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    O Festim dos Corvos

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Qua Jun 20, 2012 2:21 pm

    Cersei 122

    Uma chuva fria caía, deixando os muros e muralhas da
    Fortaleza Vermelha escuros como sangue. A rainha segurou
    a mão do rei e levou-o firmemente pelo quintal enlameado
    até onde sua liteira esperava com sua escolta.
    — Tio Jaime disse que eu poderia montar meu cavalo e jogar
    moedas para o povo. — O garoto contestou.
    — Você quer pegar um resfriado? — Ela não arriscaria; Tommen
    nunca foi tão robusto quanto Joffrey. — Seu avô queria que você se
    parecesse com um rei em seu próprio velório. Nós não vamos aparecer no
    Grande Septo molhados e sujos. — Já é ruim o suficiente ter que vestir luto
    de novo. O preto nunca foi uma cor alegre para ela. Com sua pele clara, ela
    se parecia meio cadáver. Cersei levantou-se uma hora antes do amanhecer
    para tomar banho e arrumar o cabelo, e ela não pretendia deixar que a chuva
    arruinasse os seus esforços.
    Dentro da liteira, Tommen recostou-se sobre os travesseiros e espiou
    a chuva que caía.
    — Os deuses estão chorando por nosso avô. A Senhora Jocelyn diz
    que as gotas de chuva são suas lágrimas.
    — Jocelyn Swyft é uma tola. Se os deuses pudessem chorar, eles
    teriam chorado pelo seu irmão. Chuva é chuva. Feche a cortina antes que
    entre mais água. O manto é de zibelina, você quer deixá-lo encharcado?
    Tommen fez como lhe foi proposto. Sua submissão a incomodava.
    Um rei tinha que ser forte. Joffrey teria respondido. Ele nunca foi fácil de
    intimidar.
    — Não se desanime — ela disse para Tommen. — Sente-se como
    um rei. Coloque os seus ombros para trás e arrume a sua coroa. Você quer
    que ela caia da sua cabeça na frente de todos os seus lordes?
    — Não, mãe. — O garoto sentou-se ereto e conseguiu arrumar a sua
    coroa. A coroa de Joffrey era muito grande para ele. Tommen sempre teve
    tendência a engordar, mas seu rosto parecia mais fino agora. Ele está se
    alimentando bem? Ela deveria se lembrar de perguntar ao mordomo. Ela não
    poderia correr o risco de Tommen crescer doente, não com Myrcella nas
    mãos do homem de Dorne. Ele vai crescer ao tamanho da coroa de Joffrey
    em seu tempo. Até lá, será preciso uma menor, uma que não ameace cair de
    sua cabeça. Ela iria resolver isso com o ourives.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Qua Jun 20, 2012 2:21 pm

    A liteira fez o seu lento caminho descendo a alta colina de Aegon.
    Dois guardas reais montavam a frente deles, cavaleiros brancos em cavalos
    brancos com suas capas brancas e encharcadas penduradas em seus ombros.
    Atrás vinham cinquenta guardas Lannister em dourado e carmesim.
    Tommen olhou através das cortinas nas ruas vazias.
    — Achei que teriam mais pessoas. Quando o pai morreu, todo
    mundo veio para fora nos ver passar.
    — Esta chuva levou-os para dentro. — Porto Real nunca amou
    Lorde Tywin. No entanto, ele nunca quis amor. — Você não pode comer
    amor, nem comprar um cavalo com ele, nem aquecer seus aposentos em uma
    noite fria. — Ela o ouviu dizer a Jaime uma vez, quando seu irmão tinha
    aproximadamente a idade de Tommen.
    No Grande Septo de Baelor, aquele magnificente em mármore no
    topo da Colina de Visenya, o pequeno grupo de pranteadores foi superado
    em número pelos mantos dourados que Sor Addam Marbrand havia trazido
    pela praça. Mais pessoas virão mais tarde, a rainha disse a si mesma
    enquanto Sor Meryn Trant a ajudou na liteira. Apenas os nobres e seus
    séquitos seriam admitidos no velório matutino; haveria outro à tarde para as
    pessoas comuns, e as orações da noite seriam abertas a todos.
    Cersei precisaria voltar para este velório, para que o povo pudesse
    vê-la chorar. A multidão deve ter o seu show. Era um incômodo. Ela tinha
    cargos políticos para preencher, uma guerra para ganhar, um reino para
    governar. Seu pai teria entendido isso.
    O Alto Septão se encontrou com eles no topo da escadaria. Um
    homem curvado com uma barba grisalha e rala. Ele estava tão curvado pelo
    peso de seu manto bordado e ornamentado que seus olhos estavam no nível
    dos seios da rainha... embora a sua coroa, uma delicada confecção de cristal
    lapidado e fios de ouro, tenha acrescentado um bom pé e meio à sua altura.
    Lord Tywin deu esta coroa para substituir a outra perdida quando a
    multidão matou o Alto Septão anterior. Eles puxaram o tolo gordo de sua
    liteira e o dilacerou, no dia em que Myrcela navegou para Dorne. Ele era um
    grande glutão, e obediente. Esse agora… este Alto Septão era dos homens
    de Tyrion, Cersei lembrou de repente. Foi um pensamento inquietante.
    A mão do velho homem se parecia com uma pata de frango
    enquanto apontava dentro da manga encrustada com arabescos de ouro e
    pequenos cristais. Cersei se ajoelhou sobre o mármore molhado e beijou seus
    dedos, e mandou Tommen fazer o mesmo. O que ele sabe de mim? O que o
    anão contou a ele? O Alto Septão sorriu enquanto a acompanhou para o

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Qua Jun 20, 2012 2:21 pm

    septo. Mas era um sorriso ameaçador cheio de conhecimento tácito, ou
    apenas um inexpressivo movimento de lábios enrugados de um velho? A
    rainha não podia saber ao certo.
    Eles seguiram seu caminho pelo Salão das Lâmpadas sob globos de
    vidro chumbado colorido, a mão de Tommen na sua. Trant e Kettleblack os
    acompanharam, a água pingando de suas capas molhadas para uma poça no
    chão. O Alto Septão caminhou devagar, inclinado sobre um bastão de
    carvalho encimado por uma esfera de cristal. Sete dos Mais Devotos o
    assistiram, tremeluzindo em capas de prata. Tommen usava uma capa de
    ouro sob seu manto de zibelina, a rainha, um vestido velho de veludo preto
    forrado de arminho. Não houve tempo para que um novo fosse
    confeccionado, e ela não poderia vestir o mesmo vestido que ela usou para
    Joffrey, nem aquele com que enterrou Robert.
    Pelo menos não esperarão que eu vista luto por Tyrion. Vou usar
    vestido de seda escarlate tecido com ouro, e usar rubis no meu cabelo. O
    homem que trouxesse a ela a cabeça do anão seria intitulado lorde, ela
    proclamou, não importa quão pobre e humilde fosse seu nascimento ou
    posição. Os corvos estavam carregando sua promessa para todas as partes
    dos Sete Reinos, e logo a notícia cruzaria o mar estreito para as Nove
    Cidades Livres e as terras mais além. Deixe que o Duende corra até os
    confins da terra, ele não vai escapar de mim.
    O cortejo real passou pelas portas internas para o coração cavernoso
    do Grande Septo, e entrou em um largo corredor, um dos sete que levavam
    ao pé do domo. À direita e a esquerda, nobres em luto caíram de joelhos
    enquanto o rei e a rainha passavam. Muitos dos homens da bandeira de seu
    pai estavam lá, e cavaleiros que lutaram ao lado de Lord Tywin em meia
    centena de batalhas. Vê-los a fez sentir-se mais confiante. Não estou sem
    amigos.
    Abaixo do grandioso domo de ouro e cristal do Grande Septo o
    corpo de Lord Tywin Lannister descansava em cima de um caixão de
    mármore pisado. Jaime ficou de vigíla, a sua cabeça, sua mão boa segurando
    o punho de uma espada larga de ouro cuja ponta estava no chão. A capa com
    capuz que ele usava era branca como neve recém-caída, e as escalas de sua
    cota de malha longa eram de madrepérola seguida de ouro. Lord Tywin teria
    gostado que ele usasse ouro Lannister e carmesim, ela pensou. Sempre o
    irritou ver Jaime todo de branco. O irmão dela também estava deixando a
    barba crescer. A barba por fazer cobria seu queixo e suas bochechas, e dava
    a seu rosto uma aparência rude, áspera. Ele deveria ter esperado pelo menos
    até que os ossos de seu pai fossem enterrados embaixo do Rochedo.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Qua Jun 20, 2012 2:21 pm

