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    Parte 2 3 realm

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    Re: Parte 2 3 realm

    Mensagem  Admin em Qui Jun 14, 2012 3:28 pm

    Os portões da Fortaleza Vermelha estavam abertos, mas uma dúzia de homens de manto dourado armados com lanças cortavam o caminho. Baixaram as pontas quando Pernas-de-Aço se aproximou a trote, mas Jaime reconheceu o cavaleiro branco que os comandava.
    - Sor Meryn.
    Os olhos abatidos de Sor Meryn Trant esbugalharam-se.
    - Sor Jaime?
    - Como é bom ser reconhecido. Afaste estes homens.
    Passara-se muito tempo desde que alguém saltara para lhe obedecer tão depressa. Jaime tinha se esquecido de como gostava disso.
    Depararam com mais dois membros da Guarda Real no pátio exterior, dois homens que não usavam manto branco da última vez que Jaime ali servira. É tão típico de Cersei nomear-me Senhor Comandante e depois escolher meus colegas sem me consultar.
    - Vejo que alguém me deu dois novos irmãos - disse ao desmontar,
    - Temos essa honra, sor, - O Cavaleiro das Flores brilhava, tão perfeito e puro em suas escamas e seda brancas que Jaime se sentiu uma coisa esfarrapada e barata por contraste.
    Jaime virou-se para Meryn Trant.
    - Sor, desleixou-se em ensinar os deveres aos nossos novos irmãos,
    - Que deveres? - disse Meryn Trant num tom defensivo.
    - Manter o rei vivo. Quantos monarcas perderam desde que deixei a cidade? Dois, não foi?
    Então Sor Balon viu o coto,
    - Sua mão...
    Jaime obrigou-se a sorrir.
    - Agora luto com a esquerda. Dá mais disputa. Onde posso encontrar o senhor meu pai?
    - No aposento privado, com Lorde Tyrell e o Príncipe Oberyn.
    Mace Tyrell e a Víbora Vermelha dividindo o mesmo pão? Cada vez mais estranho.
    - A rainha também se encontra com eles?
    - Não, senhor - respondeu Sor Balon. - Vai encontrá-la no septo, rezando pelo Rei Joff.,.
    - Você!
    Jaime viu que o último dos nortenhos tinha desmontado, e agora Loras vira Brienne.
    - Sor Loras. - Ela ficou estupidamente imóvel, segurando o freio,
    Loras Tyrell aproximou-se dela a passos largos.
    - Por quê? - disse. - Vai me dizer por quê. Ele tratou-a com gentileza, deu-lhe um manto arco-íris. Por que você o mataria?
    - Não o matei. Teria morrido por ele.
    - E morrerá, - Sor Loras puxou a espada.
    - Não fui eu.
    - Emmon Cuy jurou que foi, com seu último suspiro.
    - Ele estava fora da tenda, não chegou a ver...
    - Não havia ninguém na tenda além de você e da Senhora Stark. Pretende dizer que aquela velha seria capaz de cortar através de aço endurecido?
    - Houve uma sombra. Sei como isso soa a loucura, mas... eu estava ajudando Renly a vestir a armadura, e as velas apagaram-se e apareceu sangue por todo lado. A Senhora Catelyn disse que foi Stannis. A sua... a sua sombra. Eu não desempenhei nenhum papel no ato, por minha honra...
    - Não tem honra nenhuma. Desembainhe a espada. Não quero que se diga que a matei enquanto estava de mão vazia.
    Jaime interpôs-se entre os dois.
    - Guarde a espada, sor.
    Sor Loras rodeou-o.
    - Será tão covarde quanto assassina, Brienne? Terá sido por isso que fugiu, com o sangue dele em suas mãos? Desembainhe a espada, mulher!
    - É melhor ter esperança que ela não o faça. - Jaime voltou a bloquear o caminho dele. - Senão é provável que seja seu o cadáver que levaremos daqui, A garota é tão forte quanto Sandor Clegane, embora não seja tão bonita.
    - Isto não lhe diz respeito. - Sor Loras empurrou-o para o lado.
    Jaime agarrou o rapaz com a mão boa e obrigou-o a virar-se.
    - Eu sou o Senhor Comandante da Guarda Real, seu cachorrinho arrogante. O seu comandante, enquanto usar esse manto branco. E agora embainhe a sua maldita espada, senão vou ter que tirá-la de você e enfiá-la num lugar que nem mesmo Renly encontrou.
    O rapaz hesitou durante meio segundo, tempo suficiente para que Sor Balon Swann dissesse:
    - Faça o que o Senhor Comandante diz, Loras. - Alguns dos homens de manto dou¬rado puxaram então seu aço, e isso levou alguns dos homens do Forte do Pavor a fazer o mesmo. Magnífico, pensou Jaime, assim que desço do cavalo temos um banho de sangue no pátio.
    Sor Loras Tyrell devolveu, com violência, a espada à bainha.
    - Não foi assim tão difícil, foi?
    - Quero-a presa. - Sor Loras apontou, - Senhora Brienne, acuso-a do assassinato de Lorde Renly Baratheon.
    - O que vale dizer - disse Jaime - é que a garota tem honra. Mais do que vi em você. E até pode acontecer que esteja dizendo a verdade. Admito que ela não é aquilo que se poderia chamar de inteligente, mas até o meu cavalo conseguiria arranjar uma mentira melhor, se é que ela queria contar uma mentira. Mas já que insiste... Sor Balon, escolte a Senhora Brienne para uma cela de torre e mantenha-a lá sob guarda. E arranje aposentos adequados para Pernas-de-Aço e seus homens, até que o meu pai possa recebê-los.
    - Sim, senhor.

