quando chegarmos aos
    Portões da Lua. — Alayne estava perdendo a paciência. Temos de ir, recordou
    a si mesma, senão ainda estaremos na zona nevada quando o Sol se
    puser. — Lorde Nestor preparou um banquete para te dar as boas vindas,
    com sopa de cogumelos, carne de veado e bolos. Não quer desapontá-lo,
    não é?
    — Haverá bolos de limão? — Lorde Robert adorava bolos de limão,
    talvez porque Alayne também gostasse.
    — Bolos de limão, limãozinho, limãozão — assegurou-lhe — e poderá
    comer tantos quantos quiser.
    — Cem? — quis ele saber. — Posso comer cem?
    — Se você quiser. — Sentou-se na cama e alisou-lhe o longo cabelo
    fino. Ele tem um cabelo bonito. A própria Senhora Lysa o escovava todas as
    noites, e cortava-o quando precisava de ser cortado. Depois da sua queda,
    Robert sofrera terríveis ataques de tremores sempre que alguém se aproximava
    dele com uma lâmina, de modo que Petyr ordenara que deixassem que
    o cabelo crescesse. Alayne enrolou uma madeixa no dedo e disse: — Bom,
    irá sair da cama e deixar que se vista?
    — Quero cem bolos de limão e cinco histórias!
    Gostava de te dar cem palmadas e cinco galhetas. Não se atreveria a
    portar-se assim se Petyr estivesse aqui. O pequeno senhor sentia um bom e
    saudável medo do padrasto. Alayne forçou-se a sorrir.
    — Como o meu senhor quiser. Mas nada até estar lavado, vestido e a
    caminho. Vinha, antes que a manhã chegue ao fim. — Pegou-lhe firmemente
    na mão, e arrancou-o da cama.
    Mas antes de ter tempo de chamar os criados, o pisco-doce pôs-lhe os
    braços escanzelados em volta e beijou-a. Foi um beijo de rapazinho, e desajeitado.
    Tudo o que Robert Arryn fazia era desajeitado. Se fechar os olhos
    posso fingir que é o cavaleiro das flores. Sor Loras dera um dia uma rosa a
    Sansa Stark, mas nunca a beijara... e nenhum Tyrell alguma vez beijaria
    Alayne Stone. Por mais bonita que fosse, nascera do lado errado dos lençóis.
    Quando os lábios do rapaz tocaram os seus, deu por si a lembrar-se
    de outro beijo. Ainda recordava a sensação de ter a cruel boca dele comprimida
    contra a sua. Viera ter com Sansa na escuridão, enquanto um fogo
    verde enchia o céu. Levou uma canção e um beijo e não me deixou nada
    além dum manto ensanguentado.
    Não importava. Esse dia terminara, e Sansa também.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 1:54 pm

    Alayne afastou o seu pequeno lorde.
    — Basta. Poderá voltar a me beijar quando chegarmos aos Portões, se
    cumprir a sua promessa.
    Maddy e Gretchel estavam à espera lá fora com o Meistre Colemon.
    O meistre lavara os dejetos do cabelo e mudara de veste. Os escudeiros de
    Robert também tinham aparecido. Terrance e Gyles conseguiam sempre
    farejar sarilhos.
    —Lorde Robert está se sentindo mais forte — disse Alayne às criadas.
    —busquem água quente para o seu banho, mas tentem não o escaldar. E
    não lhe puxem o cabelo quando o desemaranhar, ele detesta isso. — Um dos
    escudeiros abafou um risinho, e ela disse-lhe: — Terrance, prepare a roupa
    de montar de sua senhoria e o seu manto mais quente. Gyles, você pode
    limpar aquele penico partido.
    Gyles Grafton fez uma careta.
    — Não sou nenhuma criada.
    — Faça o que a Senhora Alayne ordena, senão Lothor Brune saberá
    — disse o Meistre Colemon. Seguiu-a ao longo do corredor e pela escada
    em caracol abaixo. — Estou grato pela sua intervenção, senhora. Tem jeito
    para lidar com ele. — Hesitou. — Observou alguns tremores enquanto
    esteve com ele?
    — Os dedos tremiam um pouco quando eu peguei na mão, nada mais.
    Ele diz que pôs uma coisa nojenta qualquer no leite.
    — Nojenta? — Colemon olhou-a, a pestanejar, e o pomo-de-adão se
    moveu para cima e para baixo. — Eu apenas... ele está sangrando o nariz?
    — Não.
    — Ótimo. Isso é bom. — A corrente tilintou suavemente quando o
    meistre balançou a cabeça, empoleirada no topo de um pescoço ridiculamente
    longo e magro. — Esta descida... senhora, poderá ser mais seguro se
    eu der a sua senhoria um pouco de leite de papoula. Mya Stone podia
    prendê-lo à garupa da sua mula mais segura enquanto ele dormisse.
    — O Senhor do Ninho da Águia não pode descer da sua montanha
    atado como uma saca de sementes de cevada. — Quanto a isso, Alayne tinha
    a certeza. O pai a avisara de que não se atreviam a permitir que toda a
    fragilidade e covardia de Robert fosse conhecida por muita gente. Gostaria
    que ele estivesse aqui. Teria sabido o que fazer.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 1:54 pm

