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    O Festim dos Corvos

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:05 pm

    Os que restaram de seu conselho privado a seguiram. Harys Swyft
    parecia estupefato. Tropeçou na porta e haveria caído se Aurane Waters não
    o tivesse segurado pelo braço. Até Oston Merryweather parecia nervoso.
    — O povo tem carinho pela pequena rainha. — Disse. — Não vão
    reagir bem. Temo pelo que possa acontecer, Vossa Graça.
    — Lorde Merryweather tem razão. — Advertiu Lord Waters. — Se
    Vossa Graça quiser, botarei o resto dos navios no mar. Quando os verem na
    Água Negra, com o estandarte do rei Tommen nos mastros, todos recordarão
    quem governa a cidade, e quem os protegerá se os rebeldes organizarem
    outra revolta.
    Não lhe fez falta acrescentar que enquanto navegassem pela Água
    Negra, seus navios impediriam que Mace Tyrell chegasse com seu exército
    pelo rio, assim como Tyrion havia detido Stannis há algum tempo atrás.
    Naquela região de Westeros, Jardim de Cima não contava com potência
    naval. Dependiam da frota dos Redwyne, que naquele momento regressavam
    à Árvore.
    — Uma medida muito prudente. — Anunciou a rainha. — Até que
    essa tormenta passe, quero todos os barcos tripulados e na água.
    Sor Harys Swyft estava tão pálido e suado que parecia a ponto de
    desmaiar.
    — Quando Lord Tyrell receber a notícia, sua ira não conhecerá
    limites. Sangue vai correr pelas ruas...
    O cavaleiro da galinha, pensou Cersei. Seu brasão deveria ser um
    verme, sor; a galinha é muito valiosa para você. Se Mace Tyrell nem sequer
    se atreveu a atacar Ponta Tempestade, como pode acreditar que ousará
    enfrentar os deuses?
    — Não deverá correr sangue; eu me encarregarei disso. — Disse
    quando terminou de tagarelar. — Irei em pessoa ao Septo de Baelor para
    falar com a rainha Margaery e com o Alto Septão. Sei que Tommen gosta
    dos dois, e desejará que eu os ajude a fazer as pazes.
    — Paz? — Sor Harys secou o suor de sua testa com uma manga de
    veludo. — Se é possível que haja paz... É muito corajoso de sua parte.
    — Nos fará falta algum tipo de julgamento. — Continuou a rainha.
    — Para refutar essas calúnias e mentiras, e demonstrar ao mundo que nossa
    querida Margaery é tão inocente como nós todos sabemos.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:05 pm

    — Sim. — Assentiu Merryweather — Mas pode ser que o Alto
    Septão queira julgar ele mesmo a rainha, como a Fé costumava fazer
    antigamente.
    Assim espero, pensou Cersei. Um tribunal assim não se mostraria
    magnânimo com as rainhas traidoras que abriam as pernas para os cantores e
    profanavam os sagrados ritos da Donzela para ocultar sua desonra.
    — O importante é averiguar a verdade; estou segura de que todos
    estamos de acordo. — Disse. — Desculpem-me agora, meus senhores.
    Tenho que ir ver o rei. Não deveria estar só em um momento como esse.
    Quando voltou para perto dele, Tommen estava brincando com os
    gatos. Tinha atado uma ratazana morta a uma corda, numa velha vara de
    pescar. Os gatinhos ficavam encantados em persegui-la, e o menino
    disfrutava o momento sacudindo a animal morto pelo chão, enquanto os
    gatos corriam atrás dele. Ele se surpreendeu quando Cersei o envolveu em
    um abraço e lhe deu um beijo na bochecha.
    — O que está acontecendo mãe? Porque está chorando?
    Porque você está a salvo, queria dizer. Porque nunca te acontecerá
    nada de mal.
    — Está errado. O leão nunca chora. — Ela teria tempo mais tarde
    para lhe falar sobre Margaery e suas primas. — Trago umas ordens que você
    deve firmar.
    Para não o entristecer, a rainha havia deixado em branco os espaços
    para nomes nas ordens de detenção. Tommen às firmou tal como estavam e,
    como sempre, estampou o selo contra o lacre quente com toda a alegria.
    Depois, Cersei o mandou sair com Sor Jacelyn Swyft.
    Sor Osfryd Kettleback chegou enquanto a rainha estava secando a
    tinta. A rainha havia escrito os nomes: Sor Tallad Tallo, Jalabhar Xho,
    Hamish, o harpista, Hugh Clifon, Mark Mullendore, Bayard Norcross,
    Lambert Turnberry, Horas Redwyne, Hobber Redwyne e um certo tipo
    desprezível, um tal Wat que se fazia chamar Cantor Azul.
    — São muitos. — Sor Osfryd examinou as ordens, contemplando as
    palavras com tanta desconfiança como se fossem baratas que se arrastavam
    pelo pergaminho; nenhum Kettleback sabia ler.
    — Dez. E temos seiscentos mantos dourados; mais que suficientes
    para deter dez, acredito eu. Os mais espertos terão fugido, se é que o rumor
    chegou a tempo. Não tem importância: sua ausência fará com que pareçam
    muito mais culpados. Sor Tallad é um idiota; pode ser que tente alguma

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:08 pm

    resistência. Assegure-se de que ele não morra antes de confessar, e não faça
    nenhum dano aos demais. Talvez alguns sejam inocentes.
    Era importante que se soubesse que a acusação contra os gêmeos
    Redwyne era falsa. Aquilo demonstraria que o julgamento dos demais era
    justo.
    — Teremos detido todos antes que do por do sol, Alteza. —Sor
    Osfryd titubeou. — Ah, e uma multidão está se reunindo nas portas do Septo
    de Baelor.
    — Que tipo de multidão? — Desconfiava de tudo aquilo fosse
    inesperado. Recordou o que havia dito Lord Waters sobre possíveis revoltas.
    Eu não havia pensado em como o povo reagiria. Margaery era a menina dos
    seus olhos. — São muitos?
    — Mais ou menos uma centena. Estão gritando ao Alto Septão,
    pedindo para que solte a pequena rainha. Se quiser, podemos dispersá-los.
    — Não. Podem gritar até que fiquem roucos; não conseguirão que o
    Alto Septão mude de ideia. Ele só escuta os deuses. — Havia algo de irônico
    no fato de Sua Altíssima Santidade ter uma multidão irada diante de seus
    portões, já que essa mesma multidão havia lhe proporcionado a coroa de
    cristal. Que não tardou em vender. —Agora a Fé conta com os seus próprios
    cavaleiros. Que eles defendam o Septo. Ah, e feche as portas da cidade.
    Enquanto não acabarmos esse assunto, não quero que ninguém entre ou saia
    de Porto Real sem a minha autorização.
    — Como ordena, Vossa Graça. — Sor Osfryd fez uma reverência e
    saiu em busca de alguém que lesse as ordens para ele.
    Antes do pôr-do-sol, todos os acusados de traição já estavam sob sua
    custódia. Hamish, o Harpista, caiu quando o pegaram, e Sor Tallad feriu três
    mantos dourados antes que os demais o dominassem. Cersei ordenou que
    alojassem os gêmeos Redwyne em habitações cômodas na torre. Os demais
    iriam para as masmorras.
    — Hamish tem problemas para respirar. — Informou Qyburn
    quando foi vê-la naquela noite. — Pede para que um meistre o veja.
    — Terá um meistre assim que confesse. — Meditou por um instante.
    — É demasiado velho para ser um dos amantes, mas com certeza cantou e
    tocou para Margaery enquanto ela se divertia com outros homens.
    Necessitamos de detalhes.
    — O ajudarei a recordar, Vossa Graça.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:08 pm

