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    A dança dos dragões

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    Re: A dança dos dragões

    Mensagem  Admin em Qua Jul 11, 2012 11:14 am

    — Minha rainha — rosnou Skahaz mo Kandaq, o da cabeça rapada. O cabelo ghiscariano era denso e crespo; há muito que a moda dos homens das Cidades Escravagistas era penteá-lo em chifres, espigões e asas. Ao rapá-lo, Skahaz pusera a velha Meereen para trás das costas a fim de aceitar a nova, e a sua família fizera o mesmo, seguindo-lhe o exemplo. Outros se seguiram, embora Dany não soubesse dizer se teria sido por medo, moda ou ambição; chamavam-lhes tolarrapadas. Skahaz era o Tolarrapada… e o mais vil dos traidores para os Filhos da Harpia e os da sua laia. — Fomos informados sobre o eunuco.
    — O nome dele era Escudo Vigoroso.
    — Mais morrerão, a menos que os assassinos sejam punidos. — Mes-mo com a cabeça raspada, Skahaz tinha uma cara odiosa; uma testa proeminente, olhos pequenos com pesadas olheiras por baixo, um grande nariz escurecido por pontos negros, pele oleosa que parecia mais amarela do que o âmbar habitual dos ghiscarianos. Era uma cara sem rodeios, brutal e zangada. Só podia rezar para que fosse também uma cara honesta.
    — Como é que os puno se não sei quem eles são? — perguntou-lhe Dany. — Diga-me, ousado Skahaz.
    — Não tens falta de inimigos, Vossa Graça. Vê as suas pirâmides do seu terraço. Zhak, Hazkar, Ghazeen, Merreq, Loraq, todas as velhas famílias escravagistas. Pahl. Acima de tudo, Pahl. Agora uma casa de mulheres. Velhas amargas com gosto por sangue. As mulheres não esquecem. As mulheres não perdoam.
    Pois não, pensou Dany, e os cães do Usurpador ficarão sabendo disso quando eu voltar a Westeros. Era verdade que havia sangue entre ela e a casa de Pahl. Oznak zo Pahl foi abatido por Belwas, o Forte, em combate singular. O pai, comandante da patrulha de cidade de Meereen, morreu defendendo os portões quando a Pica de Joso os fizera em lascas. Três tios tinham estado entre os cento e sessenta e três da praça.
    — Quanto ouro oferecemos por informações a respeito dos Filhos da Harpia? — perguntou.
    — Cem honras, se agradar a Vossa Radiância.
    — Mil honras os agradariam mais. Faça com que assim seja.
    — Vossa Graça não pediu o meu conselho — disse Skahaz Tolarrapada — mas eu digo que o sangue deve ser pago com sangue. Prenda um homem de cada uma das famílias que nomeei e mate-o. Da próxima vez que um dos seus for

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    Re: A dança dos dragões

    Mensagem  Admin em Qua Jul 11, 2012 11:14 am

    morto, prenda dois de cada grande casa e mate-os a ambos. Não haverá um terceiro assassinato. Reznak guinchou de aflição.
    — Nããããão… gentil rainha, tal selvageria atrairá a ira dos deuses. Nós vamos encontrar os assassinos, prometo, e quando o fizermos eles se revelarão escumalha plebeia, verá.
    O senescal era tão careca como Skahaz, se bem que no seu caso fossem os deuses os responsáveis.
    — Se algum cabelo tiver a insolência de aparecer, o meu barbeiro tem a navalha pronta — assegurara-lhe quando ela o promovera. Havia vezes em que Dany se perguntava se essa navalha não poderia ser melhor empregue na garganta de Reznak. O homem era útil, mas gostava pouco dele e confiava ainda menos. Os Imortais de Qarth tinham-lhe dito que seria traída três vezes. Mirri Maz Duur fora à primeira, Sor Jorah o segundo. Seria Reznak o terceiro? O Tolarrapada? Daario? Ou será alguém de quem nunca suspeitaria, Sor Barristan ou o Verme Cinzento ou Missandei?
    — Skahaz — disse ela ao Tolarrapada — agradeço-lhe pelo conselho. Reznak, veja o que mil honras são capazes de fazer. — Agarrando o seu tokar, Daenerys passou por ambos a passos largos, descendo a larga escada de mármore. Deu um passo de cada vez, para não tropeçar na fímbria e cair de cabeça na corte.
    Missandei anunciou-a. A pequena escriba tinha uma voz suave e forte.
    — Ajoelhai todos para Daenerys Filha da Tormenta, a Não-Queimada, Rainha de Meereen, Rainha dos Ândalos e dos Roinares e dos Primeiros Homens, Khaleesi do Grande Mar de Erva, Quebradora de Correntes e Mãe de Dragões.
    O salão enchera-se. Imaculados estavam de costas viradas para os pilares, com escudos e lanças nas mãos, com os espigões nos capacetes a espetarem-se para cima como uma fila de facas. Os meereeneses tinham se reunido sob as janelas orientais. Os seus libertos estavam bem separados dos antigos amos. Até que se juntem, Meereen não conhecerá paz.
    — Erguei-vos. — Dany instalou-se no banco. O salão ergueu-se. Pelo menos isto fazem como um só.
    Reznak mo Reznak tinha uma lista. O costume exigia que a rainha começasse pelo emissário de Astapor, um antigo escravo que se chamava de Lorde Ghael, se bem que ninguém parecesse saber de que seria ele senhor.

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    Re: A dança dos dragões

    Mensagem  Admin em Qua Jul 11, 2012 11:15 am

    O Lorde Ghael tinha uma boca cheia de dentes castanhos e apodrecidos e a cara pontiaguda e amarela de uma doninha. Também tinha um presente.
    — Cleon, o Grande, envia estes chinelos como sinal do seu amor por Daenerys Filha da Tormenta, a Mãe de Dragões.
    Irri enfiou os chinelos nos pés de Dany. Eram de couro dourado, decorados com pérolas verdes de água doce. Será que o rei carniceiro julga que um par de chinelos bonitos conquistará a minha mão?
    — O Rei Cleon é muito generoso. Pode agradecer-lhe por este adorável presente. — Adorável, mas feito para uma criança. Dany tinha pés pequenos, mas os chinelos pontiagudos comprimiam lhe os dedos.
    — O Grande Cleon ficará contente por saber que eles vos agradaram — disse o Lorde Ghael. — Sua Magnificência pede-me para dizer que está pronto para defender a Mãe dos Dragões de todos os seus inimigos.
    Se ele voltar a propor que eu me case com o Rei Cleon, atiro-lhe o chinelo à cabeça, pensou Dany mas, por uma vez, o emissário de Astapor não fez qualquer menção a um casamento real. Em vez disso, disse:
    — Chegou à altura de Astapor e Meereen porem fim ao selvagem reinado dos Sábios Mestres de Yunkai, que são inimigos jurados de todos aqueles que vivem em liberdade. O Grande Cleon pede-me para lhe dizer que ele e os seus novos Imaculados marcharão em breve.
    Os seus novos Imaculados são uma chalaça obscena.
    — O Rei Cleon seria sensato se cuidasse dos seus próprios jardin se deixasse os yunkaitas tratar dos deles. — Não se dava o caso de Dany nutrir qualquer amor por Yunkai. Estava começando a se arrepender de ter deixado a Cidade Amarela por tomar depois de derrotar o seu exército no campo de batalha. Os Sábios Mestres tinham regressado ao comércio de escravos assim que ela prosseguiu viagem, e andavam ocupados recrutando soldados, contratando mercenários e fazer alianças contra ela.
    Contudo, Cleon, o autoproclamado Grande, não era melhor. O Rei Carniceiro restaurara a escravatura em Astapor, e a única mudança era os antigos escravos serem agora os amos e os antigos amos serem agora escravos.
    — Eu sou só uma menininha e pouco sei das coisas da guerra —disse ao Lorde Ghael — mas ouvimos dizer que Astapor está passando fome. O Rei Cleon que alimente o seu povo antes de o levar para a batalha. — Fez um gesto de despedida. Ghael retirou-se.

