Private


    O Festim dos Corvos

    Compartilhe

    Admin
    Admin

    Mensagens : 1409
    Data de inscrição : 09/04/2012

    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 1:59 pm

    especiarias com três homens que não conhecia. Todos se ergueram quando
    ela entrou, e Petyr dirigiu-lhe um sorriso caloroso.
    — Alayne. Vem, dá um beijo no teu pai.
    Alayne abraçou-o obedientemente e deu-lhe um beijo na face.
    — Lamento incomodar, pai. Ninguém me disse que tinha companhia.
    — Você nunca incomoda, querida. Estava mesmo agora contando a
    estes bons cavaleiros como a minha filha era atenciosa.
    — Atenciosa e bela — disse um jovem cavaleiro elegante, cuja
    espessa cabeleira loura caía em cascata até bem depois dos ombros.
    — Pois — disse o segundo cavaleiro, um indivíduo entroncado com
    uma grossa barba salpicada de branco, um nariz vermelho e bulboso com
    veias rebentadas e mãos nodosas, grandes como presuntos. — Não me referi
    a essa parte, senhor.
    — Eli faria o mesmo se ela fosse minha filha — disse o último
    cavaleiro, um homem baixo e seco com um sorriso sardónico, nariz
    pontiagudo e um hirsuto cabelo cor de laranja. — Especialmente perto de
    labregos como nós.
    Alayne riu.
    — São labregos? — disse, brincando. — Ora, e eu que os tomei por
    galantes cavaleiros.
    — Cavaleiros, são — disse Petyr. — A sua galanteria ainda está por
    demonstrar, mas podemos ter esperança. Permite-me que te apresente Sor
    Byron, Sor Morgarth e Sor Shadrich. Senhores, a Senhora Alayne, minha
    filha ilegítima e muito esperta... com a qual tenho de conferenciar, se
    fizerem a bondade de nos deixar a sós.
    Os três cavaleiros fizeram vénias e retiraram-se, embora o alto do cabelo
    louro lhe tenha beijado a mão antes de sair.
    — Cavaleiros andantes? — disse Alayne, quando a porta foi fechada.
    — Cavaleiros famintos. Achei melhor termos mais algumas espadas à
    nossa volta. Os tempos tornam-se cada vez mais interessantes, minha
    querida, e quando os tempos são interessantes, nunca se pode ter demasiadas
    espadas. O Rei Bacalhau regressou a Vila Gaivota, e o velho Oswell tinha
    algumas histórias para contar.
    Alayne sabia não ser boa ideia perguntar que tipo de histórias. Se Petyr
    tivesse querido que ela soubesse, teria lhe dito.

    Admin
    Admin

    Mensagens : 1409
    Data de inscrição : 09/04/2012

    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 1:59 pm

    — Não o esperava de volta tão cedo — disse. — Me agrada que
    tenha vindo.
    — Nunca teria percebido tal coisa pelo beijo que me deu. — Puxou-a
    para si, prendeu-lhe o rosto entre as mãos, e beijou-a nos lábios durante
    muito tempo. — Isto é que é o tipo de beijo que diz bem-vindo a casa. Trata
    de melhorar da próxima vez.
    — Sim, pai. — Conseguia sentir-se a corar.
    Ele não lhe guardou rancor pelo beijo.
    Não acreditaria em metade do que está acontecendo em Porto Real,
    querida. Cersei cambaleia de idiotice em idiotice, ajudada pelo seu conselho
    de moucos, obtusos e cegos. Sempre julguei que ela iria deixar o reino falido
    e destruir-se, mas nunca esperei que o fizesse assim tão depressa. É bastante
    aborrecido. Esperava ter quatro ou cinco anos calmos para plantar certas
    sementes e deixar alguns frutos a amadurecer, mas agora... ainda bem que
    eu prospero no caos. A pouca paz e ordem que os cinco reis nos deixaram
    não sobreviverá por muito tempo às três rainhas, temo bem.
    — Três rainhas? — Não estava compreendendo.
    E Petyr também não achou por bem explicar. Em vez disso sorriu e
    disse:
    — Trouxe um presente à minha querida menina.
    Alayne ficou tão contente como surpreendida.
    — É um vestido? — Tinha ouvido dizer que havia boas costureiras
    em Vila Gaivota, e estava farta de usar vestidos sem graça.
    — Coisa melhor. Tenta outra vez.
    — Jóias?
    — Não há jóias que possam esperar igualar os olhos da minha filha.
    — Limões? Encontrou limões? — Prometera bolo de limão ao Piscodoce,
    e para fazer bolo de limão eram precisos limões.
    Petyr Baelish pegou-lhe na mão e sentou-a ao seu colo.
    — Fiz um contrato de casamento para ti.
    — Um contrato... — A garganta lhe apertou. Não queria voltar a
    casar, agora não, talvez nunca mais. — Eu não... não posso casar. Pai, eu...
    — Alayne olhou para a porta, a fim de se assegurar de que estava fechada.
    — Eu sou casada — sussurrou. — Você sabei.

    Admin
    Admin

    Mensagens : 1409
    Data de inscrição : 09/04/2012

    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 1:59 pm

    Petyr pôs-lhe um dedo nos lábios para a silenciar.
    — O anão casou com a filha de Ned Stark, não com a minha. Mas
    seja como for. Isto é só um noivado. O casamento terá de esperar até que
    Cersei esteja acabada e Sansa seguramente viúva. E você tem de conhecer o
    rapaz e conquistar a sua aprovação. A Senhora Waynwood não o obrigará a
    casar contra a sua vontade, é bastante firme quanto a isso.
    — A Senhora Waynwood? — Alayne quase não conseguia acreditar
    no que ouvia. — Porque haveria ela de casar um dos filhos com... com
    uma...
    —... bastarda? Para começar, você é a bastarda do Senhor Protetor,
    não se esqueça. Os Waynwood são muito antigos e muito orgulhosos, mas
    não tão ricos como se poderia pensar, como eu descobri quando comecei a
    comprar sua dívida. Não que a Senhora Anya alguma vez vendesse um filho
    por ouro. Mas um protegido... o jovem Harry é só um primo, e o dote que eu
    ofereci a sua senhoria é ainda maior do que aquele que Lyonel Corbray
    acabou de receber. Tinha de ser, para ela se arriscar à fúria do Bronze Yohn.
    Isto porá todos os planos dele de pantanas. Está prometida a Harrold
    Hardyng, querida, desde que consiga conquistar o seu coração de rapaz... o
    que para você não deverá ser difícil.
    — Harry, o Herdeiro? — Alayne tentou recordar-se do que Myranda
    lhe dissera na montanha acerca dele. — Ele acabou de ser armado cavaleiro.
    E tem uma filha bastarda duma plebeia qualquer.
    — E outra a caminho, de outra menina. Harry pode ser um sedutor,
    não há dúvida. Suave cabelo cor de areia, profundos olhos azuis, e covinhas
    quando sorri. E muito galante, segundo ouvi dizer. — Provocou-a com um
    sorriso. — Bastarda ou não, querida, quando esta união for anunciada será a
    inveja de todas as donzelas bem-nascidas do Vale, e também de algumas das
    terras fluviais e da Campina.
    — Porquê? — Alayne não estava entendendo. — Sor Harrold é...
    como é que ele pode ser herdeiro da Senhora Waynwood? Ela não tem filhos
    do seu próprio sangue?
    — Três — concedeu Petyr. Alayne sentia o cheiro do vinho no hálito
    dele, o cravinho e a noz-moscada. — E também filhas e netos.
    — Eles não têm precedência sobre Harry? Não compreendo.
    — Compreenderá. Escuta. — Petyr pegou em sua mão e esfregou
    levemente a palma com os dedos. — Lorde Jasper Arryn, comecemos por
    ele. Pai de Jon Arryn. Ele gerou três crianças, dois filhos e uma filha. Jon era
    o mais velho, de modo que o Ninho da Águia e a senhoria passaram para ele.