    No dia seguinte, A Senhora Merryweather ajudou Cersei a vestir-se
    para ver a pequena rainha.
    — Nada muito opulento ou vistoso. — Lhe disse. — Algo
    apropriado, devoto e sem graça, adequado para as vistas do Alto Septão.
    Com certeza ele me fará rezar com ele.
    Por fim, optou por um vestido de lã suave que a cobria até os
    tornozelos, sem mais adorno que umas poucas rendas bordadas com fio de
    ouro no busto e nas mangas, para aliviar a austeridade da corte. E o melhor
    era que o marrom esconderia a sujeira, caso tivesse que se ajoelhar.
    — Enquanto consolo a minha nora, vá falar com as três primas. —
    Disse a Taena. — Se for possível, ganhe a confiança de Alla, mas cuidado
    com o que vá dizer. Pode ser que os deuses não sejam os únicos que estejam
    escutando.
    Jaime sempre lhe disse que o pior de uma batalha era o momento
    prévio, enquanto se esperava o começo da carnificina. Ao sair, Cersei
    percebeu que o céu estava cinzento e nublado. Não podia se arriscar a sair
    debaixo de uma chuva; chegaria ensopada e pingando ao Septo de Baelor.
    Teria que ir na liteira. Escolheu como escolta dez guardas da Casa Lannister
    e Boros Blount.
    — Pode ser que o povo de Margaery não tenha suficiente senso para
    diferenciar um Kettleback do outro. — Disse a Sor Osmund. — E eu não
    quero que você seja obrigado a ferir alguém. É melhor que durante algum
    tempo, não se veja muito do senhor por aí.
    Enquanto cruzavam Porto Real, Taena sentiu uma dúvida repentina.
    — Este julgamento... — começou em voz baixa. — O que
    acontecerá se Margaery exigir que sua culpa ou inocência se determinem por
    combate?
    Um sorriso dançou nos lábios de Cersei.
    — Em sua qualidade de rainha, somente um cavaleiro da Guarda
    Real poderá defender sua honra. Até os meninos de Westeros sabem como o
    príncipe Aemon, o Cavaleiro de Dragão, defendeu sua irmã, a rainha Naerys,
    contra as acusações de Sor Morghil. Mas Sor Loras está muito ferido, assim
    algum de seus Irmãos Juramentados terá que ocupar o posto do príncipe
    Aemon. — Encolheu os ombros. — Quem poderia se encarregar disso? Sor
    Aerys e Sor Balon estão muito longe, em Dorne; Sor Jaime marchou até
    Correrrio, e Sor Osmund é irmão do homem que a acusa, então só lhe
    restam... Oh, céus.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:09 pm

    — Boros Blount e Meryn Trant. — A Senhora Taena começou a rir.
    — Sim, e Sor Meryn não se encontra muito bem ultimamente.
    Lembre-me de dizer isso a ele quando voltarmos ao castelo.
    — Claro querida. — Taena lhe tomou a mão e a beijou. — Espero
    não te ofender jamais. Quando está zangada é temível.
    — Qualquer mãe faria o mesmo para proteger os seus filhos. —
    Replicou Cersei. — E quando irá trazer o seu para a corte? Se chama
    Russell, não é verdade? Poderia treinar junto com Tommen.
    — Com certeza ele ficaria encantado, mas agora tudo é tão
    inseguro... Penso que é melhor esperar que o perigo passe.
    — Não deve demorar. —Prometeu Cersei. — Envie uma mensagem
    a Granmesa e diga a Russell que pegue seu melhor casaco e sua espada de
    madeira. Um novo amigo será exatamente o que Tommen precisará para
    esquecer sua perda, quando rolar a cabecinha de Margaery.
    Desceram da liteira diante da estátua de Baelor, o Abençoado. A
    rainha se alegrou ao ver que haviam limpado os ossos e a sujeira. O que Sor
    Osfryd havia dito era verdade: aquela multidão não era tão numerosa nem
    tão rebelde como a dos mendigos. Estava reunida em pequenos grupos,
    contemplando com gesto débil a portas do Grande Septo, onde havia uma
    fileira de septões noviços com lanças nas mãos.
    Nada de aço, percebeu Cersei.
    Era uma boa ideia, ou uma enorme estupidez; ela não estaria segura.
    Ninguém fez algum movimento para detê-la. Tanto o povo como os
    noviços se afastaram para abrir caminho. Do outro lado das portas, três
    cavaleiros vestidos com as túnicas de raios de cores dos Filhos do Guerreiro
    às receberam na Sala das Lâmpadas.
    — Venho ver a minha nora. —Disse Cersei.
    — Sua Altíssima Santidade está esperando-os. Sou Sor Theodan, o
    Fiel, antigamente Sor Theodan Wells. Acompanhe-me, Vossa Graça, por
    favor.
    O Mendigo Supremo estava de joelhos, como sempre. Naquela
    ocasião estava rezando perante o altar do Pai. Em lugar de interromper as
    suas orações pela chegada da rainha, a fez aguardar impacientemente até que
    terminou. Então se levantou e lhe fez uma reverência.
    — É um dia amargo, Vossa Graça.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:09 pm

    — Muito. Temos sua permissão para falar com Margaery e suas
    primas?
    Optou por uns modos humildes e submissos; com aquele homem
    eram os que melhor resultado lhe daria.
    — Se é o que deseja... Quando terminar, volte a mim, minha filha.
    Temos que rezar juntos.
    A pequena rainha estava confinada em uma das esbeltas torres do
    Grande Septo. Sua cela media doze palmos de largura por seis de
    comprimento, e não continha mais que um colchão recheado de palha, um
    oratório para rezar, uma jarra de água, um exemplar de A Estrela de Sete
    Pontas e uma vela para lê-lo. A única janela era pouco mais larga que uma
    pia.
    Quando Cersei chegou, Margaery estava descalça e trêmula, vestida
    com a túnica de lã de uma irmã noviça. Tinha os cabelos embaraçados e os
    pés sujos.
    — Levaram as minhas roupas. — Disse a pequena rainha quando
    ficaram a sós. — Estava vestindo uma túnica marfim com pérolas brancas
    nas rendas, mas as septãs colocaram as mãos em mim e me despiram. O
    mesmo fizeram com as minhas primas. Megga deu um empurrão em uma
    septã, que caiu entre as velas e teve o hábito incendiado. Mas por quem eu
    mais temo é Alla. Ficou branca como leite; tinha tanto medo que nem sequer
    chorava.
    — Pobre menina. — Não havia cadeiras, de modo que Cersei se
    sentou no colchão, junto da pequena rainha. — A Senhora Taena foi falar
    com elas para lhes dizer que não a esquecemos.
    — Nem sequer me deixam vê-las. — Disse Margaery, furiosa. —
    Nos mantêm isoladas. Até esse momento, não tive permissão para receber
    visitas; somente as septãs podiam entrar. Há uma que vem uma vez por hora,
    para me perguntar se desejo confessar meus pecados. Nem me deixam
    dormir! Me despertam para exigir que me confesse. Noite passada, confessei
    à septã Unella que tinha vontade de arrancar os seus olhos.
    Que pena que não os arrancou, pensou Cersei. Se deixasse cega
    uma pobre septã anciã, terminaria de convencer tua culpa ao Mendigo
    Supremo.
    — Suas primas estão sendo interrogadas da mesma maneira.
    — Malditos sejam! — Exclamou Margaery. — Tomara que ardam
    nos sete infernos. Alla é tão doce e tímida... como podem fazer-lhe isso? E