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    Re: Parte 2 3 realm

    Mensagem  Admin em Qui Jun 14, 2012 3:28 pm

    Os grandes olhos azuis de Brienne estavam cheios de mágoa quando Balon Swann e uma dúzia de homens de manto dourado a levaram. Devia estar me soprando beijos, garo¬ta, quis dizer-lhe. Por que entendiam mal todas as coisinhas que fazia? Aerys. Tudo tem origem em Aerys. Jaime deu as costas à garota e atravessou o pátio em passos largos.
    Outro cavaleiro de armadura branca guardava as portas do septo real; um homem alto com uma barba negra, ombros largos e nariz adunco. Este, quando viu Jaime, deu um sorriso amargo e disse:
    - E aonde pensa que vai?
    - Ao septo. - Jaime ergueu o coto para apontar. - Aquele mesmo ali. Pretendo ver a rainha.
    - Sua Graça está de luto. E por que ela iria querer ver um tipo como você?
    Porque sou seu amante e o pai de seu filho assassinado, quis dizer.
    - E quem com os sete infernos é você?
    - Um cavaleiro da Guarda Real, e é bom que aprenda a ter algum respeito, aleijado, senão corto essa sua outra mão e você vai ter que chupar o mingau de manhã.
    -Eu sou irmão da rainha, sor.
    O cavaleiro branco achou aquilo engraçado.
    - Ah, fugiu, foi? E também cresceu um bocado, senhor?
    - O outro irmão, cretino. E Senhor Comandante da Guarda Real. E agora afaste-se, senão vai desejar tê-lo feito.
    Daquela vez o cretino olhou-o bem.
    - E... Sor Jaime. - Endireitou-se. - Mil perdões, senhor. Não o reconheci. Tenho a honra de ser Sor Osmund Kettleblack.
    Onde está a honra nisso?
    - Quero passar algum tempo a sós com a minha irmã. Trate de que ninguém mais entre no septo, sor. Se formos incomodados, mandarei que cortem a porcaria da sua cabeça.
    - Sim, senhor. As suas ordens. - Sor Osmund abriu a porta.
    Cersei estava ajoelhada diante do altar da Mãe. O ataúde de Joffrey tinha sido coloca¬do por baixo do Estranho, que levava os recém-falecidos para o outro mundo. Cheiro de incenso pairava pesadamente no ar, e havia uma centena de velas ardendo, enviando ao alto uma centena de preces. E é provável que Joff precise de todas elas,
    A irmã olhou por sobre o ombro.
    - Quem? - disse, e depois: - Jaime? - Ergueu-se, com os olhos ardendo de lágrimas. - E mesmo você? - Mas não foi até ele. Ela nunca veio até mim, pensou. Sempre esperou, deixando-me ir até ela. Ela dá, mas tenho de pedir. - Devia ter vindo mais cedo - murmu¬rou, quando ele a tomou nos braços. - Por que não pôde vir mais cedo, para mantê-lo a salvo? O meu filho...
    O nosso filho.
    - Vim o mais depressa que pude. - Rompeu o abraço e deu um passo para trás. - Há uma guerra lá fora, irmã.
    - Está tão magro. E seus cabelos, os cabelos dourados...
    - Vão crescer. - Jaime ergueu o coto. Ela precisa ver. - Isto não.
    Os olhos de Cersei esbugalharam-se.
    - Os Stark,,.
    - Não. Isso foi obra de Vargo Hoat.
    O nome não lhe dizia nada.
    - Quem?
    - O Bode de Harrenhal. Durante pouco tempo.
    Cersei virou-se para fitar o ataúde de Joffrey, Tinham vestido o rei morto com ar¬madura dourada, estranhamente semelhante à de Jaime. A viseira do elmo estava fe¬chada, mas as velas refletiam-se suavemente no ouro, e o rapaz cintilava, brilhante e bravo, na morte. A luz das velas também despertava fogueiras nos rubis que decoravam o corpete do vestido de luto de Cersei, Os cabelos caíam sobre seus ombros, soltos e desordenados,
    - Ele matou-o, Jaime. Tal como me avisou que faria. Um dia, quando me julgasse a salvo e feliz, transformaria minha alegria em cinzas na boca, disse ele.
    - Tyrion disse isso? - Jaime não quis acreditar. O assassinato de familiares era pior do que o de reis, aos olhos dos deuses e dos homens, Ele sabia que o garoto era meu. Eu amei Tyrion. Fui bom para ele. Bem, exceto daquela vez,., mas o Duende não conhecia a verdade sobre ela. Ou será que conhece? - Por que ele mataria Joff?
    - Por uma puta. - Cersei agarrou-se à sua mão boa e apertou-a bem entre as suas. - Ele disse que ia fazer isso. Joff sabia. Ao morrer, apontou para o assassino, Para o monstri- nho retorcido do nosso irmão. - Beijou os dedos de Jaime. - Vai matá-lo por mim, não vai? Vai vingar o nosso filho.
    Jaime libertou-se dela.
    - Ele continua sendo meu irmão. - Enfiou o coto em frente do nariz dela, para o caso de ela não ter visto. - E não estou em estado de matar seja quem for.
    - Tem outra mão, não tem? Não estou pedindo para você derrotar o Cão de Caça em batalha. Tyrion é um anão, trancado numa cela. Os guardas vão deixá-lo entrar.
    A idéia fez seu estômago se retorcer.
    - Tenho de saber mais sobre isso. Sobre como aconteceu.
    - Saberá - prometeu Cersei. - Vai haver um julgamento. Quando ouvir contar tudo o que ele fez, irá querer vê-lo morto tanto quanto eu. - Tocou-lhe o rosto. - Senti-me perdida sem você, Jaime. Tive medo de que os Stark me enviassem a sua cabeça. Não teria conseguido suportar tal coisa. - Beijou-o. Um beijo ligeiro, o mais ligeiro roçar dos lábios nos dele, mas sentiu-a tremer quando a envolveu nos braços. - Não estou inteira sem você.