    Admin
    Admin

    Mensagens : 1409
    Data de inscrição : 09/04/2012

    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:00 pm

    A irmã Alys casou com Sor Elys Waynwood, tio da atual Senhora
    Waynwood. — Fez uma careta sardónica. — Elys e Alys, não é uma delícia?
    O filho mais novo de Lorde Jasper, Sor Ronnel Arryn, casou com uma
    menina Belmore, mas só lhe tocou o sino uma ou duas vezes antes de morrer
    de um mal de barriga. Elbert, o filho deles, nasceu numa cama no momento
    em que o pobre Ronnel estava a morrer noutra ao fundo do corredor. Estás
    prestando atenção, querida?
    — Sim. Havia Jon, Arys e Ronnel, mas Ronnel morreu.
    — Ótimo. Bom, Jon Arryn casou por três vezes, mas as duas primeiras
    esposas não lhe deram filhos, de modo que durante longos anos o
    sobrinho Elbert foi seu herdeiro. Entretanto, Elys arava Alys com bastante
    diligência, e ela paria uma vez por ano. Deu-lhe nove filhos, oito meninas, e
    um precioso rapazinho, outro Jasper, após o que morreu, exausta. O jovem
    Jasper, sem mostrar consideração pelos heróicos esforços que tinham sido
    desenvolvidos para o gerar, arranjou maneira de ser escoiceado na cabeça
    por um cavalo aos três anos. Um surto de varíola levou-lhe duas das irmãs
    pouco depois, deixando seis. A mais velha casou com Sor Denys Arryn, um
    primo afastado dos Senhores do Ninho da Águia. Há vários ramos da Casa
    Arryn espalhados pelo Vale, todos tão orgulhosos como penuriosos, à
    exceção dos Arryn de Vila Gaivota que tiveram o raro bom senso de casar
    com mercadores. São ricos, mas não chegam a refinados, portanto ninguém
    fala deles. Sor Denys provinha de um dos ramos pobres e orgulhosos... mas
    também era combatente de renome em justas, bem-parecido e galante e
    transbordando de cortesia. E possuía aquele mágico nome Arryn, o que o
    tornava ideal para a mais velha das meninas Waynwood. Os seus filhos
    seriam Arryn, e os herdeiros seguintes do Vale, caso algo de mal
    acontecesse a Elbert. Bem, e calhou acontecer a Elbert o Rei Louco Aerys.
    Conhece essa história?
    Conhecia.
    — O Rei Louco assassinou-o.
    — De fato o fez. E, pouco depois, Sor Denys deixou a sua esposa
    Waynwood grávida para partir para a guerra. Morreu durante a Batalha dos
    Sinos, de um excesso de galanteria e de um machado. Quando contaram a
    sua morte à sua senhora, ela pereceu de desgosto, e o filho recém-nascido
    rapidamente a seguiu. Não importava. Jon Arryn arranjara uma jovem esposa
    durante a guerra, uma esposa que tinha motivos para julgar fértil. Estava
    muito esperançado, tenho a certeza, mas ambos sabemos que tudo o que
    obteve de Lysa foi nati-mortos, abortos, e o pobre Pisco-doce. O que nos
    traz de volta às restantes filhas de Elys e Alys. A mais velha foi deixada com
    terríveis cicatrizes pela mesma varíola que lhe mataram as irmãs, de modo

    Admin
    Admin

    Mensagens : 1409
    Data de inscrição : 09/04/2012

    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:00 pm

    que se tornou septã. Outra foi seduzida por um mercenário. Sor Elys
    expulsou-a, e ela juntou-se às irmãs silenciosas depois de o bastardo morrer
    bebê. A terceira casou com o Senhor das Bossas, mas demonstrou ser estéril.
    A quarta ia a caminho das terras fluviais para casar com um Bracken
    qualquer quando Homens Queimados a levaram. Ficou a mais nova, que
    casou com um cavaleiro com terras, ajuramentado aos Waynwood, lhe deu
    um filho a que chamou Harrold, e faleceu. — Virou-lhe a mão e deu-lhe um
    leve beijo no pulso. — Portanto diz-me, querida: porque é Harry o Herdeiro?
    Os olhos dela esbugalharam-se.
    — Ele não é herdeiro da Senhora Waynwood. É herdeiro de Robert.
    Se Robert morrer...
    Petyr arqueou uma sobrancelha.
    — Quando Robert morrer. O nosso pobre e bravo Pisco-doce é um
    rapaz tão enfermiço que é só questão de tempo. Quando Robert morrer,
    Harry, o Herdeiro, torna-se Lorde Harrold, Defensor do Vale e Senhor do
    Ninho da Águia. Os vassalos de Jon Arryn nunca gostarão de mim, nem do
    nosso pateta e trémulo Robert, mas gostarão do seu Jovem Falcão... e
    quando se reunirem para o seu casamento, e você sair com os teus longos
    cabelos ruivos, vestida com um manto de donzela de branco e cinzento com
    um lobo gigante desenhado na parte de trás... ora, todos os cavaleiros do
    Vale oferecerão as suas espadas para te reconquistar o que é teu por direito
    de sangue. De modo que são estes os presentes que eu te dou, minha querida
    Sansa... Harry, o Ninho da Águia, e Winterfell. Isso merece outro beijo, não
    acha?

    Admin
    Admin

    Mensagens : 1409
    Data de inscrição : 09/04/2012

    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:00 pm

    Briene 756



    Este é um sonho ruim, pensou. Mas se ela estava sonhando, por que
    doía tanto?
    A chuva tinha parado de cair, mas todo o mundo estava
    molhado. Sentia seu manto tão pesado quanto uma cota de malha.
    As cordas que prendiam seus pulsos estavam encharcadas, mas isso só a
    deixava mais apertada. Não importa o quanto Brienne tentasse, ela não
    poderia escapar. Ela não sabia quem a tinha a prendido, ou por quê. Ela
    tentou perguntar às sombras, mas elas não responderam. Talvez elas não a
    ouvissem. Talvez elas fossem reais. Sob camadas de lã molhada e armadura
    enferrujada, sua pele estava vermelha e febril. Ela se perguntava se tudo isso
    era apenas um sonho provocado pela febre.
    Ela tinha um cavalo debaixo dela, embora não conseguisse se
    lembrar de ter montado. Se deitou de bruços em sua parte traseira, como um
    saco de aveia. Seus pulsos e tornozelos estavam amarrados. O ar estava
    úmido, o chão envolto em névoa. Sua cabeça batia a cada passo. Ela podia
    ouvir vozes, mas tudo que ela podia ver era a terra sob os cascos do cavalo.
    Havia coisas quebradas dentro dela. Sentia seu rosto inchado, e a face estava
    pegajosa com o sangue, e a cada sacudida sentia uma pontada de agonia em
    seu braço. Ela podia ouvir Podrick chamá-la, como se estivesse longe.
    — Sor? — Ele dizia. — Sor? Minha senhora? Sor? Minha senhora?
    — Sua voz estava fraca e difícil de ouvir. Finalmente, houve apenas silêncio.
    Ela sonhou que estava em Harrenhal, outra vez na arena dos ursos.
    Desta vez era Dentadas quem vinha de encontro a ela, enorme, calvo, branco
    como um verme, com feridas que choravam em seu rosto. Ele vinha pelado,
    acariciando seu membro, rangendo os dentes limados em conjunto. Brienne
    fugiu dele.
    — Minha espada, — ela chamou. — Cumpridora de Promessas. Por
    favor. — Os espectadores não responderam. Renly estava lá, com Dick
    Nimble e Catelyn Stark. Shagwell, Pyg e Timeon também, e os cadáveres
    das árvores com as bochechas afundadas, línguas inchadas e órbitas vazias.
    Brienne gemeu de horror ao vê-los, e Dentadas agarrou o braço dela e a
    puxou para mais perto, e rasgou um pedaço de seu rosto. — Jaime, — ela
    gritou, — Jaime.
    Mesmo nas profundezas do sonho a dor estava lá. Seu rosto pulsava.
    Seu ombro sangrava. A respiração falhava. A dor espalhava-se no braço
    como um relâmpago. Ela gritou por um meistre.