    Cersei guiou o rei acima de três pequenos degraus, para ajoelhar-se
    ao lado do corpo. Os olhos de Tommen estavam cheios de lágrimas;
    — Chore silenciosamente, — ela disse a ele, inclinando-se para
    perto. —Você é um rei, não uma criança esquálida. Seus lordes estão te
    observando. — O garoto enxugou as lágrimas com as costas da mão. Ele
    tinha os olhos dela, verde esmeralda, tão grandes e brilhantes como os de
    Jaime eram quando tinha a idade de Tommen. O irmão dela era realmente
    um bonito garoto… mas feroz também, como um verdadeiro filhote de leão.
    A rainha colocou seus braços ao redor de Tommen e beijou seus cachinhos.
    Ele vai precisar de mim para ensinar como governar e mantê-lo a salvo de
    seus inimigos. Alguns deles estavam por perto, mesmo nesse momento,
    fingindo serem amigos. As irmãs silenciosas tinham colocado a armadura em
    Tywin como se fosse lutar em alguma batalha final. Ele vestia sua mais fina
    armadura, de pesado aço esmaltado, um profundo e escuro carmesim, com
    incrustações de ouro em suas luvas, grevas e peitoral. Suas medalhas eram
    de ouro reluzente; Uma leoa dourada agachada em cima de cada ombro; um
    leão no alto do elmo ao lado de sua cabeça. Sobre o seu peito descansava
    uma espada longa em uma bainha dourada cravejada com rubis, suas mãos
    apoiadas no punho em luvas de cota de malha dourada. Mesmo na morte seu
    rosto é nobre, ela pensou, embora a boca... Os cantos dos lábios de seu pai
    estavam curvados para cima, ainda que levemente, dando-lhe uma vaga
    aparência de espanto. Isso não deveria estar assim. Ela censurou Pycelle; ele
    deveria ter dito às irmãs silenciosas que Lord Tywin Lannister nunca sorria.
    O homem é tão inútil como mamilos em um peitoral de armadura. Aquele
    meio sorriso fez Lord Tywin parecer, de alguma forma, menos assustador.
    Isso, e o fato de seus olhos estarem fechados. Os olhos de seu pai sempre
    foram inquietantes; de um verde pálido, quase luminosos, salpicados com
    ouro. Seus olhos podiam ver dentro de você, podia ver quão fraco e
    desprezível e feio você é em seu interior. Quando ele olhava para você, ele
    sabia.
    Espontaneamente, uma lembrança lhe ocorreu, do banquete que o
    Rei havia dado quando Cersei veio pela primeira vez para a corte, uma
    garota tão verde quanto a grama no verão. O velho Merryweather estava
    falando sobre aumentar o imposto sobre o vinho quando Lord Rykker disse.
    — Se precisamos de ouro, a Sua Graça deveria sentar Lord Tywin
    no seu penico. — Aerys e seu puxa-saco riram alto, enquanto o pai olhava
    para Rykker sobre seu copo de vinho. Muito depois que o divertimento havia
    acabado esse olhar permaneceu. Rykker afastou-se, voltou, encontrou os
    olhos do pai, então os ignorou, bebeu uma caneca de cerveja, e ficou com o
    rosto vermelho, derrotado por um par de olhos inabaláveis.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Qua Jun 20, 2012 2:21 pm

    Os olhos de Lord Tywin estão fechados para sempre agora, Cersei
    pensou. É ao meu olhar que eles vão recuar a partir de agora, é a minha
    cara feia que eles devem temer. Eu sou um leão também.
    Estava triste dentro do septo como o céu tão cinza fora. Se a chuva
    parasse, o sol se inclinaria para baixo através dos cristais pendurados para
    guarnecer o cadáver com o arco-íris. O Senhor de Rochedo Casterly merecia
    um arco-íris. Ele havia sido um grande homem. No entanto, eu devo ser
    maior. Daqui a cem anos, quando os meistres escreverem sobre esses
    tempos, ele deve ser lembrado apenas como o pai da rainha Cersei.
    — Mãe. — Tommen puxou sua manga. — O que cheira tão mal?
    O Senhor meu pai.
    — Morte. — Ela podia sentir esse cheiro também; um leve sussurro
    de apodrecimento a fez querer franzir o nariz. Cersei não prestou atenção a
    isso. Os sete septãos em suas vestes de prata ficaram atrás do caixão,
    rogando ao Pai dos Céus que julgasse com justiça Lorde Tywin. Quando eles
    terminaram, setenta e sete septãs se reuniram diante do altar da “Mãe” e
    começaram a cantar a ela por misericórdia. Tommen estava se remexendo
    até então, e até os joelhos da rainha tinham começado a doer. Ela olhou para
    Jaime. Seu irmão gêmeo estava como se tivesse sido esculpido em pedra, e
    seus olhos não encontraram os dela.
    Nos bancos, seu tio Kevan ajoelhou-se com os ombros caídos, o seu
    filho ao lado dele. Lancel parecia pior que o seu pai. Apesar de ter apenas
    dezessete anos, talvez ele passasse por setenta; o rosto acinzentado, magro,
    com bochechas côncavas, olhos encovados e cabelo tão branco e frágil como
    o giz. Como Lancel pode estar entre os vivos quando Tywin Lannister está
    morto? Teriam os deuses perdido o juízo?
    Lorde Gyles estava tossindo mais do que o habitual e cobrindo o
    nariz com um quadrado de seda vermelho. Ele também consegue sentir o
    cheiro. Grande Maester Pycelle fechou os olhos. Se ele adormecer, eu juro
    que bateria nele. Os Tyrell se ajoelhavam a direita do caixão: O Senhor de
    Jardim de cima, sua hedionda mãe e sua esposa insípida, seu filho Garlan e
    sua filha Margaery. Rainha Margaery, ela lembrou a si mesma. Viúva de Joff
    e futura esposa de Tommen. Margaery se parecia muito com seu irmão, o
    Cavaleiro das Flores. A rainha imaginou se eles teriam outras coisas em
    comum. Nossa pequena rosa tem um bom número de senhoras esperando
    para atendê-la noite e dia. Eles estavam com ela agora, quase uma dúzia
    deles. Cersei estudou seus rosto, imaginando. Quem é o mais terrível, o
    mais desenfreado, o mais faminto por favores? Quem teria a língua mais
    solta? Ela precisaria descobrir.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Qua Jun 20, 2012 2:21 pm

