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    O Festim dos Corvos

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:14 pm

    queriam dizer que estava divertido. — Venha vamos beber mais um pouco
    do bom vinho tinto de Hoster Tully.
    O vinho tornara-se parte do seu ritual noturno. Sor Ilyn era o
    companheiro de bebida perfeito.
    Nunca interrompia, nem pedia favores, nem contava longas histórias
    sem importância. Tudo o que fazia era beber e escutar.
    — Eu devia mandar arrancar a língua a todos os meus amigos —
    disse Jaime enquanto enchia as taças — e à minha família também. Uma
    Cersei silenciosa seria uma delícia. Embora eu fosse sentir falta da sua
    língua quando nos beijássemos. — E bebeu. O vinho era um tinto forte, doce
    e pesado. Aquecia-o ao descer. — Não consigo me lembrar de quando
    começamos a nos beijar. A princípio foi inocente. Até deixar de ser. —
    Acabou o vinho e pôs a taça de lado. — Tyrion me disse uma vez que a
    maior parte das rameiras não nos beijam. Fodem-nos até nos deixarem sem
    forças, disse ele, mas nunca sentimos os lábios delas nos nossos. Acha que a
    minha irmã beija o Kettleblack?
    Sor Ilyn não respondeu.
    — Não me parece que seria apropriado que eu mate o meu próprio
    Irmão Juramentado. O que tenho a fazer é castrá-lo e enviá-lo para a
    Muralha. Foi isso que fizeram com Lucamore, o Ardente. Sor Osmund pode
    não aceitar de bom grado a castração, é certo. E há os irmãos a ter em conta.
    Irmãos podem ser perigosos. Depois de Aegon, o Indigno, condenar Sor
    Terrence Toyne à morte por dormir com a sua amante, os irmãos de Toyne
    fizeram o melhor que puderam para o matar. O melhor que puderam não foi
    suficientemente bom, graças ao Cavaleiro do Dragão, mas não foi por falta
    de tentar. Está escrito no Livro Branco. Está lá tudo, menos o que fazer com
    Cersei.
    Sor Ilyn passou um dedo pela garganta.
    — Não — disse Jaime. — Tommen perdeu um irmão, e o homem
    em quem pensava como pai. — Se eu fosse matar a sua mãe, me odiaria por
    isso... e aquela sua querida esposa arranjaria maneira de orientar esse ódio
    para benefício de Jardim de Cima.
    Sor Ilyn sorriu de um modo que não agradou a Jaime. Um sorriso
    feio. Uma alma feia.
    — Fala demasiado — disse ao homem.
    No dia seguinte, Sor Dermot da Mata de Chuva regressou ao castelo
    de mãos vazias. Quando lhe perguntaram o que encontrara, respondeu:

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:14 pm

    — Lobos. Milhares dos malditos bichos. — Perdera duas sentinelas
    para os lobos. Tinham saltado da escuridão para as atacar. — Homens
    armados revestidos de cota de malha e couro fervido, e mesmo assim as
    feras não tiveram medo deles. Antes de morrer, Jate disse que a alcateia era
    liderada por uma loba de um tamanho monstruoso. Um lobo gigante,
    ajuizando pelas suas palavras. Os lobos também penetraram nas nossas
    linhas de cavalos. Os malditos bastardos mataram o meu baio preferido.
    — Um anel de fogueiras em volta do seu acampamento poderia
    mantê-los afastados — disse Jaime, embora tivesse dúvidas. Poderia o lobo
    gigante de Sor Dermot ser o mesmo animal que atacara Joffrey perto do
    entroncamento?
    Lobos ou não, Sor Dermot voltou a sair na manhã seguinte, com
    cavalos frescos e mais homens, a fim de reatar as buscas por Brynden Tully.
    Nessa mesma tarde, os senhores do Tridente vieram ter com Jaime
    para pedir licença para regressarem às suas terras. Concedeu-a. Lorde Piper
    também quis saber novidades do filho Marq.
    — Todos os cativos serão resgatados — prometeu Jaime. Enquanto
    os senhores do rio se retiravam, Lorde Karyl Vance deixou-se ficar para trás
    para dizer:
    — Lorde Jaime, tem que ir a Corvarbor. Enquanto for Jonos quem
    está junto dos seus portões, Tytos nunca se renderá, mas sei que dobrará o
    joelho perante você. — Jaime agradeceu-lhe o conselho.
    O Varrão Forte foi quem partiu em seguida. Queria regressar a
    Darry, conforme prometera, e dar combate aos foras da lei.
    — Atravessamos metade do raio do reino, e para quê? Para que
    pudesse fazer Edmure Tully mijar-se nas bragas? Não há nisso nenhuma
    canção. Preciso duma luta. Quero o Cão de Caça, Jaime. Ele ou o senhor das
    Marcas.
    — A cabeça do Cão de Caça é sua se conseguir apanhá-la — disse
    Jaime — mas Beric Dondarrion deve ser capturado vivo, para poder ser
    levado para Porto Real. A sua morte tem de ser vista por mil pessoas, senão
    não ficará morto. — O Varrão Forte respondeu àquilo com um resmungo,
    mas acabou por concordar. No dia seguinte partiu com o escudeiro e os
    homens de armas, além do Jon Imberbe Bettley, que decidira que caçar foras
    da lei era preferível a regressar para junto da esposa, famosa pela sua falta de
    beleza. Segundo se dizia, ela possuía a barba que faltava a Bettley.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:14 pm

    Jaime ainda tinha de lidar com a guarnição. Até ao último homem,
    juraram que nada sabiam sobre os planos de Sor Brynden ou para onde ele
    teria ido.
    — Estão mentindo — insistiu Emmon Frey, mas Jaime achava que
    não.
    — Se não partilhar os seus planos com ninguém, ninguém pode te
    trair — fez notar. A Senhora Genna sugeriu que alguns dos homens podiam
    ser levados a interrogatório. Jaime recusou. — Eu dei a Edmure a minha
    palavra de que se se rendesse, a guarnição poderia partir sem ser
    incomodada.
    — Isso foi cavalheiresco da sua parte — disse a tia — mas o que
    aqui é necessário é força, não cavalaria.
    Pergunte a Edmure se eu sou cavalheiresco, pensou Jaime. Pergunte
    sobre o trabuco. De algum modo não lhe parecia que fosse provável que os
    meistres o confundissem com o Príncipe Aemon, o Cavaleiro do Dragão,
    quando escrevessem as histórias de ambos. Mesmo assim, sentia-se
    curiosamente satisfeito. A guerra estava praticamente ganha. Pedra do
    Dragão caíra e não duvidava de que Ponta Tempestade cairia em breve, e
    não importava que Stannis andasse pela Muralha. Os nortenhos não
    gostariam mais dele do que os senhores da tempestade. Se Roose Bolton não
    o destruísse, o inverno o faria.
    E ele fizera a sua parte ali em Correrrio sem chegar a pegar em
    armas contra os Stark e os Tully.
    Depois de encontrar o Peixe Negro, ficaria livre para regressar a
    Porto Real, onde devia estar. O meu lugar é com o meu rei. Com o meu filho.
    Tommen gostaria de saber disso? A verdade custaria o trono ao rapaz.
    Prefere ter um pai ou uma cadeira, rapaz? Jaime desejava conhecer a
    resposta. Ele gosta de por o seu selo em papéis. O rapaz podia nem sequer
    acreditar nele, certamente. Cersei diria que era mentira. Minha querida
    irmã, a enganadora. Teria de arranjar alguma forma de arrancar Tommen às
    suas garras antes que o rapaz se transformasse noutro Joffrey. E, já agora,
    devia arranjar outro pequeno conselho para o rapaz. Se Cersei puder ser
    posta de lado, Sor Kevan pode concordar em servir como Mão de Tommen.
    E se não concordasse, bem, os Sete Reinos não tinham falta de homens
    capazes. Forley Prester seria uma boa escolha, ou Roland Crakehall. Caso
    fosse necessário um homem que não fosse oriundo do oeste para aplacar os
    Tyrell, sempre havia Mathis Rowan... ou até Petyr Baelish. O Mindinho era
    tão amigável como esperto, mas o seu nascimento era demasiado baixo para