    Mas Petyr Baelish encontrava-se do outro lado do Vale, de visita ao
    Lorde Lyonel Corbray por ocasião do seu casamento. Viúvo, com quarenta e
    tal anos e sem filhos, Lorde Lyonel ia casar com a robusta filha de dezesseis
    anos de um mercador rico de Vila Gaivota. Fora o próprio Petyr a combinar
    a união. Dizia-se que o dote da noiva era assombroso; tinha de ser, uma vez
    que ela era de nascimento plebeu. Os vassalos de Corbray estariam
    presentes, bem como os Lordes Waxley, Grafton, Lynderly e alguns pequenos
    senhores e cavaleiros com terras... e Lorde Belmore, que nos últimos
    tempos se reconciliara com o pai. Esperava-se que os outros Senhores
    Declarantes evitassem a boda, de modo que a presença de Petyr era
    essencial.
    Alayne compreendia tudo aquilo bastante bem, mas a situação significava
    que o fardo de fazer com que pisco-doce descesse a montanha em
    segurança caíra sobre ela.
    — Dê a sua senhoria uma taça de leite doce — disse ao meistre. —
    Isso evitará que ele trema na viagem para baixo.
    — Ele bebeu uma taça ainda não há três dias — objetou Colemon.
    — E queria outra na noite passada, que lhe recusastes.
    — Era cedo demais. Senhora, você não compreende. Tal como eu
    disse ao Senhor Protetor, uma pitada de sonodoce evita os tremores, mas
    não abandona o corpo, e com o tempo...
    — O tempo não importará se sua senhoria tiver um ataque de tremores
    e cair da montanha. Se o meu pai estivesse aqui, sei que ele te diria para
    manter Lorde Robert calmo a todo o custo.
    — Eu tento, senhora, mas os seus ataques vão-se tornando cada vez
    mais violentos, e ele tem o sangue tão fino que já não me atrevo a sangrá-lo.
    O sonodoce... tem a certeza de que ele não sangrava do nariz?
    — Estava fungando — admitiu Alayne — mas não vi nenhum
    sangue.
    — Tenho de falar com o Senhor Protetor. Este banquete... pergunto a
    mim próprio se será sensato, a seguir à tensão da descida.
    — Não será um grande banquete — assegurou-lhe, — Não haverá
    mais de quarenta convidados. Lorde Nestor e o seu pessoal, o Cavaleiro do
    Portão, alguns senhores menores e respectivas comitivas...
    —Lorde Robert não gosta de estranhos, sabe disso, e haverá bebida,
    ruído... música. A música assusta-o.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 1:55 pm

    — A música acalma-o — corrigiu Alayne — especialmente a harpa
    vertical. O que ele não suporta são cantos, desde que Marillion lhe matou a
    mãe. — Alayne dissera a mentira tantas vezes que já era mais frequente
    lembrar-se dos acontecimentos dessa maneira; a outra não parecia mais do
    que um pesadelo que por vezes lhe perturbava o sono. — Lorde Nestor não
    terá cantores no banquete, só flautas e rabecas para as danças. — O que faria
    quando a música começasse a tocar? Era uma questão incómoda, à qual o
    coração e a cabeça davam respostas diferentes. Sansa adorava danças, mas
    Alayne... — De a ele uma taça de leite doce antes de partirmos, e outra no
    banquete, e não deverá haver problemas.
    — Muito bem. — Fizeram uma pausa na base da escada. — Mas
    estas deverão ser as últimas. Em meio ano, ou mais.
    — É melhor levar esse assunto ao Senhor Protetor. — Alayne cruzou
    a porta e atravessou o pátio. Sabia que Colemon queria apenas o melhor
    para o rapaz que tinha a cargo, mas o que era melhor para Robert, o rapaz, e
    o que era melhor para Lorde Arryn nem sempre eram a mesma coisa. Fora
    Petyr que o dissera, e era verdade. Mas o Meistre Colemon só se preocupa
    com o rapaz. O pai e eu temos preocupações mais vastas.
    Neve velha cobria o pátio, e pingentes pendiam das varandas e das
    torres como lanças de cristal. O Ninho da Águia fora construído com boa
    pedra branca, e o manto do Inverno tornava-o ainda mais branco. Tão belo,
    pensou Alayne, tão inexpugnável. Não conseguia amar aquele lugar, por
    mais que tentasse. Mesmo antes dos guardas e criados terem descido, o
    castelo parecera vazio como uma tumba, e ainda mais quando Petyr Baelish
    andava por longe. Ali em cima, desde Marillion que ninguém cantava.
    Nunca ninguém ria alto demais. Até os deuses eram silenciosos. O Ninho da
    Águia possuía um septo, mas não tinha septão; um bosque sagrado, mas
    sem árvore-coração. Aqui nenhuma prece é atendida, pensava com frequência,
    embora houvesse dias em que se sentia tão solitária que tinha de tentar.
    Só o vento lhe respondia, cantando sem cessar em volta das sete esguias
    torres brancas e fazendo chocalhar a Porta da Lua a cada rajada. Será ainda
    pior no inverno, compreendeu. No inverno, isto será uma fria prisão
    branca.
    E no entanto, a ideia de partir assustava-a quase tanto como assustava
    Robert. Ela apenas o escondia melhor. O pai dizia que não havia vergonha
    em ter medo, só em mostrá-lo.
    — Todos os homens vivem com o medo — dissera. Alayne não estava
    certa de acreditar. Nada assustava Petyr Baelish. Ele só disse aquilo para
    me dar coragem. Teria de mostrar coragem lá em baixo, onde a possibilidade
    de ser desmascarada era muito mais elevada. Os amigos de Petyr na