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    Re: Parte 2 3 realm

    Mensagem  Admin em Qui Jun 14, 2012 3:28 pm

    Não havia ternura no beijo com que ele lhe respondeu, só fome. A boca dela abriu-se para a sua língua.
    - Não - disse, com voz fraca, quando os lábios dele começaram á descer o seu pesco¬ço aqui não. Os septões...
    - Que os Outros carreguem os septões. - Voltou a beijá-la, beijou-a em silêncio, beijou-a até fazê-la gemer. Então empurrou as velas para longe e ergueu-a para cima do altar da Mãe, puxando para cima as saias e a combinação de seda que ela trazia por baixo. Ela bateu no peito dele com punhos fracos, murmurando sobre o risco, o perigo, o pai de ambos, os septões, a ira dos deuses. Ele nem a ouviu. Desatou os calções, subiu para cima do altar e afastou as pernas brancas e nuas da irmã. Uma mão deslizou coxa acima, por dentro da roupa de baixo. Quando a arrancou, viu que ela estava com a lua, mas o sangue não fazia qualquer diferença.
    - Rápido - ela agora sussurava -, depressa, depressa, agora, vem já, me possua já. Jaime, Jaime, Jaime. - As mãos ajudaram a guiá-lo. - Sim - disse Cersei quando ele em¬purrou meu irmão, querido irmão, sim, assim, sim, tenho você, agora está em casa, está em casa, em casa. - Beijou-lhe a orelha e afagou-lhe os cabelos curtos e espetados. Jaime perdeu-se em sua carne. Sentiu o coração de Cersei batendo em uníssono com o seu, e a umidade do sangue e do sêmen quando se uniram.
    Mas assim que acabaram, a rainha disse:
    - Deixe-me levantar. Se formos descobertos assim...
    Relutantemente, rolou de cima dela e ajudou-a a sair do altar. O mármore branco estava manchado de sangue, Jaime limpou-o com a manga, após o que se dobrou para apanhar as velas que derrubara. Felizmente todas tinham se apagado quando caíram. Se o septo tivesse se incendiado, podia nem ter reparado.
    - Isso foi uma loucura. - Cersei ajeitou o vestido. - Com o pai no castelo... Jaime, temos de ter cuidado.
    - Estou farto de ter cuidado. Os Targaryen casavam-se entre irmãos, por que não podemos fazer o mesmo? Case-se comigo, Cersei. Erga-se perante o reino e diga que é a num que quer, Teremos o nosso banquete de núpcias e faremos outro filho para o lugar de Joffrey.
    Ela recuou.
    - Isso não tem graça.
    - Está me ouvindo rir?
    - Deixou os miolos em Correrrio? - a voz dela tornara-se afiada. - O trono de Tom- men provém de Robert, você sabe disso.
    - Ele terá Rochedo Casterly, não basta? Que o pai ocupe o trono» Tudo o que quero é você. - Tentou tocar seu rosto. Os velhos hábitos custam a morrer, e foi o braço direito que levantou,
    Cersei afastou-se do coto com repugnância.
    - Não... não fale assim. Está me assustando, Jaime. Não seja burro. Uma palavra erra¬da e vai nos custar tudo. O que fizeram com você?
    - Cortaram minha mão.
    - Não, é mais do que isso, está mudado. - Afastou-se um passo. - Mais tarde nos falamos. Amanhã. Tenho as aias de Sansa Stark numa cela de torre, tenho de interrogá- -las... você devia ir falar com o pai.
    - Atravessei mil léguas para vir até você, e perdi a melhor parte de mim ao longo do caminho. Não me diga para deixar você.
    - Deixe-me - repetiu ela, virando as costas para ele.
    Jaime amarrou os calções e fez o que ela ordenara. Apesar de estar muito cansado, não podia ir atrás de uma cama. Aquela altura, o senhor seu pai já sabia que tinha voltado à cidade.
    A Torre da Mão encontrava-se guardada por guardas domésticos Lannister, que o reconheceram de imediato.
    - Os deuses são bons, para trazê-lo de volta até nós, sor - disse um deles, enquanto lhe abria a porta.
    - Os deuses não desempenharam nisso nenhum papei. Foi Catelyn Stark quem me devolveu. Ela e o Senhor do Forte do Pavor.
    Subiu as escadas e entrou no aposento privado sem se fazer anunciar, indo encontrar o pai sentado junto à lareira. Lorde Tywin estava só, e Jaime sentiu-se grato por isso. Na¬quele momento, não tinha qualquer desejo de exibir a mão mutilada perante Mace Tyrell ou a Víbora Vermelha, muito menos perante ambos ao mesmo tempo.
    - Jaime - disse Lorde Tywin, como se tivessem se visto no café da manhã. - Lorde Bolton levou-me a esperá-lo mais cedo. Achava que estaria aqui a tempo do casamento.
    - Fui atrasado. - Jaime fechou suavemente a porta. - Minha irmã superou-se, segun¬do ouvi dizer. Setenta e sete pratos e um regicídio, nunca houve um casamento assim. Há quanto tempo sabe que estou livre?
    - O eunuco disse-me alguns dias depois de sua fuga. Mandei homens para as terras fluviais à sua procura, Gregor Clegane, Samwell Spicer, os irmãos Plumm. Varys tam¬bém divulgou a informação, mas em segredo. Concordamos que quanto menos pessoas soubessem que estava livre, menos o perseguiriam,
    - Varys mencionou isto? - aproximou-se do fogo, para permitir que o pai visse.
    Lorde Tywin saltou da cadeira, silvando entre dentes.
    - Quem fez isso? Se a Senhora Catelyn pensa..,
    - A Senhora Catelyn encostou uma espada na minha garganta e obrigou-me a jurar que lhe devolveria as filhas. Isto foi obra de seu bode. Vargo Hoat, o Senhor de Harrenhal!
    Lorde Tywin afastou o olhar, repugnado,