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:14 pm

    constituir ameaça para qualquer um dos grandes senhores, dado não possuir
    contingente próprio.
    O perfeito Mão.
    A guarnição Tully partiu na manhã seguinte, despida de todas as
    suas armas e armaduras. Cada homem foi autorizado a levar comida para três
    dias e a roupa que trazia no corpo, depois de prestar um juramento solene de
    nunca mais pegar em armas contra Lorde Emmon ou a Casa Lannister.
    — Se tiver sorte, um em cada dez homens pode respeitar esse
    juramento — disse a Senhora Genna.
    — Ótimo. Prefiro enfrentar nove homens a enfrentar dez. O décimo
    podia ser aquele que me mataria.
    — Os outros nove te matarão com igual rapidez.
    — Antes isso do que morrer na cama. — Ou na latrina.
    Dois homens decidiram não partir com os outros. Sor Desmond
    Grell, o antigo mestre de armas do Lorde Hoster, preferiu vestir o negro. O
    mesmo decidiu Sor Robin Ryger, o capitão da guarda de Correrrio.
    — Este castelo foi o meu lar durante quarenta anos — disse Grell.
    — Você diz que eu sou livre para partir, mas para onde? Sou velho e
    corpulento demais para dar em cavaleiro andante. Mas os homens são
    sempre bem-vindos na Muralha.
    — Como quiser — disse Jaime, embora isso fosse um
    aborrecimento. Permitiu que ficassem com as armas e armaduras e destacou
    uma dúzia dos homens de Gregor Clegane para os escoltar para Lagoa da
    Donzela. Entregou o comando a Raff, aquele a quem chamavam o Querido.
    — Assegura-se de que os prisioneiros chegam a Lagoa da Donzela
    inteiros — disse ao homem — senão aquilo que Sor Gregor fez ao Bode
    parecerá uma engraçada partida comparada com o que farei a você.
    Mais dias se passaram. Lorde Emmon reuniu toda Correrrio no
    pátio, tanto a gente de Lorde Edmure, quanto a sua, e falou-lhes durante
    quase três horas sobre o que esperava deles, agora que era Emmon o seu
    chefe e senhor. De vez em quando brandia o pergaminho, enquanto moços
    da estrebaria, criadas e ferreiros escutavam num silêncio taciturno e uma
    ligeira chuva caía sobre todos, O cantor, aquele que Jaime obtivera de Sor
    Ryman Frey, também estava à escuta. Jaime deu com ele em pé numa
    portada aberta, onde estava seco.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:14 pm

    — Sua senhoria devia ter sido cantor — disse o homem. — Este
    discurso é mais longo do que uma balada da Marca, e não me parece que ele
    tenha parado para respirar.
    Jaime foi obrigado a rir.
    — Lorde Emmon não precisa de respirar, desde que consiga
    mastigar. Vai fazer uma canção disto?
    — Uma engraçada. Vou chamar-lhe "Falando aos Peixes".
    — Desde que não a toque onde a minha tia possa ouvi-la. — Jaime
    nunca antes prestara muita atenção ao homem. Era um tipo pequeno, vestido
    com umas bragas verdes esfarrapadas e uma túnica no fio, de um tom mais
    claro de verde, com remendos castanhos de couro a cobrir os buracos. O
    nariz era longo e aguçado, o sorriso grande e solto. Fino cabelo castanho
    caía-lhe até ao colarinho, emaranhado e sujo. Uns cinqüenta anos, pensou
    Jaime, harpista ambulante e bem gasto pela vida. — Não era de Sor Ryman
    quando te encontrei? — perguntou.
    — Só por quinze dias,
    — Estava à espera que partisse com os Frey.
    — Aquele ali em cima é um Frey — disse o cantor, indicando Lorde
    Emmon com a cabeça — E este castelo parece um sítio bem aconchegado
    pra passar o Inverno. O Wat Sorriso-Branco foi pra casa com o Sor Forley,
    de modo que eu pensei em ver se conseguia ficar com o lugar dele. O Wat
    tem aquela voz aguda e doce que gente como eu não pode esperar igualar.
    Mas eu sei o dobro das canções picantes que ele sabe. Com a sua licença,
    senhor.
    — Deve dar magnificamente bem com a minha tia — disse Jaime.
    — Se espera passar aqui o inverno assegure-se de que a sua música agrade à
    Senhora Genna. É ela que importa.
    — Você não?
    — O meu lugar é junto do rei. Não ficarei aqui por muito tempo.
    — Lamento ouvir isso, senhor. Conheço canções melhores do que
    "As Chuvas de Castamere". Podia ter te tocado... oh, toda a espécie de
    coisas.
    — Noutra altura qualquer — disse Jaime. — Tem nome?
    — Tom de Seterrios, se aprouver ao senhor. — O cantor tirou o
    chapéu. — Mas a maior parte das pessoas chama-me Tom das Sete.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:15 pm