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 1:55 pm

    corte tinham-lhe mandado a notícia de que a rainha tinha homens em campo
    em busca do Duende e de Sansa Stark. Me custará a cabeça se for
    encontrada, lembrou a si mesma enquanto descia um lance de geladas escadas
    de pedra. Tenho de ser Alayne permanentemente, por dentro e por
    fora.
    Lothor Brune estava na sala do guincho, ajudando o carcereiro Mord
    e dois criados a carregar arcas de roupas e fardos de pano em seis enormes
    baldes de madeira de carvalho, cada um deles suficientemente grande para
    conter três homens. Os grandes guinchos eram a maneira mais fácil de chegar
    ao castelo intermediário Céu, cento e oitenta metros mais abaixo; Se não
    se fosse pelos guinchos tinha de se descer a chaminé natural de pedra que se
    abria na subcave. Ou ir como Marillion, e a Senhora Lysa antes dele.
    — O rapaz está fora da cama? — perguntou Sor Lothor.
    — Estão lhe dando banho. Estará pronto dentro de uma hora.
    — Esperemos que esteja. Mya não esperará até depois do meio-dia.
    — A sala do guincho não era aquecida, e a respiração dele condensava em
    névoa a cada palavra.
    — Ela esperará — disse Alayne. — Tem de esperar.
    — Não tenha tanta certeza, senhora. É meia mula, aquela. Acho que
    nos deixaria aqui com fome antes de pôr aqueles animais em risco. —
    Brune sorriu quando disse aquilo. Ele sorri sempre que fala de Mya Stone.
    Mya era muito mais nova do que Sor Lothor, mas quando o pai estava
    negociando o casamento entre Lorde Corbray e a sua filha de mercador,
    dissera-lhe que as meninas jovens eram sempre mais felizes com homens
    mais velhos.
    — A inocência e a experiência dão um casamento perfeito — dissera.
    Alayne perguntou a si mesma o que Mya pensaria de Sor Lothor.
    Com o seu nariz esmagado, queixo quadrado, e cabelo macio e
    completamente grisalho, Brune não podia ser chamado bonito, mas também
    não era feio. É uma cara comum, mas honesto. Embora tivesse sido erguido
    ao grau de cavaleiro, o nascimento de Sor Lothor fora muito baixo. Uma
    noite contara-lhe que era aparentado com os Brune de Cova Castanha, uma
    velha família de cavaleiros da Ponta da Garra Rachada.
    — Fui ter com eles quando o meu pai morreu — confessara — mas
    eles cagaram em mim, e disseram que eu não era do seu sangue. — Não quis
    falar do que acontecera depois disso, salvo para dizer que aprendera tudo o
    que sabia sobre armas da maneira mais difícil. Sóbrio, era um homem

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 1:55 pm

    calmo, mas forte. E Petyr diz que é leal. Não confia em ninguém mais do
    que nele. Brune seria um bom partido para uma menina bastarda como Mya
    Stone, pensou. Poderia ser diferente se o pai a tivesse reconhecido, mas ele
    não o fez. E Maddy diz que, além disso, ela não é donzela.
    Mord pegou no chicote e o fez estalar, e o primeiro par de bois pôsse
    a caminhar penosamente em círculo, virando o guincho. A corrente
    desenrolou-se, chocalhando ao raspar na pedra e fazendo oscilar o balde de
    carvalho que iniciava a longa descida até Céu. Pobres bois, pensou Alayne.
    Mord cortaria lhes as gargantas antes de partir e os deixaria para os falcões.
    O que restasse quando o Ninho da Águia fosse reaberto seria assado para o
    banquete de primavera, se não se tivesse estragado. Uma boa reserva de
    carne congelada e dura predizia um verão de abundância, segundo afirmava
    a velha Gretchel.
    — Senhora — disse Sor Lothor — é melhor que saiba. Mya não subiu
    sozinha. A Senhora Myranda a acompanha.
    — Oh. — Porque subiria ela a montanha, apenas para voltar a
    descê-la? Myranda Royce era a filha do Lorde Nestor. Da única vez que
    Sansa visitara os Portões da Lua, a caminho do Ninho da Águia, com a tia
    Lysa e Lorde Petyr, ela estivera por fora, mas Alayne ouvira os soldados do
    Ninho da Águia e as criadas falarem muito dela desde então. A mãe
    morrera há muito, de modo que era a Senhora Myranda quem cuidava do
    castelo do pai; segundo os rumores, a corte era muito mais animada quando
    ela se encontrava presente do que quando estava longe.
    — Mais tarde ou mais cedo terá de conhecer Myranda Royce —
    prevenira-a Petyr. — Quando isso acontecer, tenha cautela. Ela gosta de
    fazer o papel de pateta alegre, mas por baixo é mais sagaz do que o pai.
    Cuidado com a língua perto dela.
    Terei, pensou, mas não sabia que teria de começar tão cedo.
    — Robert ficará satisfeito. — Ele gostava de Myranda Royce. —
    Tem que me perdoar, sor. Preciso ir acabar de fazer as malas. — Sozinha,
    subiu os degraus que levavam ao seu quarto pela última vez. As janelas haviam
    sido trancadas e as portadas fechadas, a mobília fora coberta. Parte das
    suas coisas tinha já sido levada, o resto armazenado. Todas as sedas e
    samitos da Senhora Lysa seriam deixados para trás. Os seus linhos mais
    puros e veludos mais felpudos, os ricos bordados e a bela renda de Myr;
    tudo ficaria. Lá em baixo, Alayne tinha de se vestir modestamente, como
    era próprio de uma menina de modesto nascimento. Não importa, disse a si
    mesma. Nem aqui me atrevi a usar as melhores roupas.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 1:55 pm

    Gretchel desfizera a cama e preparara o resto das suas roupas.
    Alayne já trazia meias de lã por baixo das saias, sobre uma dupla camada
    de roupa interior. Agora envergou uma túnica de lã de cordeiro e um manto
    de peles com capuz, apertando-o com o tejo esmaltado que fora presente de
    Petyr. Também havia um cachecol, e um par de luvas de couro forradas de
    peles, que combinavam com as suas botas de montar. Depois de vestir tudo
    aquilo, sentiu-se tão gorda e peluda como uma cria de urso. Me sentirei
    grata pela roupa na montanha, teve de recordar a si mesma. Olhou uma
    última vez para o quarto antes de sair. Aqui estive em segurança, pensou,
    mas lá em baixo...
    Quando Alayne regressou à sala do guincho, foi encontrar Mya Stone
    impacientemente à espera com Lothor Brune e Mord. Deve ter subido no
    balde para ver qual era a demora. Magra e vigorosa, Mya parecia tão dura
    como os velhos couros de montar que usava por baixo do lorigão prateado.
    Tinha o cabelo tão negro como a asa de um corvo, tão curto e desgrenhado
    que Alayne suspeitou que o cortava com um punhal. Os olhos de Mya eram
    o seu melhor traço, grandes e azuis. Ela podia ser bonita, se se aperaltasse
    como uma menina. Alayne deu por si curiosa em saber se Sor Lothor gostaria
    mais dela vestida de ferro e couro, ou se sonhava em vê-la enfeitada de
    renda e seda. Mya gostava de dizer que o pai fora um bode e a mãe uma
    coruja, mas Alayne soubera a verdadeira história por Maddy. Sim, pensou,
    olhando agora para ela, aqueles são os olhos dele, e também tem o seu
    cabelo, o espesso cabelo preto que partilhava com Renly.
    — Onde está ele? — quis saber a menina bastarda.
    — Sua senhoria está sendo banhado e vestido.
    — Tem de se apressar. Está ficando mais frio, não sente? Temos de
    estar abaixo de Neve antes do Sol se pôr.
    — Como está o vento? — perguntou-lhe Alayne.
    — Podia estar pior... e estará, depois de anoitecer. — Mya afastou
    uma madeixa dos olhos. — Se ele levar muito mais tempo no banho, ficaremos
    encurralados aqui em cima o inverno inteiro, sem nada para comer
    além de nós.
    Alayne não soube o que responder àquilo. Felizmente, foi poupada à
    resposta pela chegada de Robert Arryn. O pequeno senhor trazia veludo
    azul-celeste, um colar de ouro e safiras, e um manto branco de pele de urso.
    Cada um dos escudeiros segurava numa ponta, a fim de evitar que o manto
    arrastasse pelo chão. O Meistre Colemon acompanhava-os, com um puído
    manto cinzento forrado de pele de esquilo. Gretchel e Maddy não vinham
    muito atrás.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 1:55 pm