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:09 pm

    Megga... Já sei que tem uma risada mais escandalosa que a de uma prostituta
    do porto, mas por dentro não é mais do que uma garotinha. As quero tanto
    como elas a mim. Se esse mendigo acredita que conseguirá que mintam
    sobre mim...
    — Temo que também estejam sendo acusadas. As três.
    — Minhas primas? — Margaery empalideceu. — Alla e Megga são
    pouco mais que meninas. Isto é... Isto é obsceno, Vossa Graça. Vai nos tirar
    daqui?
    — Quem dera se eu pudesse. — Tinha a voz carregada de consolo.
    — Sua Altíssima Santidade tem seus novos cavaleiros nos vigiando. Para
    libertá-las eu teria que enviar os mantos dourados e profanar este lugar
    sagrado com uma matança. — Tomou-lhe a mão entre as suas. — Mas não
    tenho estado ociosa: reuni todos os homens que Sor Osney mencionou como
    seus amantes. Dirão a Sua Altíssima Santidade que é inocente, e o farão em
    julgamento.
    — Um julgamento? — Havia medo em sua voz. — Vai acontecer
    um julgamento?
    — Claro. Senão como iremos demonstrar sua inocência? — Cersei
    apertou sua mão para tranquilizá-la. — E claro, você tem o direito de decidir
    como quer que a julguem; pelo menos você é a rainha. Os cavaleiros da
    Guarda Real juraram lhe defender.
    Margaery compreendeu imediatamente.
    — Um julgamento por combate? Mas Loras está ferido, então...
    — Ele tem seis Irmãos.
    Margaery parou para observá-la. De repente, retirou a mão.
    — Está brincando? Boros é um covarde. Meryn é velho e lento. Seu
    irmão está mutilado. Os outros dois se encontram em Dorne, e Osmund é um
    maldito Kettleback. E Loras tem dois irmãos, não seis. Se houver um
    julgamento por combate, quero que Garlan seja meu campeão.
    — Sor Garlan não é um membro da Guarda Real. — Disse Cersei.
    — Quando se está em jogo a honra de uma rainha, as leis e a tradição
    exigem que o seu campeão seja um dos sete juramentados do rei. Temo que
    o Alto Septão se empenhe para que assim ocorra.
    Eu me encarregarei disso.
    Margaery demorou para responder. Tinha os olhos castanhos
    carregados de desconfiança.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:09 pm

    — Blount ou Trant. — disse enfim. — Teria que ser um deles. É o
    que gostaria, não é verdade? Osney Kettleback poderia fazer qualquer um
    dos dois em pedaços.
    Pelos sete infernos. Cersei adquiriu um expressão dolorida.
    — Está equivocada, filha. O único que quero...
    —...é o seu filho, e somente para você. Ele nunca terá uma esposa
    que não venha a odiar. E graças aos deuses, não sou sua filha. Vá embora.
    — Está se comportando como uma idiota. Só vim aqui para lhe
    ajudar.
    — Ajudar a me colocar em um caixão. E pedi a você que vá embora.
    Ou quer que eu chame minhas carcereiras, para que lhe tirem daqui
    arrastada? Raposa manipuladora!
    Cersei levantou-se, ajeitando as saias e recolhendo a dignidade.
    — Tenho certeza de que está passando por um momento muito
    doloroso; perdoarei essas palavras. — Ali, assim como na corte, nunca se
    sabia quem poderia estar escutando. — E em seu lugar, também estaria
    assustada. Grande Meistre Pycelle admitiu que lhe proporcionava o chá da
    lua, e o seu Cantor Azul... Enfim, minha senhora, em seu lugar eu rezaria
    para a Velha e para a Mãe, pedindo-lhes sabedoria e misericórdia. Temo que
    logo você vá necessitar dessas duas coisas.
    Quatro septãs de rosto enrugado a acompanharam na descida pelas
    escadarias da torre. Cada uma parecia mais frágil que a anterior. Ao
    chegarem ao nível do solo, continuaram descendo, adentrando o coração da
    colina de Visenya. A escadaria terminava à grande profundidade, onde uma
    fileira de tochas brilhava, iluminando um largo corredor.
    O Alto Septão a esperava em sua pequena sala de audiências de sete
    paredes. O aposento era modesto e simples, com as paredes desnudas,
    mobiliado apenas com uma mesa de madeira baixa, três cadeiras e um
    colchão. Os rostos dos Sete estavam entalhados nas paredes. As feições lhe
    pareciam feias e rudimentares, mas tinham certo poder, sobretudo nos olhos:
    esferas de ônix, malaquita e feldspato amarelo, que faziam com que as caras
    parecessem ter vida própria.
    — Conversou com a rainha. — Disse o Alto Septão.
    A rainha sou eu, esteve tentada em lhe dizer, mas se conteve.
    — Sim.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:09 pm

    — Todos pecamos, inclusive os reis e as rainhas. Eu também pequei,
    e fui perdoado. Mas sem confissão não pode haver perdão, e a rainha não
    quer confessar.
    — Talvez seja inocente.
    — Não. As septãs a examinaram e juraram que sua virgindade está
    perdida. E que tem bebido o chá da lua para matar em seu ventre o fruto das
    suas fornicações. Um cavaleiro também jurou sobre sua espada que manteve
    relações carnais com ela e com duas de suas três primas. E diz que há outros
    que fizeram o mesmo com ela e menciona muitos homens, tão nobres quanto
    humildes.
    — Meus mantos dourados levaram todos esses às masmorras. —
    Lhe assegurou Cersei. — Até agora, somente um foi interrogado, o cantor
    que se faz chamar Cantor Azul. Disse coisas muito perturbadoras. Apesar
    disso, rezo para que a inocência de minha nora se demonstre em julgamento.
    — Titubeou. — Tommen gosta muito de sua pequena rainha, Santidade, e
    acredito que a ele e a seus senhores seria muito custoso julgá-la com justiça.
    Talvez a Fé deva se encarregar do julgamento...
    O Mendigo Supremo juntou os dedos fracos.
    — O mesmo havia pensado eu, Vossa Graça. Maegor, o Cruel nos
    tirou as espadas, e Jaehaerys, o Conciliador nos privou da balança do
    julgamento, mas quem pode julgar uma rainha senão os Sete desde os céus e
    quem os servem aqui? Pode haver alguém mais adequado para julgar a
    maldade das mulheres?
    — Isso seria o melhor. Mas claro que Margaery pode exigir que sua
    culpa ou sua inocência se determine por combate. Em tal caso, seu campeão
    teria que ser um dos sete de Tommen.
    — Os cavaleiros da Guarda Real tem sido os campeões do rei e da
    rainha desde os tempos de Aegon, o Conquistador. Nesse aspecto, a Coroa e
    a Fé falam com uma só voz.
    Cersei tapou a cara com as mãos, como para ocultar sua dor. Quando
    voltou a levantar a cabeça, uma lágrima lhe brilhava nos olhos.
    — Sem dúvida é um dia amargo. — Disse. — Mas me alegra ver
    que estamos de acordo. Se Tommen estivesse aqui, lhe daria as graças.
    Teremos que buscar a verdade juntos, você e eu.
    — Assim será.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:10 pm