    — Canta bem, Tom das Sete.
    Nessa noite sonhou que estava de regresso ao Grande Septo de
    Baelor, ainda em vigília sobre o cadáver do pai. O septo estava em silêncio e
    mergulhado na escuridão, até que uma mulher emergiu das sombras e se
    dirigiu lentamente para o estrado.
    — Irmã? — disse.
    Mas não era Cersei. Estava toda vestida de cinzento, uma irmã
    silenciosa. Um capuz e um véu escondiam-lhe as feições, mas Jaime
    conseguia ver as velas ardendo nas lagoas verdes dos seus olhos.
    — Irmã — disse — que quereis de mim? — Esta última palavra
    ecoou por todo o septo,
    mimmimmimmimmimmimmimmimmimmimmimmim.
    — Eu não sou sua irmã, Jaime. — A mulher ergueu uma mão suave
    e pálida e empurrou o capuz para trás. — Esqueceu-se de mim?
    Posso esquecer-me de alguém que nunca conheci? As palavras
    ficaram-lhe presas na garganta.
    Ele conhecia-a, mas tinha-se passado tanto tempo...
    — Também esquecerá o senhor teu pai? Pergunto a mim mesma se
    alguma vez o conheceste verdadeiramente. — Os olhos dela eram verdes, o
    cabelo ouro tecido. Jaime não seria capaz de dizer que idade a mulher tinha.
    Quinze anos, pensou, ou cinquenta. Subiu os degraus e parou junto do
    estrado. — Ele nunca conseguiu suportar que se rissem de si. Era isso que
    mais detestava.
    — Quem é você? — Tinha de a ouvir dizê-lo.
    — A questão é: quem és você?
    — Isto é um sonho.
    — É? — Ela fez um sorriso triste. — Conte as mãos, pequeno.
    Uma. Uma mão, apertada com força em volta do cabo da espada. Só
    uma.
    — Nos meus sonhos, tenho sempre duas mãos. — Ergueu o braço
    direito e fitou sem compreender a feiura do seu toco.
    — Todos sonhamos com coisas que não podemos ter. Tywin
    sonhava que o filho seria um grande cavaleiro, que a filha seria rainha.
    Sonhava que seriam tão fortes, corajosos e belos que nunca ninguém se riria
    deles.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:15 pm

    — Eu sou um cavaleiro — disse-lhe Jaime — e Cersei uma rainha.
    Uma lágrima rolou pelo rosto da mulher. Voltou a erguer o capuz e
    virou-lhe as costas. Jaime gritou-lhe, mas ela já se afastava, com a saia a
    sussurrar canções de embalar ao raspar no chão. Não me deixe, quis gritar,
    mas claro que ela já os deixara há muito.
    Acordou nas trevas, tremendo. O quarto tornara-se frio como gelo.
    Jaime afastou as mantas com o toco da mão da espada. Viu que o fogo na
    lareira se apagara, e a janela fora aberta pelo vento.
    Atravessou o aposento negro como breu, para ir lutar com as
    portinholas, mas quando atingiu a janela, os seus pés nus encontraram algo
    húmido. Jaime recuou, momentaneamente sobressaltado. O seu primeiro
    pensamento foi de sangue, mas o sangue não teria sido tão frio.
    Era neve, caindo através da janela.
    Em vez de fechar as portinholas, escancarou-as. O pátio, em baixo,
    estava coberto por um fino manto branco, que se ia tornando mais espesso
    sob os seus olhos. Os merlões das ameias usavam capuzes brancos. Os
    flocos caíam em silêncio, pairando alguns pela janela para se irem derreter
    na sua cara. Jaime conseguia ver a sua respiração.
    Neve nas terras fluviais. Se estava nevando ali, podia perfeitamente
    estar também nevando em Lanisporto, e em Porto Real. O inverno marcha
    para sul, e metade dos nossos celeiros estão vazios.
    As sementeiras que ainda se encontrassem nos campos estavam
    perdidas. Não haveria mais plantações, nenhuma esperança de uma última
    colheita. Deu por si se perguntando o que pai faria para alimentar o reino,
    antes de se lembrar que Tywin Lannister estava morto.
    Quando rompeu a manhã, a neve chegava ao tornozelo e era mais
    profunda no bosque sagrado, onde montes de neve tinham sido acumulados
    pelo vento sob as árvores. Escudeiros, moços de estrebaria e pajens de
    nascimento elevado tinham-se transformado de novo em crianças sob o seu
    frio feitiço branco, e travavam uma guerra de bolas de neve pelos pátios e ao
    longo das ameias. Jaime ouviu-os rir. Tinha havido uma época, não muito
    tempo antes, em que poderia ter estado lá fora fazendo bolas de neve com os
    melhores de entre eles, para as atirar em Tyrion quando se bamboleasse por
    perto, ou para enfiar pelas costas do vestido de Cersei. Mas preciso de duas
    mãos para fazer uma bola de neve decente.
    Ouviu-se um leve toque na sua porta.
    — Vá ver quem é, Peck.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:15 pm

    Era o velho meistre de Correrrio, agarrando uma mensagem na mão
    enrugada e encarquilhada. O rosto de Vyman estava tão branco como a neve
    acabada de cair.
    — Eu sei — disse Jaime — chegou um corvo branco da Cidadela. O
    inverno chegou.
    — Não, senhor. A ave veio de Porto Real. Tomei a liberdade... não
    sabia... — E estendeu-lhe a carta.
    Jaime leu-a no banco de janela, banhado na luz daquela fria manhã
    branca. As palavras de Qyburn eram sóbrias e objetivas, as de Cersei febris e
    ferventes.
    Venha imediatamente. Me ajude. Me salve. Preciso agora de você
    como nunca antes precisei. Te amo. Te amo. Te amo. Venha imediatamente.
    Vyman pairava perto da porta, à espera, e Jaime sentiu que Peck
    também estava observando.
    — O senhor deseja responder? — perguntou o meistre, após um
    longo silêncio.
    Um floco de neve caiu sobre a carta. Enquanto se derretia, a tinta
    começou a borrar. Jaime voltou a enrolar o pergaminho, apertando-o tanto
    quanto uma mão permitia, e entregou-o a Peck.
    — Não — disse. — Põe isto no fogo.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:15 pm

    Samwell 810


    A última parte da viagem era a mais perigosa. Os Estreitos Redwyne
    estavam repletos de Dracares, tal como lhes tinham dito em
    Tyrosh. Com a maior parte da frota do reino no outro lado do
    poente, os homens de ferro haviam saqueado Porto Ryan, haviam se
    apoderado de Villavinha e do Porto Estrela do Mar, e os utilizavam como
    base desde que começaram a atacar os navios que se dirigiam a Vilavelha.
    O vigia avistou três barcos longos, dois estavam a popa à uma boa
    distancia, e o Vento Canela não tardou a afastar-se deles. O terceiro
    apareceu no final do dia para cortar o caminho enquanto fazia um som
    sussurrante. Quando viu subir e baixar os remos deixando um rastro branco
    nas águas acobreadas. Kojja Mo enviou seus arqueiros aos castelos com seus
    grandes arcos, que podiam lançar uma flecha ainda mais longe e com maior
    precisão que os de Dorne. Esperou até que o barco longo estivesse a
    duzentos passos antes de dar a ordem de disparar. Sam também disparou e
    naquela ocasião pareceu que sua flecha chegava ao outro barco. Bastou um
    disparo e o barco longo virou em direção ao sul em busca de uma presa mais
    fácil.
    O dia já era escuro quando entraram na Enseada dos Murmúrios.
    Goiva estava na proa com o bebê contemplando o castelo que ficava sobre as
    falésias.
    — Três Torres — lhe disse Sam — a sede da casa Costayne.
    O castelo se recortava contra as estrelas e em suas janelas cintilavam
    as luzes das tochas. Era um espetáculo esplendido, mas entristeceu Sam. A
    viagem chegava ao fim.
    — É muito alto — comentou Goiva.
    — Bem, você verá o farol de Torralta.
    O bebê de Dalla começou a chorar. Goiva abriu a túnica para dar o
    peito ao pequeno. Sorriu enquanto o amamentava, e acariciou o suave cabelo
    castanho.
    Acabou por amar tanto este como o que deixou para traz,
    compreendeu Sam.
    Rezava aos deuses para que fossem bondosos com os dois.
    Os homens de ferro tinham penetrado até nas águas resguardadas da
    Enseada dos Murmúrios. Quando chegou a manhã, enquanto o Vento Canela