    Quando sentiu o vento frio na cara, Robert titubeou, mas Terrance e
    Gyles estavam atrás dele, de modo que não pôde fugir.
    — Senhor — disse Mya — me acompanha até lá abaixo?
    Demasiada brusquidão, pensou Alayne. Ela devia tê-lo saudado com
    um sorriso, e dito como parece forte e corajoso.
    — Quero Alayne — disse o Lorde Robert. — Só irei com ela.
    — O balde pode levar nós três.
    — Só quero Alayne. Você é toda fedorenta, como uma mula.
    — Às suas ordens — A cara de Mya não mostrou qualquer emoção.
    Algumas das correntes dos guinchos estavam presas a baldes de
    vime, outras a robustos baldes de carvalho. O maior destes últimos era mais
    alto do que Alayne, com arcos de ferro a cingir as suas aduelas castanhas
    escuras. Mesmo assim, quando pegou na mão de Robert e o ajudou a entrar,
    tinha o coração na garganta. Depois de o alçapão ser fechado atrás deles, a
    madeira rodeou-os por todos os lados. Só o topo estava aberto. É melhor
    assim, disse a si mesma, não podemos olhar para baixo. Abaixo deles havia
    apenas Céu e o céu. Cento e oitenta metros de céu. Por um momento deu por
    si curiosa em saber quanto tempo teria levado a sua tia a cair essa distância,
    e qual teria sido o seu último pensamento enquanto a montanha corria ao seu
    encontro. Não, não posso pensar nisso. Não posso!
    — LARGA! — soou o grito de Sor Lothor. Alguém empurrou o
    balde com força. Este oscilou e inclinou-se, raspou no chão, e então
    balançou, livre. Alayne ouviu o crac do chicote de Mord e o chocalhar da
    corrente. Começaram a descer, a princípio aos sacões e sobressaltos, depois
    de uma forma mais regular. Robert tinha a cara pálida e os olhos inchados,
    mas as suas mãos estavam calmas. O Ninho da Águia encolheu por cima
    deles. As celas do céu dos andares inferiores faziam o castelo parecer-se um
    pouco com uma colmeia quando visto de baixo. Uma colmeia feita degelo,
    pensou Alayne, um castelo feito de neve. Ouvia o vento a assobiar em volta
    do balde.
    Trinta metros mais abaixo, uma súbita rajada apanhou-os. O balde
    oscilou para o lado, girando no ar, e então colidiu com força contra a face
    da rocha atrás deles. Estilhaços de gelo e neve choveram sobre os dois, e o
    carvalho rangeu e deformou-se. Robert arquejou e a agarrou, enterrando a
    cara entre os seus seios.
    — O meu senhor é corajoso — disse Alayne, quando o sentiu a tremer.
    — Estou tão assustada, que quase nem consigo falar, mas você não.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 1:56 pm

    Sentiu-o a anuir.
    — O Cavaleiro Alado era corajoso, e eu também sou — vangloriouse
    o rapaz para o seu corpete. — Sou um Arryn.
    — O meu pisco-doce abraça-me com força? — perguntou ela, embora
    ele já a estivesse a apertar tanto que quase não conseguia respirar.
    — Se quiser — murmurou ele. E, fortemente abraçados um ao outro,
    continuaram a descer em direção a Céu.
    Chamar castelo a isto é como chamar lago a uma poça no chão
    duma latrina, pensou Alayne, quando o balde foi aberto para saírem dentro
    do castelo intermediário. Céu não passava de uma muralha em forma de
    crescente, feita de pedra velha e sem argamassa, que rodeava uma saliência
    rochosa e a abertura escancarada de uma caverna. Lá dentro havia armazéns
    e estábulos, um longo salão natural, e os apoios entalhados que levavam ao
    Ninho da Águia. Lá fora, o terreno estava semeado de pedras e pedregulhos
    quebrados. Rampas de terra davam acesso à muralha. Cento e oitenta
    metros mais acima, o Ninho da Águia era tão pequeno que Alayne podia
    esconder o castelo com a mão, mas muito abaixo estendia-se o Vale, verde
    e dourado.
    Vinte mulas esperavam dentro do castelo intermediário, com dois
    condutores de mulas e a Senhora Myranda Royce. A filha de Lorde Nestor
    revelou-se uma mulher baixa e carnuda, da mesma idade de Mya Stone, mas
    enquanto Mya era magra e vigorosa, Myranda tinha um corpo mole e de
    cheiro doce, largo de ancas, pesado de peito, e extremamente roliço. Os seus
    espessos caracóis cor de avelã enquadravam bochechas redondas e rubras,
    uma boca pequena, e um par de animados olhos castanhos. Quando Robert
    saiu cautelosamente do balde, ela ajoelhou-se numa mancha de neve para
    lhe beijar a mão e o rosto.
    — Senhor — disse — se tornou tão grande!
    Me tornei? — disse Robert, agradado.
    — Em breve estará mais alto do que eu — mentiu ela. Pôs-se em pé e
    sacudiu a neve das saias. — E você deve ser a filha do Senhor Protetor —
    acrescentou, enquanto o balde iniciava, a chocalhar, a viagem de regresso ao
    Ninho da Águia. — Já tinha ouvido dizer que era bela. Vejo que é verdade.
    Alayne fez uma vénia.
    — A senhora é bondosa por dizê-lo.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 1:56 pm