    — Tenho que voltar ao castelo. Com sua permissão, levarei Osney
    Kettleback. O Conselho Privado quer interrogá-lo e escutar as acusações de
    sua própria boca.
    — Não. – replicou o Alto Septão.
    Foi somente uma palavra, uma breve palavra, mas para Cersei foi
    como se tivessem lhe atirado um balde de água fria na sua cara. Gaguejou, e
    sua segurança balançou por um instante.
    — Sor Osney será bem custodiado, lhe garanto.
    — Já está bem custodiado aqui. Venha, eu lhe mostrarei.
    Cersei sentia os olhos dos Sete cravados nela, olhos de jade,
    malaquita e ônix, e sentiu um calafrio repentino, frio como gelo.
    Sou a rainha, disse a si mesmo. Sou a filha de Lorde Tywin.
    O seguiu de má vontade. Sor Osney não estava muito longe. A
    câmara era escura e tinha uma porta pesada, de ferro. O Alto Septão sacou a
    chave que a abria e colheu uma tocha da parede para iluminar o interior.
    — Primeiro Vossa Graça.
    No interior, Osney Kettleback pendia do teto, atado por um par de
    algemas de ferro. Havia sido açoitado. Tinha as costas e os ombros quase em
    carne viva, e as marcas do chicote lhe cruzavam também nas pernas e nas
    nádegas.
    A rainha quase não pôde mirá-lo. Voltou-se para o Alto Septão.
    — O que você fez?
    — Busquei encarecidamente a verdade.
    — Ele lhe disse a verdade. Veio a você por sua própria vontade e
    confessou seus pecados.
    — Sim. Ele fez isso. Mas já escutei muitas confissões, Vossa Graça,
    e nunca tinha ouvido ninguém tão satisfeito em ser culpado.
    — Você o açoitou!
    — Não há expiação sem dor. Como disse a Sor Osney, todo homem
    deveria provar o chicote. Poucas vezes me sinto mais perto dos deuses do
    que quando me açoito pela minha maldade, ainda que meus pecados mais
    escuros não sejam tão negros quanto os dele.
    — M-mas... — gaguejou. — Você prega a misericórdia da Mãe...

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:10 pm

    — Sor Osney provará seu doce leite na outra vida. Tal como está
    escrito em A Estrela de Sete Pontas, todos os pecados podem ser perdoados,
    mas nenhum crime deve permanecer sem castigo. Osney Kettleback é
    culpado de traição e assassinato, e o preço da traição é a morte.
    Não é mais que um sacerdote, não pode fazer isto.
    — A Fé não pode condenar ninguém à morte, seja qual for o delito.
    — Seja qual for o delito. — O Alto Septão repetiu as palavras com
    lentidão, como se as estivesse pesando. — É curioso que diga isso, Vossa
    Graça, porque quanto mais diligentes éramos na aplicação do chicote, mais
    pareciam mudar os delitos de Sor Osney. Agora quer nos fazer acreditar que
    nunca tocou em Margaery Tyrell. Não é assim, Sor Osney?
    Osney Kettleback abriu os olhos. Ao ver a rainha diante dele, passou
    a língua pelos lábios inchados.
    — A Muralha. — Disse. — Me prometeu a Muralha.
    — Está louco. — Disse Cersei. — Você o fez enlouquecer.
    — Sor Osney Kettleback. — Perguntou o Alto Septão com uma voz
    firme. — Teve alguma relação carnal com a rainha?
    — Sim. — As algemas tilintaram quando Osney se retorceu. — Mas
    com esta. Essa é a rainha que eu fodi, e a que me enviou para matar o velho
    Alto Septão. Ele nunca tinha guardas. Só tive que vir enquanto ele dormia e
    pôr uma almofada em sua cara.
    Cersei deu meia volta e começou a correr.
    O Alto Septão tentou agarrá-la, mas ele era um mendigo velho,
    enquanto ela era uma leoa do Rochedo. O afastou com um empurrão, e saiu
    pela porta, fechando-a com um único golpe.
    Os Kettleback, preciso dos Kettleback. Mandarei Osfryd com os
    mantos dourados, e também Osmund com a Guarda Real. Osney voltará a
    negar tudo assim que o soltem; e me livrarei deste Alto Septão, assim como
    me livrei do anterior.
    Quatro velhas septãs lhe bloquearam o caminho e a agarraram com
    suas mãos enrugadas. Derrubou uma com um empurrão, arranhou outra na
    cara e conseguiu chegar às escadarias. Na metade do caminho se recordou de
    Taena Merryweather e se deteve, em dúvida.
    Que os Sete me protejam. Taena sabe de tudo. Se a capturarem e a
    açoitarem...

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:10 pm

    Conseguiu chegar correndo até o septo, mas não mais além. Ali a
    aguardavam as mulheres, mais septãs e também irmãs silenciosas, mais
    jovens que as bruxas de antes.
    — Sou a rainha! — Lhes gritou enquanto retrocedia. — Mandarei
    decapitar todas, cortarei as suas cabeças! Deixem-me passar!
    Em vez de obedecer, tentaram agarrá-la. Cersei correu até o altar da
    Mãe, mas ali a encurralaram. Eram mais de vinte, e a arrastaram enquanto
    esperneava pelas escadarias da torre. Dentro da cela, três irmãs silenciosas a
    imobilizaram, enquanto uma septã chamada Scolera tirava suas roupas. Lhe
    deixou até sem a sua roupa íntima. Outra septã lhe atirou um vestido de lã.
    — Não podem me fazer isso! — Seguiu gritando a rainha. — Sou
    uma Lannister, soltem-me, meu irmão as matará, Jaime as cortará desde a
    boceta até a garganta, soltem-me! Sou a rainha!
    — A rainha deveria rezar. — disse a Septã Scolera antes de deixá-la
    nua na cela gelada.
    Ela não era a dócil Margaery Tyrell; não poria o vestido, nem se
    submeteria ao cativeiro.
    Ensinarei a eles o que significa colocar o leão em uma jaula, pensou
    Cersei.
    Rasgou o vestido, fazendo-o em mil pedaços, pegou o jarro de água
    e o atirou contra a parede, e logo fez o mesmo com o urinol. Ao ver que
    ninguém aparecia, começou a golpear a porta com os punhos. Sua escolta
    estava abaixo, na praça: dez guardas da Casa Lannister e Boros Blount.
    Quando me ouvirem, virão me libertar; algemaremos o Mendigo
    Supremo e o levaremos arrastado até a Fortaleza Vermelha.
    Gritou, chutou e uivou diante da porta e da janela, até que teve a
    garganta em carne viva. Ninguém respondeu aos seus gritos; ninguém acudiu
    em seu resgate. A cela começou a escurecer. Cada vez fazia mais frio. Cersei
    começou a tremer.
    Como podem deixar-me assim, sem sequer um fogo? Sou sua
    rainha!
    Começava a lamentar ter feito o vestido em pedaços. No canto da
    cela havia uma manta desgastada e fina, de lã marrom. Era velha e raspava a
    pele, mas não tinha mais nada. Cersei se encolheu embaixo dela, para deixar
    de tremer, e não demorou para dormir, esgotada como estava.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:10 pm