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:15 pm

    se dirigia até Vilavelha, o casco começou a tropeçar com cadáveres que
    flutuavam a deriva. Havia corvos pousados em alguns, e começavam a voar
    entre grasnos de protesto quando o barco perturbava suas grotescas jangadas.
    Nas margens se viam campos carbonizados e aldeias queimadas, e sob os
    bancos de areia tinham barcos destruídos. Os mais comuns eram os botes de
    pescadores e os barcos mercantes, mas também viram barcos longos
    abandonados, e os restos de dois grandes dromones. Um havia ardido até a
    linha de flutuação, enquanto que o outro tinha um enorme buraco no casco;
    Saltava a vista que o haviam atacado.
    — Aqui houve uma batalha — disse Xhondo — não tem muito
    tempo.
    — Quem pode ter cometido a temeridade de fazer um ataque tão
    perto de Vilavelha?
    Xhondo assinalou um navio semi afundado nas águas baixas. Em sua
    popa estavam pendurados os restos de um estandarte rasgado e manchado.
    Sam nunca tinha visto aqueles brasões: um olho vermelho com a pupila
    negra, embaixo uma coroa de ferro negro segurado por dois corvos.
    — De quem é esse estandarte? — Perguntou.
    Xhondo encolheu os ombros.
    O dia seguinte amanheceu frio e nublado. Quando o Vento Canela
    passava diante de outra aldeia de pescadores que fora saqueada, um barco de
    guerra saiu da névoa e avançou para eles. Chamava-se Caçadora, levava o
    nome escrito atrás de uma figura de proa em forma de uma esbelta donzela
    vestida com folhas e que carregava uma lança. Em um instante apareceram
    mais dois barcos, um de cada lado, como um par de cães que seguem seu
    dono. Para alivio de Sam, levavam o estandarte do rei Tommem, o veado e o
    leão, encima da torre branca hierarquizada de Vilavelha com sua coroa
    flamejante.
    O capitão da Caçadora era um homem alto que vestia uma capa
    cinza com uma gola de seda vermelha. Emparelhou seu navio com o Vento
    Canela, ordenou que levantassem os remos e gritou que ia subir a bordo.
    Enquanto seus besteiros e os arqueiros de Kojja Mo se olhavam a distância,
    ele cruzou com meia dezena de cavalheiros, saudou a Quhuru Mo com um
    gesto de cabeça e solicitaram ver suas adegas. Pai e filha debateram em
    particular uns segundos e depois consentiram.
    — Desculpe — disse o capitão após a inspeção — Lamento que
    pessoas honradas recebam um tratamento tão descortês, mas tenho que evitar
    a todo custo que os homens de ferro entrem em Vilavelha. Fazem apenas

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:15 pm

    quinze dias, estes cornos de merda capturaram um barco mercante de
    Tyroshi nos estreitos. Mataram a tripulação e colocaram suas roupas, usaram
    as tintas que levavam para tingir a barba de várias cores. Tinham intenção de
    colocar fogo no porto enquanto entravam e abriam uma porta por dentro
    enquanto combatíamos o fogo. Eles teriam se saído bem, mas encontraram
    com a Dama da Torre, e a esposa do chefe de remeiros é de Tyoshi. Quando
    viu tantas barbas violeta e verde os saudou na língua Tyroshi, e nenhum
    soube responder.
    Sam estava escandalizado.
    — Não é possível que pretendessem saquear Vilavelha
    — Não eram simples saqueadores — O capitão da Caçadora o olhou
    com curiosidade — os homens de ferro sempre tem se dedicado ao saque.
    Atacam de repente pelo mar, pegam um pouco de ouro e umas tantas garotas
    e vão embora, mas raras vezes chegam mais de dois navios, e nunca mais de
    meia dezena. Agora estão nos atacando com centenas de navios; Saem das
    Ilhas Escudo e de várias rochas situadas em torno da Árvore. Tomaram o
    Recife do Caranguejo de Pedra, a ilha dos Porcos e o palácio da Sereia e
    também tem covil no Rochedo da Ferradura e no Berço do Bastardo. Sem a
    frota de Lorde Redwyne, não temos barcos suficiente para enfrenta-los.
    — E o que fez Lorde Higtower? — perguntou Sam — Meu pai
    sempre dizia que ele é tão rico como os Lannister, que podia reunir o triplo
    de espadas que qualquer outra bandeira de Jardim de Cima.
    — Mais, se varrer a calçada — replicou o capitão — mas as espadas
    não valem de nada contra os homens de ferro, a menos que os que as
    empunhem possam andar sobre a água.
    — Hightower tem que estar fazendo algo!
    — Com certeza. Lorde Leyton se trancou no alto de sua torre com a
    donzela louca para consultar livros de feitiços. Pode ser que consiga levantar
    um exercito vindo das profundezas, ou não. Baleor está construindo barcos;
    Gunthor tomou o Porto; Garth está treinando novos recrutas, e Hunfrey
    viajou a Lys para contratar barcos mercenários. Se conseguir uma frota
    como a da puta da sua irmã, daremos aos homens de ferro um pouco do seu
    próprio remédio. Até lá o melhor que podemos fazer é defender a enseada e
    esperar que a raposa da rainha de porto real solte o cinto à Lorde Paxter.
    A amargura das ultimas palavras do capitão emocionaram a Sam
    tanto como seu significado.
    Se Porto Real perde Vilavelha e a Árvore, todo reino se fará em
    pedaços, pensou enquanto via a Caçadora e suas irmãs se afastarem.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:16 pm