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    Re: A dança dos dragões

    Mensagem  Admin em Qua Jul 11, 2012 11:15 am

    — Magnificência — disse Reznak mo Reznak — queira escutar o nobre Hizdahr zo Loraq?
    Outra vez? Dany concordou e Hizdahr avançou; um homem alto, muito esguio, com uma perfeita pele ambarina. Fez uma mesura no mesmo ponto onde o Escudo Vigoroso jazera morto não muito tempo antes. Preciso deste homem, se lembrou Dany. Hizdahr era um mercador rico com muitos amigos em Meereen, e mais do outro lado do mar. Visitara Volantis, Lys e Qarth, tinha família em Tolos e Elyria e dizia-se mesmo que detinha alguma influência em Nova Ghis, onde os yunkaitas andavam tentando despertar inimizade contra Dany e o seu governo.
    E era rico. Famosa e fabulosamente rico.
    E provavelmente ficará mais rico, se aceitar a sua petição. Quando Dany fechara as arenas de luta da cidade, o valor das cotas das arenas fora ao fundo. Hizdahr zo Loraq agarrara-as com ambas as mãos, e agora era dono da maior parte das arenas de luta de Meereen.
    O nobre tinha asas de crespo cabelo negro arruivado brotando das têmporas. Faziam com que a sua cabeça parecesse estar prestes a levantar voo. O rosto longo era tornado ainda mais longo por uma barba presa por anéis de ouro. O seu tokar purpúreo estava fimbriado com ametistas e pérolas.
    — Vossa Radiância deve saber por que motivo estou aqui.
    — Ora, deve ser porque não tem outro objetivo a não ser me atormen-tar. Quantas vezes eu te disse que não?
    — Cinco vezes, Magnificência.
    — Agora são seis. Não aceito que as arenas de combate reabram.
    — Se Vossa Majestade ouvir os meus argumentos…
    — Já ouvi. Cinco vezes. Trouxe novos argumentos?
    — Argumentos velhos — admitiu Hizdahr — palavras novas. Palavras adoráveis e corteses, mais capazes de influenciar uma rainha.
    — É a sua causa que me parece em falta, não as suas cortesias. Já ouvi tantas vezes os seus argumentos que eu mesma poderia defender o seu caso. Quer que o faça? — Dany inclinou-se para frente. — As arenas de combate fizeram parte de Meereen desde que a cidade foi fundada. A natureza dos combates é profundamente religiosa, um sacrifício de sangue aos deuses de Ghis. A arte mortal de Ghis não é mera carnificina, mas uma exibição de coragem, perícia e força que muito agrada aos seus deuses. Combatentes vitoriosos são amimados e aclamados, e os mortos são honrados e lembrados. Reabrindo as arenas eu mostraria ao povo de Meereen que respeito as suas tradições e costumes. As

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    Re: A dança dos dragões

    Mensagem  Admin em Qua Jul 11, 2012 11:15 am

    arenas são muito afamadas pelo mundo fora. Atraem comércio a Meereen, e enchem os cofres da cidade com moedas vindas dos cantos da terra. Todos os homens partilham um gosto por sangue, um gosto que as arenas ajudam a saciar. Dessa forma, tornam Meereen mais tranquila. Para criminosos condenados a morrer na areia, as arenas representam um julgamento pela batalha, uma última hipótese de um homem provar a sua inocência. — Voltou a recostar-se, empinando o nariz. — Pronto. Que tal me saí?
    — Vossa Radiância defendeu o caso muito melhor do que eu poderia esperar fazê-lo. Vejo que é tão eloquente como bela. Estou perfeitamente convencido.
    Dany teve de rir.
    — Ah, mas eu não estou.
    — Magnificência — sussurrou-lhe Reznak mo Reznak ao ouvido — é costume que a cidade exija um décimo de todos os lucros das arenas de combate, depois de despesas, como imposto. Esse dinheiro podia ser utilizado para muitos fins nobres.
    — Pois podia… se bem que, se fôssemos reabrir as arenas, deveríamos recolher o nosso décimo antes de despesas. Eu sou só uma menininha e pouco sei de tais assuntos, mas habitei durante tempo suficiente com XaroXhoan Daxos para aprender isso. Hizdahr, se conseguísse reunir exércitos como reune argumentos, poderia conquistar o mundo… mas a minha resposta continua a ser não. Pela sexta vez.
    — A rainha falou. — O homem voltou a fazer uma mesura, tão profun-da como antes. As suas pérolas e ametistas matraquearam suavemente no chão de mármore. Hizdahr zo Loraq era um homem muito flexível.
    Podia ser bonito, se não fosse aquele cabelo pateta. Reznak e a Graça Verde tinham andado insistindo com Dany para tomar um nobre meereenês como marido, a fim de reconciliar a cidade com o seu governo. Hizdahrzo Loraq podia ser digno de ser examinado com atenção. Antes ele do que Skahaz. O Tolarrapada oferecera-se para pôr de lado a mulher por ela, mas a ideia fazia-a estremecer. Hizdahr pelo menos sabia como sorrir.
    — Magnificência — disse Reznak, consultando a lista — o nobre Grazdan zo Galare deseja falar-vos. Quereis escutá-lo?
    — Terei todo o prazer — disse Dany, admirando a cintilação do ouro e o brilho das pérolas negras nos chinelos de Cleon enquanto fazia os possíveis para ignorar o apertão nos dedos. Fora avisada de que Grazdan era primo da

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    Re: A dança dos dragões

    Mensagem  Admin em Qua Jul 11, 2012 11:15 am

    Graça Verde, cujo apoio achara inestimável. A sacerdotisa era uma voz de paz, aceitação e obediência à legítima autoridade. Posso conceder ao primo uma audiência respeitosa, seja o que for que ele deseje.
    O que ele desejava revelou ser ouro. Dany recusara-se a compensar qualquer um dos Grandes Mestres pelo valor dos seus escravos, mas os meereeneses não paravam de conceber outras maneiras de espremer moedas do seu bolso. Segundo parecia, o nobre Grazdan fora em tempos dono de uma escrava que era uma tecedeira muito boa; os frutos do seu tear eram muito apreciados, não só em Meereen, mas em Nova Ghis, Astapor e Qarth. Quando essa mulher envelhecera, Grazdan comprara meia dúzia de meninas e ordenara à velha que as instruísse nos segredos do seu ofício. A velha estava agora morta. As novas, libertadas, tinham aberto uma loja perto da muralha do porto para vender tecidos. Grazdan zo Galare pedia que lhe fosse outorgada uma porção dos seus lucros.
    — Elas devem a mim a sua perícia — insistia. — Fui eu quem as ar-rancou ao recinto de leilões e as entregou ao tear.
    Dany escutou em silêncio, com a cara imóvel. Quando ele terminou, disse:
    — Como se chamava a velha tecedeira?
    A escrava? — Grazdan mudou o peso de um pé para o outro, franzindo as sobrancelhas. — Era… talvez fosse Elza. Ou Ella. Morreu há seis anos. Fui dono de tantos escravos, Vossa Graça.
    Digamos que era Elza. Eis a nossa decisão. Das meninas, não obterá nada. Foi Elza, não você, quem lhes ensinou a tecer. De ti, as moças obterão um tear novo, o melhor que o dinheiro possa comprar. Isto é por se esquecer do nome da velha.
    Reznak teria chamado em seguida outro tokar, mas Dany insistiu para que chamasse um liberto. Daí em diante foi alternando entre os antigos amos e os antigos escravos. Eram mais do que muitos os assuntos que eram trazidos à sua consideração envolvendo reparações. Meereen fora brutalmente saqueada depois da queda. As pirâmides de degraus dos poderosos haviam sido poupadas ao pior das pilhagens, mas as partes mais humildes da cidade tinham sido entregues a uma orgia de saque e morte quando os escravos da cidade se revoltaram e as hordas esfomeadas que a seguiram desde Yunkai e Astapor jorraram através dos portões quebrados. Os seus Imaculados tinham acabado por restaurar a ordem,