    A próxima coisa que lembrava era de uma mão que a sacudia.
    Dentro da cela, a escuridão era absoluta; uma mulher feia e corpulenta havia
    se ajoelhado junto a ela com uma vela na mão.
    — Quem é? — Quis saber a rainha. — Veio me libertar?
    — Sou a septã Unella. Vim para escutar a confissão de seus
    assassinatos e fornicações.
    Cersei afastou a mão dela com um golpe.
    — Isto lhe custará à cabeça. Não se atreva a me tocar. Fora daqui!
    A mulher se levantou.
    — Voltarei dentro de uma hora, Vossa Graça. Talvez então esteja
    preparada para confessar.
    Uma hora, e outra, e outra. Assim transcorreu a noite mais longa da
    vida de Cersei Lannister, com a única exceção da do casamento de Joffrey.
    Tinha a garganta tão irritada pelos gritos que apenas podia beber. A cela era
    gélida. Havia destroçado o urinol, de modo que teve que se acocorar num
    canto e ver como a urina escorria pelo solo. Cada vez que fechava os olhos,
    Unella voltava a aparecer, para perguntar-lhe se queria confessar seus
    pecados.
    O dia não chegou acompanhado de alívio algum. Enquanto saía o
    sol, a Septã Moelle lhe levou uma tigela de aveia acinzentada e aguada e
    Cersei lhe atirou na cara. Mas quando lhe levaram outro jarro de água, tinha
    tanta sede, que não teve mais remédio que beber. Levaram para ela outro
    vestido cinzento e fino que cheirava a mofo, e o pôs para cobrir sua nudez. E
    aquela tarde, quando voltou Moelle, comeu o pão e o peixe, e exigiu que lhe
    levassem vinho. O vinho não chegou, mas sim a septã Unella, que a visitava
    a cada hora para perguntar se estava pronta para confessar.
    Que pode estar acontecendo? Perguntou Cersei a si mesma quando a
    diminuta porção de céu que via pela janela começou a escurecer outra vez.
    Porque ninguém veio me tirar daqui? Não podia acreditar que os Kettleback
    houvessem deixado seu irmão abandonado. E o que estaria fazendo o seu
    conselho? Covardes, traidores. Quando eu sair daqui, mandarei decapitar
    todos e buscarei homens de maior valor, para que ocupem o seu lugar.
    Naquele dia ouviu gritos em três ocasiões; era do povo da praça, mas
    o nome que gritavam era o de Margaery, não o seu.
    Estava a ponto de amanhecer o segundo dia. Cersei lambia os
    últimos restos de aveia da tigela quando a porta de sua cela se abriu

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:11 pm

    inesperadamente, para deixar entrar Lorde Qyburn. Teve que recorrer a todo
    o seu autocontrole para não se atirar em seus braços.
    — Qyburn. — Sussurrou. — Oh, deuses, quanto me alegro de te ver.
    Me leva pra casa.
    — Não me permitiriam isso. Vão julgá-la perante um tribunal
    sagrado de sete juízes, por assassinato, traição e fornicação.
    Cersei estava tão esgotada, que a princípio, não entendeu o que ele
    dizia.
    — Tommen. Fale-me de meu filho. Continua sendo o rei?
    — Sim, Vossa Graça. Está são e salvo, atrás dos muros da Torre de
    Maegor, protegido pela Guarda Real. Mas se sente só. Tem medo. Pergunta
    por você e pela pequena rainha. Até agora ninguém lhe falou sobre suas...
    suas...
    — Dificuldades? — Sugeriu. — Que aconteceu com Margaery?
    — Também vai ser julgada, no mesmo tribunal que você. Entreguei
    o Cantor Azul ao Alto Septão, como ordenou Vossa Graça. Ele já o têm
    aqui, nas masmorras. Meus informantes me disseram que o estão açoitando,
    mas que até agora ele só tem cantado a doce canção que o ensinamos.
    A doce canção. Tinha a cabeça embotada pela falta de sono. Wat,
    seu verdadeiro nome é Wat. Se os deuses fossem bondosos, Wat morreria
    por causa das chicotadas, e Margaery acabaria sem maneira de refutar seu
    testemunho.
    — Onde estão meus cavaleiros? Sor Osfryd... O Alto Septão
    pretende matar o seu irmão Osney; seus mantos dourados têm que...
    — Osfryd Kettleback já não está no comando da Guarda da Cidade.
    O rei o depôs, e elegeu o capitão da porta do Dragão, um tal Humfrey
    Waters.
    Cersei estava esgotada, e nada daquilo fazia sentido. Porque
    Tommen iria fazer semelhante coisa?
    — O garoto não tem culpa. Quando o conselho põe um decreto na
    sua frente, ele o firma e estampa o selo.
    — Meu conselho... Quem? Quem iria fazer isso? Você não...
    — Infelizmente, me expulsaram do conselho, ainda que, por
    enquanto, me permitam continuar trabalhando com os passarinhos do
    eunuco. Nesse intervalo, Harys Swyft e o Grande Meistre Pycelle governam

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:11 pm

    o reino. Enviaram um corvo a Rochedo Casterly para convocar seu tio a
    voltar imediatamente para a corte e assumir a regência. Se ele pensa em
    aceitar, é melhor que tenha pressa. Mace Tyrell interrompeu o assédio a
    Ponta Tempestade e vem até a cidade com um exército, e Randyll Tarly
    também está descendo pela Lagoa da Donzela.
    — Lorde Merryweather aprova tudo isto?
    — Merryweather renunciou a sua cadeira no conselho e fugiu para
    Granmesa com sua esposa, que foi quem nos transmitiu a notícia das...
    acusações... que havia contra você.
    — Então soltaram Taena. — Era a melhor coisa que ouvia desde o
    “não” do Mendigo Supremo. Taena poderia ter sido a sua perdição. — Que
    aconteceu com Lorde Waters? Seus barcos... Se desembarcar todos os seus
    tripulantes, terá homens suficientes para...
    — Quando chegou às águas os apuros pelos quais Vossa Graça está
    passando, Lorde Waters içou as velas, retirou os remos e levou sua frota para
    mar aberto. Sor Harys teme que ele pretenda se unir a Lorde Stannis. Pycelle
    crê que se dirige aos Punhos de Pedra para virar pirata.
    — Meus formosos navios... — Cersei esteve a ponto de começar a
    rir. — Meu senhor pai dizia sempre que os bastardos são traiçoeiros por
    natureza. Quem dera se eu pudesse ter ouvido suas palavras. — Estremeceu.
    — Estou perdida, Qyburn.
    — Não. — Ele lhe estendeu a mão. — Ainda resta esperança. Vossa
    Graça tem o direito de demonstrar sua inocência por um combate. Seu
    campeão está preparado, minha rainha. Não há homem nos Sete Reinos que
    possa enfrentá-lo. Basta que me dê à ordem...
    Foi incapaz de seguir contendo o riso. Aquilo era tão divertido, tão
    horrivelmente divertido...
    — Os deuses devem adorar fazer piada com os nossos planos e
    esperanças. Tenho um campeão que nenhum homem poderia derrotar, mas a
    lei me proíbe de utilizá-lo. Sou a rainha, Qyburn. Somente um Irmão
    Juramentado da Guarda Real pode defender minha honra.
    — Entendo. — O sorriso se desvaneceu no rosto de Qyburn. — Não
    sei o que dizer, Alteza. Não sei o que lhe posso aconselhar...
    Apesar de seu estado de esgotamento e de terror, a rainha sabia que
    não podia confiar o seu destino a um tribunal de mendigos. Tampouco podia
    contar com alguma intervenção de Sor Kevan, depois das palavras que
    haviam trocado em seu último encontro.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:11 pm

    Terá que ser um julgamento por combate. Não há outra saída.
    — Qyburn, pelo amor que me professa, lhe rogo que envie uma mensagem
    em meu nome. Se possível, com um corvo; se não, por um cavaleiro. Envie-a
    a Correrrio, a meu irmão. Diga o que aconteceu, e escreva... escreva...
    — Sim, Vossa Graça?
    Umedeceu os lábios, trêmula.
    — “Volte agora mesmo. Me ajuda. Me salva. Preciso de você como
    nunca precisei antes. Te quero. Te quero. Te quero. Volte agora mesmo”.
    — Como ordena. “Te quero” três vezes?
    — Três vezes. — Tinha que comovê-lo. — Virá. Eu sei que ele virá.
    Tem que vir. Jaime é a minha única esperança.
    — Minha rainha. — Titubeou Qyburn. — Esqueceu? Sor Jaime já
    não tem a mão da espada. Se ele for seu campeão e perder...
    Abandonaremos este mundo juntos, como viemos a ele.
    — Não perderá. Jaime não perderá. Não se a minha vida estiver em
    jogo.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:12 pm