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    Re: Parte 2 3 realm

    Mensagem  Admin em Qui Jun 14, 2012 3:29 pm

    - Não é mais, Sor Gregor capturou o castelo. Os mercenários abandonaram seu anti¬go capitão quase até o último homem, e parte do antigo pessoal da Senhora Whent abriu uma porta falsa, Clegane foi encontrar Hoat sentado, sozinho, no Salão das Cem Larei¬ras, meio louco de dor e febre devido a um ferimento que gangrenou. A orelha, dizem.
    Jaime teve de rir. Que maravilhai A orelha! Mal podia esperar para contar a Brienne, se bem que a garota não veria na coisa metade da piada que ele via.
    - Já está morto?
    - Em breve. Cortaram-lhe as mãos e os pés, mas Clegane parece se divertir com o modo como o qohorik se baba.
    O sorriso de Jaime coalhou.
    - E os seus Bravos Companheiros?
    - Os poucos que ficaram em Harrenhal estão mortos. Os outros espalharam-se. Vão se dirigir para os portos, aposto, ou tentar se perder nas florestas. - Os olhos voltaram a se dirigir ao coto de Jaime, e sua boca retesou-se de fúria. - Cortaremos a cabeça deles. De todos. Consegue usar uma espada com a mão esquerda?
    Mal consigo me vestir de manhã. Jaime ergueu a mão em questão para que o pai a ins-pecionasse.
    - Quatro dedos, um polegar, muito parecida com a outra. Por que não haveria de trabalhar tão bem?
    - Ótimo. - O pai sentou-se. - Isso é ótimo. Tenho um presente para você. Pelo seu retorno. Depois de Varys me dizer...
    - A menos que seja uma nova mão, que espere. - Jaime ocupou a cadeira à frente do pai. - Como foi que Joffrey morreu?
    - Veneno. A idéia era que parecesse que ele tinha sufocado com um bocado de co¬mida, mas eu mandei abrir a garganta dele e os meistres não encontraram qualquer obstrução.
    - Cersei diz que foi Tyrion quem o matou.
    - Seu irmão serviu ao rei o vinho envenenado, com mil pessoas olhando.
    - Isso foi bastante idiota da parte dele.
    - Prendi o escudeiro de Tyrion, As aias da esposa também. Veremos se têm alguma coisa a nos dizer. Os homens de manto dourado de Sor Addam andam à procura da ga¬rota Stark, e Varys ofereceu uma recompensa. A justiça do rei será feita.
    A justiça do rei
    - Executaria seu próprio filho?
    - Ele está sendo acusado de regicídio e assassinato de um familiar. Se for inocente, nada tem a temer. Primeiro temos de analisar as provas a favor e contra ele.
    Provas. Naquela cidade de mentirosos, Jaime sabia que tipo de provas seriam encon¬tradas,
    - Renly também morreu de forma estranha, quando Stannis precisou que morresse,
    - Lorde Renly foi assassinado por um de seus próprios guardas, uma mulher qual¬quer de Tarth.
    - Essa mulher de Tarth é o motivo por que estou aqui. Atirei-a numa cela para apa¬ziguar Sor Loras, mas antes acreditaria no fantasma de Renly do que ela lhe ter feito algum mal. Stannis, porém,.,
    - Aquilo que matou Joffrey foi veneno, não feitiçaria. - Lorde Tywin voltou a relan- cear o coto de Jaime. - Não pode servir na Guarda Real sem uma mão da espada...
    - Posso - interrompeu. - E é o que farei. Há precedente. Vou procurar no Livro Branco e encontrá-lo, se quiser. Mutilado ou inteiro, um cavaleiro da Guarda Real serve a vida toda.
    - Cersei acabou com isso quando substituiu Sor Barristan devido à idade. Um pre¬sente adequado à Fé persuadirá o Alto Septao a libertá-lo de seus votos. Sua irmá foi tola em destituir Selmy, admito, mas agora que abriu os portões...
    - ... alguém tem de fechá-los novamente. - Jaime levantou-se. - Estou farto de ter mulheres de nascimento elevado chutando baldes de merda na minha direção, pai. Nun¬ca ninguém me perguntou se queria ser Senhor Comandante da Guarda Real, mas pare¬ce que sou. Tenho um dever...
    - Tem. - Lorde Tywin também se levantou. - Um dever para com a Casa Lannister. E o herdeiro de Rochedo Casterly. E lá que devia estar. Tommen devia acompanhá-lo, como seu protegido e escudeiro. Será no Rochedo que ele aprenderá a ser um Lannister, e quero-o longe da mãe. Pretendo encontrar um novo marido para Cersei. Oberyn Mar- tell, talvez, depois de convencer Lorde Tyrell de que a união não ameaça Jardim de Cima. E já é mais que hora de você se casar. Os Tyrell andam agora insistindo que Margaery se case com Tommen, mas se oferecer você em vez dele...
    - NÃO! - Jaime ouvira tudo que conseguia agüentar. Não, mais do que conseguia agüentar. Estava farto daquilo, farto de lordes e mentiras, farto do pai, da irmã, farto de toda aquela maldita situação. - Não. Não. Não. Não. Não. Quantas vezes tenho de dizer não antes que me ouça? Oberyn Martell? O homem é infame, e não só por envenenar a espada, Tem mais bastardos do que Robert, e deita-se também com homens. E se acha por um disparatado momento que vou me casar com a viúva de joffrey...
    - Lorde Tyrell jura que a garota ainda é donzela.
    - E por mim pode morrer donzela. Não a quero e não quero o seu Rochedo!
    - E meu filho...
    - Sou um cavaleiro da Guarda Real. O Senhor Comandante da Guarda Real! E isso é tudo o que pretendo ser!
    A luz do fogo cintilava, dourada, nos pelos hirtos que enquadravam o rosto de Lorde Tywin. Uma veia latejava em seu pescoço, mas ele não falou. E não falou. E não falou,
    O tenso silêncio prolongou-se até ser mais do que Jaime podia agüentar.
    - Pai.., - começou.
    - Você não é meu filho. - Lorde Tywin afastou o olhar. - Diz que é o Senhor Co¬mandante da Guarda Real, e apenas isso. Muito bem, sor. Vá cumprir o seu dever.