    Começava a duvidar que Monte Chifre fosse um lugar seguro. A
    posse dos Tarly se estendia terra adentro, entre colinas onde cresciam
    espessos bosques, cem léguas ao nordeste de Vilavelha e muito longe de
    qualquer coisa. Ali estariam fora do alcance dos homens de ferro e seus
    barcos longos, ainda que o Senhor seu pai estivesse ausente, lutando nas
    terras dos rios, e a guarnição do castelo fosse escassa. Sem dúvida o jovem
    lobo tinha pensado o mesmo de Winterfell até a noite em que Theon viracasaca
    subiu por seus muros. Sam não suportava pensar que poderia ter
    levado Goiva e o bebê para deixá-los a salvo e acabaria os abandonando no
    meio de uma guerra.
    Ele passou o resto da viagem debatendo-se em dúvidas, sem saber o
    que fazer. Podia levar Goiva a Vilavelha. As muralhas da cidade eram muito
    mais imponentes que as do castelo de seu pai, e havia milhares de homens
    para defendê-las, em vez do punhado de soldados que devia ter deixado
    Lorde Randyll em Monte Chifre quando partiu para Jardim de Cima para
    responder a chamada de seu Senhor. Mas em tal caso teria que a esconder.
    Na Cidadela não se permitia a um noviço que tivesse esposa nem amante,
    pelo menos abertamente.
    Além do mais se fico muito mais tempo com Goiva como vou ter
    forças para deixá-la? Porque tinha que deixá-la. Ou deserta. Pronunciei o
    juramento, se lembrou, se deserto me cortam a cabeça, e de que serviria isso
    a Goiva?
    Pesou a possibilidade de suplicar a Koja Mo e a seu pai que
    levassem a menina selvagem para as Ilhas de Verão. Mas aquilo também
    envolvia perigos. Quando saísse de Vilavelha, o Vento Canela teria que
    cruzar outra vez os Estreitos de Redwyne. Talvez tivessem menos sorte
    daquela vez. E o vento morresse? E se os ilhéus de verão se encontrassem a
    deriva? Se o que se dizia era verdade, levariam Goiva como esposa de sal, e
    o mais provável era que considerassem o bebê um estorvo, e o atirassem ao
    mar.
    Tenho que levá-la a Monte Chifre — decidiu por fim. — Quando
    chegarmos a Vilavelha, alugarei um carro e uns cavalos, e a levarei eu
    mesmo. Assim se asseguraria de deixá-la a salvo no castelo e se visse ou
    ouvisse algo que o fizesse duvidar, sempre podia dar meia volta e voltar para
    Vilavelha com Goiva.
    Chegaram a Vilavelha uma manhã fria e úmida, no meio de uma
    neblina tão espessa que a única coisa que se via da cidade era o farol de
    Torralta. O porto estava cruzado por um dique flutuante que ligava duas
    dezenas de cascos podres. Atrás havia uma fileira de barcos de guerra
    ancorados junto a três grandes dromones e o carro chefe de Lord Hightower,

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:16 pm

    um imponente navio de quatro pavimentos chamado Honra de Vilavelha. O
    Vento Canela teve que submeter-se a inspeção mais uma vez. Naquela
    ocasião, quem subiu a bordo foi Gunthor, o filho de Lorde Leyton, que
    levava uma capa de fio de prata e uma armadura cinza. Sor Gunthor havia
    estudado vários anos na Cidadela e falava a língua de verão, de maneira que
    Quhuru Mo e ele se reuniram no camarote do capitão para conversar em
    particular.
    Sam aproveitou o tempo para explicar seus planos a Goiva.
    — Primeiro irei à cidadela para entregar as cartas de Jon e informar
    a morte de Meistre Aemon. Espero que os arquimeistres enviem um carro
    para recolher o cadáver. Logo conseguirei cavalos e um carro para te levar
    até minha mãe em Monte chifre. Voltarei assim que puder, mas talvez não
    seja até amanhã.
    — Amanhã — repetiu ela, e lhe deu um beijo para desejar-lhe sorte.
    No final, Sor Gunthor voltou a sair e ordenou que abrissem o dique
    para que o Vento Canela pudesse entrar no porto. Enquanto amarravam o
    navio cisne, Sam se uniu a Koja Mo e três de seus arqueiros junto à prancha.
    Os ilhéus de Verão estavam resplandecentes com capas de plumas que
    somente colocavam para desembarcar. A seu lado se sentia esfarrapado, com
    a roupa negra larga, a capa desbotada e as botas manchadas de salitre.
    — Quanto tempo você vai ficar no porto?
    — Dois dias, dez dias, quem sabe? O tempo que esperamos esvaziar
    as adegas e voltar a enchê-las — Koja sorriu — Depois meu pai tem que
    visitar os meistres cinzentos. Quer vender uns livros.
    — Goiva pode ficar a bordo até que eu volte?
    — Goiva pode ficar todo tempo que quiser — cravou um dedo na
    barriga de Sam — não come tanto como os outros.
    — Não estou tão gordo como antes— se defendeu o garoto.
    Era um dos resultados da viagem até o sul, com tantos guardas e
    comendo somente frutas e peixes. Os ilhéus de Verão gostavam muito de
    frutas e peixes.
    Sam desceu pela prancha com os arqueiros, mas ao chegar à margem
    se separaram e cada um foi para o seu lado. Rezou para lembrar como
    chegava à cidade, Vilavelha era um labirinto, e não podia perder tempo se
    perdendo.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:16 pm

    Era um dia úmido, e os paralelepípedos do solo estavam
    escorregadios e as ruas, envoltas em névoas e mistérios. Sam tratou de evitálos
    e seguiu o caminho do rio que serpenteava junto à margem de Vinhomel
    cruzando o coração do casco velho. Era agradável voltar a pisar em terra
    firme, em vez de um convés que se mexia sem parar, mas apesar de tudo se
    sentia incomodado. Notava os olhares cravados nele: o espiavam de janelas e
    balcões, e o observavam desde o portal escuro. A bordo de Vento Canela
    sabia quem eram todos. Em vez disso, naquela cidade, aonde olhasse, todos
    eram desconhecidos. E o pior ainda era a possibilidade de ver algum
    conhecido. Não havia ninguém em Vilavelha que não soubesse quem era
    Lorde Randyll Tarly, ainda que poucos lhe tivessem afeto. Sam não sabia o
    que poderia ser pior; que um inimigo de seu pai lhe reconhecesse ou um de
    seus amigos. Cobriu-se com o capuz e acelerou o passo.
    As portas da Cidadela estavam ladeadas por um casal de gigantescas
    esfinges verdes, com corpo de leão, asas de águia e cauda de serpente. Uma
    tinha rosto de homem, e a outra de mulher. Do outro lado estava o Lar do
    Escriba, onde iam os moradores de Vilavelha para que os acólitos
    escrevessem testamentos e lessem cartas. Havia meia dezena de escribas
    chatos sentados sobre os estábulos ao ar livre, a espera de clientes. Em
    outros estábulos se compravam e vendiam livros. Sam se deteve diante de
    um que vendia mapas e examinou um da cidadela para verificar a forma
    mais rápida de chegar a Residência do Senescal.
    O caminho se dividia no ponto onde se encontrava a estátua do rei
    Daeron Primeiro montado em um alto cavalo de pedra, com as costas
    voltadas em direção à Dorne. O Jovem Dragão tinha uma gaivota pousada na
    cabeça e outras duas na espada. Sam tomou a bifurcação da esquerda, a que
    seguia o curso do rio. Na Doca Gotejante viu dois alcólitos que ajudavam
    um ancião a subir em um bote para uma curta viagem até à ilha Sangrenta.
    Atrás dele subiu uma jovem mãe, da idade de Goiva, com um bebê chorão
    nos braços. Em baixo do cais, alguns meninos cozinheiros procuravam rãs
    nas águas. Um grupo de noviços com bochechas coradas passaram correndo
    em direção ao septo.
    Deveria ter vindo quando tinha sua idade, pensou Sam, se eu tivesse
    fugido e arranjado um nome falso, poderia ter desaparecido entre os outros
    noviços. Assim meu pai poderia ter fingido que Dickon era seu único filho.
    Nem sequer teria se incomodado em me buscar, a não ser que eu tivesse
    levado uma mula, então sim teria me perseguido, mas apenas pela mula.
    Diante da Residência do Senescal, os reitores estavam pondo no
    pelourinho um noviço maior.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:16 pm