    Foi um alívio quando o canto finalmente acabou. O cheiro que vinha
    do cadáver de seu pai parecia ter ficado mais forte. A maior parte dos
    enlutados tinha a decência de fingir que nada estava errado, mas Cersei viu
    dois dos primos da Senhora Margaery torcendo seus pequenos narizes de
    Tyrell. Enquanto ela e Tommen foram caminhando de volta pelo corredor a
    rainha pensou ter ouvido alguém murmurar "privada" e rir, mas quando ela
    virou a cabeça para ver quem tinha falado um mar de rostos solenes olhou
    para ela fixamente. Eles jamais teriam ousado fazer piadinhas sobre ele
    quando ainda estava vivo. Ele teria transformado as suas entranhas em
    água com um olhar.
    De volta ao Salão das Lâmpadas, os enlutados zumbiam sobre eles
    numerosos como moscas, ansiosos para inundá-la com condolências inúteis.
    Ambos os gêmeos Redwyne beijaram a mão dela, e seu pai, as bochechas.
    Hallyne, o Piromático, prometeu a ela que uma mão flamejante iria queimar
    no céu acima da cidade no dia que os ossos de seu pai fossem para o oeste.
    Entre tossidas, Lord Gyles disse a ela que ele havia contratado um mestre
    escultor para fazer uma estátua de Lorde Tywin, para ficar em eterna vigília
    ao lado do Portão do Leão. Sor Lambert Turnberry apareceu com um
    curativo sobre o seu olho direito, jurando que iria usá-lo até que ele pudesse
    trazer-lhe a cabeça de seu irmão anão.
    Mal a rainha escapou das garras desse idiota ela se viu encurralada
    pela Senhora Falyse de Stokeworth e seu marido, Sor Balman Byrch.
    — A senhora minha mãe manda condolescências, Vossa Graça, —
    Falyse balbuciava para ela. —Lollys está de cama por causa da criança e
    minha mãe sentiu a necessidade de ficar com ela. Ela pede seu perdão, e
    disse que eu deveria pedir a você… minha mãe admirava seu pai acima de
    todos os homens. Minha irmã deverá ter um menino, é desejo dela que o
    chamemos de Tywin se… se isso te agradar.
    Cersei a encarou, horrorizada.
    — Sua irmã desajuizada se deixa ser estuprada por metade dos Reis
    deste Reino, e Tanda pensa em honrar o bastardo com o nome do Senhor
    meu pai? Eu acho que não.
    Falyse recuou como se tivesse sido esbofeteada, mas seu marido
    apenas acariciou seu espesso bigode loiro com um polegar.
    — Eu disse a Senhora Tanda várias vezes. Nós devemos achar um
    nome mais, ah… um nome mais apropriado para o bastardo de Lolly, você
    tem a minha palavra.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Qua Jun 20, 2012 2:22 pm

    — Vejo que sim. Cersei deu de ombros e retirou-se. Tommen tinha
    caído nas garras de Margaery Tyrell e sua avó, ela percebeu. A Rainha de
    espinheiros era tão baixa que por um instante Cersei pensou que ela era outra
    criança. Antes que ela pudesse resgatar seu filho das rosas, a pressão a fez
    ficar cara a cara com seu tio. Quando a rainha o lembrou da reunião que
    tiveram anteriormente, Sor Kevan lhe deu um aceno cansado e pediu licença
    para se retirar. Mas Lancel demorou-se, a imagem de um homem com um pé
    na cova. Mas ele está tentando sair ou entrar? Cersei se forçou a sorrir.
    — Lancel, eu estou feliz em vê-lo tão mais forte. Meistre Ballabar
    nos trouxe relatórios realmente terríveis, nós tememos pela sua vida. Mas eu
    pensei que você estaria em seu caminho para Darry agora, para ocupar o seu
    senhorio. — Seu pai tinha nomeado Lancel um lorde depois da Batalha da
    Água Negra, como um suborno para seu irmão Kevan.
    — Ainda não. Há foras da lei em meu castelo. A voz de seu primo
    era fraca como o bigode sobre os seus lábios. Embora seus cabelos tenham
    ficado brancos, a penugem de seu bigode permaneceu cor de areia. Cersei
    muitas vezes olhou para o bigode enquanto o garoto estava dentro dela, a
    montando respeitosamente afastado. Parecia com uma mancha de sujeira em
    seus lábios. Ele tinha medo de arrancá-lo com um pouco de saliva — Os
    ribeirinhos precisam de uma mão forte, meu pai disse.
    Uma pena que eles terão a sua, ela quis dizer. Ao invés disso ela
    sorriu. — E você deve se casar também.
    Um olhar sombrio passou pelo rosto devastado do jovem cavaleiro.
    — Uma Frey, e não foi escolha minha. Ela nem mesmo é uma
    donzela. Uma viúva, com o sangue dos Darry. Meu pai diz que vai me ajudar
    com os camponeses, mas os camponeses estão todos mortos. — Ele
    procurou por sua mão. — Isso é cruel, Cersei. Vossa Graça sabe que eu
    amo...
    —... a Casa Lannister, — ela terminou para ele. — Ninguém pode
    duvidar disso, Lancel. Talvez sua esposa lhe dê filhos fortes. — Melhor não
    deixar que o lorde avô seja o anfitrião do casamento, no entanto. — Eu sei
    que você fará muitas nobres ações em Darry.
    Lancel acenou com a cabeça, claramente infeliz.
    — Quando parecia que eu estava para morrer, meu pai trouxe o Alto
    Septão para orar por mim. Ele é um bom homem. — Os olhos de seu primo
    estavam molhados e brilhantes, olhos de criança em um rosto de homem
    feito. — Ele disse que a Mãe me poupou por algum motivo santo, então eu
    devo expiar os meus pecados.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Qua Jun 20, 2012 2:22 pm

    Cersei imaginou como ele pretendia expiar para ela. Faze-lo um
    cavaleiro foi um erro, e deitar-se com ele um erro maior ainda. Lancel era
    um junco fraco, e ela não gostava nada de sua piedade recém-criada; ele era
    muito mais interessante quando estava tentando ser Jaime. O que esse tolo
    choramingão disse para o Alto Septão? E o que ele vai dizer a pequena Frey
    quando eles se deitarem juntos no escuro? Se ele confessar ter se deitado
    com Cersei, bem, ela poderia resistir a isso. Os homens sempre mentem
    sobre as mulheres; ela poderia colocar como fanfarronice de um jovem
    imaturo apaixonado por sua beleza. Se ele falar sobre Robert e o vinho
    forte, então...
    — Expiação é melhor alcançada através da oração, — Cersei disse a
    ele. — Oração silenciosa. — Ele o deixou pensando sobre isso e se preparou
    para encarar Tyrell. Margaery a abraçou como se fosse sua irmã, o que a
    rainha achou presunçoso, mas aquele não era o local para censurá-la. A
    Senhora Alerie e os primos se contentaram em beijar-lhe os dedos. A
    Senhora Graceford, que tinha vários filhos, perguntou se a rainha deixaria
    colocar o nome de Tywin se fosse um menino, ou Lanna se fosse uma
    menina. Outro? Ela quase murmurou. O reino vai se afogar em Tywins. Ela
    deu consentimento tão graciosamente quanto pode, fingindo prazer.
    Foi a Senhora Merryweather quem realmente a agradou. “Vossa
    Majestade” esta disse, em seu tom abafado de Myr.
    — Eu enviei uma mensagem aos meus amigos do outro lado do mar
    estreito, pedindo a eles para prenderem o Duende assim que ele mostrar sua
    cara feia nas Cidades Livres.
    — Você tem muitos amigos do outro lado do oceano?
    — Em Myr, muitos. Em Lys também, e Tyrosh. Homens de poder.
    Cersei poderia muito bem acreditar nisso. A mulher Myrish era
    parcialmente muito bonita; pernas longas e seios fartos, com suave pele cor
    de oliva, lábios maduros, olhos grandes e escuros, e cabelos escuros e
    grossos que sempre pareciam como se ela tivesse acabado de se levantar. Ela
    até cheirava a pecado, como uma lótus exótica.
    — Lorde Merryweather e eu queremos apenas servir a Vossa
    Majestade e ao pequeno rei,” A mulher ronronou, com um olhar tão grávido
    como a Senhora Graceford.
    Ela é ambiciosa, e seu Lorde é orgulhoso, mas pobre.
    — Devemos nos falar novamente, minha senhora. Taena, não é isso?
    Você é muito gentil. Eu sei que seremos grandes amigas.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Qua Jun 20, 2012 2:22 pm