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    Re: A dança dos dragões

    Mensagem  Admin em Qua Jul 11, 2012 11:16 am

    mas o saque deixara na sua esteira uma praga de problemas. E por esse motivo, eles vinham falar com a rainha.
    Apareceu uma mulher rica, cujo marido e filhos tinham morrido defendendo as muralhas da cidade. Durante o saque fugira para junto do irmão, com medo. Quando regressara, descobrira que a sua casa fora transformada num bordel. As rameiras tinham-se adornado com as suas joias e roupas. Queria a casa de volta e as joias também.
    — Elas podem ficar com a roupa — concedeu. Dany atribuiu-lhe as joias, mas determinou que a casa foi perdida quando ela a abandonara.
    Apareceu um antigo escravo, para acusar certo nobre do Zhak. O homem tomara recentemente como esposa uma liberta que fora a aquecedora de cama do nobre antes de a cidade cair. O nobre tirara-lhe a virgindade, usara-a para seu prazer e deixara-a grávida. O novo marido queria que o nobre fosse castrado pelo crime de violação, e desejava também uma bolsa de ouro, para lhe pagar por criar o bastardo do nobre como seu. Dany concedeu-lhe o ouro, mas não a castração.
    — Quando se deitou com ela, a sua mulher era propriedade dele, para fazer com ela o que quisesse. Por lei, não houve qualquer violação. — Dany viu que a decisão não agradou ao homem, mas se castrasse todos os que tinham forçado uma criada de cama depressa se veria a governar uma cidade de eunucos.
    Apareceu um rapaz, mais novo do que Dany, franzino e com cicatrizes, vestido com um tokar cinzento e puído que arrastava uma fímbria de prata. A voz se quebrou quando falou de como dois dos escravos domésticos do pai tinham se revoltado na noite em que o portão se quebrara. Um matara-lhe o pai, o outro o irmão mais velho. Ambos tinham violado a mãe antes de a matarem também. O rapaz escapara apenas com a cicatriz na cara, mas um dos assassinos continuava a viver na casa do pai e o outro se juntara aos soldados da rainha como um dos Homens da Mãe. Queria vê-los a ambos enforcados.
    Sou rainha de uma cidade feita de poeira e morte. Dany não teve alter-nativa a dizer-lhe que não. Declarara um perdão geral para todos os crimes cometidos durante o saque. E não iria punir escravos por se revoltarem contra os seus amos.
    Quando lhe disse, o rapaz correu para ela, mas, aos seus pés, tropeçou no tokar e estatelou-se de cabeça sobre o mármore púrpura… Belwas, o Forte, caiu imediatamente sobre ele. O enorme eunuco castanho o pôs em pé só com uma mão e sacudiu-o como um mastim a sacudir uma ratazana.

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    Re: A dança dos dragões

    Mensagem  Admin em Qua Jul 11, 2012 11:16 am

    — Basta, Belwas — gritou Dany. — Liberte-o. — Ao rapaz, disse: —Estima esse tokar, porque te salvou a vida. Não passa de um rapaz, portanto, vamos esquecer o que aconteceu aqui. Devia fazer o mesmo. — Mas ao sair, o rapaz olhou-a por sobre o ombro, e quando lhe viu os olhos, Dany pensou: a harpia tem mais um filho.
    Ao meio-dia, Daenerys já sentia o peso da coroa na cabeça e a dureza do banco sob o corpo. Com tantas pessoas ainda aguardando a sua vontade, não parou para comer. Mandou Jhiqui trazer das cozinhas uma bandeja de pão folha, azeitonas, figos e queijo. Foi mordiscando enquanto escutava, bebendo de uma taça de vinho aguado. Os figos eram bons, as azeitonas ainda melhores, mas o vinho deixou-lhe um amargor metálico na boca. As uvas pequenas e de um amarelo claro, nativas daquelas regiões, produziam colheitas de qualidade notavelmente inferior. Teremos de fazer comércio de vinho. Além do mais, os Grandes Mestres tinham queimado os melhores pomares quando queimaram as oliveiras.
    À tarde, apareceu um escultor, propondo substituir a cabeça da grande harpia de bronze na Praça da Purificação por outra moldada à imagem de Dany. Ela negou com o máximo de cortesia que conseguiu reunir. Um lúcio de um tamanho sem precedentes fora apanhado no Skahazadhan, e o pescador desejava oferecê-lo à rainha. Dany admirou o peixe com extravagância, recompensou o pescador com uma bolsa de prata e mandou o lúcio para as cozinhas. Um caldeireiro fizera-lhe uma armadura de anéis polidos para levar para a guerra. Aceitou-o com agradecimentos exagerados; era magnífico de contemplar, e todo aquele cobre polido relampejaria lindamente ao sol, embora preferisse estar vestida de aço se houvesse real ameaça de batalha. Até uma menininha que nada sabia dos usos da guerra sabia isso.
    Os chinelos que o Rei Carniceiro lhe enviara tinham-se tornado muito desconfortáveis. Dany descalçou-os com um pontapé, e sentou-se com um pé aconchegado debaixo do seu corpo e o outro bandeando para frente e para trás. Não era uma pose lá muito régia, mas estava farta de ser régia. A coroa deixara-a com dor de cabeça, e as nádegas tinham-se-lhe adormecido.
    — Sor Barristan — chamou — sei de que qualidade um rei mais precisa.
    — Coragem, Vossa Graça?
    — Nádegas de ferro — brincou. — Não faço nada a não ser sentar-me.

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    Re: A dança dos dragões

    Mensagem  Admin em Qua Jul 11, 2012 11:17 am

    — Vossa Graça chama muita responsabilidade a si. Deveria permitir que os seus conselheiros partilhassem mais os seus fardos.
    — Tenho conselheiros de mais e almofadas de menos. — Dany virou-se para Reznak. — Quantos faltam?
    — Vinte e três, se agradar a Vossa Magnificência. Com igual número de reclamações. — O senescal consultou uns papéis. — Um vitelo e três cabras. O resto há de ser ovelhas ou carneiros, sem dúvida.
    — Vinte e três. — Dany suspirou. — Os meus dragões desenvolveram um gosto prodigioso por carneiro desde que começamos a pagar aos pastores por aquilo que matam. Essas reclamações foram provadas?
    — Alguns homens trouxeram ossos queimados.
    — Os homens fazem fogueiras. Os homens cozinham carneiro. Ossos queimados nada provam. O Ben Castanho diz que há lobos vermelhos nas colinas fora da cidade, bem como chacais e cães selvagens. Teremos de pagar boa prata por todos os carneiros que se perdem entre Yunkai e o Skahazadhan?
    — Não, Magnificência. — Reznak fez uma mesura. — Devo mandar estes patifes embora, ou quer vê-los açoitados? Daenerys mexeu-se no banco.
    — Nenhum homem deverá alguma vez ter medo de vir falar comigo.
    Não duvidava de que algumas reclamações seriam falsas, mas as genuínas seriam mais. Os dragões tinham crescido muito para se contentarem com ratazanas, gatos e cães. Quanto mais comerem, maiores ficarão, avisara Sor Barristan, e quanto maiores ficarem, mais comerão. Drogon, em particular, vagueava até bastante longe e podia facilmente devorar uma ovelha por dia. — Pague-lhes o valor dos seus animais — disse a Reznak —mas os reclamantes terão de se apresentar no Templo das Graças e prestar um juramento sagrado perante os deuses de Ghis.
    — Assim será feito. — Reznak virou-se para os peticionários. — Sua Magnificência, a Rainha, consentiu em compensar cada um de vocês pelos animais que perderam — disse-lhes, na língua ghiscariana. — Apresentem-se amanhã aos meus agentes, e serão pagos em dinheiro ou em gêneros, como preferirem.
    A proclamação foi recebida num silêncio carrancudo. Julgaria que eles ficariam mais contentes, pensou Dany. Obtiveram o que vieram buscar. Não haverá maneira de agradar a essa gente?
    Um homem deixou-se ficar para trás enquanto os outros enfileiravam para sair; um homem atarracado com uma cara queimada pelo vento,