    Admin
    Admin

    Mensagens : 1409
    Data de inscrição : 09/04/2012

    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:00 pm

    — Nós não temos meistre, — disse a voz de uma menina. — Só tem
    a mim.
    Eu estou procurando uma menina, Brienne lembrou. Uma donzela
    nobre, com treze anos, de olhos azuis e cabelos ruivos.
    — Minha senhora, — ela disse. — Senhora Sansa?
    Um homem riu.
    — Ela pensa que você é Sansa Stark.
    V Ela não pode ir muito mais longe. Ela vai morrer.
    — Um leão a menos. Eu não vou chorar.
    Brienne ouviu o som de alguém orando. Ela pensou no Septão
    Meribald, porém não era uma de suas orações. A noite é escura e cheia de
    terrores, assim como os sonhos.
    Eles estavam andando por um bosque sombrio, úmido, um lugar
    escuro, silencioso, onde os pinheiros cresciam muito juntos. O chão era
    macio sob os cascos de seu cavalo, e as faixas de sangue que ela deixava
    para trás. Ao lado dela montava Lorde Renly, Dick Crabb, e Vargo Hoat.
    Sangue corria da garganta de Renly. E a orelha rasgada da cabra estava cheia
    de pus.
    — Para onde vamos? — Brienne perguntou. — Onde vocês estão
    me levando? — Nenhum deles iria responder. Como eles poderiam
    responder? Todos eles estão mortos. Isso significava que ela estava morta
    também?
    Lorde Renly, seu doce rei sorridente, ia atrás dela. Ele estava
    conduzindo seu cavalo por entre as árvores. Brienne o chamou para dizer o
    quanto ela o amava, mas quando se virou para a carranca dele, ela percebeu
    que não era Renly. Renly nunca fez uma careta. Ele sempre tinha um sorriso
    para mim, pensou ... exceto ...
    — Frio, — disse seu rei, perplexo, e uma sombra sem homem se
    projetou para ele, e o sangue de seu doce senhor correu pelo aço verde do
    gorjal e lhe banhou as mãos. Ele tinha sido um homem quente, mas o seu
    sangue estava frio como gelo. Isto não é real, ela disse a si mesma. Este é
    um outro sonho ruim, e logo eu vou acordar.
    Sua montaria deu uma parada súbita. Mãos ásperas a agarraram. Ela
    viu raios de luz vermelha da tarde oblíqua através dos galhos de uma
    castanheira. Um cavalo pairava entre as folhas mortas depois das
    castanheiras, e os homens moviam-se por perto, conversando em voz baixa.

    Admin
    Admin

    Mensagens : 1409
    Data de inscrição : 09/04/2012

    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:00 pm

    Dez, doze, talvez mais. Brienne não conseguia reconhecer seus rostos. Ela
    estava estendida no chão, de costas contra um tronco de árvore.
    — Beba isso, Minha senhora, — disse a voz da menina. Levou um
    copo aos lábios de Brienne. O gosto era forte e azedo. Brienne cuspiu para
    fora. — Água, — ela ofegou. — Por favor. Água.
    — A água não vai ajudar com a dor. Se é sua vontade. Tome aqui
    um pouco." A menina levou o copo aos lábios Brienne novamente.
    Até beber era doloroso. Vinho correu pelo queixo e pingou em seu
    peito. Quando se esvaziou, a menina o encheu novamentede de um odre.
    Brienne bebeu até não poder suportar mais.
    — Não mais.
    — Mais. Você tem um braço quebrado, e algumas de suas costelas
    estão rachadas. Duas, talvez três.
    — Dentadas, — Brienne disse, lembrando de seu peso, da maneira
    como seu joelho tinha batido em seu peito.
    — Sim. Um verdadeiro monstro.
    Ela se lembrou de tudo de repente; dos relâmpagos no céu, da lama
    no chão, da chuva pingando suavemente contra o aço escuro do elmo de Cão
    de Caça, a terrível força nas mãos de Dentadas. De repente, ela não pode
    surportar as amarras. Ela tentou arranca-las, ficar livre das cordas, mas tudo
    o que fez foi ficar mais irritada. Os pulsos haviam sido amarrados com muita
    força. Havia sangue seco sobre o cânhamo.
    Ele está morto? — Ela estremeceu. — Dentadas. Ele está morto? —
    Lembrou-se dos dentes rasgando a carne de seu rosto. O pensamento de que
    ele ainda poderia estar lá fora em algum lugar, respirando, dava a Brienne
    vontade de gritar.
    — Ele está morto. Gendry empurrou uma ponta de lança na parte de
    trás do pescoço. Beba, minha senhora, ou vou derramar tudo em sua
    garganta. —
    Ela bebeu.
    — Estou procurando uma garota, — ela sussurrou, entre cada
    golada. Ela quase disse: a minha irmã. — Uma doce donzela de treze anos.
    Ela tem olhos azuis e cabelos ruivos.
    — Eu não sou ela.
    Não. Brienne podia ver isso. A menina era magra ao ponto de ter o
    olhar faminto. Usava o cabelo castanho em uma trança, e seus olhos eram

    Admin
    Admin

    Mensagens : 1409
    Data de inscrição : 09/04/2012

    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:01 pm

    mais velhos do que seus anos. Cabelos castanhos, olhos castanhos, liso.
    Willow, seis anos mais velha.
    — Você é a irmã. A estalajadeira.
    — Eu poderia ser. — A menina apertou os olhos. — E se eu for?
    — Você tem um nome? — Brienne perguntou. Seu estômago
    borbulhava. Ela temia que fosse vomitar.
    — Liza. Como Willow. Jeyne Liza.
    — Jeyne. Desate minhas mãos. Por favor. Tenha piedade. As cordas
    estão fazendo escoriações em meus pulsos. Estou sangrando.
    — Não é permitido. Você tem que continuar atada, até que... até que
    você fique diante da minha senhora. — Renly estava atrás da garota,
    afastando os cabelos negros de seus olhos. Não Renly. Gendry. — Minha
    senhora quer que você responda por seus crimes.
    — Minha senhora. — O vinho fazia sua cabeça girar. Era difícil
    pensar. — Coração de pedra. É o que você quer dizer? — Lorde Randyll
    tinha falado dela em Lagoa da Donzela. — Senhora Coração de Pedra.
    — Alguns a chamam assim. Alguns a chamam de outras coisas. A
    irmã silenciosa. Mãe Impiedosa. A Mulher Enforcadora.
    A Mulher Enforcadora. Quando Brienne fechou seus olhos, viu os
    corpos balançando nus sob os galhos marrons, pretos com seus rostos
    inchados. De repente, ela sentiu muito medo.
    — Podrick. Meu escudeiro. Onde está Podrick? E os outros... Sor
    Hyle, Septão Meribald. O cachorro. O que você fez com o cachorro?
    Gendry e a menina trocaram olhares. Brienne tentou se levantar, e
    conseguiu levar uma joelhada antes que o mundo começasse a girar.
    — Foi você que matou o cachorro, minha senhora, — ela ouviu
    Gendry dizer, pouco antes de a escuridão engoli-la novamente.
    Então, ela estava de volta nos Sussuros, em pé entre as ruínas e de
    frente para Clarence Crabb. Ele era enorme e feroz, montava um auroque
    mais peludo do que ele. A besta pateava o chão furiosa, rasgando sulcos
    profundos na terra. Os dentes de Crabb eram afiados, pontiagudos. Quando
    Brienne foi pegar sua espada, encontrou sua bainha vazia.
    — Não, — ela chorou, quando Sor Clarence cavalgou contra. Não
    era justo. Ela não poderia lutar sem a sua espada mágica. Sor Jaime tinha