    — Roubou comida na cozinha — explicava um deles aos alcólitos
    que aguardavam para atirar verduras podres no prisioneiro.
    Todos olharam para Sam com curiosidade quando passou a seu lado
    com a capa negra balançando como uma vela.
    Do outro lado das portas havia um vestíbulo com solo de pedra e
    janelas altas arrematadas por arcos. Nos fundos viu um homem com rosto
    magro, sentado sobre um estrado, que escrevia a caneta em um livro. Vestia
    uma túnica de meistre, mas não levava corrente ao pescoço. Sam tossiu.
    — Bom dia
    O homem levantou a vista, e ao que pareceu, não mereceu sua
    aprovação.
    — Você cheira como um noviço.
    — Espero ser um em breve. — Sam tirou as cartas que Jon Snow
    havia lhe dado. — Vinha da Muralha com mestre Aemon, mas ele morreu
    durante a viagem. Se pudesse falar com o Senescal...
    — Seu nome?
    — Samwell. Samwell Tarly.
    Ele anotou no livro e lhe fez um aceno com a caneta em direção a
    um banco situado junto à parede.
    — Sente-se. Irão te chamar
    Sam se sentou no banco.
    Chegaram outros homens. Uns entregavam mensagens e partiam;
    outros falavam com o homem do estrado, que os convidava a atravessar a
    porta que ficava atrás e subir por uma escada. Outros sentavam com Sam
    no banco, esperando que os chamassem. Tinha quase certeza que alguns
    que foram chamados tinham chegado depois dele. Na quarta ou quinta vez
    que isso aconteceu, se levantou e cruzou a sala.
    — Falta muito?
    — O Senescal é muito importante
    — Venho da Muralha
    — Então não se importaras de esperar um pouco mais — acenou
    com a caneta — nesse banco aí embaixo da janela.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:16 pm

    Sam voltou ao banco. Transcorreu mais uma hora. Chegaram mais
    visitantes. Todos falavam com o homem do estrado e esperavam um tempo
    até eram chamados.
    Em todo aquele tempo, o porteiro nem se dignou a olhar Sam. No
    exterior a névoa ia sumindo à medida que o dia ia avançando. A luz
    brilhante do sol entrava pelas janelas. Sam se distraiu olhando as partículas
    de poeira que dançavam na luz. Ele deixou escapar um bocejo, e depois
    outro. Ele mexeu uma bolha rebentada da mão, antes de apoiar a cabeça na
    parede e fechar os olhos. Devia ter cochilado. Imaginou depois que o
    homem do estrado tinha gritado seu nome. Sam se levantou, mas voltou a
    sentar quando se deu conta que não era o seu.
    — Tem que dar uma moeda a Loecas; Se não, ficará três dias
    esperando — disse uma voz ao seu lado. — Que traz a Patrulha da Noite a
    Cidadela?
    Seu interlocutor era um jovem esbelto, constante, atraente, que
    vestia uns calções de pele de cervo. Tinha a pele da cor de cerveja negra e
    uma massa de cachos negros apertados que terminava em um pico na raiz
    do cabelo, em cima dos grandes olhos negros.
    — O Senhor Comandante está restaurando os castelos abandonados
    — explicou Sam — Necessitou mais meistres para os corvos... Falou sobre
    uma moeda?
    — Pode ser uma de cobre. Em troca de um veado de prata, Lorcas te
    leva nas costas para ver o Senescal. Tem cinqüenta anos de acólito. Detesta
    os noviços, sobre todos os de nascimento novre.
    — Como sabe que sou de nascimento nobre?
    — Da mesma forma que você sabe que eu sou meio dornês — disse
    com um sorriso, e com um suave sotaque de Dorne.
    Sam buscou uma moeda.
    — Você é noviço?
    — Acólito. Alleras, alguns me chamam de Esfinge.
    Sam se assustou.
    — A esfinge é uma adivinha, não o adivinho — disse
    atropeladamente — sabe o que significa isso?
    — Não. É uma adivinha?
    — Isso eu queria saber. Sou Samwell Tarly. Sam.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:16 pm

    — Um prazer. E que assuntos tem que tratar Samwell Tarly com o
    Arquimestre Theobald?
    — Assim se chama o Senescal? — perguntou Sam, confuso — o
    mestre Aemon disse que era Norren.
    — Fazem dois turnos que não. Cada ano se elege um novo
    Senescal.O cargo é tirado a sorte entre os arquimestres, porque quase todos
    consideram que é uma tarefa ingrata que os separa de seu verdadeiro
    trabalho. Esse ano, o arquimestre Walgrave levou a pedra negra, mas as
    vezes ele é meio louco, Theobald se ofereceu voluntariamente para substituílo
    . É um pouco brusco, mas uma boa pessoa. Você falou Meistre Aemon?
    — Sim.
    — Aemon Targaryen?
    — Esse foi seu nome, mas todos o chamavam Meistre Aemon.
    Morreu quando viemos de barco para o sul. Como você o conhece?
    — Como não ia conhecê-lo? Não só era o mestre vivo mais velho;
    também era o homem mais velho do poente. Viveu mais historias do que
    poderia aprender o Arquimeistre Perestan. Poderia ter nos contado muitas
    coisas dos reinados de seu pai e de seu tio. Sabes quantos anos tinha?
    — Cento e dois.
    — E o que fazia embarcado nessa idade?
    Sam meditou na pergunta um momento; não sabia ate que ponto
    podia revelar a verdade.
    A Esfinge é uma adivinha. Não o adivinho. Seria possível que mestre
    Aemon se referisse aquela Esfinge? Não parecia provável.
    — O Senhor Comandante Snow o enviou longe para salvar-lhe a
    vida — começou titubeante.
    Falou-lhe do rei Stannis e de Melisandre de Asshai. Não pretendia
    chegar além, mas uma coisa levou a outra, e acabou falando de Mance
    Rayder e seus selvagens, do sangue real e dos dragões, e antes de se dar
    conta saiu o resto todo: os espectros do Punho dos Primeiros Homens, o
    Outro montado em seu cavalo morto, o assassinato do Velho Urso na Casa
    de Craster, Goiva e sua fuga, Árvore Branca e Paul, pequeno, Mãos frias e
    os corvos, como havia chegado Jon à Senhor Comandante, o Pássaro Negro,
    Dareon, Bravos, os dragões que Xhondo havia visto em Quart, o Vento
    Canela e o que lhe havia sussurrado mestre Aemon quando estava morrendo.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:17 pm