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    Re: Parte 2 3 realm

    Mensagem  Admin em Qui Jun 14, 2012 3:31 pm

    Davos 734




    As vozes deles subiam como fagulhas, rodopiando na direção do céu púrpura do princípio da noite.
    - Leve-nos para longe das trevas, oh senhor. Encha-nos de fogo o coração, para que possamos percorrer o seu caminho brilhante.
    A fogueira noturna ardia contra a escuridão que se aprofundava, um grande animal brilhante cuja oscilante luz laranja atirava sombras com seis metros de altura pátio afora. Ao longo das muralhas de Pedra do Dragão, o exército de gárgulas e grotescos parecia se agitar e mudar de posição.
    Davos olhava de uma janela arqueada na galeria, acima. Observou Melisandre erguer os braços, como que para abraçar as chamas tremulantes.
    - R'hllor - entoou numa voz sonora e clara -, é a luz nos nossos olhos, o fogo nos nossos corações, o calor nos nossos quadris. E seu o sol que aquece os nossos dias, suas são as estrelas que nos protegem na escuridão da noite.
    - Senhor da Luz, proteja-nos. A noite é escura e cheia de terrores.
    A Rainha Selyse liderava as respostas, com o rosto atormentado e cheio de fervor. O Rei Stannis estava ao seu lado, com o maxilar bem cerrado e as pontas de sua coroa de ouro vermelho cintilando sempre que movia a cabeça. Ele está com eles, mas não é um deles, pensou Davos, A Princesa Shireen encontrava-se entre os pais, com as manchas cinzentas mosqueadas no rosto e no pescoço quase negras à luz da fogueira.
    - Senhor da Luz, proteja-nos - cantou a rainha, O rei não respondeu com os outros. Estava fitando as chamas. Davos perguntou a si mesmo o que ele estaria vendo ali. Outra visão da guerra que aí vem? Ou algo mais perto de casa?
    - Rhllor, que nos deu o sopro, agradecemos ao senhor - cantou Melisandre. - Rhllor, que nos deu o dia, agradecemos ao senhor,
    - Agradecemos ao senhor pelo sol que nos aquece - respondeu a Rainha Selyse e os outros adoradores, - Agradecemos ao senhor pelas estrelas que nos vigiam. Agradecemos ao senhor pelas lareiras e archotes que mantêm a escuridão selvagem a distância. - Parecia a Da¬vos que as respostas eram proferidas por menos vozes do que na noite anterior; menos rostos pintados de cor de laranja em volta da fogueira. Mas haveria ainda menos no dia seguinte... ou mais?
    A voz de Sor Axell Florent ressoava, sonora como uma trombeta. Estava em pé, de peito estufado e pernas arqueadas, com a luz do fogo lambendo seu rosto como uma
    monstruosa língua laranja. Davos perguntou a si mesmo se Sor Axell lhe agradeceria depois. A obra que tinham realizado naquela noite poderia bem fazer do homem Máo do Rei, tal como sonhava.
    Melisandre gritou:
    - Agradecemos ao senhor por Stannis, por sua graça nosso rei. Agradecemos ao se¬nhor pelo fogo de um branco puro de sua bondade, pela espada vermelha da justiça que empunha, pelo amor que sente por seu leal povo. Guie-o e proteja-o, R'hllor, e dê-lhe força para derrotar os inimigos.
    - Dê-lhe força - responderam a Rainha Selyse, Sor Axell, Devan e os outros. - Dê-lhe coragem. Dê-lhe sabedoria.
    Quando era garoto, os septões tinham ensinado Davos a rezar à Velha por sabedo¬ria, ao Guerreiro por coragem, ao Ferreiro por força. Mas era à Mãe que rezava agora, para que mantivesse seu querido filho Devan a salvo do deus demoníaco da mulher vermelha.
    - Lorde Davos? E melhor irmos. - Sor Andrew tocou suavemente em seu cotovelo. - Senhor?
    O título ainda lhe soava estranho aos ouvidos, mas Davos afastou-se da janela.
    - Sim. E hora.
    Stannis, Melisandre e os homens da rainha permaneceriam nas suas preces durante uma hora ou mais. Os sacerdotes vermelhos acendiam as fogueiras todos os dias ao pôr do sol, para agradecer a R'hllor pelo dia que terminava e suplicar-lhe que voltasse a en¬viar o seu sol de manhã, para banir a escuridão. Um contrabandista deve conhecer as marés e a altura de apanhá-las. No fim das contas, não passava disso; Davos, o contrabandista. A mão mutilada subiu à garganta em busca de sua sorte, e nada encontrou. Baixou-a bruscamente e apressou-se um pouco mais.
    Os companheiros apressaram-se com ele, ajustando os passos aos seus. O Bastardo de Nocticantiga tinha um rosto devastado pela varíola e um ar de cavalaria esfarrapada; Sor Gerald Gower era largo, brusco e louro; Sor Andrew Estermont era uma cabeça mais alto, com uma barba pontuda e hirsutas sobrancelhas castanhas. Davos os conside¬rava todos bons homens, cada um à sua maneira. E todos serão homens mortos em breve, se a obra desta noite correr mal
    ~ O fogo é uma coisa viva - a mulher vermelha tinha dito, quando lhe pediu que o ensinasse a ver o futuro nas chamas, - Está sempre em movimento, sempre em mu¬dança... como um livro cujas letras dançam e se movimentam mesmo enquanto se está tentando lê-las, São precisos anos de treino para ver as silhuetas por trás das chamas, e mais anos ainda para aprender a distinguir as silhuetas daquilo que irá acontecer das que mostram o que poderá acontecer ou o que já aconteceu. Mesmo então, é difícil, difícil Vocês, os homens das terras do poente, não compreendem. - Davos perguntou-lhe então como Sor Axell tinha aprendido tão depressa o truque, mas ao ouvir isso ela limitou-se a dar um sorriso enigmático e dizer: - Qualquer gato pode fitar uma fogueira e ver ratos vermelhos brincando.
    Não tinha mentido a respeito de nada daquilo aos seus homens do rei,