    Então o Lorde de Jardim de cima aproximou-se dela.
    Mace Tyrell não era mais que dez anos mais velho que Cersei, ainda
    assim ela pensava nele como a idade de seu pai, não a sua. Ele não era tão
    alto como Lord Tywin foi, mas no mais, ele era maior, com o tórax largo e
    uma pança ainda maior. Seu cabelo era castanho, mas havia manchas de
    branco e cinza em sua barba. Seu rosto muitas vezes ficava vermelho.
    — Lord Tywin foi um grande homem, um homem extraordinário, —
    declarou ele pesadamente depois que beijou suas duas bochechas. — Nós
    nunca mais veremos outro como ele, eu temo. — Você está olhando para
    este outro, tolo, pensou Cersei .É a filha dele que está a sua frente. Mas ela
    precisava de Tyrell e da força de jardim de Cima para manter Tommen em
    seu trono, então tudo o que ela disse foi:
    — Ele vai fazer uma imensa falta.
    Tyrell colocou a mão sobre o ombro dela.
    — Nenhum homem vivo está apto a usar a armadura de Lorde
    Tywin, isto é claro. Ainda assim, o domínio continua, e deve ser derrubado.
    Se houver alguma coisa que eu poderia fazer para servir nesta hora escura,
    Sua graça só precisa pedir.
    Se você quiser ser a Mão do Rei, meu Senhor, tenha a coragem de
    dizer isso abertamente. — A rainha sorriu. Deixe que ele interprete isso da
    forma que achar melhor.
    — Certamente meu senhor é necessário na Campina?
    — Meu filho Willas é um rapaz capaz, — o homem respondeu, se
    recusando a entender a sua dica perfeitamente clara. — Sua perna deve estar
    torcida, mas ele não precisa de mais destreza. E Garlan logo terá Águas
    Claras. Com eles a Campina estará em boas mãos, caso eu seja necessário
    em outros lugares. A governança do reino deve vir em primeiro lugar, Lorde
    Tywin sempre dizia. E é um prazer trazer a Vossa Graça boas notícias a esse
    respeito. Meu tio Garth concordou em servir como mestre de moeda, como o
    senhor seu pai desejava. Ele está a caminho de Vilavelha para pegar um
    navio. Os filhos dele irão acompanhá-lo. Lorde Tywin mencionou alguma
    coisa sobre encontrar atribuições para os dois também. Talvez na Patrulha da
    Cidade.
    O sorriso da rainha havia congelado tanto que ela temia que os
    dentes pudessem quebrar. Garth, o Greosseiro no conselho e seus dois
    pequenos bastardos em capas de ouro... os Tyrell pensam que eu vou servirlhes
    o reino em uma bandeja dourada? A arrogância lhe tirou o fôlego.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Qua Jun 20, 2012 2:22 pm

    — Garth serviu também a mim como Lorde Senescal, assim como
    ele serviu a meu pai antes de mim, — Tyrell continuava. — Mindinho tinha
    faro para o ouro, eu lhe confirmo, mas Garth.
    — Meu senhor, — Cersei o interrompeu. — Eu temo que tenha
    havido algum mal entendido. Eu solicitei a Lorde Gyles Rosby para servir
    como nosso novo mestre da moeda, e ele me fez a honra de aceitar.
    Mace ficou boquiaberto. — Rosby? Aquele... tossidor? Mas... se foi
    aprovado, Vossa Graça. Garth está a caminho de Vilavelha.
    — Melhor enviar um corvo para Lorde Hightower e pedir a ele que
    se assegure que seu tio não embarque. Nós detestaríamos que Garth
    enfrentasse um mar de outono para nada. — Ela sorriu agradavelmente.
    Um rubor subiu o pescoço grosso de Tyrell.
    — Isso… o senhor seu pai me assegurará... — Ele começou a
    gaguejar.
    Então, sua mãe apareceu e deslizou seu braço sobre o dele.
    — Parece que Lorde Tywin não dividiu seus planos com nossa
    regente, eu não consigo imaginar o motivo. Ainda assim, mas não tem com o
    que se preocupar, Vossa Graça. Está certa, deve escrever a Lorde Leyton
    antes que Garth embarque em um navio. Você sabe que o mar vai fazê-lo
    sentir-se mal e deixar sua flatulência pior.
    A Senhora Olenna deu um sorriso sem dentes a Cersei.
    — Suas câmaras do conselho terão cheiro mais doce com Lorde
    Gyles, embora eu ouse dizer que a tosse me levaria à distração. Todos nós
    adoramos o velho tio Garth, mas o homem é flatulento, isso não se pode
    contradizer. Eu realmente abomino maus cheiros. — Seu rosto enrugado se
    enrugou ainda mais. — Eu senti um cheiro desagradável no Santo Septo, na
    verdade. Talvez você tenha sentido também?
    — Não. — Cersei disse friamente. — Um odor, você diz?
    — Mais como um fedor.
    — Talvez você sinta falta de suas rosas de outono. Nós os
    mantivemos aqui por muito tempo.
    Quanto mais rápido ela se livrasse da corte da corte da Senhora
    Olenna, melhor. Lorde Tyrell iria, com certeza, enviar um bom número de
    cavaleiros para levar sua mãe em casa, em segurança, e quanto menos
    espadas dos Tyrell na cidade, melhor dormiria a rainha.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Qua Jun 20, 2012 2:22 pm

    — Eu realmente sinto falta das fragrâncias de Jardim de Cima,
    confesso, — disse a velha mulher, — mas obviamente não posso partir antes
    de ver minha doce Margaery casada com o seu precioso pequeno Tommen.
    — Eu também espero ansiosamente por esse dia, — Tyrell
    acrescentou. — Lorde Tywin e eu estávamos no ponto de definir uma data.
    Talvez você e eu possamos retomar a discussão, Vossa Graça.
    — Em breve.
    — Em breve vai servir, — disse a Senhora Olenna com uma
    fungadela. — Agora venha, Mace, deixe Vossa Graça com o seu... pesar.
    Eu a verei morta, sua velha, Cersei prometeu a si mesma enquanto a
    Rainha dos Espinhos cambaleava entre seus altos guardas, um par de
    homens grandes que a divertia chamar de Direito e Esquerdo. Veremos que
    bela defunta você será. A velha era duas vezes mais esperta que seu filho
    lorde, isso era claro.
    A rainha resgatou seu filho de Margaery e seus primos, e se dirigiu
    para as portas. Lá fora, a chuva finalmente parou. O ar de outono tinha um
    cheiro doce e fresco. Tommen tirou sua coroa.
    — Coloque isso de volta na cabeça, — Cersei mandou.
    — Ela faz o meu pescoço doer, — o garoto disse, mas foi como se
    fosse um apelo. — Eu vou me casar logo? Margaery disse que assim que nos
    casarmos podemos ir para Jardim de cima.
    — Você não vai para Jardim de Cima, mas você pode voltar para o
    castelo. — Cersei acenou para Sor Meryn Trant. — Traga para a Vossa
    Graça uma montaria, e peça a Lorde Gyles se ele me daria a honra de me
    acompanhar em minha liteira. — As coisas estavam andando mais rápido do
    que ela esperava; não havia tempo para ser desperdiçado.
    Tommen estava contente diante da perspective de uma montaria, e
    claro que Lord Gyles estava honrado pelo convite dela... mas quando ela lhe
    pediu para ser seu mestre de moeda, ele começou a tossir tão violentamente
    que ela teve medo que ele morresse ali naquele momento. Mas a Mãe era
    misericordiosa, e Gyles eventualmente se recuperou o suficiente para aceitar,
    e até começou a tossir os nomes dos homens que ele queria substituir, os
    funcionários aduaneiros e os administradores de lã nomeados por Mindinho,
    até um dos guardiões das chaves.
    — Nomeie como a vaca quem você quiser, contanto que o leite flua.
    E se a questão for levantada, você se uniu ao conselho ontem.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Qua Jun 20, 2012 2:22 pm