    Jaime 793



    O novo Senhor de Correrrio estava tão zangado que tremia.
    — Fomos enganados — disse. — Este homem vigarizounos!
    — Saliva rosada voava dos seus lábios enquanto apontava um
    dedo para Edmure Tully. — Quero a sua cabeça! Eu governo em
    Correrrio, por decreto do próprio rei, eu...
    — Emmon. — Disse a esposa. — O Senhor Comandante conhece o
    decreto do rei. Sor Edmure conhece o decreto do rei. Os moços de estrebaria
    conhecem o decreto do rei.
    — O senhor sou eu, e vou ter a cabeça dele!
    — Por qual crime? — Apesar de estar tão magro, Edmure ainda
    tinha um aspecto mais senhorial do que Emmon Frey. Trazia um gibão
    acolchoado de lã vermelha com uma truta saltante bordada no peito. As
    botas eram negras, as bragas azuis. O seu cabelo ruivo fora lavado e cortado,
    a sua barba vermelha cortada curta. — Fiz tudo aquilo que me foi pedido.
    — Ah sim? — Jaime Lannister não dormira desde que Correrrio
    abrira os portões, e tinha a cabeça latejando. — Não me lembro de te pedir
    para deixardes Sor Brynden escapar.
    — Exigiu que eu entregasse o castelo, não o meu tio. É culpa minha
    que os seus homens o tenham deixado esgueirar-se através das suas linhas de
    cerco?
    Jaime não estava divertido.
    — Onde está ele? — disse, deixando transparecer a irritação que
    sentia. Os seus homens tinham revirado por três vezes Correrrio, e Brynden
    Tully não fora encontrado em lado nenhum.
    — Ele não chegou a me dizer para onde pretendia ir.
    — E você não perguntou. Como foi que ele saiu?
    — Os peixes nadam. Até os negros. — Edmure sorriu.
    Jaime sentiu-se fortemente tentado a esmurrar sua boca com a mão
    de ouro. Alguns dentes em falta poriam fim aos seus sorrisos. Para um
    homem que ia passar o resto da vida como prisioneiro, Edmure estava
    demasiado contente consigo próprio.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:12 pm

    — Temos masmorras por baixo de Rochedo Casterly que servem tão
    bem a um homem como uma armadura. Nelas não pode se virar, sentar ou
    chegar aos pés quando as ratazanas começam a roer os dedos. Gostara de
    reformular essa resposta?
    O sorriso do Lorde Edmure sumiu-se.
    — Me deu a sua palavra de que seria tratado com honra, como é
    próprio do meu estatuto.
    — E será — disse Jaime. — Cavaleiros mais nobres do que você
    morreram a choramingar nessas masmorras, e muitos grandes senhores
    também. Até um ou dois reis, se bem recordo a história. A sua esposa pode
    ficar com outra ao lado da sua, se quiser. Não gostaria de os separar.
    — Ele nadou mesmo — disse Edmure, carrancudo. Tinha os
    mesmos olhos azuis da irmã Catelyn, e Jaime viu aí a mesma repugnância
    que vira um dia nos dela. — Erguemos a porta levadiça do Portão da Água.
    Não toda, só cerca de um metro. O suficiente para abrir uma frincha debaixo,
    embora o portão continuasse a parecer estar fechado. O meu tio é um bom
    nadador. Depois de escurecer enfiou-se por baixo dos espigões.
    E da mesma forma se esgueirou por baixo da nossa represa
    flutuante, sem dúvida. Uma noite sem luar, guardas aborrecidos, um peixe
    negro num rio negro a flutuar em silêncio, corrente abaixo.
    Se Ruttiger, Yew ou qualquer um dos seus homens ouviu um ruído
    de água, o teria atribuído a uma tartaruga ou a uma truta. Edmure esperara a
    maior parte do dia antes de arriar o lobo gigante de Stark em sinal de
    rendição. Na confusão que envolvera a passagem do castelo de umas mãos
    para as outras, fora só na manhã seguinte que Jaime fora informado de que o
    Peixe Negro não se encontrava entre os prisioneiros.
    Dirigiu-se à janela e estendeu o olhar pelo rio. Estava um luminoso
    dia de Outono, e o sol brilhava nas águas. Por esta altura, o Peixe Negro
    pode estar dez léguas para jusante.
    — Temos de o encontrar — insistiu Emmon Frey.
    — Ele será encontrado. — Jaime falou com uma certeza que não
    sentia. — tenho cães de caça e caçadores em busca do seu rasto neste preciso
    instante. — Sor Addam Marbrand liderava as buscas na margem sul do rio,
    Sor Dermot da Mata de Chuva na margem norte. Pensara em envolver
    também os senhores do rio, mas era mais provável que Vance, Piper e os da
    sua laia ajudassem Peixe Negro a escapar do que o pusessem a ferros.
    Contas feitas, não se sentia esperançoso. — Ele pode fugir durante algum
    tempo — disse — mas acabará por ter de vir à superfície.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:12 pm

    — E se ele tentar tomar o meu castelo de volta?
    — Tem uma guarnição de duzentos homens. — Uma guarnição
    grande demais, na verdade, mas Lorde Emmon tinha um temperamento
    ansioso. Pelo menos não teria problemas em alimentá-la; Peixe Negro
    deixara Correrrio amplamente aprovisionado, tal como dissera. — Depois do
    esforço que Sor Brynden fez para nos deixar, duvido que volte a aparecer. —
    A menos que esteja à cabeça de um bando de foras da lei. Não duvidava de
    que o Peixe Negro pretendia continuar o combate.
    — Isto é a sua propriedade — disse a Senhora Genna ao marido. —
    Cabe a você defendê-la. Se não conseguir fazê-lo, passa-a pelo archote e
    corre de regresso ao Rochedo.
    Lorde Emmon esfregou a boca. A mão veio vermelha e viscosa da
    folhamarga.
    — Com certeza. Correrrio é meu, e nunca ninguém o tirará. —
    Deitou a Edmure Tully um último olhar desconfiado, enquanto a Senhora
    Genna o arrastava para fora do aposento privado.
    — Há mais alguma coisa que deseja me dizer? — perguntou Jaime a
    Edmure quando os dois ficaram sós.
    — Este é o aposento privado do meu pai — disse o Tully. —
    Governou as terras fluviais a partir daqui, com sabedoria e competência.
    Gostava de se sentar junto àquela janela. A luz ali era boa, e sempre que
    levantava os olhos do seu trabalho via o rio. Quando sentia os olhos
    cansados, pedia a Cat que lhe lesse em voz alta. O Mindinho e eu
    construímos uma vez um castelo de blocos de madeira, ali ao lado da porta.
    Nunca saberá como te ver nesta sala me deixa doente, Regicida. Nunca
    saberá como te desprezo.
    Quanto àquilo, enganava-se.
    — Já fui desprezado por homens melhores do que você, Edmure. —
    Jaime chamou um guarda.
    — Leva sua senhoria de volta à sua torre, e assegure-se de que é
    alimentado.
    O Senhor de Correrrio saiu em silêncio. Na manhã seguinte iria para
    oeste. Sor Forley Prester comandaria a sua escolta; cem homens, incluindo
    vinte cavaleiros. É melhor duplicar esse número. Lorde Beric pode tentar
    libertar Edmure antes de chegarem ao Dente Dourado. Jaime não queria ter
    de capturar o Tully pela terceira vez.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:13 pm