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    Re: Parte 2 3 realm

    Mensagem  Admin em Qui Jun 14, 2012 3:31 pm

    - Pode ser que a mulher vermelha veja o que pretendemos fazer - avisou-os.
    - Então devíamos começar por matá-la - sugeriu Lewys Peixeira. - Conheço um lugar onde poderíamos preparar uma cilada, quatro de nós com espadas afiadas...
    - Condenaria a todos nós — disse Davos. - Meistre Cressen tentou matá-la, e ela sou¬be de imediato. Pelas chamas, suponho. Parece-me que é muito rápida em sentir qual¬quer ameaça à sua pessoa, mas certamente não pode saber tudo. Se a ignorarmos, talvez possamos escapar à sua detecção.
    - Não há honra em nos escondermos e andarmos pela calada - objetou Sor Triston do Monte da Talha, que tinha sido um homem dos Sunglass antes de Lorde Guncer ser entregue às fogueiras de Melisandre.
    - É assim tão honroso arder? - perguntara-lhe Davos. - Viu Lorde Sunglass morrer. É isso que deseja? Agora não preciso de homens de honra. Preciso de contrabandistas. Estão comigo ou não?
    Estavam. Pela bondade dos deuses, estavam.
    Meistre Pylos conduzia Edric Storm por suas somas quando Davos abriu a porta. Sor Andrew vinha logo atrás dele; os outros tinham sido deixados guardando as escadas e a porta do porão, O meistre interrompeu-se.
    - Por enquanto é isso, Edric.
    O garoto ficou confuso pela intrusão.
    - Lorde Davos, Sor Andrew. Estávamos fazendo somas.
    Sor Andrew sorriu,
    - Eu detestava somas quando tinha sua idade, primo.
    - Não me aborrecem muito. Mas gosto mais de história. Está cheia de histórias.
    - Edric - disse Meistre Pylos -, agora vá correndo buscar o seu manto. Depois vai com o Lorde Davos.
    - Vou? - Edric pôs-se em pé. - Aonde vamos? - Sua boca fez uma expressão teimo¬sa. - Não irei rezar ao Senhor da Luz. Sou um homem do Guerreiro, como o meu pai.
    - Nós sabemos - disse Davos. - Venha, rapaz, não podemos perder tempo.
    Edric vestiu um espesso manto com capuz de lã crua. Meistre Pylos ajudou a prendê- -lo, e puxou o capuz para lhe esconder o rosto.
    - Você vem conosco, meistre? - perguntou o garoto.
    - Não. - Pylos tocou a corrente de muitos metais que usava em volta do pescoço. - Meu lugar é aqui em Pedra do Dragão. Agora vá com Lorde Davos e faça o que ele disser. Lembre-se de que ele é a Mão do Rei. O que foi que eu lhe disse a respeito da Mão do Rei?
    - A Mão fala com a voz do rei.
    O jovem meistre sorriu.
    - E isso mesmo» Agora vá.
    Davos sentira-se incerto sobre Pylos. Talvez nutrisse ressentimento por ele ter ocu¬pado o lugar do velho Cressen. Mas agora só podia admirar a coragem do homem. Isso também pode custar a vida dele.
    Fora dos aposentos do meistre, Sor Gerald Gower esperava junto à escada. Edric Storm olhou-o com curiosidade. Enquanto desciam, perguntou.
    - Aonde vamos, Lorde Davos?
    - Para a água. Há um navio à sua espera.
    O garoto parou subitamente.
    - Um navio?
    - Um dos de Salladhor Saan. Salla é um bom amigo meu.
    - Eu irei com você, primo - garantiu-lhe Sor Andrew. - Não há nada de que ter medo.
    - Eu não tenho medo - disse Edric, indignado. - É só... a Shireen também vem?
    - Não - disse Davos. - A princesa tem de ficar aqui com o pai e a mãe,
    - Então preciso vê-la - explicou Edric. - Para me despedir. Senão ela vai ficar triste.
    Não tão triste do qüe ficaria se o visse ardendo.
    - Não há tempo - disse Davos. - Eu digo à princesa que estava pensando nela, E você pode escrever para ela, quando chegar ao lugar para onde vai.
    O garoto franziu a testa.
    - Tem certeza de que preciso ir? Por que é que o meu tio me enviaria para fora de Pedra do Dragão? Desagradei-lhe? Não quis lhe desagradar. - Adotou de novo aquela expressão teimosa, - Quero falar com o meu tio. Quero falar com o Rei Stannis.
    Sor Andrew e Sor Gerald trocaram um olhar.
    - Não há tempo para isso, primo - disse Sor Andrew.
    - Quero falar com ele! - insistiu Edric, mais alto,
    - Ele não quer falar com você. - Davos tinha de dizer qualquer coisa para pôr o rapaz em movimento. - Eu sou a Mão dele, falo com a voz dele. Terei de ir até o rei e dizer-lhe que você não quer fazer o que lhe dizem? Sabe como isso o deixará zangado? Alguma vez já viu o seu tio zangado? - tirou a luva e mostrou ao garoto os quatro dedos que Stannis tinha encurtado. - Eu já.
    Era tudo mentira; não houve qualquer ira em Stannis Baratheon quando cortou a ex¬tremidade dos dedos de seu Cavaleiro das Cebolas, só um sentido férreo de justiça. Mas Edric Storm ainda não era nascido naquela época, e não tinha como saber. E a ameaça teve o efeito desejado,
    - Ele não devia ter feito isso - disse o garoto, mas deixou que Davos pegasse sua mão e o levasse degraus abaixo.
    O Bastardo de Nocticantiga juntou-se a eles na porta do porão. Caminharam depres¬sa, atravessando um pátio cheio de sombras e descendo alguns degraus, sob a cauda de pedra de um dragão congelado. Lewys Peixeira e Omer Blackberry esperavam na poter- na, com dois guardas amarrados e amordaçados aos pés.