    — Ont... — Um acesso de tosse o fez se dobrar. — Ontem.
    Certamente. — Lord Gyles tossiu em um quadrado vermelho de seda, como
    se para ocultar o sangue em sua saliva. Cersei fingiu não notar.
    Quando ele morrer eu vou encontrar outra pessoa. Talvez ela
    chamasse de volta Mindinho. A rainha não imaginava que aquele Petyr
    Baelish fosse autorizado permanecer como Lorde Protetor do Vale por muito
    tempo, com Lysa Arryn morta. Os senhores do Vale já estavam se agitando,
    se o que Pycelle disse for verdade. Uma vez que levarem o menino
    miserável para longe dele, o Lorde Petyr virá rastejando de volta.
    Vossa Graça? — Lord Gyles tossiu, e limpou a boca. — Eu
    poderia... — Ele tossiu de novo. — ...perguntar quem ... — Outra série de
    tosse o atormentou. — ... quem será a Mão do Rei?
    — Meu tio, — ela respondeu ausentemente.
    Foi um alívio para ela ver as portas da Muralha Vermelha iminentes
    à sua frente. Ela deu Tommen a carga de seus escudeiros e se retirou
    agradecia para seus aposentos para descansar.
    Mal ela tirou os sapatos e Jocelyn entrou timidamente para dizer que
    Qyburn estava lá fora e ansiava por uma audiência.
    — Deixe-o entrar, — a rainha ordenou. Um governante não
    descansa.
    Qyburn era velho, mas seus cabelos ainda tinham mais cinza do que
    neve neles, e as linhas de riso ao redor da boca o faziam se parecer como o
    avô preferido de algumas menininhas. Um avô um tanto maltrapilho,
    pensou. O colarinho de seu robe estava desgastado, e uma manga havia sido
    rasgada e mal costurada.
    — Devo pedir perdão a Vossa Graça pela minha aparição, — disse
    ele. — Eu tenho estado lá embaixo nos calabouços fazendo interrogações a
    respeito da fuga do Duende, como a senhora ordenou.
    — E o que você descobriu?
    — A noite que Lorde Varys e seu irmão desapareceram, um terceiro
    homem também desapareceu.
    — Sim, o carcereiro. O que tem ele?”
    — Rugen era o seu nome. O carcereiro que era responsável pelas
    celas negras. O chefe da carceragem o descreve como corpulento, com barba
    por fazer, e fala ríspida. Ele honrou seu compromisso com o antigo rei,
    Aerys, vinha e ia como ele quisesse. As clas negras não foram ocupadas

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Qua Jun 20, 2012 2:23 pm

    muitas vezes nos últimos anos. Os outros carcereiros tinham medo dele, ao
    que parece, mas ninguém sabia muito sobre ele.
    Ele não tinha amigos, nem parentes. Nem bebia ou ia a bordéis
    frequentemente. A cela em que dormia era úmida e triste, e a palha em que
    dormia em cima estava mofada. O seu penico estava transbordando.
    — Eu sei disso tudo. — Jaime examinou a cela de Rugen, e os
    homens de Manto Dourado de Sor Addam a examinaram novamente.
    — Sim, Sua Graça, — disse Qyburn, — mas você sabia que
    embaixo do penico fedorento havia uma pedra solta, que abria em uma
    pequena cavidade? O tipo de lugar onde um homem esconderia objetos de
    valor que ele não queria que descobrissem?
    — Valiosos? — Isso era novo. — Moeda, você quer dizer? — Ela
    suspeitou o tempo todo que Tyrion tinha, de alguma forma, comprado este
    carcereiro.
    — Permanece uma dúvida. Com certeza, o buraco estava vazio
    quando eu o encontrei. Sem dúvida Rugen levou o seu tesouro ilícito com
    ele quando fugiu. Mas enquanto eu estava agachado em cima do buraco com
    a minha tocha, eu vi algo brilhar, então eu esfreguei a sujeita até que ficasse
    visível. — Qyburn abriu sua mão. — Uma moeda de ouro.
    Ouro, sim, mas no momento em que Cersei o pegou podia dizer que
    havia algo errado. Muito pequeno, ela pensou, muito fino. A moeda estava
    velha e desgastada. De um lado era o rosto de um rei de perfil, do outro lado
    a marca de uma mão.
    — Isso não é dragão, — ela disse.
    — Não, — Qyburn concordou. — Isso data de antes da Conquista,
    Vossa Graça. O rei é Garth o Décimo Segundo, e a mão é Sigil da Casa
    Gardener.”
    De Jardim de Cima. Cersei fechou sua mão sobre a moeda. Que
    traição é esta? Mace Tyrell foi um dos juízes de Tyrion, e gritou alto por sua
    morte. Seria um estratagema? Ele poderia estar tramando com o Duende o
    tempo todo, conspirando a morte do meu pai? Com Tywin Lannister em sua
    cova, Lord Tyrell seria uma escolha óbvia para ser o Conselheiro do Rei,
    mas mesmo assim...
    — Você não vai falar disso com ninguém, — ela ordenou.
    — Vossa Graça deve confiar em minha discrição. Qualquer homem
    que ande com mercenários aprende a segurar a sua língua, ou então não
    consegue tê-la por muito tempo.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Qua Jun 20, 2012 2:23 pm

    — Em minha companhia também. — A rainha colocou a moeda de
    lado. Ela deveria pensar sobre isso mais tarde. — O que há sobre o outro
    assunto?
    — Sor Gregor. — Qyburn deu de ombros. — Eu o examinei, como a
    senhora mandou. O veneno da lança de Víbora era veneno de manticora do
    leste, eu apostaria minha vida nisso.
    — Pycelle disse que não. Ele disse ao senhor meu pai que o veneno
    de manticora mata no instante em que atinge o coração.
    — E assim ele age. Mas esse veneno foi, de alguma maneira,
    engrossado, para protelar a morte do Montanha.
    — Engrossado? Engrossado como? Com alguma outra substância?
    — Pode ser como Sua Graça sugere, embora na maioria dos casos
    adulterar um veneno só diminui sua potência. Pode ser que a causa seja...
    menos natural, digamos. Um feitiço, eu acho
    Seria esse um grande tolo como Pycelle?
    — Então você está me dizendo que a Montanha está morrendo de
    alguma magia negra?
    Qyburn ignorou a zombaria em sua voz.
    — Ele está morrendo envenenado, mas vagarosamente, e com uma
    agonia extraordinária. Os meus esforços em diminuir sua dor provaram ser
    tão improdutivos como os de Pycelle. Sor Gregor está excessivamente
    acostumado com a papoula, eu temo. Seu escudeiro me diz que ele é
    atormentado por dores de cabeça cegante e frequentemente toma o leite da
    papoula como outros homens bebem cerveja . Seja como for, suas veias
    ficaram pretas da cabeça ao calcanhar, sua água é nublada e com pus, e o
    veneno gerou um buraco na sua lateral tão grande quanto o meu punho. É
    uma surpresa que este homem ainda esteja vivo, verdade seja dita.
    — O tamanho dele, — a rainha sugeriu, franzindo o cenho. —
    Gregor é um homem muito grande. E também muito idiota. Muito idiota
    para saber que ele deve morrer, parece. — Ela estendeu seu copo e Senelle o
    encheu novamente. — Seus gritos assustam Tommen. É sabido que me
    acorda a noite. Eu diria que já passamos do tempo de convocarmos Ilyn
    Payne.
    — Vossa Graça, — disse Qyburn, — talvez eu devesse levar Sor
    Gregor para os calabouços? Seus gritos não irão perturbá-la de lá, e eu
    poderei cuidar dele mais livremente.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Qua Jun 20, 2012 2:23 pm

    — Cuidar dele? — Ela riu. — Deixe Sor Ilyn cuidar dele.
    — Se é o desejo de Vossa Graça, — Qyburn disse, — mas esse
    veneno... seria útil descobrir mais sobre isso, não seria? Envie um cavaleiro
    para matar um cavaleiro e um arqueiro para matar um arqueiro, o povo
    costuma dizer. Para combater as artes da magia negra... — Ele não terminou
    o raciocino, mas sorriu para ela.
    Ele não é Pycelle, isso é claro. A rainha o considerou, imaginando.
    — Porque tomaram sua cadeira na Cidadela?
    — Os arquimestres são todos covardes de coração. A ovelha cinza,
    Marwyn os chama. Eu era um curandeiro qualificado como Ebrose, mas
    aspirava a ultrapassá-lo. Por centenas de anos os homens da Cidadela
    abriram os corpos dos mortos, para estudar a natureza da vida. Eu queria
    entender a natureza da morte, então abri os corpos dos vivos. Por esse crime
    a ovelha cinza se envergonhou de mim e me forçou ao exílio... mas eu
    entendo a natureza da vida e da morte melhor do que qualquer homem em
    Vilavelha.
    — Você entende? — Isso a intrigou. — Muito bem. Ele é seu. Faça
    o que quiser com ele, mas limite seus estudos às celas negras. Quando ele
    morrer, traga-me a cabeça. Meu pai prometeu-a a Dorne. Príncipe Doran
    sem dúvida preferiria matar Gregor ele mesmo, mas todos nós devemos
    sofrer decepções nesta vida.
    — Muito bem, Vossa Graça. — Qyburn limpou a garganta. — Eu
    não estou tão bem fornecido como Pycelle, no entanto. Devo precisar
    equipar-me com certas..."
    — Vou instruir o Senhor Gyles para fornecê-lo com ouro suficiente
    para suas necessidades. Compre para você algumas roupas novas também.
    Você parece que veio do Baixio das Pulgas. — Ela estudou seus olhos,
    perguntando o quão longe se atrevia a confiar nele. — Eu preciso dizer que
    as coisas irão mal para você, se qualquer palavra de seus... trabalhos... passar
    para além destas paredes?
    — Não, Vossa Graça. — Qyburn deu a ela um sorriso reconfortante.
    — Seus segredos estão a salvo comigo.
    Quando ele se foi, Cersei serviu-se de uma xícara de vinho forte e
    bebeu ao lado da janela, observando as sombras aumentarem em todo o
    quintal e pensando sobre a moeda. Por que um carcereiro em Porto Real
    tinha ouro vindo da Campina, a não ser que fosse pago para ajudar a
    provocar a morte de meu Pai?