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    Re: A dança dos dragões

    Mensagem  Admin em Qua Jul 11, 2012 11:17 am

    esfarrapadamente vestido. O seu cabelo era um barrete de ásperos fios negros arruivados, cortado em volta das orelhas, e segurava numa mão um saco de pano miserável. Mantinha-se de cabeça baixa, fitando o chão de mármore como se tivesse se esquecido de onde estava. E o que quer esse? Perguntou-se Dany.
    — Ajoelhem todos para Daenerys Filha da Tormenta, a Não-Queima-da, Rainha de Meereen, Rainha dos Ândalos e dos Roinares e dos Primeiros Homens, Khaleesi do Grande Mar de Erva, Quebradora de Correntes e Mãe de Dragões. — gritou Missandei na sua voz aguda e suave.
    Quando Dany se pôs em pé, o seu tokar começou a deslizar. Apanhou-o e voltou a pô-lo no lugar.
    — Você com o saco — chamou — queria falar conosco? Podes aproximar-te.
    Quando ele ergueu a cabeça, tinha os olhos vermelhos e em carne viva como chagas abertas. Dany vislumbrou Sor Barristan deslizando para mais perto, uma sombra branca a seu lado. O homem aproximou-se arrastando os pés como quem tropeça, um passo e depois outro, agarrando-se ao saco. Estará bêbado ou doente? Perguntou-se. Havia terra por baixo das unhas rachadas e amarelas do homem.
    — O que é? — perguntou Dany. — Tem alguma injustiça para nos apresentar, alguma petição a fazer? O que quer de nós?
    A língua do homem passou nervosamente por lábios gretados e es-talados.
    — Eu… eu trouxe…
    — Ossos? — disse ela com impaciência. — Ossos queimados? Ele ergueu o saco e derramou o seu conteúdo no mármore. E eram ossos, ossos partidos e enegrecidos. Os mais longos tinham sido partidos para a obtenção da medula.
    — Foi o preto — disse o homem, com um rosnado ghiscariano — a sombra alada. Desceu do céu e… e… Não. Dany estremeceu. Não, não, oh não.
    — Estás surdo, palerma? — perguntou Reznak mo Reznak ao homem. — Não ouviu a minha proclamação? Apresenta-se amanhã aos meus agentes e as ovelhas lhes serão pagas.
    — Reznak — disse Sor Barristan em voz baixa — domine a língua e abre os olhos. Aquilo não são ossos de ovelha. Pois não, pensou Dany, aquilo são os ossos de uma criança.

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    Jon 62

    Mensagem  Admin em Qua Jul 11, 2012 12:02 pm

    Jon 62




    O lobo branco corria através de uma floresta negra, sob um penhasco branco tão alto como o céu. A lua corria com ele deslizando através de um emaranhado de ramos nus por cima da sua cabeça, no céu estrelado.
    — Snow — murmurou a Lua. O lobo não deu resposta. A neve rangia sob as suas patas. O vento suspirava por entre as árvores.
    À distância, conseguia ouvir os seus companheiros de alcateia o chamando, de igual para igual. Também andavam a caça. Uma violenta chuva castigava o irmão negro enquanto ele dilacerava a carne de uma enorme cabra, lavando o sangue do seu flanco onde o longo chifre da cabra o rasgara. Noutro local, a irmãzinha erguia a cabeça para cantar à Lua, e uma centena de pequenos primos cinzentos interrompia a caçada para cantar com ela. As colinas eram mais quentes onde eles se encontravam, e estavam cheias de comida. Muitas eram as noites em que a alcateia da irmã se empanturrava com a carne de ovelhas, vacas e cavalos, as presas dos homens, e às vezes até com a carne do próprio homem.
    — Snow — voltou a Lua a chamar, casquinando. O lobo branco avançou ao longo do trilho de homem por baixo do penhasco branco. Tinha sabor de sangue na língua, e os ouvidos ressoavam com a canção dos cem primos. Em tempos tinham sido seis, cinco a ganir, cegos, na neve junto da mãe morta, enquanto ele se afastara sozinho. Restavam quatro… e um deles o lobo branco deixara de conseguir detectar.
    — Snow — insistiu a Lua.
    O lobo branco fugiu dela, correndo na direção da gruta da noite onde o Sol se escondera, com a respiração gelando no ar. Em noites sem estrelas, o grande penhasco era tão negro como pedra, uma escuridão quese erguia bem alto acima do vasto mundo, mas quando a Lua emergia cintilava branco e gélido como um ribeiro congelado. A pelagem do lobo era grossa e expessa, mas quando o vento soprava ao longo do gelo não havia pelos capazes de manter o frio afastado. O lobo sentia que do outro lado o vento era ainda mais frio. Era alí que estava o irmão, o irmão cinzento que cheirava a verão.
    — Snow. — Um pingente caiu de um ramo. O lobo branco virou-se e descobriu os dentes — Snow! — a sua pelagem ergueu-se, eriçada, enquanto a floresta se dissolvia à volta. — Snow, snow, snow! — Ouviu o bater de asas. Através das sombras um corvo voou.

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    Re: A dança dos dragões

    Mensagem  Admin em Qua Jul 11, 2012 12:03 pm

    Aterrou no peito de Jon Snow com estrondo e um raspar de garras.
    — SNOW! — gritou-lhe na cara.
    — Estou te ouvindo. — O quarto estava escuro, a sua enxergadura. Uma luz cinzenta infiltrava-se através das janelas, prometendo outro dia lúgubre e frio. — Era assim que acordava o Mormont? Tire as penas da minha cara. — Jon contorceu um braço para fora das mantas para enxotar o corvo. Era um pássaro grande, velho, ousado e com mau aspeto, totalmente desprovido de medo.
    — Snow — gritou, esvoaçando até o poste da cama. — Snow, snow.
    — Jon encheu o punho com uma almofada e arremessou-a, mas a ave levantou voo. A almofada atingiu a parede e arrebentou, espalhando enchimento por todo o lado no preciso momento em que a cabeça de Edd Tollett assomava na porta.
    — Perdão — disse, ignorando a confusão de penas — devo ir buscar um pouco de desjejum para o senhor?
    — Grão — gritou o corvo. — Grão, grão.
    — Corvo assado — sugeriu Jon. — E meio quartilho de cerveja. —Ter um intendente para lhe ir buscar coisas e o servir ainda lhe parecia estranho; não havia muito tempo, teria sido ele a buscar o desjejum para o Senhor Comandante Mormont.
    — Três grãos e um corvo assado — disse o Edd Doloroso. — Muito bem, senhor, só que Hobb fez ovos cozidos, morcela e maçãs estufadas com ameixas secas. As maçãs estufadas com ameixas estão excelentes, à parte as ameixas. Eu não como ameixas secas. Bem, houve uma vez que Hobb as cortou com castanhas e cenouras e as escondeu numa galinha. Nunca confie num cozinheiro, senhor. Deixam você engalinhado quando menos esperar. — Mais tarde. — O desjejum podia esperar; Stannis não. —Algum problema nas paliçadas ontem à noite?
    — Desde que pusemos guardas guardando os guardas não há proble-mas, senhor.
    — Ótimo. — Mil selvagens tinham sido encurralados do lado de lá da Muralha, os cativos que Stannis Baratheon fizera quando os seus cavaleiros esmagaram a hoste em retalhos de Mance Rayder. Muitos dos prisioneiros eram mulheres, e alguns dos guardas tinham andado fazendo-as sair sorrateiramente para lhes aquecerem as camas. Homens do rei, homens da rainha, não parecia