    — Bondosa? — A menina mais velha soltou uma gargalhada. — Que
    aborrecido que isso seria. Eu almejo ser malvada. Tem que me contar todos
    os seus segredos na viagem para baixo. Posso te chamar de Alayne?
    — Se quiser, senhora. — Mas de mim não arrancará segredos.
    — Eu sou "senhora" nos Portões, mas aqui na montanha pode me
    chamar de Randa. Quantos anos tem, Alayne?
    — Catorze, senhora. — Decidira que Alayne Stone devia ser mais
    velha do que Sansa Stark.
    — Randa. Parece que já se passaram cem anos desde que eu tive catorze.
    Como era inocente. Ainda é inocente, Alayne?
    Alayne corou.
    — Não devia... sim, claro.
    — Está se guardando para Lorde Robert? — brincou a Senhora
    Myranda. — Ou haverá algum ardente escudeiro a sonhar com os seus
    favores?
    — Não — disse Alayne, ao mesmo tempo que Robert dizia:
    — Ela é minha amiga. Terrance e Gyles não podem ficar com ela.
    Por aquela altura já um segundo balde chegara, batendo suavemente
    num monte de neve gelada. O Meistre Colemon saiu lá de dentro com os
    escudeiros Terrance e Gyles. O guincho seguinte trouxe Maddy e Gretchel,
    acompanhadas por Mya Stone. A menina bastarda não demorou a pôr-se ao
    comando.
    — Não queremos nos amontoar na montanha — disse aos outros
    condutores de mulas. — Eu levo Lorde Robert e os companheiros. Ossy,
    você tras para baixo Sor Lothor e os outros, mas me dê um avanço de uma
    hora. Carrot, você ficará encarregado das arcas e caixas. — Virou-se para
    Robert Arryn, com o cabelo negro a esvoaçar ao vento. — Que mula montará
    hoje, senhor?
    — Elas são todas fedorentas. Fico com aquela cinzenta que tem a orelha
    roída. Quero que Alayne venha comigo. E Myranda também.
    — Onde o caminho for suficientemente largo. Venha, senhor, vamos
    te subir para a sua mula. Há um cheiro a neve no ar.
    Passou-se mais meia hora antes de estarem prontos a partir. Quando
    todos montaram, Mya Stone deu uma ordem decidida, e dois dos homens de
    armas de Céu abriram os portões. Mya foi a primeira a sair, com Lorde

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 1:56 pm

    Robert logo atrás, enfaixado no seu manto de pele de urso. Alayne e
    Myranda Royce seguiam-nos, depois vinham Gretchel e Maddy, e a seguir
    Terrance Lynderly e Gyles Grafton. O Meistre Colemon fechava a retaguarda,
    trazendo pela arreata uma segunda mula carregada com as suas arcas de
    ervas e poções.
    Para lá das muralhas, o vento aumentou rapidamente de intensidade.
    Ali estavam acima da linha das árvores, expostos aos elementos. Alayne
    sentiu-se grata por ter vestido roupa tão quente. O manto batia ruidosamente
    atrás dela, e uma súbita rajada arrancou-lhe o capuz da cabeça. Soltou uma
    gargalhada, mas alguns metros mais à frente, Lorde Robert torceu-se e disse:
    — Está frio demais. Devíamos voltar e esperar até o tempo ficar mais
    quente.
    — No fundo do vale estará mais quente, senhor — disse Mya. — Verá
    quando chegarmos lá.
    — Eu não quero ver — disse Robert, mas Mya não lhe prestou atenção.
    A estrada era uma tortuosa série de degraus de pedra esculpidos no
    flanco da montanha, mas as mulas conheciam cada centímetro dela. Isso
    deixou Alayne contente. Aqui e ali a pedra fora estilhaçada pela tensão causada
    por um sem-fim de estações, com os seus gelos e degelos. Aglomerações
    de neve, de um branco que cegava, agarravam-se à rocha de ambos os
    lados do caminho. O sol brilhava, o céu estava azul, e havia falcões aos
    círculos por cima do grupo, cavalgando o vento.
    Ali em cima, onde a encosta era mais íngreme, os degraus
    ziguezagueavam de um lado para o outro em vez de mergulharem a direito
    para baixo. Sansa Stark subiu a montanha, mas é Alayne Stone que desce.
    Era um estranho pensamento. Lembrava-se de que, ao subir, Mya a avisara
    para manter os olhos no caminho que se estendia em frente.
    — Olhe para cima, não para baixo — dissera... mas isso não era
    possível na descida. Podia fechar os olhos. A mula conhece o caminho, não
    tem necessidade de mim. Mas isso parecia algo que Sansa, essa menina assustada,
    teria feito. Alayne era uma mulher mais velha, e tinha a coragem
    dos bastardos.
    A princípio, seguiram em fila única, mas mais abaixo o caminho
    alargava-se o suficiente para dois cavaleiros seguirem lado a lado, e
    Myranda Royce aproximou-se de Alayne.
    — Recebemos uma carta do seu pai — disse, com tal casualidade que
    era como se estivessem sentadas com a septã, bordando. — Vem a caminho