    Só não falou dos segredos que havia jurado guardar de Bran Stark e seus
    amigos ,e dos bebês que Jon Snow havia trocado.
    — Danenerys é a única esperança — concluiu. — Aemon disse que
    a Cidadela deveria enviar um meistre a ela sem demora, para que volte ao
    oeste com ela antes que seja tarde demais.
    Alleras escutou com atenção. De vez em quando piscava, mas em
    nenhum momento riu ou interrompeu. Quando Sam terminou, lhe colocou
    uma esbelta mão morena no seu braço.
    — Salva a moeda Sam, Theobald não vai acreditar nem na metade
    do que diz, mas a outros que talvez sim. Porque não vem comigo?
    — Para onde?
    — Falar com arquimestre.
    Tens que lhes dizer, Sam. Havia dito o mestre Aemon. Tem que
    contar aos arquimestres.
    — Muito bem. — Sempre poderia voltar a tentar ver o Senescal no
    dia seguinte, com uma moeda na mão. — Temos que ir muito longe?
    — Não muito. A Ilha dos Corvos.
    Não lhes fez falta nenhum bote para chegar à Ilha dos Corvos; uma
    ponte levadiça de madeira em ruínas a unia com a costa.
    — A Corvaria é o edifício mais velho da Cidadela — explicou
    Alleras enquanto cruzavam as lentas águas de Vinhomel. — Dizem na Era
    dos Heróis era a fortaleza de um senhor pirata que ficava de braços cruzados
    saqueando os barcos que navegavam rio abaixo.
    Sam percebeu que as paredes estavam cobertas de musgo e videiras,
    e que as ameias estavam patrulhadas por corvos, não por arqueiros. Ninguém
    se lembrava de ver a ponte levadiça sendo içada.
    No interior do castelo estava fresco e reinava a penumbra. Um velho
    represeiro crescia no pátio, desde que fora construído o edifício. O rosto
    entalhado no tronco estava coberto de musgo violeta que se pendurava nas
    ramas embranquecidas. Muitas delas pareciam secas, mas outras ainda
    tinham algumas folhas vermelhas, e essas eram as favoritas dos corvos. A
    árvore estava cheia de pássaros, e havia mais nas janelas arrematadas com
    arcos que davam para o pátio. Os excrementos cobriam todo solo. Enquanto
    cruzavam o pátio, um começou a voar, e os outros começaram a grasnar.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:17 pm

    — As habitações do arquimestre Walgrave estavam na torre oeste,
    embaixo do aviário branco, — lhe disse Alleras. — Os corvos brancos e os
    negros brigam como dorneses e marquenos. Assim temos que separá-los.
    — Você acredita que o arquimestre Walgrave entenderá o que vou
    dizer? — perguntou Sam. — Antes tinha dito que ele é meio louco.
    — Tem dias bons e dias ruins — respondeu Alleras —, mas não é
    Walgrave a quem vai ver.
    Abriu a porta da torre norte e começou a subir. Sam subiu as escadas
    depois dele. Encima se ouvia agitação e murmúrios, e de quando em quando,
    um grasnido com raiva, como se os corvos se queixaram de que os
    acordaram.
    No topo das escadas havia um jovem pálido e loiro, da idade de
    Sam, sentado diante de uma porta de carvalho e ferro, olhando atentamente a
    chama de uma vela com o olho direito. O esquerdo estava tapado com uma
    mecha de cabelo loiro cinza.
    — Que está buscando? — lhe perguntou Alleras. — Seu destino?
    Sua morte?
    O jovem loiro desviou a vista da vela e piscou.
    — Mulheres peladas — respondeu. — E este quem é?
    — Samwell. Um noviço recém-chegado, que quer ver o Mago.
    — A Cidadella já não é o que era — se queixou o loiro. — Hoje em
    dia aceitam qualquer um. Cachorros morenos, dorneses, guardadores de
    porco, aleijados, imbecis, e agora, uma baleia vestida de preto. E eu que
    acreditava que os leviatãs eram cinzentos.
    Uma capa curta de listras verdes e douradas cobria um ombro. Era
    muito bonito, embora tivesse os olhos astutos e aboca cruel. Sam o
    conhecia.
    — Leo Tyrell. — Só ao pronunciar o nome voltou a sentir-se como
    um garotinho de sete anos ao ponto de molhar os calções — eu sou Sam, de
    Monte Chifre, o filho de Lorde Randyll Tarly.
    — De verdade? — Leo lhe deu outra olhada. — Imagino que sim.
    Seu pai nos disse que havia morrido. Ou desejava que tivesse morrido? —
    sorriu. — Continua sendo tão covarde como antes?
    — Não — mentiu Sam, como Jon o havia ordenado. — Fui mais
    além da Muralha e participei de batalhas. Me chamam de Sam, o matador.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:17 pm

    Nunca soube por que havia dito. As palavras escaparam sem mais.
    Leo começou a rir, mas antes que pudesse dizer nada, se abriram as
    portas que estavam as suas costas.
    — Entre, Matador — rosnou o homem do umbral. — E você
    também, Esfinge, venha.
    — Esse é o Arquimestre Marwyn, Sam — disse Alleras.
    Marwyn levava uma corrente de diversos metais em volta do grosso
    pescoço. Além disso, parecia mais um vadio portuário do que um meistre.
    Sua cabeça era desproporcionalmente grande em relação ao corpo, e sua
    maneira de projetá-la para frente desde os ombros, juntamente com o queixo
    resistente, fazia que parecesse a ponto de matar alguém. Era baixo e
    atarracado, mas com o peito e os ombros amplos, e uma barriga de cerveja
    redonda e dura como uma pedra, que forçava os laços do gibão de couro que
    usava como túnica. Das orelhas e do nariz saiam mechas de pelo branco.
    Tinha a frente protuberante, lhe haviam quebrado o nariz em mais de uma
    ocasião, tinham lhe deixado os dentes cheios de manchas vermelhas, e suas
    mãos eram as maiores que Sam já havia visto.
    O garoto titubeou, e uma daquelas mãos enormes o agarrou pelo
    braço e o obrigou a cruzar a porta. A sala que havia do outro lado era grande
    e redonda. Havia livros e pergaminhos por toda parte, espalhados sobre as
    mesas e amontoados no chão em pilhas de seis palmos de altura. As paredes
    de pedra estavam cobertas de tapetes desbotados e mapas desgastados. Na
    lareira ardia um fogo que esquentava um caldeirão de cobre. Fosse o que
    fosse seu interior, cheirava a queimado. A única luz da sala procedia de uma
    vela alta e negra situada no centro da habitação.
    Tinha um brilho desagradável. Havia algo de estranho nela. A chama
    não piscava, nem sequer quando o Arquimeistre Marwyn fechou a porta com
    tanta força que tremularam os papéis de uma mesa próxima. Também,
    aquela luz fazia um efeito estranho nas cores. No branco era tão brilhante
    como a neve recém caída, no amarelo brilhava como ouro; no vermelho
    pareciam chamas, mas nas sombras eram tão negras que pareciam orifícios
    abertos no mundo. Sam se deu conta de que não podia desviar a vista. A
    própria vela media uma vara e era esbelta como um junco, retorcida e
    estriada, de um negro deslumbrante.
    — Isso é...?
    — Obsidiana? — Terminou um outro homem da sala, um jovem
    pálido e gordo com os ombros redondos, as mãos macias,os olhos muito
    juntos e manchas de comida na túnica.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:17 pm