    Admin
    Admin

    Mensagens : 1409
    Data de inscrição : 09/04/2012

    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:01 pm

    dado a ela. Ia falhar, assim como tinha falhado com Renly. — Minha espada.
    Por favor, eu tenho que encontrar a minha espada.
    — A moça quer que sua espada de volta, — declarou uma voz.
    — E eu quero Cersei Lannister para chupar meu pau. E daí?
    — Jaime a chama de Cumpridora de Promessas. Por favor. — Mas
    as vozes não deram ouvidos, e Clarence Crabb caiu sobre ela e arrancou sua
    cabeça. Brienne desceu em espiral para uma escuridão mais profunda.
    Ela sonhou que estava deitada em um barco, a cabeça em um
    travesseiro, no colo de alguém. Havia sombras em torno deles, homens
    encapuzados em cotas de malha e artigos de couro, remando em um rio
    nebuloso, abafando os remos para evitar produzirem barulho. Ela estava
    encharcada de suor, ardendo, mas de alguma forma tremendo também. O
    nevoeiro estava repleto de faces.
    — Beleza, — sussurraram os salgueiros na margem, mas os juncos
    disseram”
    — Monstro, monstro. Brienne estremeceu.
    — Parem, — disse ela. — Alguém faça-os parar. — Na próxima vez
    que ela acordou, Jeyne levou as seus lábios uma colher de sopa quente.
    Cebola, caldo de carne, Brienne pensou. Ela bebeu tanto quanto pode,
    depois pegou um pedaço de cenoura e o pos na boca, mas engasgou. A tosse
    era uma agonia.
    — Fique tranquila, — a menina disse.
    — Gendry, — ela ofegou. — Eu tenho que falar com Gendry"
    — Ele voltou ao rio, minha senhora. Voltou para a forja, para
    proteger Willow e os pequeninos, para mantê-los seguros.
    Ninguém pode mantê-los seguros. Ela começou a tossir.
    — Ah, deixe-a engasgar. Poupe-nos uma corda. — Um homem das
    sombras empurrou a menina de lado. Ele estava usando anéis enferrujados e
    um cinto cravejado. Pendurada em seu quadril estava uma espada longa e um
    punhal. Uma capa amarela lhe cobria os ombros, encharcada e suja. Tinha
    emcima dos ombros uma cabeça de cachorro de aço, seus dentes à mostra
    em um rosnado.
    — Não, — Brienne gemeu. — Não, você está morto, eu matei você.
    O Cão riu.

    Admin
    Admin

    Mensagens : 1409
    Data de inscrição : 09/04/2012

    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:01 pm

    — Para trás. Eu é que vou matar você. Eu faria isso agora, mas
    minha senhora quer vê-la enforcada.
    Enforcada. A palavra a deu um calafrio de medo. Ela olhou para a
    menina, Jeyne. Ela é muito jovem para ser tão dura.
    — Pão e sal, — Brienne engasgou. — A estalagem... Septão
    Meribald alimentou as crianças... partiu o pão com sua irmã...
    — A prerrogativade de hóspedes não é o que parecia, — disse a
    menina. — Ainda menos desde que minha senhora voltou do casamento.
    Alguns desses que balançam à beira do rio também acreditavam serem
    convidados.
    — Foi um pequeno mal entendido, — disse Cão de Caça. — Eles
    queriam camas. Nós demos árvores.
    — Nós ainda temos mais árvores, porém, — disse outro homem na
    sombra, tinha apenas um olho sob um elmo enferrujado. — Nós sempre
    temos mais árvores.
    Quando chegou a hora de montarem novamente, eles taparam seu
    rosto com uma capa de couro. Não tinha buraco para os olhos. O couro
    abafava os sons ao seu redor. O gosto de cebolas permanecia em sua língua
    afiada, como lembrança de seu fracasso. Vão me enforcar. Ela pensou em
    Jaime, em Sansa, em seu pai em Tarth, e se alegrou de ter o capus. Ele
    ajudou a esconder as lágrimas em seus olhos. De vez em quando ela ouvia os
    bandidos falarem, mas ela não conseguia distinguir suas palavras. Depois de
    um tempo ela se entregou ao cansaço e ao movimento lento e constante de
    seu cavalo.
    Desta vez, ela sonhou que estava em casa novamente. Através das
    altas janelas arqueadas no salão do senhor seu pai, ela podia ver o sol. Eu
    estou segura aqui. Eu estou segura aqui.
    Ela estava vestida com um brocado de seda, e um vestido azul e
    vermelho decorado com sóis dourados e luas crescentes de prata. Em outra
    garota aquele poderia ter sido um lindo vestido, mas não sobre ela. Ela tinha
    doze anos, desajeitada e desconfortável, esperando para se encontrar com o
    jovem cavaleiro que seu pai tinha arranjado para ela se casar, um menino
    seis anos mais velho que ela, com a certeza de ser um campeão famoso um
    dia. Ela temia sua chegada. Seus seios eram muito pequenos, e as mãos e os
    pés muito grandes. Seu cabelo se arrupiava constantemente, e tinha uma
    espinha aninhada do lado do seu nariz.
    — Ele vai trazer uma rosa para você, — seu pai lhe prometeu, mas
    uma rosa não era boa, uma rosa não poderia mantê-la segura. Era uma

    Admin
    Admin

    Mensagens : 1409
    Data de inscrição : 09/04/2012

    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:01 pm

    espada que ela queria. Cumpridora de Promessas. Eu tenho que encontrar a
    garota. Tenho que recuperar a horna de Jaime.
    Finalmente as portas se abriram, e seu noivo caminhou na sala de
    seu pai. Ela tentou cumprimentá-lo como tinha sido instruída a fazer, só para
    ter sangue saindo de sua boca. Ela tinha mordido a língua mais forte do que
    queria. Ela cuspiu aos pés do jovem cavaleiro, e viu o desgosto em seu rosto.
    — Brienne a Beleza, — disse ele em tom de zombaria. — Eu vi
    semeadoras mais bonitas que você. — Ele jogou a rosa na cara dela.
    Enquanto se afastava, os grifos em seu manto ondulado e turvo se
    transformaram em leões. Jaime! Ela queria chorar. Jaime, volte para mim!
    Mas a língua estava deitada no chão, junto da rosa, afogada em sangue.
    Brienne acordou de repente, ofegante.
    Ela não sabia onde estava. O ar estava frio e pesado, e cheirava a
    terra, a vermes e a fungos. Ela estava deitada sobre um monte de peles de
    ovelhas, havia uma pedra acima de sua cabeça e raízes sobressaiam-se das
    paredes. A única luz vinha de uma vela de sebo, fumegante em uma poça de
    cera derretida.
    Ela afastou as peles. Alguém a tinha despido de suas roupas e
    armadura. Ela estava vestida com um vestido de lã marrom, fino, mas bem
    lavado. Seu antebraço tinha sido imobilizado e ligado à roupa. Um dos lados
    de seu rosto estava molhado e rígido. Quando ela tocou a si mesma,
    encontrou uma espécie de cataplasma úmido cobrindo o rosto, o maxilar e a
    orelha. Dentadas...
    Brienne ficou de pé. Sentia suas pernas tão fracas como a água, e a
    cabeça tão leve como o ar.
    — Tem alguém aí?
    Algo se moveu em uma das alcovas, nas sombras atrás da vela, um
    homem cinzento, velho e vestido com trapos. As mantas que a cobriam
    escorregaram para o chão. Ela se sentou e esfregou os olhos.
    — Senhora Brienne? Você me deu um susto. Eu estava sonhando.
    Não, ela pensou, eu é que estava.
    — Que lugar é esse? É uma masmorra?
    — Uma caverna. Como ratos, temos que correr de volta para os
    nossos buracos quando os cães farejadores vêm atrás de nós, e há mais cães a
    cada dia. — Ele estava vestido com os restos esfarrapados de um manto
    velho, rosa e branco. Seu cabelo era longo e cinza, e embaraçado, a pele
    solta das bochechas e do queixo estava coberta com uma palha grossa. —