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    Re: A dança dos dragões

    Mensagem  Admin em Qua Jul 11, 2012 12:03 pm

    fazer diferença; alguns irmãos negros tinham tentado o mesmo. Homens são homens, e aquelas eram as únicas mulheres em mil léguas.
    — Apareceram mais dois selvagens para se renderem — prosseguiu Edd. — Uma mãe com uma criança agarrada às saias. Tinha também um bebê, todo enfaixado em peles, mas estava morto.
    — Morto — disse o corvo. Era umas das palavras favoritas da ave. —Morto, morto, morto.
    Aparecia do povo livre quase todas as noites, criaturas esfaimadas e meio congeladas que tinham fugido da batalha junto à Muralha só para rasteja-rem de volta depois de perceberem de que não havia lugar seguro para onde fugir.
    A mãe foi interrogada? — perguntou Jon. Stannis Baratheon tinha esmagado a hoste de Mance Rayder e tornara o Rei-para-lá-da-Muralha seu cativo… mas os selvagens continuavam lá fora, Chorão, e Tormund Terror dos Gigantes e milhares de outros.
    Sim, senhor — disse Edd — mas só sabe que fugiu durante a batalha e se escondeu depois na floresta. A enchemos de papas de aveia, a mandamos para os currais e queimamos o bebê.
    Queimar crianças mortas já deixara de perturbar Jon Snow; as vivas eram outra coisa. Dois reis para despertar o dragão. Primeiro o pai e depois o filho, para que ambos morram reis. As palavras tinham sido murmuradas por um dos homens da rainha enquanto o Meistre Aemon lhe costurava os ferimentos. Jon tentara ignorá-las julgando-as conversa febril. Aemon se contrapôs.
    — Há poder no sangue de um rei — avisara o velho meistre — e homens melhores do que Stannis fizeram coisas piores do que esta. — O rei pode ser duro e implacável, sim, mas um bebê ainda de peito? Só um monstro entregaria às chamas uma criança viva.
    Jon mijou na escuridão, enchendo o penico enquanto o corvo do Velho Urso resmungava queixas. Os sonhos de lobo tinham andado se tornando mais fortes, e dava por si a se lembrar deles mesmo acordado. Fantasma sabe que o Vento Cinzento está morto. Robb morrera nas Gêmeas, traído por homens que julgava amigos, e o seu lobo perecera com ele. Bran e Rickon tinham também sido assassinados, decapitados por ordem de Theon Greyjoy, que fora em tempos protegido do senhor seu pai… mas seus sonhos não mentiam, os lobos selvagens de ambos tinham escapado. Em Coroadarrainha, um deles saíra das trevas para salvar a vida de Jon. Tinha de ter sido Verão. A sua pelagem era cinzenta, e a de

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    Re: A dança dos dragões

    Mensagem  Admin em Qua Jul 11, 2012 12:03 pm

    Cão-Felpudo é preta. Perguntou-se alguma parte dos seus irmãos mortos continuaria a viver dentro dos respetivos lobos.
    Encheu a bacia a partir do jarro de água que tinha ao lado da cama, lavou a cara e as mãos, vestiu um conjunto limpo de lãs negras, atou um justilho negro de couro e calçou um par de botas bem usadas. O corvo de Mormont observou com astutos olhos negros, após o que esvoaçou até à janela.
    — Me toma por seu servo? — quando Jon abriu a janela com as grossas vidraças em forma de diamante de vidro amarelo, o frio da manhã baseu-lhe no rosto. Respirou fundo para afastar as teias de aranha da noite enquanto o corvo batia as asas e se afastava. Aquela ave é muito mais esperta do que deveria ser. Foi o companheiro do Velho Urso durante longos anos, mas isso não o impedira de comer o rosto de Mormont quando este morrera.
    Fora do seu quarto, um lance de escadas descia até uma sala maior mobilada com uma mesa de pinho cheia de marcas e uma dúzia de cadeiras de carvalho e couro. Com Stannis na Torre do Rei e a Torre do Senhor Comandante transformada numa casca por um incêndio, Jon instalara-se nos modestos aposentos de Donal Noye por trás do armeiro. A seu tempo, sem dúvida, precisaria de instalações maiores, mas de momento aquelas serviriam, enquanto se acostumava ao comando.
    A outorga que o rei lhe apresentara para assinar estava na mesa por baixo de uma taça de prata que fora em tempos de Donal Noye. O ferreiro maneta deixara poucos objetos pessoais: a taça, seis dinheiros e uma estrela de cobre, um broche de nigelo com o pregador partido, um gibão mofado de brocado que ostentava o veado de Ponta Tempestade. Os tesouros dele eram as ferramentas e as espadas e facas que fazia. A sua vida residia na forja. Jon pôs a taça de lado e voltou a ler o pergaminho. Se eu apuser o meu selo a isto, serei para sempre lembrado como o senhor comandante que entregou a Muralha, pensou, mas se recusar…
    Stannis Baratheon estava mostrando-se um hóspede suscetível e irrequieto. Cavalgara pela estrada do rei quase até Coroadarrainha, passeara por entre as cabanas vazias de Vila Toupeira, inspecionara os fortes arruinados de Portão da Rainha e Escudorroble. Todas as noites caminhava pelo topo da Muralha com a Senhora Melisandre, e durante os dias visitava as paliçadas, escolhendo cativos para a mulher vermelha interrogar. Ele não gosta de ser contrariado. Aquela não seria uma manhã agradável, temeu Jon.

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    Re: A dança dos dragões

    Mensagem  Admin em Qua Jul 11, 2012 12:03 pm

    Do armeiro vinha um retinir de escudos e espadas feito pelo último grupo de rapazes e recrutas que se armava. Jon ouviu a voz do Emmett de Ferro dizendo-lhes para se despacharem. Cotter Pyke não ficara satisfeito por perdê-lo, mas o jovem patrulheiro tinha um dom para treinar homens. Ele adora combater, e irá ensinar os seus rapazes a gostar também. Pelo menos era a esperança que tinha.
    O manto de Jon estava pendurado de uma cavilha ao lado da porta, o cinturão da espada de outra. Envergou-os a ambos e saiu para o armeiro. Viu que o tapete em que Fantasma dormia estava vazio. Dois guardas estavam à porta, do lado de dentro, vestidos com mantos pretos e meios elmos de ferro, com lanças nas mãos.
    — O senhor vai querer uma escolta? — perguntou Garse.
    — Acho que consigo encontrar a Torre do Rei sozinho. — Jon detestava ter guardas seguindo-o para onde quer que fosse. Fazia-o se sentir como uma mãe pata levando atrás uma procissão de patinhos.
    Os rapazes do Emmett de Ferro estavam em plena atividade no pátio, atirando espadas embotadas contra escudos e fazendo-as ressoar umas nas outras. Jon parou para observar no momento em que o Cavalo empurrava o Pisco-Saltitão para o poço. Decidiu que o Cavalo tinha as características de um bom combatente. Era forte e estava tornando-se mais forte, e os seus instintos eram bons. O Pisco-Saltitão era outra história. O pé aleijado já era suficientemente mau, mas, além disso, também tinha medo de ser atingido. Talvez consigamos fazer dele um intendente. O combate terminou de forma abrupta, com o Pisco-Saltitão no chão.
    — Boa luta — disse Jon ao Cavalo — mas abaixa muito o escudo quando pressiona no ataque. Vai querer corrigir isso, senão é provável que isso lhe mate.
    — Sim, senhor. Da próxima vez mantenho-o mais alto. — Cavalo pôs Pisco-Saltitão de pé, e o homem menor fez uma mesura desajeitada.
    Alguns dos cavaleiros de Stannis estavam praticando do outro lado do pátio. Homens do rei num canto e homens da rainha no outro, não deixou Jon de notar, mas só alguns. Está frio demais para a maioria. Enquanto passava por eles a passos largos, uma voz trovejante chamou-o.
    — RAPAZ! VOCÊ AÍ! RAPAZ!
    ―Rapaz‖ não era a pior das coisas que tinham chamado Jon Snow desde que fora escolhido como senhor comandante. Ignorou-o.