    Regressou à cadeira de Hoster Tully, pegou no mapa do Tridente e
    alisou-o sob a mão dourada. Para onde iria, se fosse o Peixe Negro?
    — Senhor Comandante? — Um guarda estava à porta aberta. — A
    Senhora Westerling e a filha estão lá fora, conforme ordenaou.
    Jaime pôs o mapa de lado.
    — Manda-as entrar. — Ao menos a rapariga não desapareceu
    também. Jeyne Westerling fora a rainha de Robb Stark, a menina que lhe
    custara tudo. Com um lobo na barriga, podia ter-se mostrado mais perigosa
    do que o Peixe Negro.
    Não parecia perigosa. Jeyne era uma garota esbelta, com não mais
    que quinze ou dezesseis anos, mais desajeitada do que graciosa. Tinha ancas
    estreitas, seios do tamanho de maçãs, uma grenha de caracóis castanhos, e os
    suaves olhos castanhos de uma corça. Bastante bonita para uma criança,
    decidiu Jaime, mas não é mulher por quem perder um reino. Tinha a cara
    inchada, e havia uma crosta na sua testa, meio escondida por uma madeixa
    de cabelo castanho.
    — O que aconteceu aí? — perguntou-lhe Jaime.
    A menina virou a cabeça para o lado.
    — Não é nada — insistiu a mãe, uma mulher de cara severa com um
    vestido de veludo verde. Um colar de conchas de ouro envolvia-lhe o longo
    e magro pescoço. — Ela não queria abrir mão da coroazinha que o rebelde a
    deu, e quando tentei a tirar da cabeça, a teimosa da miúda resistiu.
    — Era minha — soluçou Jeyne. — Não tinha esse direito. O Robb
    mandou fazê-la para mim. Eu amava-o.
    A mãe fez tenção de a esbofetear, mas Jaime interpôs-se entre as
    duas.
    — Não quero saber disso — avisou a Senhora Sybell. — Sentem-se,
    ambas. — A garota enrolou-se na cadeira como um animal assustado, mas a
    mãe sentou-se rigidamente, de cabeça erguida. — Querem vinho? — as
    perguntou. A menina não respondeu.
    — Não, obrigada — disse a mãe.
    — Como quiserem. — Jaime virou-se para a filha. — Lamento a sua
    perda. O rapaz tinha coragem, admito. Há uma pergunta que tenho de te
    fazer. Está à espera de um filho dele, senhora?
    Jeyne saltou da cadeira e teria fugido da sala se o guarda que se
    encontrava à porta não a tivesse segurado pelo braço.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:13 pm

    — Não está — disse a Senhora Sybell, enquanto a filha lutava por se
    escapar. — Eu assegurei-me disso, como o senhor seu pai me pediu.
    Jaime anuiu com a cabeça. Tywin Lannister não era homem para não
    prestar atenção a esses detalhes.
    — Largue a menina — disse — já não preciso dela, por agora. —
    Enquanto Jeyne fugia, aos soluços, pela escada acima, examinou a mãe. —
    A Casa Westerling tem o seu perdão, e o seu irmão Rolph foi nomeado
    Senhor de Castamere. Que mais querem de nós?
    — O senhor seu pai prometeu-me casamentos meritórios para Jeyne
    e para a irmã mais nova. Senhores ou herdeiros, ele jurou, não irmãos mais
    novos nem cavaleiros domésticos.
    Senhores ou herdeiros. Com certeza. Os Westerling eram uma Casa
    antiga e orgulhosa, mas a própria Senhora Sybell nascera Spicer, numa
    linhagem de mercadores enobrecidos. A avó fora uma espécie qualquer de
    bruxa meio louca vinda do leste, segundo julgava recordar. E os Westerling
    estavam empobrecidos. Filhos mais novos teriam sido o melhor a que as
    filhas de Sybell Spicer poderiam ter almejado numa situação normal, mas
    um bom e gordo pote de ouro Lannister faria até a viúva de um rebelde
    morto parecer atraente aos olhos de algum senhor.
    — Tereis os seus casamentos — disse Jaime — mas Jeyne tem de
    esperar dois anos completos antes de voltar a casar. — Se a menina tomasse
    outro esposo cedo demais e tivesse um filho dele, surgiriam inevitavelmente
    rumores de que o pai era o Jovem Lobo.
    — Também tenho dois filhos — fez-lhe lembrar a Senhora
    Westerling. — Rollam está comigo, mas Raynald era cavaleiro e foi com os
    rebeldes para as Gêmeas. Se eu tivesse sabido o que ia acontecer lá, nunca
    teria permitido tal coisa. — Havia uma sugestão de censura na sua voz. —
    Raynald nada sabia de... do entendimento com o senhor seu pai. Ele pode
    estar cativo nas Gêmeas.
    Ou pode estar morto. Walder Frey também não teria sabido do
    entendimento.
    — Irei investigar. Se Sor Raynald ainda estiver cativo, pagaremos o
    seu resgate em seu nome.
    — Foi mencionada a idéia de arranjar uma união também para ele.
    Uma noiva de Rochedo Casterly. O senhor seu pai disse que Raynald deveria
    ficar feliz, se tudo decorresse como esperava.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:13 pm

    Mesmo dentro da cova, a mão morta do Lorde Tywin nos move a
    todos.
    — Felity é filha ilegítima do meu falecido tio Gerion. Um noivado
    pode ser combinado, se for esse o seu desejo, mas o casamento terá de
    esperar. Felity tinha nove ou dez anos da última vez que a vi.
    — Filha ilegítima? — A Senhora Sybell pareceu ter acabado de
    engolir um limão. — Quer que um Westerling case com uma bastarda?
    — Não o desejo mais do que ver Felity casada com o filho de uma
    cadela intriguista e traiçoeira. Ela merece melhor. — Jaime teria
    estrangulado alegremente a mulher com o seu colar de conchas. Felity era
    uma criança adorável, ainda que solitária; o pai fora o tio preferido de Jaime.
    — A sua filha vale dez vezes mais do que você, senhora. Amanhã partirá
    com Edmure e Sor Forley. Até lá faria bem em ficar longe da minha vista. —
    Gritou por um guarda, e a Senhora Sybell saiu com os lábios firmemente
    apertados. Jaime teve de perguntar a si próprio quanto saberia Lorde Gawen
    das intrigas da mulher. Quanto sabemos nós os homens, seja quando for?
    Quando Edmure e os Westerling partiram, quatrocentos homens
    seguiram com eles; Jaime voltara a duplicar a escolta no último instante.
    Acompanhou-os ao longo de algumas milhas, para conversar com Sor Forley
    Prester. Embora trouxesse uma cabeça de touro no sobretudo e cornos no
    elmo, Sor Forley não poderia ser menos bovino. Era um homem baixo, seco
    e endurecido. Com o seu nariz achatado, a careca e a barba castanha
    grisalha, parecia-se mais com um estalajadeiro do que com um cavaleiro.
    — Não sabemos onde está o Peixe Negro — o fez lembrar Jaime —
    mas se tiver oportunidade de libertar Edmure, fará.
    — Isso não acontecerá, senhor. — Tal como a maioria dos
    estalajadeiros, Sor Forley não era tolo nenhum. — Batedores e guardasavançados
    ocultarão a nossa marcha, e fortificaremos os acampamentos
    durante a noite. Escolhi dez homens para ficar com o Tully de dia e de noite,
    os meus melhores arqueiros. Se ele sair da estrada nem que seja dez
    centímetros, dispararão tantas flechas sobre ele que a própria mãe o
    confundirá com um ganso.
    — Ótimo. — Jaime preferiria que o Tully chegasse a salvo em
    Rochedo Casterly, mas antes morto do que em fuga. — É melhor manter
    também alguns arqueiros por perto da filha de Lorde Westerling.
    Sor Forley pareceu surpreendido.
    — A filha de Gavven? Ela é...