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    Re: Parte 2 3 realm

    Mensagem  Admin em Qui Jun 14, 2012 3:31 pm

    - O barco? - perguntou-lhes Davos.
    - Está lá - disse Lewys. - Quatro remadores, A galé está ancorada logo depois do cabo, Prendos Louco.
    Davos soltou um risinho, Um navio batizado em honra a um louco. Sim, é adequado. Salla tivera uma mostra do humor negro dos piratas.
    Ajoelhou-se diante de Edric Storm.
    - Agora tenho de deixá-lo - disse. - Há um barco à espera, para levá-lo a uma galé. Depois vai atravessar o mar. E filho de Robert, portanto sei que será corajoso, aconteça o que acontecer.
    - Serei. Só que,,, - O rapaz hesitou.
    - Pense nisso como uma aventura, senhor. - Davos tentou soar forte e alegre. - E o início da grande aventura de sua vida, Que o Guerreiro o proteja.
    - E que o Pai o julgue com justiça, Lorde Davos.
    O garoto saiu com o primo, Sor Andrew, pela poterna. Os outros seguiram-nos, to¬dos menos o Bastardo de Nocticantiga. Que o Pai me julgue com justiça, pensou Davos com tristeza. Mas era o julgamento do rei que o preocupava agora.
    - E estes dois? - perguntou Sor Rolland referindo-se aos guardas, depois de fechar e trancar o portão.
    - Meta-os num porão - disse Davos. ~ Pode soltá-los depois de Edric estar longe e a salvo.
    O Bastardo fez um aceno brusco. Não houve mais palavras a dizer; a parte fácil estava feita. Davos calçou a luva desejando que não tivesse perdido a sua sorte. Fora um homem melhor e mais corajoso com aquele saco de ossos pendurado no pescoço. Passou os dedos encurtados pelos cabelos castanhos que iam rareando e perguntou a si mesmo se precisaria cortá-los. Tinha de ter um aspecto aceitável quando se apresen¬tasse ao rei.
    Pedra do Dragão nunca parecera tão escura e temível. Caminhou lentamente, com os passos a ecoar em paredes negras e dragões. Dragões de pedra que nunca despertarão, espero eu. O Tambor de Pedra ergueu-se, enorme, à sua frente. Os guardas à porta des- cruzaram as lanças quando ele se aproximou. Não para o Cavaleiro das Cebolas, mas para a Mão do Rei. Davos era a Mão ao entrar, pelo menos. Perguntou a si mesmo o que seria ao sair. Se chegasse a sair...
    Os degraus pareceram mais longos e íngremes do que antes, ou talvez fosse apenas o caso de estar cansado. A Mãe não me fez para tarefas como esta. Subira alto demais e depressa demais, e ali na montanha o ar era rarefeito demais para ele respirar, Quando garoto, sonhou com riquezas, mas isso tinha sido muito tempo antes. Mais tarde, cres¬cido, tudo o que desejava resumiu-se a alguns acres de boa terra, uma casa em que en¬velhecer, uma vida melhor para os filhos. O Bastardo Cego costumava dizer-lhe que um contrabandista inteligente não tentava obter coisas demais, nem chamava a atenção para si. Alguns acres, um telhado de madeira, um "sor" antes do nome, devia ter ficado satisfeito. Se sobrevivesse àquela noite, levaria Devan e viajaria para casa, para o Cabo da Fúria e para a sua gentil Marya. Choraremos juntos os nossos filhos mortos, criaremos os vivos para que se tornem homens bons e não voltaremos a falar de reis.