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    Re: A dança dos dragões

    Mensagem  Admin em Qua Jul 11, 2012 12:03 pm

    — Snow — insistiu a voz — Senhor Comandante. Desta vez parou.
    — Sor? O cavaleiro era quinze centímetros mais alto do que ele.
    — Um homem que anda com aço valiriano devia usá-lo para mais do que coçar o cu.
    Jon já vira aquele tipo no castelo; um cavaleiro de grande renome, segundo ele próprio contava. Durante a batalha à sombra da Muralha, Sor Godry Ferring matara um gigante em fuga, atacando-o a cavalo e enfiando-lhe uma lança nas costas, desmontando em seguida para cortar a cabeça lamentavelmente pequena da criatura. Os homens da rainha tinham começado a chamar-lhe Godry, o Mata-Gigantes.
    Jon lembrou-se de Ygritte, gritando. Sou o último dos gigantes.
    — Uso a Garralonga quando tenho de usá-la, sor.
    — Mas com que perícia? — Sor Godry puxou pela sua espada. —Mostre-nos. Prometo não te magoar, rapaz.
    Que gentil da tua parte.
    — Outra hora, sor. Temo que tenha outros deveres a cumprir neste momento.
    — Temes. Estou vendo que sim. — Sor Godry dirigiu um sorriso aos amigos. — Ele teme — repetiu para os lentos.
    — Com licença. — Jon mostrou-lhes as costas.
    Castelo Negro parecia um lugar desolado e abandonado à pálida luz da aurora. O meu comando, refletiu Jon Snow com tristeza, é tanto ruína como fortificação. A Torre do Senhor Comandante era uma casca, a Sala Comum uma pilha de madeira enegrecida, e a Torre de Hardin parecia poder ser derrubada pela próxima rajada de vento… embora tivesse esse aspeto há anos. Por trás erguia-se a Muralha: imensa, ameaçadora, frígida, cheia de construtores que faziam subir uma nova escada em ziguezague para ir se juntar aos restos da antiga. Trabalhavam da aurora ao ocaso. Sem a escada não havia maneira de chegar ao topo da Muralha, exceto através do guincho. Não seria suficiente se os selvagens voltassem a atacar.
    Por cima da Torre do Rei, o grande estandarte de batalha dourado da Casa Baratheon estalava como um chicote do telhado que Jon Snow patrulhara de arco na mão não havia muito tempo, matando Thenns e membros do povo livre ao lado de Cetim e do Surdo Dick Follard. Dois homens da rainha estavam em pé, tremendo, nas escadas, com as mãos enfiadas nos sovacos e as lanças encostadas à porta.

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    Re: A dança dos dragões

    Mensagem  Admin em Qua Jul 11, 2012 12:04 pm

    — Essas luvas de tecido nunca servirão — disse-lhes Jon. — Procurem Bowen Marsh amanhã, e ele dará a cada um de vocês um par de luvas de couro forradas de pele.
    — Procuraremos senhor, e obrigado — disse o guarda mais velho.
    — Isso se a porcaria das nossas mãos não tiver congelado até lá — acrescentou o mais novo, com a respiração transformada numa névoa pálida. — Costumava pensar que na Marca de Dorne fazia frio. Que sabia eu?
    Nada, pensou Jon Snow, tal como eu. Na metade da subida pela escada em caracol encontrou Samwell Tarly, que a descia.
    — Veio de falar com o rei? — perguntou-lhe Jon.
    — O Meistre Aemon enviou-me com uma carta.
    — Estou vendo. — Alguns senhores confiavam nos meistres para lhes lerem as cartas e transmitirem-lhes os respetivos conteúdos, mas Stannis insistia em quebrar pessoalmente os selos. — Como foi que Stannis a encarou?
    — Não com alegria, ajuizando pela cara que fez. — Sam baixou a voz até a transformar num sussurro. — Não devo falar do assunto.
    — Então não fale. — Jon perguntou-se qual dos vassalos do pai teria recusado jurar obediência ao Rei Stannis daquela vez. Ele foi bastante rápido em espalhar a notícia quando Karhold lhe declarou o seu apoio. — Como está você a atirar com o seu arco?
    — Encontrei um bom livro sobre o tiro com arco. — Sam franziu o sobrolho. — Mas fazê-lo é mais difícil do que ler sobre o assunto. Fico com bolhas nas mãos.
    — Insista. Podemos vir a precisar do seu arco na Muralha se os Outros aparecerem alguma noite escura.
    — Oh, espero que não. Mais guardas estavam à porta do aposento privado do rei.— Não são permitidas armas na presença de Vossa Graça, senhor — disse o sargento. — Vou querer essa espada. As facas também. — Jon sabia que de nada serviria protestar. Entregou-lhes as suas armas.
    No interior do aposento privado, o ar estava quente. A Senhora Melisandre estava sentada junto da lareira, com o rubi cintilando contra a pele pálida da sua garganta. Ygritte fora beijada pelo fogo; a sacerdotisa vermelha era fogo, e o seu cabelo era sangue e chamas. Stannis estava em pé atrás da mesa tosca onde o Velho Urso costumava sentar-se e tomar as refeições. Um grande mapa do norte cobria a mesa, pintado num bocado esfarrapado de pele. Uma vela

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    Re: A dança dos dragões

    Mensagem  Admin em Qua Jul 11, 2012 12:04 pm

    de sebo prendia com o seu peso uma ponta do mapa, uma manopla de aço a outra.
    O rei usava calças de lã de ovelha e um gibão acolchoado, mas conseguia de algum modo parecer tão rígido e desconfortável como se estivesse vestido de cota de malha e placa de aço. A sua pele era couro branco, a barba estava cortada tão curta que podia ter sido pintada. Uma orla em volta das têmporas era tudo o que restava do cabelo negro. Na mão tinha um pergaminho com um selo quebrado de cera verde escura.
    Jon caiu sobre um joelho. O rei franziu-lhe o sobrolho e sacudiu o pergaminho com um ar zangado.
    — Ergua-se. Diga-me, quem é Lyanna Mormont?
    — Uma das filhas da Senhora Maege. Senhor. A mais nova. Recebeu o nome em honra da irmã do senhor meu pai.
    — Para procurar captar as boas graças do senhor seu pai, sem dúvida. Sei como se joga esse jogo. Que idade tem esta maldita menina? Jon teve de pensar por um momento.
    — Dez anos. Ou tão perto disso que não faz diferença. Posso saber como foi que ela ofendeu Vossa Graça? Stannis leu um trecho da carta.
    — A Ilha dos Ursos não conhece nenhum rei, exceto o Rei no Norte, cujo nome é STARK. Uma menina de dez anos, você diz, e ousa ralhar com o seu legítimo rei. — A barba cortada curta estendia-se como uma sombra por cima das suas bochechas encovadas. — Assegure-se de guardar para você estas notícias, Lorde Snow. Karhold está comigo, isso é tudo o que os homens precisam saber. Não quero que os seus irmãos troquem histórias sobre como esta criança cuspiu em mim.
    — Às suas ordens, senhor. — Jon sabia que Maege Mormont partira para sul com Robb. A filha mais velha juntara-se também à hoste do Jovem Lobo. Contudo, mesmo que ambas tivessem morrido, a Senhora Maege tinha outras filhas, algumas com filhos seus. Teriam elas também ido com Robb? Decerto que a Senhora Maege teria deixado para trás pelo menos uma das filhas mais velhas como castelã. Não compreendia porque haveria Lyanna de estar escrevendo a Stannis, e não conseguia evitar interrogar-se sobre se a resposta da menina poderia ter sido diferente se a carta tivesse sido selada com um lobo gigante em vez de um veado coroado, e assinada por Jon Stark, Senhor de Winterfell. É tarde demais para tais dúvidas. Fizera a sua escolha.

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    Re: A dança dos dragões

    Mensagem  Admin em Qua Jul 11, 2012 12:04 pm

    — Foram enviadas duas vintenas de corvos — queixou-se o rei — mas não obtemos respostas que não sejam silêncio e desafio. A obediência é o dever e todos os súditos leais para com o seu rei. Mas todos os vassalos do seu pai me viram as costas, à exceção dos Karstark. Será Arnolf Karstark o único homem de honra no norte?
    — Arnolf Karstark era tio do falecido Lorde Rickard. Fora nomeado castelão de Karhold quando o sobrinho e os filhos partiram para sul com Robb, e foi o primeiro a responder à exigência de obediência do Rei Stannis, com um corvo declarando a sua submissão. Os Karstark não têm alternativa, podia ter dito Jon. Rickard Karstark traíra o lobo gigante e derramara o sangue de leões. O veado era a única esperança de Karhold.
    — Em tempos tão confusos como estes, até os homens de honra têm de se perguntar em que reside o seu dever. Vossa Graça não é o único rei no reino a exigir obediência. A Senhora Melisandre mexeu-se.
    — Diga-me, Lorde Snow… onde estavam esses outros reis quando a gente selvagem atacou a sua Muralha?
    — A mil léguas de distância e surdos para as nossas necessidades — respondeu Jon. — Não me esqueci disso, senhora. Nem esquecerei. Mas os vassalos do meu pai têm esposas e filhos para proteger, e plebeus que morrerão se eles fizerem a escolha errada. Vossa Graça pede-lhes muito. Dai-lhes tempo, e obterá as suas respostas.
    — Respostas como esta? — Stannis esmagou a carta de Lyanna no punho.
    — Até no norte os homens temem a ira de Tywin Lannister. Os Bolton também dão maus inimigos. Não foi o acaso que lhes pôs um homem esfolado nos estandartes. O norte cavalgou com Robb, sangrou com ele, morreu por ele. Jantaram desgosto e morte, e agora você vem lhes oferecer mais do mesmo. Censura-os por se mostrarem relutantes? Perdoe-me, Vossa Graça, mas alguns olharão para você e verão apenas outro pretendente condenado ao fracasso.
    — Se Sua Graça está condenado, o seu reino também está condenado — disse a Senhora Melisandre. — Lembre-se disso, Lorde Snow. É o único verdadeiro rei de Westeros que está na sua frente. Jon manteve a cara numa máscara.
    — É como diz, senhora.
    Stannis soltou uma fungada.