    Admin
    Admin

    Mensagens : 1409
    Data de inscrição : 09/04/2012

    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:01 pm

    Você está com fome? Você gostaria de um copo de leite? Talvez um pouco
    de pão e mel?
    — Eu quero as minhas roupas. Minha espada. — Sentia-se nua sem
    a sua cota de malha, e ela queria a Cumpridora de Promessas ao seu lado. —
    O caminho para fora daqui. Mostre-me o caminho para sair. — O chão da
    caverna era terra e pedra, áspera sob a sola dos seus pés. Mesmo agora, ela
    sentia-se tonta, como se estivesse flutuando. A luz bruxeleante projetava
    sombras estranhas. Espíritos dos mortos, pensou ela, dançando sobre mim,
    escondendo-se quando me viro para olhar para eles. Em todos os lugares
    viu buracos, fendas e rachaduras, mas não havia maneira de saber quais
    passagens iam para fora, e quais poderiam levá-la mais para fundo da
    caverna, e quais não dariam em nada. Todas eram negras como breu.
    — Posso sentir sua testa, minha senhora? — A mão do carcereiro
    estava cheia de feridas e calos duros, mas era estranhamente delicada. —
    Sua febre acabou, — anunciou, numa voz floreada com o sotaque das
    Cidades Livres. — Muito bem. Ontém a sua carne parecia como se estivesse
    em fogo. Jeyne temia que pudéssemos perdê-la.
    — Jeyne. A menina alta?
    — Essa mesma. Embora ela não seja tão alto quanto você, minha
    senhora. Jeyne, a comprida, os homens a chamam. Foi ela quem cuidou do
    seu braço, tão bem quanto qualquer meistre. Ela fez o que pode no seu rosto,
    bem como, lavou as feridas com cerveja fervida para parar a mortificação.
    Mesmo assim... uma mordida humana é uma coisa imunda. Foi daí que a
    febre veio, estou certo disso. — O homem grisalho tocou seu rosto
    enfaixado. — Tivemos que cortar algum pedaço de carne. Temo que seu
    rosto não vá ficar muito bonito.
    Nunca foi tão bonito.
    — Vão ficar cicatrizes, você quer dizer?
    — Minha senhora, aquela criatura mastigou fora metade da sua
    bochecha.
    Brienne não pode deixar de estremecer. Todo cavaleiro tem
    cicatrizes de batalha, Sor Goodwin a avisara quando ela lhe pediu para que
    ele a ensinasse a usar uma espada.
    — É isso que você quer, criança? — Porém, seu velho mestre de
    armas se referia a cortes de espada, ele nunca poderia ter antecipado dentes
    tão pontudos quanto os de Dentadas.

    Admin
    Admin

    Mensagens : 1409
    Data de inscrição : 09/04/2012

    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:01 pm

    — Por que arrumar meus ossos e lavar as minhas feridas se você só
    quer me enforcar?
    — Por quê? — Ele olhou para a vela, como se já não suportasse
    mais olhar para ela. — Você lutou bravamente na estalagem, disseram-me.
    Lem não deveria ter saído da encruzilhada. Foi-lhe dito para ficar perto,
    escondido, e vir de imediato se visse fumaça saindo da chaminé... mas
    quando lhe chegou a notícia de que o Cachorro Louco das Salinas tinha sido
    visto trilhando um caminho ao longo do norte do Ramo Verde, ele mordeu a
    isca. Tivemos o caçado por tanto tempo... Ainda assim, ele deveria ter sido
    mais sensato. Levou metade de um dia para perceber que os mascarados
    tinham usado um córrego para esconder seus rastros e ficar atrás dele, então
    ele perdeu mais tempo circulando em torno de uma coluna de cavaleiros de
    Lorde Frey. Se não fosse por você, Lem e seus homens teriam encontrado
    apenas cadáveres. Foi por isso que Jeyne cuidou de suas feridas. O que quer
    que tenha feito, você ganhou essas feridas honradamente, defendendo a
    melhor causa possível.
    O que quer que tenha feito.
    — O que é que você acha que eu fiz? — Disse. — Quem é você?
    — Nós fomos homens do rei quando começamos, — o homem lhe
    disse: — mas os homens do rei precisam ter um rei, e não temos nenhum.
    Éramos irmãos também, mas agora a nossa irmandade está quebrada. Eu não
    sei quem somos, verdade seja dita, nem para onde vamos. Eu só sei que a
    estrada é escura. Os incêndios não me mostram final algum.
    Eu sei onde termina. Tenho visto corpos nas árvores.
    — Incêndios, — Brienne repetiu. Compreendeu tudo de uma vez. —
    Você é o sacerdote Myrish. O feiticeiro vermelho.
    Ele olhou para suas roupas esfarrapadas, e sorriu com tristeza.
    — O rosa a lembra, sim. Eu sou Thor, vim depois de Myr, sim ... um
    sacerdote ruim e um feiticeiro pior.
    — Você monta com Dondarrion. O Senhor do Relâmpago.
    — O relâmpago vai e vem. Assim também é com os homens. O
    Senhor do fogo Beric saiu deste mundo, eu temo. Uma sombra mais sombria
    nos guia em seu lugar.
    — Cão de Caça?
    O feiticeiro franziu os lábios.
    — O Cão está morto e enterrado.

    Admin
    Admin

    Mensagens : 1409
    Data de inscrição : 09/04/2012

    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:02 pm

    — Eu o vi. Na floresta.
    — Um sonho vindo da febre, minha senhora.
    — Ele disse que iria me enforcar"
    — Mesmo os sonhos podem mentir. Minha senhora, quanto tempo
    se passou desde que você comeu? Certamente você está faminta?
    Ela estava, percebeu. Sentiu sua barriga vazia.
    — Comida... alimentos seriam bem-vindos, obrigada.
    — Uma refeição, então. Sente-se. Vamos conversar mais, mas
    primeiro uma refeição. Espere aqui. — Thoros acendeu o pavio de uma vela
    inclinada, e desapareceu em um buraco negro sob uma laje de pedra. Brienne
    se viu sozinha na pequena caverna. Por quanto tempo, porém?
    Ela rondava a câmara, à procura de alguma arma. Qualquer tipo de
    arma teria servido; um bastão, uma clava, um punhal. Ela encontrou apenas
    pedras. Uma encaixava muito bem sob seu punho... mas ela lembrou-se dos
    Sussurros, e o que aconteceu quando Shagwell tentou lutar com uma pedra
    contra uma faca. Quando ela ouviu os passos do padre retornarem, ela
    deixou a pedra cair no chão da caverna e retomou seu assento. Thoros trouxe
    pão, queijo e um prato de guisado. — Eu sinto muito, — disse ele. — O
    último gole de leite tinha azedado, e todo mel foi embora. Alimentos estão
    escassos. Ainda assim, estes aqui irão enchê-la.
    O guisado estava frio e gorduroso, o pão duro, o queijo mais duro
    ainda. Brienne nunca tinha comido nada tão bom.
    — Os meus companheiros estão aqui? — Ela perguntou ao padre,
    enquanto devorava a última colherada do guisado.
    — O septão foi posto em liberdade para seguir seu caminho. Não
    havia mal nenhum nele. Os outros estão aqui, aguardando julgamento.
    — Julgamento? — Ela franziu o cenho. — Podrick Payne é apenas
    um menino.
    — Ele diz que é um escudeiro.
    — Você sabe como os meninos se gabão.
    — O escudeiro do duende. Ele lutou em batalhas, ele mesmo
    admitiu. Ele ia morrer, para dizer isso.
    — Um menino, — disse ela novamente. — Tenha piedade.
    — Minha senhora, — Thoros disse: — Eu não tenho dúvida de que