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Qua Jun 20, 2012 2:23 pm

    Por mais que tentasse, ela não conseguia trazer à mente o rosto de
    Lorde Tywin sem ver aquele meio-sorriso tolo e relembrando o cheiro
    desagradável vindo de seu cadáver. Ela imaginava como Tyrion estava de
    alguma forma por trás disso também. Isso é pequeno e cruel, como ele.
    Poderia Tyrion ter feito de Pycelle seu joguete? Ele enviou o velho para as
    celas negras, e este Rugen era o encarregado dessas celas, lembrou-se. Todas
    as pontas soltas estavam se amarrando de forma que ela não gostava. Esse
    Alto Septão é instrumento de Tyrion também, Cersei se lembrou de repente,
    e o corpo de seu pobre Pai estava aos seus cuidados desde o anoitecer até o
    amanhecer.
    Seu tio chegou prontamente ao pôr do sol, vestindo um gibão
    acolchoado de lã cor de carvão tão sombrio quanto o seu rosto. Como todos
    os Lannisters, Sor Kevan era de pele clara e loiro, e embora tivesse
    cinquenta e cinco anos ele havia perdido a maior parte de seu cabelo.
    Ninguém nunca diria que ele é gracioso. Cintura larga, ombros redondos,
    com um queixo quadrado e saliente que sua barba curta e loira pouco fazia
    para esconder, ele a lembrava um velho mastim... mas um velho e fiel
    mastim era o mesmo que ela precisava. Eles comeram uma ceia simples de
    beterrabas e pão e carne sangrenta com um frasco de dornês vermelho para
    levar tudo para baixo. Sor Kevan falou pouco e raramente tocou sua taça de
    vinho. Ele medita muito, ela decidiu. Ele precisa ser colocado para
    trabalhar para esquecer a sua dor.
    Ela disse quando o último dos alimentos haviam sido removidos e os
    servos tinham partido.
    — Eu sei o quanto meu pai confiava em você, Tio. Agora eu devo
    fazer o mesmo.
    — Você precisa de uma Mão, — ele disse, — e Jaime a recusou.\
    Ele é franco. Muito bem.
    — Jaime... eu me senti tão perdida com a morte de meu Pai, eu mal
    sabia o que estava dizendo. Jaime é galante mas um pouco tolo, sejamos
    francos.Tommen precisa de um homem mais maduro. Alguém mais velho...
    — Mace Tyrell é mais velho.
    — Suas narinas queimaram.
    — Nunca. Cersei empurrou uma mecha de cabelo de sua testa. — Os
    Tyrell estão se excedendo.
    — Você seria tola em fazer Mace Tyrell sua Mão, — Sor Kevan
    admitiu, — mas uma tola ainda maior de fazê-lo seu inimigo. Eu ouvi sobre

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Qua Jun 20, 2012 2:23 pm

    o que aconteceu no Salão das Lâmpadas. Mace deveria ter pensado melhor
    antes de abordar esses assuntos em público, mas mesmo assim, você não foi
    esperta ao envergonhá-lo em frente a metade da corte.
    — Melhor do que sofrer com outro Tyrell no conselho. — A
    reprovação dele a irritou. — Rosby será um mestre da moeda adequado. O
    senhor viu a sua liteira, com suas esculturas e tapeçarias de seda. Seus
    cavalos são melhores vestidos que a maior parte dos cavaleiros. Um homem
    tão rico não deve ter problemas para encontrar ouro. E como Mão... quem
    melhor para terminar o trabalho de meu pai do que o irmão que participou de
    todos os conselhos?
    — Todo homem precisa de alguém para confiar. Tywin tinha a mim,
    e anteriormente a sua mãe.
    — Ele a amava muito. — Cersei se recusou a pensar sobre a
    prostituta morta em sua cama. — Eu sei que eles estão juntos agora.
    — Por isso eu oro. — Sor Kevan estudou sua face por um longo
    momento antes de responder. —Você pede a mim, Cersei.
    — Não mais que meu pai.
    — Eu estou cansado. — O tio buscou pelo copo de vinho e tomou
    um gole. — Eu tenho uma esposa que não vejo há dois anos, um filho morto
    para chorar, outro filho que está para se casar e assumir um senhorio. O
    Castelo Darry precisa se tornar forte novamente, suas terras protegidas, seus
    campos queimados precisam ser arados e plantados de novo. Lancel vai
    precisar da minha ajuda.
    — Assim como Tommen. — Cersei não esperava que Kevan pedisse
    adulação. Ele nunca se fazia de desentendido com o Pai. — O reino precisa
    de você.
    — O reino. Sim. E a casa Lannister. — Ele tomou outro gole do
    vinho. — Muito bem. Eu vou permanecer e servir a Vossa Graça...
    — Muito bom, — ela começou a dizer, mas Sor Kevan elevou seu
    tom de voz e a interrompeu.
    —... desde que me nomeie também como regente assim como Mão e
    você volte para Rochedo Casterly.
    Por metade um batimento cardíaco Cersei só pode olhar para ele.
    — Eu sou a regente, — ela o relembrou.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Qua Jun 20, 2012 2:24 pm

    — Você era. Tywin não tinha a intenção de que você continuasse no
    cargo. Ele me contou sobre seus planos de lhe enviar de volta para Rochedo
    e encontrar um novo marido para você.
    Cersei pôde sentir sua raiva aumentando.
    — Ele falou sobre isso sim. E eu disse a ele que não era o meu
    desejo casar-me novamente.
    Seu tio não se comoveu.
    — Se você estiver resolvida a não se casar outra vez, não vou forçála.
    Quanto ao outro assunto, entretanto... você é a Senhora de Rochedo
    Casterly agora. Seu lugar é lá.
    — Como ousa? Ela queria gritar. Ao invés disso, ela disse:
    — Eu sou também a Rainha Regente. Meu lugar é ao lado do meu
    filho.
    — Seu pai não pensava assim.
    — Meu pai está morto.
    — Para minha tristeza, e infortúnio de todo o reino. Abra os seus
    olhos e olhe a sua volta, Cersei. O reino está em ruínas. Tywin poderia ter
    sido capaz de definir corretamente as questões, mas...
    — Eu serei capaz de definir corretamente as questões! — Cersei
    deixou sua voz mais doce. — Com a sua ajuda, tio. Se o senhor me servir tão
    fielmente quanto serviu meu pai.
    — Você não é o seu pai. E Tywin sempre considerou Jaime como
    seu herdeiro legítimo.
    — Jaime... Jaime tomou os votos. Jaime nunca pensa, ele ri de tudo
    e de todos e diz o que lhe vem a cabeça. Jaime é um tolo bonito.
    — E mesmo assim foi a sua primeira escolha para ser o Conselheiro
    do Rei. O que isso te parece, Cersei?
    — Eu disse ao senhor, eu estava doente de sofrimento, eu não
    pensei.
    — Não mesmo, Sor Kevan concordou. — O que é o motivo pelo
    qual você deve retornar à Rochedo Casterly e deixar o rei com aqueles que
    pensam.
    — O rei é meu filho! — Cersei levantou-se.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Qua Jun 20, 2012 2:24 pm