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    Re: A dança dos dragões

    Mensagem  Admin em Qua Jul 11, 2012 12:05 pm

    — Gasta as suas palavras como se cada uma fosse um dragão de ouro. Interrogo-me sobre quanto ouro tereis posto de parte.
    — Ouro? — Serão esses os dragões que a mulher vermelha pretende despertar? Dragões feitos de ouro? — os impostos que recolhemos são pagos em gêneros, Vossa Graça. A Patrulha é rica em nabos, mas pobre em moedas.
    — Não é provável que nabos apaziguem Salladhor Saan. Preciso de ouro ou prata.
    — Para isso precisa de Porto Branco. A cidade não pode se comparar com Vilavelha ou Porto Real, mas é, mesmo assim, um porto próspero. O Lorde Manderly é o mais rico dos vassalos do senhor meu pai.
    — O Lorde Gordo-Demais-Para-Montar-a-Cavalo. — A carta que Lorde Wyman Manderly enviara de Porto Branco falara da sua idade e debilidade e de pouco mais. Stannis ordenara a Jon para também não falar dessa.
    — Talvez sua senhoria goste de uma esposa selvagem — disse a Se-nhora Melisandre. — Esse gordo é casado, Lorde Snow?
    — A senhora sua esposa está há muito morta. O Lorde Wyman tem dois filhos adultos e netos, filhos do mais velho. E é gordo demais para montar a cavalo, pelo menos duzentos quilos. Val nunca o aceitaria.
    — Por uma vez apenas, podia tentar dar-me uma resposta que me agradasse, Lorde Snow — resmungou o rei.
    — Tinha a esperança de que a verdade lhe agradasse, senhor. Os seus homens chamam princesa a Val, mas para o povo livre ela é apenas a irmã da esposa morta do seu rei. Se a forçar a casar com um homem que não deseja, é provável que lhe corte a garganta na noite de núpcias. Mesmo se aceitar o marido, isso não quer dizer que os selvagens a sigam, ou a você. O único homem que os pode ligar à sua causa é Mance Rayder.
    — Eu sei disso — disse Stannis com um ar infeliz. — Passei horas conversando com o homem. Ele sabe muitíssimo sobre o nosso verdadeiro inimigo, e há nele astúcia, admito. Mas mesmo se renunciasse à coroa, o homem continua a ser um perjuro. Se tolerar que um desertor viva, encorajarei outros a desertar. Não. As leis devem ser feitas de ferro, não de pudim. Mance Rayder perdeu o direito à vida por todas as leis dos Sete Reinos.
    — A lei termina na Muralha, Vossa Graça. Podia fazer bom uso de Mance.
    — Pretendo fazê-lo. Vou queimá-lo, e o norte verá como lido com vira-casacas e traidores. Tenho outros homens para liderar os selvagens. E tenho o

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    Re: A dança dos dragões

    Mensagem  Admin em Qua Jul 11, 2012 12:05 pm

    filho de Rayder, não se esqueça. Uma vez que o pai morra, a sua cria será Rei-para-lá-da-Muralha.
    — Vossa Graça engana-se. — Não sabe nada, Jon Snow, costumava dizer Ygritte, mas ele aprendera. — O bebê não é mais príncipe do que Val é princesa. Uma pessoa não se torna Rei-para-lá-da-Muralha por causa de quem era o seu pai.
    — Ótimo — disse Stannis — porque não tolerarei outros reis em Westeros. Assinou a outorga?
    — Não, Vossa Graça. — E aí vem. Jon fechou os dedos queimados e voltou a abri-los. — Pede muito.
    — Pedir? Eu lhe pedi para ser Senhor de Winterfell e Protetor do Norte. Exijo esses castelos.
    — Cedemos-lhe Fortenoite.
    — Ratazanas e ruínas. É um presente de avarento que nada custa a quem o dá. O seu próprio homem, Yarwyck, diz que levará meio ano até que o castelo possa ficar pronto para habitar.
    — Os outros fortes não estão em melhor estado.
    — Sei disso. Não importa. São tudo o que temos. Há dezenove fortes ao longo da Muralha, e tem homens apenas em três deles. Tenciono ter todos de novo guarnecidos antes de o ano acabar.
    — Não levanto qualquer objeção a isso, senhor, mas também se diz que pretende ceder esses castelos aos seus cavaleiros e senhores, para os defenderem como seus feudos enquanto vassalos de Vossa Graça.
    — Espera-se dos reis que sejam generosos para com os seus seguidores. Será que o Lorde Eddard não ensinou nada ao seu bastardo? Muitos dos meus cavaleiros e senhores abandonaram terras ricas e castelos robustos no sul. Deverá a sua lealdade ficar por recompensar?
    — Se Vossa Graça desejar perder todos os vassalos do senhor meu pai, não há maneira mais certa do que dando palácios nortenhos a senhores do sul.
    — Como posso eu perder homens que não tenho? Se bem se lembra, tive a esperança de outorgar Winterfell a um nortenho. A um filho de Eddard Stark. Ele atirou-me a oferta à cara. — Stannis Baratheon com uma desfeita era como um mastim com um osso; roía-a até a fazer em lascas.
    — Pelo direito, Winterfell deve passar para a minha irmã Sansa.
    — Refere-se à Senhora Lannister? Está assim tão ansioso por ver o Duende empoleirado no cadeirão do seu pai? Prometo-lhe que tal coisa não

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    Re: A dança dos dragões

    Mensagem  Admin em Qua Jul 11, 2012 12:05 pm

    acontecerá enquanto eu for vivo, Lorde Snow. Jon sabia que não valia a pena insistir naquele ponto.
    — Senhor, alguns afirmam que pretende atribuir terras e castelos ao Camisa de Chocalho e ao Magnar de Thenn.
    — Quem lhe disse isso? O falatório ouvia-se em todo o Castelo Negro.
    — Se tem de saber, quem me contou a história foi Goiva.
    Quem é essa Goiva?
    — A ama-de-leite — disse a Senhora Melisandre. — Vossa Graça concedeu-lhe liberdade de castelo.
    — Mas não para andar contando histórias. Ela é desejada pelas tetas, não pela língua. Quero dela mais leite e menos mensagens. — Castelo Negro não tem falta de bocas inúteis — concordou Jon. —Vou mandar Goiva para sul no próximo navio partindo de Atalaialeste. Melisandre tocou o rubi que trazia ao pescoço.
    — Goiva tem dado de mamar não só ao seu filho, como ao de Dalla. Parece cruel da sua parte separar o nosso pequeno príncipe do seu irmão de leite, senhor.
    Agora cuidado, cuidado.
    — Tudo o que partilham é o leite materno. O filho de Goiva é maior e mais robusto. Distribui pontapés ao príncipe e o belisca e o afasta do seio. O pai dele foi Craster, um homem cruel e ganancioso, e o sangue se revela.
    O rei estava confuso.
    — Julgava que a ama-de-leite era filha desse tal Craster…
    — Era filha e esposa, Vossa Graça. Craster casava com todas as filhas. O filho de Goiva foi o fruto dessa união.
    Foi o próprio pai que gerou nela a criança? — Stannis parecia chocado. — Então é bom nos ver livres dela. Não tolerarei tais abominações aqui. Isto não é Porto Real.
    — Posso encontrar outra ama-de-leite. Se não houver nenhuma entre os selvagens, pedirei aos clãs da montanha. Até essa altura, o leite de cabra deverá ser suficiente para o rapaz, se agradar a Vossa Graça.
    — Pobre alimentação para um príncipe… mas melhor do que leite de rameira, sim. — Stannis fez tamborilar os dedos no mapa. — Se pudermos regressar à questão destes fortes…