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 1:56 pm

    de casa, diz ele, e espera ver a sua querida filha em breve. Escreve que
    Lyonel Corbray parece muito contente com a noiva, e ainda mais com o
    dote dela. Eu espero que o Lorde Lyonel se lembre de qual dos dois tem de
    levar para a cama. A Senhora Waynwood apareceu no banquete nupcial
    com o Cavaleiro de Novestrelas, diz Lorde Petyr, para espanto de toda a
    gente.
    — Anya Waynwood? Deveras? — Dos seis Senhores Declarantes
    restavam três, aparentemente. No dia em que partira da montanha, Petyr
    Baelish mostrara-se confiante em conquistar Symond Templeton para o seu
    lado, mas a Senhora Waynwood não. — Há mais alguma coisa? — perguntou.
    O Ninho da Águia era um lugar tão solitário, que estava ansiosa por
    qualquer migalha de novidades vinda do mundo lá fora, por trivial ou
    insignificante que fosse.
    — Do seu pai não, mas chegaram-nos outras aves. A guerra prossegue,
    em todo o lado menos aqui. Correrrio rendeu-se, mas Pedra do Dragão
    e Ponta Tempestade ainda resistem por Lorde Stannis.
    — Senhora Lysa foi tão sensata por nos manter longe da guerra.
    Myranda deitou-lhe um sorrisinho astuto.
    — Sim, ela era a própria alma da sensatez, essa boa senhora. —
    Mexeu-se na sela. — Porque terão as mulas de ser tão ossudas e
    temperamentais? Mya não as alimenta o suficiente. Uma boa mula gorda
    seria mais confortável de montar. Há um novo Alto Septão, sabia? Oh, e a
    Patrulha da Noite tem um rapaz como comandante, um filho bastardo
    qualquer de Eddard Stark.
    — Jon Snow? — disse antes de pensar, espantada.
    — Snow? Sim, deve ser Snow, suponho.
    Havia séculos que não pensava em Jon. Era só seu meio-irmão, mas
    mesmo assim... com Robb, Bran e Rickon mortos, Jon Snow era o único
    irmão que lhe restava. Agora também eu sou bastarda, como ele. OK seria
    tão bom voltar a vê-lo. Mas claro que isso nunca poderia acontecer. Alayne
    Stone não tinha irmãos, ilegítimos ou não.
    — O nosso primo Bronze Yohn organizou um corpo-a-corpo em
    Pedrarruna — prosseguiu Myranda Royce, sem se dar conta de nada — um
    pequeno, só para escudeiros. Destinava-se a que Harry, o Herdeiro, ganhasse
    o título, e foi o que ele fez.
    — Harry, o Herdeiro?

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 1:56 pm

    — O protegido da Senhora Waynwood. Harrold Hardyng. Suponho
    que agora tenhamos de lhe chamar Sor Harry. Bronze Yohn armou-o cavaleiro.
    — Oh. — Alayne sentiu-se confusa. Porque haveria o protegido da
    Senhora Waynwood de ser seu herdeiro? Ela tinha filhos do seu sangue. Um
    deles era o Cavaleiro do Portão Sangrento, Sor Donnel. Mas não quis
    parecer estúpida, de modo que tudo o que disse foi: — Rezo para que prove
    ser um cavaleiro de mérito.
    A Senhora Myranda soltou uma fungadela.
    — Eu rezo para que apanhe varíola. Tem uma filha bastarda de uma
    plebéia qualquer, sabia? O senhor meu pai tinha a esperança de me casar
    com Harry, mas a Senhora Waynwood nem quis ouvir falar do assunto. Não
    sei se foi a mim que achou inadequada, ou só o meu dote. — Suspirou. —
    Realmente preciso de um novo marido. Tive um, em tempos, mas o matei.
    — Matou? — disse Alayne, chocada.
    — Oh, sim. Ele morreu em cima de mim. Dentro de mim, em boa
    verdade. Sabe o que acontece numa cama de casado, espero?
    Alayne pensou em Tyrion, e no Cão de Caça e no modo como ele a
    beijara, e confirmou com a cabeça.
    — Isso deve ter sido terrível, senhora. Ele morrer. Aí, quero eu dizer,
    enquanto... enquanto estava...
    — ...me fodendo? — A Senhora Myranda encolheu os ombros. — É
    decerto desconcertante. Já para não falar da descortesia. Ele nem sequer teve
    a decência básica de plantar uma criança em mim. Os velhos têm a semente
    fraca. De modo que aqui estou eu, viúva, mas quase por usar. Harry podia
    ter-se saído muito pior. E atrevo-me mesmo a dizer que sairá. O mais certo é
    a Senhora Waynwood casá-lo com uma das suas netas, ou com uma das de
    Bronze Yohn.
    — Com certeza, senhora — Alayne lembrou-se do aviso de Petyr.
    — Randa. Vá lá, consegui dizer. Randa.
    — Randa.
    — Muito melhor. Temo que tenha de lhe pedir perdão. Irá me julgar
    uma terrível cabra, bem sei, mas me deitei com aquele belo rapaz, o
    Marillion. Não sabia que ele era um monstro. Cantava lindamente, e sabia
    fazer as coisas mais deliciosas com os dedos. Nunca o teria levado para a
    cama se soubesse que ele ia empurrar a Senhora Lysa pela Porta da Lua. Por