    — Chama-se vidro de dragão — o arquimestre Marwyn contemplou
    a vela um instante. — Arde, mas não se consome.
    — O que alimenta a chama? — Quis saber Sam.
    — O que alimenta o fogo de um dragão? — Marwyn se sentou em
    um tamborete — toda bruxaria de Valíria tinha suas raízes no sangue e no
    fogo. Com uma dessas velas de cristal, os feiticeiros do Feudo Franco
    podiam ver através de montanhas, mares e desertos. Eram capazes de entrar
    no sonho das pessoas e provocar-lhes visões; podiam manter conversas
    mesmo que estivessem a meio mundo de distância, sentados diante de suas
    velas. Não te parece que isso seria útil, Matador?
    — Assim não fariam falta os corvos.
    — Somente depois das batalhas — o arquimestre pegou uma
    folhamarga de um fardo, meteu na boca e começou a mastigar — Conte-me
    tudo que disse a nossa Esfinge de Dorne. Já sei boa parte, e também coisas
    que ignora, mas quem sabe me escapou algum detalhe.
    Não era um homem a que se pudesse negar nada. Sam titubeou um
    momento e voltou a relatar toda sua historia a Marwyn, a Alleras e ao outro
    noviço.
    — Meistre Aemon acreditava que a profecia teria se cumprido em
    Daenerys Targaryen. Nela, não em Stannis, nem no príncipe Rhaegar, nem
    no principezinho que estamparam em uma moeda.
    — Nascido de sal e fumaça, embaixo de uma estrela que sangra. Eu
    conheço a profecia. — Marwyn girou a cabeça e cuspiu. — Não digo que me
    pareça verdadeira, claro. Como escreveu Gorghan do Antigo Ghis, uma
    profecia é como uma mulher traiçoeira: ela te chupa, geme de prazer, e pensa
    “que bom, que maravilha, como eu gosto...” e de repente aperta os dentes, e
    os gemidos se transformam em gritos. Gorghan dizia que esta era a natureza
    das profecias: arrancam-te o pau com uma mordida quando se descuida. —
    seguiu mastigando — ainda assim...
    Alleras deu um passo para ficar junto de Sam.
    — Aemon havia ido com ela se não tivesse lhe faltado forças. Queria
    que a enviássemos um meistre para que a aconselhe e proteja, para que a
    traga sã e salva.
    — É verdade? — o arquimestre Marwyn encolheu os ombros. —
    Pois menos mal que morreu antes de chegar a Vilavelha. Se não, poderia o
    rebanho cinzento ter que matá-lo, e ao pobre velho teria sido fatal.
    — Matá-lo?— se escandalizou Sam — Por quê?

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:17 pm

    — Se eu te digo, talvez tenham que te matar também — Marwyn lhe
    deu um sorriso espantoso; os pedaços da folhamarga ficavam entre os dentes
    — Quem acredita que matou os dragões da ultima vez? Galantes cavaleiros
    mataram dragões com sua espada? — cuspiu. — O mundo que a Cidadela
    está onstruindo não tem lugar para feitiçaria, nem profecias e nem as velas
    de cristal, e muito menos para dragões. Não se pergunta por que se permitiu
    que Aemon Targaryan desperdiçasse sua vida na muralha, quando deveria
    ter sido arquimestre por direito? Pelo seu sangue. Não podia se confiar nele.
    Nem em mim.
    — Que vai fazer? — Quis saber Alleras.
    — Irei à Baía dos Escravos no lugar de Aemon. O navio cisne que
    trouxe Matador me servirá perfeitamente. O rebanho cinzento enviará seu
    homem em um navio, sem duvida. Se tiver bons ventos, eu chegarei antes.
    — Marwyn olhou Sam outra vez e franziu a testa — e quanto a você... tem
    que ficar e forjar uma corrente. Eu em seu lugar teria pressa. Chegará um
    momento em que fará falta na muralha. — Se voltou até o noviço de rosto
    gordo — Arranje uma cela seca para o Matador. Dormirá aqui e te ajudará a
    cuidar dos corvos.
    — Mas... mas...mas... — balbuciou Sam, os outros arquimestres —
    ... o Senescal... que lhes direi?
    — Diga que eles são sábios e bondosos. Diga que Aemon te ordenou
    que te pusesse em suas mãos. Diga que sempre sonhou com o dia em que te
    permitiriam colocar a corrente e servir, e que o serviço é a honra mais alta, e
    a obediência, a virtude mais elevada. Mas nunca diga nada sobre profecias
    de dragões, a menos que você goste de sopa com veneno. — Marwyn vestiu
    uma capa de couro que estava pendurada em um prego, junto da porta, e a
    abotoou. Cuide dele, Esfinge.
    — Cuidarei — respondeu Alleras, mas o arquimiestre já tinha saído.
    Ouviram suas pisadas escada a baixo.
    — Aonde ele vai? — perguntou Sam, assombrado.
    — Para as docas. O mago não perde tempo. — Alleras sorriu —
    tenho que confessar uma coisa: nosso encontro não foi casual, Sam. O Mago
    me enviou para te pescar antes que falasse com Theobald. Sabia que vinha.
    — Como?
    Alleras mostrou a vela de cristal.
    Sam contemplou por um momento a estranha chama clara, e depois
    piscou e afastou os olhos. Do lado de fora da janela começava a escurecer.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Seg Jul 09, 2012 2:17 pm

    — Tem uma cela desocupada em baixo da minha, na torre oeste,
    com umas escadas que levam as salas de Walgrave — disse o jovem de rosto
    gordo. — Se não te incomodam os grasnidos dos corvos, tem uma boa vista
    do Vinhomel. Te parece bom?
    — Imagino que sim.
    Em algum lugar teria que dormir.
    — Te levarei umas mantas de lã. Por culpa das paredes de pedra faz
    frio à noite, inclusive aqui.
    — Agradeço. — O menino pálido e suave tinha algo que ele não
    gostava, mas não queria parecer descortês. — De verdade, não me chamo
    Matador. Sou Sam. Samwell Tarly.
    — Eu me chamo Patê — respondeu — como o guardador de
    porcos.

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    Re: O Festim dos Corvos

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