    — Sim, — seu tio disse, — e pelo o que eu vi de Joffrey, você é tão
    inapropriada como mãe quanto como governante.
    Ela jogou o conteúdo de sua taça de vinho cheia no rosto dele.
    Sor Kevan levantou-se com uma dignidade ponderosa.
    — Vossa Graça. — O vinho escorria pelo seu rosto e pingava pela
    sua barba bem cortada. — Com a sua licença, poderia me retirar?”
    — Com que direito o Senhor acha que pode me colocar condições?
    Você não é mais que um dos cavaleiros de meu pai.
    — Eu não tenho terras, é verdade. Mas eu tenho renda certa, e baús
    de moedas bem guardados. Meu próprio pai não se esqueceu de nenhum dos
    filhos quando morreu, e Tywin sabia como recompensar bom serviço. Eu
    mantenho duzentos cavaleiros e posso dobrar esse número caso seja
    necessário. Há também cavaleiros livres que seguirão a minha bandeira, e eu
    tenho ouro para contratar mercenários. Você seria esperta em não me
    negligenciar, Vossa Graça… e ainda mais esperta de não fazer-me seu
    inimigo.
    — O senhor está me ameaçando?
    — Eu a estou aconselhando. Se você não vai ceder a regência para
    mim, nomeie-me seu castelão em Rochedo Casterly e faça ou Mathis
    Rowan ou Randyll Tarly a Mão do Rei.
    Homens da bandeira de Tyrell, os dois. A sugestão a deixou sem
    palavras. Ele foi comprado? Ela imaginou. Ele teria recebido ouro para
    trair a casa Lannister?
    — Mathis Rowan é sensível, prudente, bem aceito, — o seu tio
    continuou, absorto. — Randyll Tarly é o mais fino soldado do reino. Uma
    Mão fraca para tempos de paz, mas com a morte de Tywin não há homem
    melhor para terminar essa guerra. Lorde Tyrell não poderá ofender-se se
    você escolher um de seus próprios homens como Mão. Tanto Tarly quanto
    Rowan são homens hábeis... e leais. Nomeie qualquer um, e você faz dele
    seu aliado. Você se fortalece e enfraquece Jardim de Cima, e ainda Mace
    provavelmente vai agradecê-la por isso. — Ele deu de ombros. — Esse é o
    meu conselho, pegue-o ou não. Você fazer do Menino Lua a Mão não me
    importaria. Meu irmão está morto, mulher. Eu vou levá-lo para casa.
    Traidor, ela pensou. Vira-casaca. Ela imaginou o quanto Mace
    Tyrell teria dado a ele.
    — O senhor vai abandonar o seu rei quando ele mais precisa do
    senhor, — ela disse a ele. — O senhor está abandonando Tommen.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Qua Jun 20, 2012 2:24 pm

    — Tommen tem a sua mãe. — Os olhos verdes de Sor Kevan
    encontraram aos dela, sem piscar. Uma última gota de vinho tremeu
    vermelha e molhada abaixo de seu queixo e finalmente caiu. — Sim, — ele
    adicionou suavemente, depois de uma pausa, — e a seu pai também, eu
    acho.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Qua Jun 20, 2012 2:24 pm

    Jaime 143

    Sor Jaime Lannister, todo em branco, ficou ao lado do caixão de seu
    pai. Cinco dedos enrolados sobre o cabo de uma larga espada de
    ouro.
    Ao anoitecer, o interior do Grande Septo de Baelor ficou escuro e
    assustador. A última luz do dia se inclinou baixo através das altas janelas,
    lavando as semelhanças dos Sete em uma penumbra vermelha. Em torno de
    seus altares, velas perfumadas piscavam enquanto sombras profundas
    reuniam-se no transeptos e rastejava silenciosamente pelo piso de mármore.
    Os ecos de qualquer som morreram ao longo enquanto as pranteadoras
    estavam de partida.
    Balon Swann e Loras Tyrel permaneceram quando o resto tinha ido.
    — Ninguém pode fazer uma vigília durante sete dias e sete noites —
    Sir Balon disse. — Quando você dormiu pela ultima vez, meu senhor?
    — Quando o senhor meu pai estava vivo — Jaime disse.
    — Permita-me ficar esta noite em seu lugar — Sor Loras se
    ofereceu.
    — Ele não era seu pai — você não matou ele. Eu matei. Tyrion
    talvez tenha lançado o dardo que o matou, mas eu soltei Tyrion. — Me
    deixe.
    — Como meu senhor ordena — disse Swann. Sor Loras parecia que
    iria argumentar mais, mas Sor Balon tomou seu braço e puxou-o para fora.
    Jaime ouviu os ecos de seus passos desaparecerem. E então, ele estava
    sozinho com seu pai, entre as velas, cristais e o cheiro adocicado da morte.
    Suas costas doíam com o peso da armadura, e suas pernas estavam quase
    dormentes. Ele mudou um pouco sua postura e apertou ainda mais os dedos
    ao redor da espada de ouro. Ele não podia empunhar uma espada, mas ele
    podia segurar uma. A mão que lhe faltava estava latejando. Isso era quase
    engraçado. Ele sentia mais a mão que tinha perdido do que o resto do seu
    corpo.
    Minha mão esta com fome de espada. Eu preciso matar alguém.
    Varys, para começar, mas primeiro ele precisava encontrar a rocha que ele
    estava escondendo debaixo.
    — Eu mandei o eunuco levá-lo para o navio, não para seu quarto —
    disse o cadáver — o sangue está tanto em suas mãos quanto... nas de Tyrion.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Qua Jun 20, 2012 2:24 pm

    O sangue está na suas mãos tanto quanto nas minhas, ele quis dizer,
    mas as palavras ficaram presas em sua garganta. O que quer que Varys fez,
    eu o fiz fazer. Ele tinha esperado na câmara do eunuco aquela noite, quando
    finalmente tinha decidido não deixar o seu irmão mais novo morrer.
    Enquanto esperava, ele afiou sua adaga com uma mão, tendo um conforto
    esquisito no raspe-raspe do metal com pedra. Ao som de passos, ele ficou ao
    lado da porta. Varys entrou em uma lavagem de pó e lavanda. Jaime saiu
    atrás dele, chutou-o na parte de trás do joelho e ajoelhou-se em seu peito, e
    empurrou a faca para cima no queixo mole e branco, forçando a cabeça a
    ficar erguida.
    — Porque Lorde Varys — ele disse pensativamente — imaginei que
    o encontraria aqui.
    — Sor Jaime? — Varys ofegou — O senhor me assustou.
    — Eu pretendia — quando ele torceu o punhal um fio de sangue
    escorreu na lamina. — Eu estava pensando que você talvez pudesse me
    ajudar a arrancar meu irmão para fora de sua cela antes que Sor Ilyn
    arranque sua cabeça fora. É uma cabeça feia, eu garanto, mas ele só tem
    aquela.
    — Sim... bem... se você... remover a lamina... sim, delicadamente,
    como agradar meu senhor, gentilmente... oh, eu fui cortado! — o eunuco
    tocou o pescoço e ficou boquiaberto com o sangue em seus dedos. — Eu
    sempre abomino a visão do meu próprio sangue.
    — Você terá mais a abominar brevemente, a não ser que me ajude.
    Varys esforçou para sentar-se.
    — O seu irmão... se o Duende desaparecer inexplicavelmente de sua
    cela, p-p-perguntas serão feitas. Eu t-t-temo por minha vida.
    — Sua vida é minha. Eu não me importo que segredos você saiba.
    Se Tyrion morrer, você não viverá mais do que ele, eu prometo.
    — Ah — o eunuco sugou o sangue em seus dedos — Você pede
    uma coisa terrível. Para soltar o Duende que matou nosso rei encantador. Ou
    será que você acredita que ele é inocente?
    — Inocente ou culpado — Jaime tinha dito, como o tolo que era. —
    Um Lannister sempre paga suas dívidas. — As palavras tinham vindo tão
    fáceis.
    Ele não tinha dormido desde então. Ele podia ver seu irmão agora, a
    forma que seu irmão sorriu por baixo de seu nariz, como a luz das tochas
    lambia seu rosto.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Qua Jun 20, 2012 2:25 pm