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 1:57 pm

    regra não me deito com monstros. — Estudou a cara e o peito de Alayne. —
    É mais bonita do que eu, mas os meus seios são maiores. Os meistres dizem
    que seios grandes não produzem mais leite do que os pequenos, mas eu não
    acredito. Já alguma vez conheceu uma ama-de-leite de mamas pequenas? As
    suas são amplas para uma menina da sua idade, mas como são seios
    bastardos não me preocuparei com eles. — Myranda aproximou a sua mula
    da dela. — Sabe que a nossa Mya não é donzela, espero?
    Sabia. A gorda Maddy segredara-lhe essa informação, um dia que
    Mya trouxera para cima as suas provisões.
    — Maddy disse-me.
    — Claro que disse. Tem a boca tão grande como as ancas, e as ancas
    são enormes. Foi Mychel Redfort. Ele era escudeiro de Lyn Corbray. Um
    escudeiro a sério, ao contrário daquele rapaz desajeitado que Sor Lyn tem
    agora. Diz-se que só aceitou esse por dinheiro. Mychel era o melhor jovem
    espadachim do Vale, e também galante... pelo menos foi o que a pobre Mya
    pensou, até que o homem se casou com uma das filhas de Bronze Yohn.
    Tenho a certeza de que Lorde Horton não lhe deu voto na matéria, mas foi
    na mesma uma coisa cruel para se fazer com Mya.
    — Sor Lothor gosta dela. — Alayne olhou de relance a menina das
    mulas, vinte passos mais abaixo. — Mais do que gosta...
    —... Lothor Brune? — Myranda ergueu uma sobrancelha. — E ela
    sabe? — Não esperou resposta. — Ele não tem hipótese, pobre homem. O
    meu pai tentou arranjar par para Mya, mas ela não quis nenhum deles. É
    mesmo meio mula, aquela.
    Involuntariamente, Alayne deu por si a simpatizar com a menina mais
    velha. Não tivera uma amiga com quem mexericar desde a pobre Jeyne
    Poole.
    — Acha que Sor Lothor gosta dela como é, vestida de couro e cota de
    malha? — perguntou à menina mais velha, que tanta experiência do mundo
    parecia ter. — Ou será que sonha com ela envolta em sedas e veludos?
    — Ele é um homem. Sonha com ela nua.
    Está tentando me fazer corar outra vez.
    A Senhora Myranda deve ter-lhe ouvido os pensamentos.
    — Você realmente fica com um belo tom de rosa. Quando eu coro
    fico igualzinha a uma maçã. Mas há anos que não coro. — Inclinou-se para
    mais perto. — O seu pai planeja voltar a casar?

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 1:57 pm

    — O meu pai? — Alayne nunca pensara naquilo. Sem saber porquê, a
    ideia deixou-a desconfortável. Deu por si a lembrar-se da expressão no rosto
    de Lysa Arryn quando caíra pela Porta da Lua.
    — Todos sabemos como ele era dedicado à Senhora Lysa — disse
    Myranda — mas não pode ficar eternamente de luto. Precisa de uma esposa
    bonita e jovem para lhe lavar o desgosto. Imagino que podia escolher entre
    metade das nobres donzelas do Vale. Quem poderia ser melhor marido do
    que o nosso ousado Senhor Protetor? Embora ele pudesse ter um nome
    melhor que Mindinho. Sabe se o dedo é assim tão mínimo?
    — O dedo? — Alayne voltou a corar. — Eu não... nunca...
    A Senhora Myranda riu-se tanto que Mya Stone deitou um relance
    para trás.
    — Não se incomode com isso, Alayne, tenho a certeza de que é
    suficientemente grande.
    Passaram por baixo de um arco esculpido pelo vento, onde longos
    pingentes pendiam da pedra clara, pingando sobre eles. Do outro lado, o
    caminho estreitava e mergulhava bruscamente por trinta metros ou mais.
    Myranda foi forçada a deixar-se ficar para trás. Alayne afrouxou as rédeas
    da mula. A inclinação daquela parte da descida a obrigou a se agarrar bem à
    sela. Os degraus tinham sido ali desgastados e alisados pelos cascos ferrados
    de todas as mulas que os tinham pisado, até se assemelharem a uma série de
    bacias pouco profundas de pedra. Água enchia o fundo das bacias,
    cintilando dourada ao sol da tarde. Agora é água, pensou Alayne, mas ao
    chegar a noite transformará toda em gelo. Apercebeu-se de que estava
    retendo a respiração, e soltou-a. Mya Stone e Lorde Robert tinham quase
    atingido a agulha de rocha onde o declive voltava a diminuir. Tentou olhar
    para eles, e só para eles. Não cairei, disse a si mesma. A mula de Mya me
    levará até ao outro lado. O vento guinchava à sua volta, enquanto o animal
    ia avançando passo a passo, aos solavancos e raspando com as patas.
    Pareceu demorar uma vida.
    Então, de súbito, viu-se no fim da descida com Mya e o seu pequeno
    senhor, aninhados por baixo de uma retorcida agulha rochosa. Em frente
    estendia-se uma depressão elevada, estreita e gelada. Alayne ouvia o vento a
    gritar, e sentia-o a puxar-lhe o manto. Lembrava-se daquele lugar, da subida.
    Então assustara-a, e assustava-a agora.
    — É mais largo do que parece — estava Mya dizendo à Lorde Robert
    em voz alegre. — Um metro de largura, e não tem mais de seis metros de
    comprimento, não é nada.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 1:58 pm

    — Não é nada — disse Robert. Tinha a mão tremendo.
    Oh, não, pensou Alayne. Por favor. Aqui não. Não agora.
    — É melhor levar as mulas pela arreata — disse Mya. — Se aprouver
    ao senhor, eu levo a minha primeiro, e depois volto para vir buscar a sua. —
    Lorde Robert não respondeu. Fitava a estreita depressão com os seus olhos
    avermelhados. — Não demorarei, senhor — prometeu Mya, mas Alayne
    duvidava de que o rapaz sequer a ouvisse.
    Quando a menina bastarda tirou a mula de baixo do abrigo da agulha,
    o vento capturou-a nos seus dentes. O seu manto se ergueu, torcendo-se e
    batendo no ar. Mya cambaleou, e durante meio segundo pareceu que seria
    arrastada para o precipício, mas conseguiu de algum modo recuperar o
    equilíbrio e avançou.
    Alayne tomou a mão enluvada de Robert na sua para lhe parar o tremor.
    — Pisco-doce — disse — estou assustada. Pegue na minha mão, e me
    ajude a atravessar. Sei que você não tem medo.
    Ele olhou-a, com pupilas que eram pequenas cabeças escuras de alfinete
    em olhos tão grandes e brancos como ovos.
    — Não tenho?
    — Você, não. É o meu cavaleiro alado. Sor Pisco-doce.
    — O Cavaleiro Alado podia voar — sussurrou Robert.
    — Mais alto do que as montanhas. — E deu-lhe um apertão na mão.
    A Senhora Myranda se juntara eles na agulha.
    — Pois podia — ecoou, quando viu o que estava a acontecer.
    — Sor Pisco-doce — disse o Lorde Robert, e Alayne compreendeu
    que não se atreveria a esperar pelo regresso de Mya. Ajudou o rapaz a desmontar
    e, de mãos dadas, saíram para a depressão de rocha nua, com os
    mantos batendo e torcendo nas suas costas. A toda a volta havia ar e céu
    vazio, o chão caía abruptamente de ambos os lados. Havia gelo sob os seus
    pés, e pedras partidas só à espera para torcerem um tornozelo, e o vento
    uivava ferozmente. Soa como um lobo, pensou Sansa. Um lobo fantasma,
    tão grande como montanhas.
    E então se viram do outro lado, e Mya Stone estava a rindo e
    erguendo Robert para um abraço.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 1:59 pm