    Admin
    Admin

    Mensagens : 1409
    Data de inscrição : 09/04/2012

    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:02 pm

    bondade, misericórdia e perdão ainda podem ser encontrados em algum
    lugar nos Sete Reinos, mas não espere por eles aqui. Esta é uma caverna, e
    não um templo. Quando os homens vivem como ratos no escuro, debaixo da
    terra, a piedade se acaba tão rápido quanto o leito e o mel.
    — E a justiça? Isso pode ser encontrado em cavernas?
    — Justiça. — Thoros deu um sorriso pálido. — Lembro-me da
    justiça. Tinha um sabor agradável. Justiça era o que estávamos prestes a
    fazer quando Beric nos liderava, ou então nós dizíamos isso a nós mesmos.
    Éramos homens do rei, cavaleiros e heróis... mas alguns cavaleiros são
    escuros e cheios de terror, minha senhora. Guerra faz de todos nós monstros.
    — Você está dizendo que são monstros?
    — Eu estou dizendo que somos humanos. Você não é a única com
    feridas, Senhora Brienne. Alguns dos meus irmãos eram homens bons
    quando isso começou. Alguns eram... menos bons, digamos assim? Embora
    haja quem diga que não importa como um homem começa, mas apenas
    como ele termina. Suponho que seja assim também com as mulheres. — O
    sacerdote se levantou. — Nosso tempo juntos está acabando, acredito. Eu
    ouço os meus irmãos chegando. Nossa senhora os envia para te buscar.
    — Brienne ouviu os passos e viu uma lanterna piscando na
    passagem.
    — Você me disse que ela tinha ido para Feirajusta.
    — E assim ela foi. Mas voltou, enquanto nós estávamos dormindo.
    Ela nunca dorme sozinha.
    Eu não vou ter medo, ela disse a si mesma, mas era tarde demais
    para isso. Eu não vou deixá-los verem o meu medo, ela prometeu a si mesma
    no lugar. Havia quatro deles, homens duros com rostos abatidos, vestindo
    cota de malha e roupas de couro. Ela reconheceu um deles, o homem com
    um olho, que ela vira nos sonhos.
    O maior dos quatro usava um manto amarelo manchado e rasgado.
    — Apreciou a comida? — Perguntou. — Eu espero que sim.
    Provavelmente foi a última. — Ele tinha cabelos castanhos, era barbudo,
    musculoso, com um nariz quebrado mal cicatrizado.
    Eu sei quem é este homem, Brienne pensou.
    — Você é o Cão de Caça.
    Ele sorriu. Seus dentes eram terríveis; tortos, e com listras marrons
    de podridão.

    Admin
    Admin

    Mensagens : 1409
    Data de inscrição : 09/04/2012

    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:02 pm

    — Acho que eu sou. Vendo como minha senhora matou o último. —
    Virou a cabeça e cuspiu.
    Lembrou-se do piscar dos relâmpagos, da lama sob dos seus pés.
    — Foi Rorge quem matei. Ele tirou o elmo do túmulo de Clegane, e
    vocês roubaram seu cadáver.
    — Eu não vi nenhuma objeção.
    Thoros deixou escapar um suspiro de desânimo.
    — Isso é verdade? Tem o elmo de um homem morto? Caímos tanto
    assim?
    O homem grande fez uma careta para ele.
    — O aço é bom.
    — Não há nada de bom nesse elmo, nem nos homens que o usaram,
    — disse o feiticeiro vermelho. — Sandor Clegane era um homem
    atormentado, e Rorge uma besta em pele humana.
    — Eu não sou eles.
    — Então, porque mostra ao mundo essa face? Selvagem, rosnando,
    torcida... é assim que você quer ser, Lem?
    — A visão que fará meus adversários terem medo.
    — A visão que me faz ter medo.
    — Feche os olhos, então. — O homem da capa amarela fez um gesto
    afiado. — Traga a prostituta.
    Brienne não resistiu. Havia quatro deles, e ela estava fraca e ferida,
    nua sob a pele de lã. Ela teve que dobrar o pescoço para não bater a cabeça
    enquanto marchavam através da passagem serpenteante. O caminho ficou
    mais a pique, transformando-se duas vezes antes de emergir em uma caverna
    muito maior, cheia de bandidos.
    A fogueira tinha sido feita no centro, e o ar era azul de fumaça.
    Homens agruparam-se perto das chamas, aquecendo-se contra o frio da
    caverna. Outros ficaram ao longo das paredes ou sentados de pernas
    cruzadas em paletes de palha. Havia mulheres também, e até mesmo
    algumas crianças espiando por trás das saias de suas mães. O único rosto que
    Brienne conhecia era o de Heddle Jeyne, a Comprida.
    Uma mesa de cavaletes havia sido criada na caverna, em uma fenda
    na rocha. Atrás dela estava uma mulher toda de cinza, camuflada e

    Admin
    Admin

    Mensagens : 1409
    Data de inscrição : 09/04/2012

    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:02 pm

    encapuzada. Em suas mãos estava uma coroa, um colar de bronze cercado
    por espadas de ferro. Ela foi estudá-la, seus dedos acariciando as lâminas
    como se para testar a sua nitidez. Seus olhos brilhavam sob o seu capuz.
    Cinza é a cor das irmãs silenciosas, as servas do Estranho. Brienne
    sentiu um arrepio subir sua espinha. Coração de Pedra.
    — Minha Senhora, — disse o homem grande. — Aqui está ela.
    — Sim, — acrescentou o caolho. — A puta do Regicida.
    Ela se encolheu.
    — Por que vocês me chamam assim?
    — Se eu tivesse um veado de prata para cada vez que você dissesse
    seu nome, eu seria tão rico quanto seus amigos Lannisters.
    — Isso foi só... você não entende...
    — Não entendemos? — O homem grande riu. — Eu acho que
    entendemos. Há um cheiro de leão sobre você, senhora.
    — Não é isso.
    Outro dos bandidos se aproximou, um homem mais jovem vestindo
    uma jaqueta de pele de carneiro gordurosa. Em sua mão estava Cumpridora
    de Promessas.
    — Isso diz que é. — Sua voz era fosca com um sotaque nortenho.
    Ele deslizou a espada da bainha e colocou-a na frente da Senhora Coração de
    Pedra. À luz da fogueira as ondulações vermelhas e pretas da lâmina quase
    pareciam se mover, mas a mulher em cinza só tinha olhos para o pomo: uma
    cabeça de leão de ouro, com olhos de rubi que brilhavam como duas estrelas
    vermelhas.
    — Não é isso também. — Thoros de Myr sacou um pergaminho de
    sua manga, e colocou-o ao lado da espada. — Tem o selo do menino rei e
    diz que o portador é seu enviado.
    A Senhora Coração de Pedra deixou a espada de lado para ler a
    carta.
    — A espada me foi dada com um bom propósito, — disse Brienne.
    — Sor Jaime fez um juramento para Catelyn Stark...
    —... antes que seus amigos cortassem a garganta dela, deve ter sido,
    — disse o grande homem da capa amarela. — Nós todos sabemos sobre o
    Regicida e seus juramentos.

    Admin
    Admin

    Mensagens : 1409
    Data de inscrição : 09/04/2012

    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:02 pm

    juramentos.
    769
    Isso não é bom, pensou Brienne. Nenhuma palavra minha vai
    influenciá-los. Ela seguiu em frente apesar disso.
    — Ele prometeu a Senhora Catelyn suas filhas, mas quando
    chegamos a Porto Real, elas tinham ido embora. Jaime me mandou para
    procurar a Senhora Sansa...
    —...e se você tivesse encontrado a garota, — perguntou o jovem
    nortenho, — o que você faria com ela?
    — A protegeria. A levaria para algum lugar seguro.
    O grande homem riu.
    — Onde fica isso? Nas masmorras de Cersei?
    — Não.
    — Negue tudo o que quiser. Essa espada diz que você é uma
    mentirosa. Devemos acreditar que os Lannisters estão entregando espadas de
    ouro e rubi aos seus inimigos? Que o Regicida designou a você a tarefa de
    esconder a menina de sua própria irmã gêmea? Acha que o papel com o selo
    do menino rei estava apenas para o caso de você precisava limpar a bunda,
    não? E depois os seus companheiros... — O grande homem se virou e
    acenou, as fileiras dos bandidos se separaram, e dois cativos apareceram. —
    O menino foi escudeiro do próprio Duende, minha senhora, — disse ele a
    Senhora coração de Pedra. — E o outro é um dos bastardos de um cavaleiro
    da casa do bastardo de Randyll Tarly.
    Hyle Hunt tinha sido espancado de tal maneira que seu rosto estava
    inchado e quase irreconhecível. Ele tropeçou uma vez quando foi
    empurrado, e quase caiu. Podrick o pegou pelo braço.
    — Sor, — o menino disse miseravelmente, quando viu Brienne. —
    Minha senhora, eu quero dizer. Sinto muito.
    — Você não tem do que sentir pena. — Brienne voltou-se para a
    Senhora Coração de Pedra. — Qualquer que seja a traição que você acha que
    eu possa ter cometido, minha senhora, Podrick e Sor Hyle não eram parte
    dela.
    — Eles são leões, — disse o homem de um olho só. — Isso é o
    suficiente. Eu digo que eles devem ser enforcados. Tarly já enforcou alguns
    dos nossos, está na hora de lhe responder.
    Ser Hyle deu a Brienne um leve sorriso.
    — Minha senhora, — ele disse, — você deveria aceitado minha
    oferta de casamento. Agora eu temo que você está condenada a morrer uma