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    Re: A dança dos dragões

    Mensagem  Admin em Qua Jul 11, 2012 12:05 pm

    — Vossa Graça — disse Jon, com gélida cortesia — eu abriguei os seus homens e alimentei-os, a um custo terrível para as nossas provisões de inverno. Vesti-os para não congelarem.
    Stannis não se mostrou apaziguado.
    — Sim, partilhaste o porco salgado e as papas de aveia, e atiraste-nos para cima uns trapos pretos para nos mantermos quentes. Trapos que os selvagens teriam tirado aos seus cadáveres se eu não tivesse vindo para norte.
    Jon ignorou aquilo.
    — Dei-lhes ração para os cavalos e, depois de a escada estar pronta, emprestarei lhes construtores para restaurar Fortenoite. Até concordei em lhe permitir instalar selvagens na Dádiva, que foi oferecida à Patrulha da Noite para todo o sempre.
    — Ofereceu-me terras vazias e desolações, nega-me os castelos de que preciso para recompensar os meus senhores e vassalos.
    — Foi a Patrulha da Noite que construiu esses castelos…
    — E foi a Patrulha da Noite que os abandonou.
    —… para defender a Muralha — concluiu obstinadamente Jon — não como sedes para senhores do sul. A argamassa que une as pedras desses fortes foi feita com o sangue e os ossos dos meus irmãos, há muito mortos. Não posso lhes dar.
    — Não pode ou não quer? — os tendões no pescoço do rei projetavam-se, aguçados como espadas. — Ofereci-lhe um nome.
    — Eu tenho um nome, Vossa Graça.
    — Snow. Terá alguma vez havido nome de pior agouro? — Stannis tocou o cabo da sua espada. — Quem, ao certo, julga você ser?
    — O vigilante nas muralhas. A espada na escuridão.
    — Não papagueie as suas palavras comigo. — Stannis puxou pela espada a que chamava Luminífera. — A sua espada na escuridão está aqui. — Luz ondulou ao longo da lâmina, para cima e para baixo, ora vermelha, ora amarela, logo cor de laranja, pintando a cara do rei com tonalidades duras e brilhantes. — Até um rapaz inexperiente devia ser capaz de ver isso. É cego?
    — Não, senhor. Concordo que esses castelos devem ser guarnecidos…
    — O rapaz comandante concorda. Que sorte.
    —… pela Patrulha da Noite.
    — Você não tem homens suficientes.

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    Re: A dança dos dragões

    Mensagem  Admin em Qua Jul 11, 2012 12:05 pm

    — Então me dê-os, senhor. Fornecerei oficiais para cada um dos fortes abandonados, comandantes experientes que conhecem a Muralha e as terras para lá dela, e como melhor sobreviver ao inverno que se aproxima. Em troca de tudo o que lhes demos, forneça-me os homens para preencher as guarnições. Homens-de-armas, besteiros, rapazes em bruto. Até aceitarei os seus feridos e enfermos.
    Stannis fitou-o, incrédulo, e depois soltou uma gargalhada.
    — É bastante ousado, Snow, reconheço, mas, se julga que os meus homens vão vestir o negro, está louco.
    — Podem vestir mantos das cores que preferirem desde que obedeçam aos meus oficiais como obedeceriam aos seus. O rei mostrou-se intransigente.
    — Tenho cavaleiros e senhores ao meu serviço, rebentos de Casas nobres antigas em honra. Não pode esperar-se deles que sirvam às ordens de larápios, camponeses e assassinos.
    Ou bastardos, senhor?
    — O seu próprio Mão é um contrabandista.
    — Era um contrabandista. Encurtei-lhe os dedos por isso. Disseram-me que é o nongentésimo nonagésimo oitavo homem a comandar a Patrulha da Noite, Lorde Snow. O que acha que o nongentésimo nonagésimo nono poderá dizer sobre esses castelos? A visão da sua cabeça num espigão pode inspirá-lo a ser mais prestável. — O rei pousou a brilhante espada no mapa, ao longo da muralha, com o aço tremeluzindo como luz do sol em água. — O único motivo por que é senhor comandante é eu tolerá-lo. Faria bem em se lembrar disso.
    — Eu sou senhor comandante porque os meus irmãos me escolheram. — Havia manhãs em que o próprio Jon Snow não acreditava bem no fato, quando acordava pensando que aquilo devia ser, sem dúvida, um sonho louco qualquer. É como vestir roupa nova, dissera-lhe Sam. A princípio o corte parece estranho, mas depois de usá-la durante algum tempo acaba por se sentir confortável.
    — Alliser Thorne queixa-se da forma da sua escolha, e não posso dizer que ele não tem razão de queixa. — O mapa estendia-se entre os dois como um campo de batalha, encharcado nas cores da espada cintilante. —A contagem foi feita por um cego com o seu amigo gordo a seu lado. E Slynt chama-o de vira-casaca.
    E quem o saberia melhor do que Slynt?
    — Um vira-casaca diria o que quer ouvir e o trairia mais tarde. Vossa Graça sabe que eu fui escolhido com justiça. O meu pai sempre disse que era um

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    Re: A dança dos dragões

    Mensagem  Admin em Qua Jul 11, 2012 12:06 pm

    homem justo. — Justo, mas rígido tinham sido as palavras exatas do Lorde Eddard, mas a Jon não parecia que fosse sensato partilhar esse fato.
    — Lorde Eddard não foi meu amigo, mas não era desprovido de algum juízo. Ele teria me dado esses castelos.
    Nunca.
    — Não posso falar do que o meu pai podia ter feito. Prestei um juramento, Vossa Graça. A Muralha é minha.
    — Por agora. Veremos o quão bem a defenderá. — Stannis apontou para ele. — Fique com as suas ruínas, visto que significam tanto para você. Mas prometo-lhe que se alguma continuar vazia quando o ano terminar, eu as ocuparei com a sua licença ou sem ela. E se alguma cair nas mãos do inimigo, a sua cabeça depressa a seguirá. E agora saia. A Senhora Melisandre ergueu-se do seu lugar junto da lareira.
    — Com a vossa licença, senhor, eu levo Lorde Snow até os seus aposentos.
    — Porquê? Ele conhece o caminho. — Stannis fez-lhes sinal para saírem os dois embora. — Faça o que quiser. Devan, comida. Ovos cozidos e água com limão. Após o calor do aposento privado do rei, a escada em caracol parecia fria de gelar ossos.
    — O vento está aumentando, senhora — avisou o sargento a Melisandre enquanto devolvia a Jon as suas armas. — Talvez queira um manto mais quente.
    — Tenho a minha fé para me aquecer. — A mulher vermelha caminhou ao lado de Jon pela escada abaixo. — Sua Graça está se tornando seu amigo.
    — Já reparei. Só ameaçou me decapitar por duas vezes. Melisandre riu.
    — São os seus silêncios que deve temer, não as palavras. — Quando saíram para o pátio, o vento inflou o manto de Jon e o fez esvoaçar contra a mulher. A sacerdotisa vermelha afastou a lã negra e enfiou o braço no dele. — Pode acontecer que não se enganaste sobre o rei selvagem. Rezarei ao Senhor da Luz para que me guie. Quando olho as chamas, consigo ver através da pedra e da terra, e descobrir a verdade no interior das almas dos homens. Consigo falar com reis há muito mortos e crianças ainda não nascidas, e ver os anos e as estações a passar, até ao fim dos dias.
    — Os seus fogos nunca se enganam?
    — Nunca… se bem que nós, os sacerdotes, sejamos mortais e por vezes erramos, confundido isto tem de acontecer com isto pode acontecer.

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    Re: A dança dos dragões

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