    — Cuidado — disse Alayne. — Ele pode te machucar a esbravejar.
    Não parece, mas pode. — Arranjaram um lugar para ele, uma fenda na rocha,
    para o manter abrigado do vento frio. Alayne cuidou dele até os tremores
    passarem, enquanto Mya regressava para ajudar os outros a atravessar.
    Mulas frescas os esperavam em Neve, bem como uma refeição quente
    constituída por cabra estufada e cebolas. Comeu com Mya e Myranda.
    — Então além de bela é corajosa. — disse-lhe Myranda.
    — Não. — O elogio a fez corar. — Não sou. Estava tão assustada.
    Não me parece que tivesse atravessado sem Lorde Robert. — Virou-se para
    Mya Stone. — Quase caiu.
    — Está enganada. Eu nunca caio. — O cabelo de Mya caíra-lhe sobre
    o rosto, escondendo um olho.
    — Eu disse quase. Eu vi. Não teve medo?
    Mya abanou a cabeça.
    — Lembro-me de um homem me atirando ao ar quando era muito
    pequena. Ele é alto como o céu, e me atira tão alto que eu me sinto a voar.
    Estamos os dois rindo, rindo tanto que quase não consigo respirar, e por fim
    eu rio com tanta força que me molho toda, mas isso só o faz rir ainda mais.
    Nunca tinha medo quando ele me atirava. Sabia que estaria sempre lá para
    me apanhar. — Empurrou o cabelo para trás. — E então houve um dia que
    não estava. Os homens vão e vêm. Mentem, morrem ou nos abandonam.
    Mas uma montanha não é um homem, e uma pedra é filha da montanha. Eu
    confio no meu pai e confio nas minhas mulas. Não cairei. — Pousou a mão
    num esporão irregular de rocha e pôs-se em pé. — É melhor acabar. Ainda
    temos um longo caminho a percorrer, e me cheira a tempestade.
    A neve começou a cair no momento em que saíam de Pedra, o maior
    e o mais baixo dos três castelos intermediários que defendiam a abordagem
    ao Ninho da Águia. Por essa altura, caía o ocaso. A Senhora Myranda
    sugeriu que talvez pudessem voltar para trás, passar a noite em Pedra e
    reatar a descida quando o sol nascesse, mas Mya não quis ouvir falar da
    ideia.
    —Por essa altura, a neve pode ter metro e meio de profundidade, e
    os degraus estarão traiçoeiros até para as minhas mulas — disse. — É
    melhor continuarmos. Iremos devagar.
    E foi o que fizeram. Abaixo de Pedra, os degraus eram mais largos e
    menos íngremes, ziguezagueando para dentro e para fora dos grandes
    pinheiros e das árvores-sentinela cinzentas-esverdeadas que cobriam as

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 1:59 pm

    encostas inferiores da Lança do Gigante. As mulas de Mya, aparentemente,
    conheciam cada raiz e pedra da descida, e alguma que elas esquecessem era
    lembrada pela menina bastarda. Decorreu metade da noite até avistarem as
    luzes dos Portões da Lua através da neve que caía. A última parte da viagem
    foi a mais pacífica. O nevão era constante, cobrindo o mundo de branco. O
    Pisco-doce adormeceu na sela, oscilando de um lado para o outro com os
    movimentos da mula. Até a Senhora Myranda se pôs a bocejar e a queixarse
    de cansaço.
    — Temos aposentos preparados para todos vós — disse a Alayne —
    mas se quiser, pode dividir a minha cama esta noite. Tem tamanho
    suficiente para quatro.
    — Me sentiria honrada, senhora.
    — Randa. Pode se achar com sorte por eu estar tão cansada. Só me
    apetece me enrolar e dormir. Normalmente, quando as senhoras partilham a
    minha cama têm de pagar um imposto de almofada e me contar tudo sobre
    as malvadezas que fizeram.
    — E se não fizeram malvadezas?
    — Ora, nesse caso têm de confessar todas as malvadezas que querem
    fazer. Você não, claro. Consigo ver como é virtuosa só de olhar para essas
    suas bochechas rosadas e grandes olhos azuis. — Voltou a bocejar. — Espero
    que tenha os pés quentes. Detesto companheiras de cama com pés frios.
    Quando finalmente chegaram ao castelo do pai, a Senhora Myranda
    também já dormitava, e Alayne sonhava com a cama. Será um colchão de
    penas, disse a si mesma. Mole, quente e profundo, debaixo de um monte de
    peles. Sonharei um sonho agradável e quando acordar haverá cães a
    ladrar; mulheres a coscuvilhar junto ao poço, espadas a ressoar no pátio. E
    mais tarde haverá um banquete, com música e danças. Após o silêncio
    mortal do Ninho da Águia, ansiava por gritos e risos.
    Mas quando os viajantes estavam descendo das mulas, um dos
    guardas de Petyr surgiu vindo da fortaleza.
    — Senhora Alayne — disse — o Senhor Protetor tem estado à sua
    espera.
    — Ele está de volta? — disse ela, sobressaltada.
    — Voltou ao cair da noite. Vai encontra-lo na torre oeste.
    A hora era mais próxima da alvorada do que do ocaso, e a maior parte
    do castelo encontrava-se adormecida, mas Petyr Baelish não. Alayne foi
    encontrá-lo sentado junto a uma crepitante lareira, a beber vinho quente com

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    Re: O Festim dos Corvos

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