    Admin
    Admin

    Mensagens : 1409
    Data de inscrição : 09/04/2012

    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:03 pm

    donzela, e eu um homem pobre.
    — Deixe-os ir, — disse Brienne.
    A mulher de cinza não deu nenhuma resposta. Ela estudou a espada,
    o pergaminho, a coroa de bronze e de ferro. Finalmente agarrou seu próprio
    pescoço, como se estivesse para estrangular a si mesma. Em vez disso, ela
    falou... Sua voz era hesitante, quebrada, torturante. O som parecia vir de sua
    garganta, parte grasnido, parte chiado, parte chocalho da morte. A língua dos
    condenados, pensou Brienne.
    — Eu não entendo. O que ela disse?
    — Ela perguntou o nome da lâmina de vocês, — disse o jovem
    nortenho no gibão de pele de carneiro.
    — Cumpridora de Promessas, — respondeu Brienne.
    A mulher de cinza assobiou por entre os dedos. Seus olhos eram dois
    poços vermelhos que queimavam nas sombras. Ela falou novamente.
    — Ela disse que não. Disse que se chama Quebradora de
    Promessas. Que ela foi feita para a traição e para o assassinato. Ela disse que
    se chama Falsa Amiga. Como você.
    — A quem tenho sido falsa?
    — A ela, — disse o nortenho. — Será que minha senhora se
    esqueceu que uma vez jurou servi-la?
    Houve apenas uma mulher que a donzela de Tarth já jurara servir.
    — Não pode ser, — disse ela. — Ela está morta.
    — A morte é como um convidado certo, — murmurou Jeyne Liza, a
    Comprida. — Eles não significam muito, não como antes.
    A Senhora coração de Pedra abaixou seu capuz e desenrolou o
    cachecol de lã cinza de seu rosto. Seu cabelo estava seco e quebradiço,
    branco como osso. Sua testa estava manchada de verde e cinza, manchada
    com as flores marrons da decomposição. A carne de seu rosto se agarravva
    em tiras irregulares, de seus olhos até a mandíbula. Alguns dos rasgos
    formaram uma crosta de sangue seco, e outros deixavam o crânio à vista.
    Seu rosto, Brienne pensou. Seu rosto era tão forte e bonito, sua pele
    tão macia e suave.
    — Senhora Catelyn? — Lágrimas encheram os olhos. — Eles
    disseram que... eles disseram que você estava morta.

    Admin
    Admin

    Mensagens : 1409
    Data de inscrição : 09/04/2012

    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:03 pm

    — Ela está, — disse Thoros de Myr. — O Frey cortou sua garganta
    de orelha a orelha. Quando a encontramos à beira do rio, ela esteva morta
    fazia três dias. Harwin me pediu para lhe dar o beijo da vida, mas tinha se
    passado muito tempo. Eu não faria isso, então Lorde Beric colocou seus
    lábios nos dela em vez disso, e a chama da vida passou dele para ela. E... ela
    se levantou. Que o Senhor da Luz nos proteja. Ela se levantou.
    Estou sonhando ainda? Brienne se perguntou. É este outro pesadelo
    nascido dos dentes de Dentadas?
    — Eu nunca a traí. Diga-lhe isso. Eu juro pelos Sete. Eu juro pela
    minha espada.
    A coisa que havia sido Catelyn Stark tomou conta de sua garganta
    novamente, apertando os dedos no medonho corte ao longo de seu pescoço,
    e sufocaram os sons ainda mais.
    — As palavras são levadas pelo vento, diz ela, — disse o notenho a
    Brienne. — Ela diz que você deve provar sua fidelidade.
    — Como? — Perguntou Brienne.
    — Com sua espada. Cumpridora de Promessas, você não a chama
    assim? Em seguida, mantenha o seu juramento a ela, diz minha senhora.
    — O que ela quer de mim?
    — Ela quer o seu filho com vida, ou os homens que o mataram
    mortos, — disse o homem grande. — Ela os quer para alimentar os corvos,
    como fizeram no casamento Vermelho. Freys e Boltons, sim. Nós vamos dar
    a ela aqueles que ela quer. Tudo o que ela pede de você é Jaime Lannister.
    Jaime. O nome foi uma faca, torcendo em sua barriga.
    — Senhora Catelyn, Eu... você não entende, Jaime... ele me salvou
    de ser estuprada quando um Saltimbanco Sangrento nos atacou, e mais tarde
    ele voltou para mim, ele pulou arena dos ursos com as mãos vazias... Juro
    para você, ele não é o homem que ele era. Ele me enviou depois para manter
    Sansa segura, ele não poderia ter tido um papel no Casamento Vermelho.
    Os dedos da Senhora Catelyn escavavam profundamente em sua
    garganta, e as palavras vieram engasgadas e quebradas, um córrego tão frio
    como gelo. O homem do norte disse:
    — Ela disse que você deve escolher. Pegue a espada e mate o
    Regicida, ou morra enforcada como traidora. A espada ou a corda, diz ela.
    Escolha, diz ela. Escolha.
    Brienne se lebrou de seu sonho, quanto esperava no salão de seu pai

    Admin
    Admin

    Mensagens : 1409
    Data de inscrição : 09/04/2012

    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:03 pm

    o menino com que ia se casar. No sonho, ela tinha mordido a língua. Minha
    boca estava cheia de sangue, ela pensou. Respirou esfarrapada e disse:
    — Eu não vou fazer essa escolha.
    Houve um longo silêncio. Então a Senhora Coração de Pedra falou
    novamente. Desta vez Brienne entendeu suas palavras. Havia apenas duas:
    — Enforque eles, — ela resmungou.
    — Ao seu comando, minha senhora, — disse o homem grande.
    Eles amarraram os pulsos Brienne novamente com corda e levaram-a
    pela caverna, seguindo um caminho pedregoso que ia para a superfície.
    Surpreendeu-se com a manhã quando chegaram do lado de fora. Feixes de
    luz pálida do amanhecer se inclinavam através das árvores. Tantas árvores
    para escolher, pensou ela. Eles não precisarão nos levar longe.
    Foi assim mesmo. Debaixo de um salgueiro torto, os bandidos
    laçaram uma corda em volta do pescoço, sacudiram-a firmemente, e jogaram
    a outra ponta da corda sobre um galho. Hyle Hunt e Podrick Payne foram
    dados a olmos. Ser Hyle estava gritando que iria matar Jaime Lannister, mas
    Cão de Caça o calou com uma bofetada. Ele tinha posto o elmo de novo.
    — Se vocês têm pecados a confessar aos seus deuses, este seria o
    momento de dizer.
    — Podrick nunca fez mal a você. Meu pai vai resgatá-lo. Tarth é
    chamada a ilha de safira. Envie Podrick com meus ossos ao Entardeecer, e
    você terá safiras, prata, o que você quiser.
    — Quero minha esposa e filha de volta, — disse o Cão de Caça. —
    Seu pai pode me dar isso? Se não, ele vai ficar arruinado. O menino vai
    apodrecer ao seu lado. Lobos vão roer seus ossos.
    — Você vai enforcá-la de uma vez, Lem? — Perguntou o homem
    de um olho só. — Ou você pretende faze-la falar até a morte?
    O Cão arrebatou o fim da corda do homem que a segurava.
    — Vamos ver se ela pode dançar, — disse ele, e deu um puxão.
    Brienne sentiu o cânhamo se contraindo, cavando em sua pele,
    puxando o queixo para cima. Sor Hyle os xingou com eloqüência, mas não o
    menino. Podrick não levantou os olhos, nem mesmo quando seus pés
    estavam se erguendo do chão. Se este é outro sonho, é hora de despertar. Se
    isto é real, é hora de morrer. Tudo o que ela podia ver era Podrick, a corda
    em seu pescoço fino, com as pernas a se mexerem. Sua boca se abriu. Pod
    estava esperneando, sufocando, morrendo. Brienne sugou o ar
    desesperadamente, até que a corda a estrangulou. Nunca sentira uma dor tão
    intensa.
    Ela gritou uma palavra.