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:13 pm

    — ... a viúva do Jovem Lobo — concluiu Jaime — e duas vezes
    mais perigosa do que Edmure, se alguma vez nos fugir.
    — Às suas ordens, senhor. Ela será vigiada.
    Jaime teve de passar a meio galope pelos Westerling ao percorrer a
    coluna de regresso a Correrrio. Lorde Gawen acenou-lhe gravemente quando
    passou, mas a Senhora Sybell olhou através dele com olhos que eram como
    lascas de gelo. Jeyne não chegou a vê-lo. A viúva seguia de olhos brancos,
    aninhada sob um manto com capuz. Sob as pesadas dobras do manto, as suas
    roupas eram finas, mas estavam rasgadas. Ela mesma as rasgou, em sinal de
    luto, compreendeu Jaime. Isso não pode ter agradado à mãe. Deu por si
    curioso em saber se Cersei rasgaria o vestido se alguma vez lhe dissessem
    que ele estava morto.
    Em vez de regressar de imediato ao castelo atravessou uma vez mais
    o Pedregoso para fazer uma visita a Edwyn Frey e discutir a transferência
    dos prisioneiros do bisavô. A hoste Frey começara a desagregar-se horas
    depois da rendição de Correrrio, à medida que os vassalos e cavaleiros livres
    do Lorde Walder iam desmontando os acampamentos para se dirigirem para
    casa. Os Frey que ainda restavam estavam a se preparando para partir, mas
    foi encontrar Edwyn com o tio bastardo no pavilhão deste último.
    Os dois estavam debruçados sobre um mapa, discutindo
    acaloradamente, mas calaram-se quando Jaime entrou.
    — Senhor Comandante — disse Rivers com fria cortesia, mas
    Edwyn exclamou:
    — O sangue do meu pai está nas vossas mãos, sor.
    Aquilo apanhou Jaime de surpresa.
    — Como assim?
    — Foi você quem o mandou para casa, não fostes?
    Alguém tinha de o fazer.
    — Aconteceu algum percalço a Sor Ryman?
    — Foi enforcado com toda a sua comitiva — disse Walder Rivers.
    — Os foras da lei apanharam-nos duas léguas a sul de Feirajusta.
    — Dondarrion?
    — Ou ele ou Thoros, ou aquela mulher, Coração de Pedra.
    Jaime franziu a sobrancelha. Ryman Frey fora um idiota, um
    covarde e um bêbado, e não era provável que alguém sentisse muitas

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:13 pm

    saudades do homem, em particular os outros Frey. Se os olhos secos de
    Edwyn eram indicação de algo, nem mesmo os seus próprios filhos fariam
    luto por ele durante muito tempo. Mesmo assim... estes foras da lei estão se
    tornando arrojados, se se atrevem a enforcar o herdeiro de Lorde Walder a
    menos de um dia a cavalo das Gêmeas.
    — Quantos homens tinha Sor Ryman consigo? — perguntou.
    — Três cavaleiros e uma dúzia de homens de armas — disse Rivers.
    — É quase como se soubessem que ele ia regressar às Gêmeas, e com uma
    escolta pequena.
    A boca de Edwyn torceu-se.
    — O meu irmão está metido nisto, aposto. Ele deixou os foras da lei
    escapar depois de terem assassinado Merrett e Petyr, e o motivo é este. Com
    o nosso pai morto, só resto eu entre o Walder Negro e as Gêmeas.
    — Não tem prova nenhuma disso — disse Walder Rivers.
    — Não preciso de provas. Conheço o meu irmão.
    — O seu irmão está em Guardamar — insistiu Rivers. — Como
    poderia ele ter sabido que Sor Ryman ia regressar às Gêmeas?
    — Alguém lhe disse — disse Edwyn em tom amargo. — Pode ter a
    certeza de que ele tem espiões seus no nosso acampamento.
    E você tem dos seus em Guardamar. Jaime sabia que a inimizade
    entre Edwyn e Walder Negro era profunda, mas qual deles sucedia ao avô
    como Senhor da Travessia não lhe interessava a ponta de um corno.
    — Se me perdoar por me intrometer na sua dor — disse secamente
    — temos outros assuntos a ponderar. Quando regressar às Gêmeas, informe,
    por favor, à Lorde Walder de que o Rei Tommen exige todos os cativos que
    aprisionou no Casamento Vermelho.
    Sor Walder franziu a sobrancelha.
    — Esses prisioneiros são valiosos, sor.
    — Sua Graça não os pediria se fossem inúteis.
    Frey e Rivers trocaram um olhar. Edwyn disse:
    — O senhor meu avô esperará uma recompensa por esses
    prisioneiros.
    E terá, assim que me crescer uma nova mão, pensou Jaime.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:14 pm

    — Todos nós temos esperanças — disse com brandura. — Diga-me,
    Sor Raynald Westerling encontra-se entre esses cativos?
    — O cavaleiro das conchas? — Edwyn fez uma expressão de
    desprezo. — Esse irá encontrar alimentando os peixes no fundo do Ramo
    Verde.
    — Ele estava no pátio quando os nossos homens foram abater o lobo
    gigante — disse Walder Rivers. — Whalen exigiu-lhe a espada e ele a deu
    com bastante docilidade, mas quando os besteiros começaram a encher o
    lobo de penas, pegou no machado de Whalen e libertou o monstro da rede
    que lhe tinham atirado para cima. Whalen diz que o apanhou com um dardo
    no ombro e outro nas tripas, mas ainda conseguiu chegar ao adarve e atirarse
    ao rio.
    — Deixou um trilho de sangue nos degraus — disse Edwyn.
    — Encontrou o seu cadáver mais tarde? — perguntou Jaime.
    — Encontramos mil cadáveres mais tarde. Depois de passarem
    alguns dias no rio, ficam todos muito parecidos uns com os outros.
    — Ouvi dizer que o mesmo acontece com os enforcados — disse
    Jaime, antes de se retirar.
    Na manhã seguinte já pouco restava do acampamento Frey além de
    moscas, bosta de cavalo e a forca de Sor Ryman, abandonado na margem do
    Pedregoso. O primo quis saber o que fazer com ele e com o equipamento de
    cerco que construíra, os aríetes, tartarugas, torres e trabucos. Daven propôs
    que arrastassem tudo para Corvarbor e o usassem aí. Jaime disse-lhe para
    passar tudo pelo archote, começando pela forca.
    — Pretendo lidar em pessoa com o Lorde Tytos. Não será necessária
    uma torre de cerco.
    Daven trespassou a espessa barba com um sorriso.
    — Combate singular, primo? Não parece muito justo. Tytos é um
    velho grisalho.
    Um velho grisalho com duas mãos.
    Nessa noite ele e Sor Ilyn lutaram durante três horas. Foi uma das
    suas melhores noites. Se o combate fosse a sério, Payne só o teria morto por
    duas vezes. Meia dúzia de mortes eram mais a regra, e havia noites ainda
    piores.
    — Se continuar com isto durante mais um ano, posso me tornar tão
    bom como Peck — declarou Jaime, e Sor Ilyn soltou os estalidos que

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