    — Seu pobre cego tolo aleijado estúpido — ele rosnou, numa voz
    grossa com malícia. — Cersei é uma puta mentirosa. Ela tem fodido Lancel
    e Osmund Kettleblack e provavelmente o Menino Lua pelo que sei. E eu sou
    o monstro que todos dizem que sou. Sim, eu matei seu filho malvado.
    Ele nunca tinha dado a entender que pretendia matar nosso pai. Se
    ele tivesse, eu o teria parado. Então eu seria o Regicida, não ele.
    Jaime se perguntou onde Varys estava escondido. Sabiamente, o
    mestre dos segredos não havia voltado para sua própria câmera, nem uma
    procura na Fortaleza Vermelha o encontrou. Pode ser que o eunuco tenha
    tomado o navio com Tyrion, ao invés de permanecer para responder as
    perguntas difíceis. Se assim for, os dois estavam bem em alto mar agora,
    partilhando um frasco de vinho da Árvore na cabine de uma galera.
    A não ser que meu irmão assassinou Varys também, e deixou seu
    corpo para apodrecer debaixo do castelo. Lá em baixo levaria anos para
    alguém descobrir os seus ossos. Jaime tinha levado uma dúzia de guardas
    abaixo, com tochas, cordas e lanternas. Durante horas eles tinham marchado
    através de passagens torcidas, espaços estreitos, portas escondidas e
    passagens secretas e eixos mergulhados na escuridão total. Raramente se
    sentira tão completamente um aleijado. Um homem demora muito para
    rastejar quando só tem uma mão. Escadas por exemplo. Mesmo rastejando
    não era fácil. Não o suficiente se falar de mãos e joelhos. Nem podia segurar
    uma tocha e subir, como os outros poderiam.
    E tudo por nada. Eles encontraram somente escuridão, poeira e ratos.
    E dragões, a espreita lá em baixo. Lembrou-se do sombrio brilho alaranjado
    do carvão na boca do dragão de ferro. O brazeiro aquecia o fundo de um
    poço onde meias dúzias de túneis se encontravam. No chão ele tinha
    encontrado um mosaico arranhado do dragão de três cabeças da Casa
    Tagaryen feito de telhas pretas e vermelhas. Eu conheço você, Regicida, a
    besta parecia dizer. Eu tenho estado aqui o tempo todo, esperando você vir
    até mim. E parecia a Jaime que ele conhecia aquela voz, os tons de ferro que
    haviam pertencido a Rhaegar, Príncipe de Pedra do Dragão.
    O dia tinha tido muito ventania quando ele disse adeus a Rhaegar, no
    pátio da Fortaleza Vermelha. O Príncipe tinha vestido sua armadura negra
    como a noite, com o dragão de três cabeças feito em rubis em seu peitoral.
    — Vossa Graça — Jaime tinha alegado — Deixe Darry ficar para
    guardar o rei desta vez, ou Sor Barristan. Suas vestes são tão brancas quanto
    as minhas.
    Príncipe Rhaegar balançou sua cabeça.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Qua Jun 20, 2012 2:25 pm

    — Meu real pai teme mais o seu pai do que nosso primo Robert. Ele
    quer você perto, então Lorde Tywin não poderá machucá-lo. Não me atrevo
    tirar esse suporte dele a essa hora.
    A raiva de Jaime subiu em sua garganta.
    — Não sou um suporte. Sou um cavaleiro da Guarda Real.
    — Então guarde o rei. — Sor Jon Darry tinha lhe estapeado. —
    Quando você vestiu a capa você jurou obedecer.
    Rhaegar tinha posto a mão no ombro de Jaime.
    — Quando esta batalha acabar eu pretendo chamar um Cônsul.
    Mudanças serão feitas, eu queria fazer isso a muito tempo atrás, mas... Bem,
    não faz bem falar de estradas ainda não tomadas. Nós devemos conversar
    quando eu voltar.
    Essas foram as ultimas palavras que Rhaegar Tagaryen falou com
    ele. Do lado de fora dos portões um exército havia se reunido, com outro
    descendente do Tridente. Então o Príncipe de Pedra do Dragão montou seu
    cavalo e vestiu seu elmo negro e alto, e cavalgou para sua desgraça.
    Ele estava mais certo do que sabia. Quando a batalha acabou,
    mudanças foram feitas.
    — Aerys pensou que nenhum mal viria a ele se me mantivesse perto
    — ele contou ao corpo de seu pai. — Isso não é divertido?
    Lord Tywin parecia pensar assim. Seu sorriso parecia maior do que
    antes. Ele parece gostar de estar morto. Era estranho, mas ele não sentiu
    nenhuma dor. Onde estão minhas lagrimas? Onde esta minha raiva? Jaime
    Lannister nunca estava fechado para a raiva.
    — Pai — ele disse ao corpo — Foi você que me disse que lagrimas
    eram marcas de fraqueza em um homem, então você não deve esperar que eu
    chore por você.
    Milhares de senhores e senhoras tinham vindo esta manhã para
    desfilar no esquife, e vários milhares de pequenos povos depois do meio dia.
    Eles usavam roupas sombrias e rostos solenes, mas Jaime suspeitava que
    muitos deles estavam secretamente contentes de ver o grande homem
    abatido. Mesmo no Ocidente, Lorde Tywin havia sido mais respeitado do
    que amado, e Porto Real ainda se lembrava do saque.
    De todos os enlutados, Grande Meistre Pycelle parecia o mais
    perturbado.

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    Re: O Festim dos Corvos

    Mensagem  Admin em Qua Jun 20, 2012 2:25 pm

    — Eu tenho servido seis reis — ele disse a Jaime, após o segundo
    velório enquanto fungava em duvida sobre o cadáver. — Mas aqui diante de
    nós reside o maior homem que já conheci. Lord Tywin não usava coroa, mas
    era tudo que um rei deveria ser.
    Sem sua barba Pycelle não parecia só velho, mas também fraco.
    Barbeá-lo foi a coisa mais cruel que Tyron podia ter feito, pensou Jaime,
    que sabia o que era perder parte de si mesmo, a parte que faz você ser quem
    você é.
    A barba de Pycelle tinha sido magnífica, branca como a neve e
    macia como a lã de cordeiro, um tamanho exuberante que cobria as
    bochechas e queixo e descia quase até sua cintura. O Grande Meistre era
    acostumado a acariciá-la quando se prontificava. Tinha lhe dado um ar de
    sabedoria, e escondia todo o tipo de coisas desagradáveis. A pele caída
    balançando embaixo da mandíbula do velho, a pequena boca e a falta de
    dentes, rugas, verrugas e manchas de idade demasiada numerosas para
    contar. Embora Pycelle estivesse tentando regenerar o que ele tinha perdido,
    estava falhando. Apenas tufos brotavam em seu rosto enrugado e queixo
    fraco, tão fina que Jaime podia ver a pele rosa por baixo.
    — Sor Jaime, eu tenho visto terríveis coisas em minha vida — o
    homem velho disse — Guerras, batalhas, assassinatos dos mais tolos... Era
    um menino em Vilavelha quando a peste cinza levou metade da Cidade e
    três quartos da Cidadela. Lorde Hightower queimou todos os navios no
    porto, fechou os portões e ordenou que os seu guardas matassem todos
    aqueles que tentassem fugir, sejam eles homens, mulheres, ou bebes de colo.
    Eles o mataram quando a peste tinha tomado o seu curso. No mesmo dia em
    que ele reabriu o porto, eles o arrastaram de seu cavalo e cortaram sua
    garganta, assim como a de seu filho mais novo. Para este dia, o ignorante vai
    cuspir seu nome em Vilavelha, mas Quenton Hightower fez o que era
    necessário. Seu pai era esse tipo de homem também. Um homem que fazia o
    que era preciso.
    — É por isso que ele parece tão contente consigo mesmo?
    Os vapores subindo do cadáver estavam trazendo água aos olhos de
    Pycelle.
    — A carne... a carne seca, os músculos ficam tensos e puxam os
    lábios para cima. Isso não é um sorriso, só... uma secagem. Só isso. — Ele
    piscou para conter as lágrimas. — Você deve me perdoar. Estou tão cansado.
    Inclinando-se pesadamente em sua bengala, Pycelle cambaleou para
    fora do Septo.

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    Re: O Festim dos Corvos

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