    Admin
    Admin

    Mensagens : 1409
    Data de inscrição : 09/04/2012

    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:05 pm

    Cersei 774

    A Septã Moelle era uma bruxa de cabelos brancos com o rosto tão
    afiado como um machado e com os lábios franzidos
    perpetuamente em um gesto de desaprovação.
    Certeza de que ainda é uma donzela, pensou Cersei. Ainda que, a
    essas alturas, tenha a virgindade mais rígida e resistente que o couro
    endurecido.
    As escoltavam seis cavaleiros do Pássaro Supremo, com a espada
    arco-íris de sua ordem renascida gravada nos escudos de lágrima.
    — Septã, diga a Sua Altíssima Santidade que isto é um ultraje. Não
    toleraremos tamanha ousadia. — Cersei estava sentada ao pé do Trono de
    Ferro, vestida de sedas verdes e renda dourada. As esmeraldas brilhavam em
    seus dedos e em sua cabeleira dourada. Os olhos da corte e de toda a cidade
    estavam cravados nela, e queria que vissem a filha de Lorde Tywin. Quando
    terminasse aquela farsa de saltimbancos, todos saberiam que só tinham uma
    rainha verdadeira. Mas para isso teremos que bailar sem que se vejam as
    cordas. — Lady Margaery é a esposa de meu filho, sua abnegada
    companheira e amiga. Sua Altíssima Santidade não tem motivos para tocar
    em um fio de cabelo de sua pessoa, nem para confinar a ela e a suas primas,
    que tanto queremos. Exijo que as libere imediatamente.
    A expressão severa da septã Moelle não mudou.
    — Transmitirei a Sua Altíssima Santidade as palavras de Vossa
    Graça, mas me dói ter que dizer que a jovem rainha e suas damas não ficarão
    em liberdade, a menos que se prove a sua inocência.
    — Inocência? Só é necessário olhar para seus rostos, tão doces e
    jovens, para ver como são inocentes.
    — Com frequência, um rosto doce oculta um coração pecador.
    — De que ofensa se acusa essas jovens donzelas? — perguntou
    Lorde Merryweather, que estava sentado à mesa do conselho. — E quem às
    acusa?
    — Megga e Elinor Tyrell estão sendo acusadas de despudor,
    fornicação e conspiração para cometer traição. — Respondeu a septã. —
    Alla Tyrell é acusada de presenciar sua desonra e ajuda-las a oculta-la. A
    rainha Margaery está sendo acusada do mesmo, assim como de adultério e
    alta traição.

    Admin
    Admin

    Mensagens : 1409
    Data de inscrição : 09/04/2012

    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:05 pm

    Cersei levou uma mão ao peito.
    — Diga-me quem dissemina semelhantes calúnias sobre a minha
    nora! Não acredito em nenhuma palavra disso. Meu querido filho ama a
    Senhora Margaery com todo o seu coração; ela jamais teria a crueldade de
    traí-lo.
    — O acusador é um cavaleiro de sua própria casa. Sor Osney
    Kettleback confessou sua relação carnal com a rainha diante do Alto Septão
    e diante do altar do Pai.
    Na mesa do conselho, Harys Swyft deixou escapar uma exclamação,
    e o Grande Meistre Pycelle arregalou os olhos. Um murmúrio encheu o ar,
    como se houvessem soltado milhares de vespas no Salão do Trono. Várias
    damas nos corredores começaram a se retirar, seguidas por um punhado de
    senhores menores e cavaleiros situados ao fundo do aposento. Os mantos
    dourados os deixaram sair, mas a rainha havia dado instruções a Sor Osfryd
    para que prestasse atenção a todos os fugitivos.
    De repente, a rosa Tyrell já não cheira mais tão bem.
    — Sor Osney é um jovem luxurioso, não ignoro isso. — Replicou a
    rainha. —Mas também é um cavaleiro fiel. Se disse que participou desta...
    Não, não pode ser. Margaery é uma donzela!
    — Não. Eu mesma a examinei por ordem de sua Altíssima
    Santidade. Sua virgindade não está intacta. As septãs Aglantine e Melicent
    confirmarão isso a vocês, assim como a própria septã da rainha Margaery,
    Nysterica, que se encontra confinada em um cela de penitência por tomar
    parte na desonra da rainha. Também examinamos as senhoras Megga e
    Elinor. Nenhuma das duas estava intacta.
    As vespas zumbiam tanto que a rainha quase não podia pensar.
    Espero que a pequena rainha e suas primas tenham disfrutado de
    suas cavalgadas.
    Lorde Merryweather deu um soco na mesa.
    — A Senhora Margaery prestou juramento solene diante de Sua
    Alteza, a Rainha, e de seu defunto pai, jurou que era donzela. Muitos foram
    testemunhas. Lorde Tyrell também testemunhou sobre sua inocência, assim
    como a Senhora Olenna, cuja reputação é intocável. Quer que acreditemos
    que todas essas nobres pessoas mentiram para nós?
    — Talvez também estivessem enganadas, meu senhor. —
    Eespondeu a Septã Moelle. — Não poderia dizer nada sobre isso. Só posso
    dar a certeza do que descobri eu mesma, quando examinei a rainha.

    Admin
    Admin

    Mensagens : 1409
    Data de inscrição : 09/04/2012

    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:05 pm

    A imagem daquela velha amarga metendo os dedos enrugados na
    pequena boceta rosada de Margaery era tão cômica que Cersei esteve a
    ponto de começar a rir.
    — Insistimos que Sua Altíssima Santidade permita que nossos
    meistres examinem minha nora, para determinar se há algum rastro de
    verdade nestas injúrias. Grande Meistre Pycelle, acompanhe a septã Moelle
    ao septo de Baelor, o Abençoado e volte para nos trazer à verdade sobre a
    virgindade de Margaery.
    Pycelle havia adquirido uma cor parecida com leite coalhado.
    O velho imbecil não se cala nunca nas reuniões do conselho, e
    agora que necessito que digo quatro palavras se torna mudo, pensou a
    rainha.
    — Não é necessário que eu examine as suas... partes íntimas. —
    Disse enfim o ancião, com a voz trêmula. — Me dói ter que dizer isso, mas...
    a rainha Margaery não é donzela. Tem me pedido que lhe prepare o chá da
    lua, e não uma vez, mas muitas.
    O rugido que seguiu as suas palavras foi maior do que Cersei
    Lannister havia se atrevido a esperar.
    Nem o arauto real que golpeava o solo com o bastão conseguiu calálos.
    A rainha se deixou banhar pelo som uns instantes, saboreando as
    palavras que marcavam a caída em desgraça da pequena rainha. Quando
    calculou que já havia durado o suficiente se levantou e, com rosto pétreo,
    ordenou aos mantos dourados que saíssem da sala.
    É o fim de Margaery Tyrell, pensou cheia de júbilo.
    Seus cavaleiros brancos a rodearam quando saiu pela Porta do Rei,
    situada atrás do Trono de Ferro: Boros Blount, Meryn Trant e Osmund
    Kettleback, os últimos homens da Guarda Real que continuavam na cidade.
    O Rapaz Lua estava junto à porta, com a matraca em uma mão e dois
    olhos grandes redondos cheios de confusão.
    É um bobo, mas um bobo honrado. Maegy, a Rã também deveria ter
    se vestido como ele, visto que sabia do futuro. Cersei rezava para que a velha
    vigarista estivesse padecendo no inferno. A jovem rainha cuja chegada havia
    predito estava acabada; se essa profecia pudesse ser errônea, as demais
    também poderiam. Nada de mortalhas douradas, nada de valonqar. Enfim
    estou livre de sua maldade.

    Conteúdo patrocinado

    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Conteúdo patrocinado


      Data/hora atual: Sex Dez 15, 2017 10:06 pm