    A Sala da Mesa Pintada estava escura e vazia quando Davos entrou; o rei ainda devia estar na fogueira noturna, com Melisandre e os homens da rainha. Ajoelhou e acendeu a lareira, para afastar o frio do aposento redondo e expulsar as sombras para os seus can¬tos. Então dirigiu-se às janelas, uma de cada vez, abrindo as pesadas cortinas de veludo e destrancando as venezianas de madeira. O vento entrou, carregado com o cheiro do sal e do mar, e puxou seu manto simples e marrom.
    Na janela norte, encostou-se ao peitoril para inspirar um pouco do ar frio da noite, esperando vislumbrar o Prendos Louco içar as velas, mas o mar parecia negro e vazio até perder de vista. Já terá partido? Só podia rezar para que sim, e o garoto com ele. Uma meia-lua aparecia e desaparecia por trás de nuvens finas e altas, e Davos via estrelas fa¬miliares; ali estava a Galé, velejando para oeste; ali a Lanterna da Velha, quatro estrelas brilhantes que rodeavam uma névoa dourada. As nuvens escondiam a maior parte do Dragão de Gelo, exceto pelo brilhante olho azul que indicava o rumo do norte. O céu está cheio de estrelas de contrabandista. Eram velhas amigas, aquelas estrelas; Davos esperava que isso significasse boa sorte.
    Mas quando baixou o olhar do céu para as ameias do castelo, deixou de ter tanta cer¬teza. As asas dos dragões de pedra criavam sombras negras à luz proveniente da fogueira noturna. Tentou dizer a si mesmo que não passavam de esculturas, frias e sem vida. Este foi antigamente o lugar deles. Um lugar de dragões e de senhores de dragões, a sede da Casa Targaryen, Os Targaryen eram do sangue da velha Valíria...
    O vento suspirou pelo aposento, e na lareira as chamas estremeceram e rodopiaram. Ouviu as toras crepitarem e soltarem fagulhas. Quando Davos saiu da janela, a sua som¬bra seguiu à sua frente, alta e esguia, e caiu sobre a Mesa Pintada como uma espada. E ali permaneceu durante muito tempo, à espera, Ouviu as botas deles nos degraus de pedra ao subirem. A voz do rei chegou antes do rei.
    - ... não é três - estava Stannis dizendo.
    - Três são três - foi a resposta de Melisandre. - Juro, Vossa Graça, eu vi-o morrer e ouvi os lamentos de sua mãe.
    - Na fogueira noturna. - Stannis e Melisandre atravessaram juntos a porta, - As chamas estão cheias de truques, O que é, o que será, o que poderá ser, Não pode me dar a certeza,,.
    - Vossa Graça, - Davos deu um passo adiante, - A Senhora Melisandre viu a verda¬de. Seu sobrinho Joffrey está morto.
    O rei não mostrou sinal de surpresa por encontrá-lo junto da Mesa Pintada,
    - Lorde Davos - disse, - Ele não era meu sobrinho, Embora eu tenha julgado duran¬te anos que fosse.

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    Re: Parte 2 3 realm

    Mensagem  Admin em Qui Jun 14, 2012 3:31 pm

    - Sufocou com um pedaço de comida no seu banquete de casamento - disse Davos. - Pode ter sido envenenado.
    - E o terceiro - disse Melisandre,
    - Eu sei contar, mulher. - Stannis caminhou ao longo da mesa, passando por Vilave- lha e pela Arvore, subindo na direção das Ilhas Escudo e da foz do Vago. - Os casamen¬tos tornaram-se mais perigosos do que as batalhas, ao que parece, Quem foi o envenena- dor? Sabe-se?
    - O tio, segundo se diz. O Duende.
    Stannis rangeu os dentes.
    - Um homem perigoso. Fiquei sabendo disso na Água Negra, Como lhe chegou esse relatório?
    - Os lisenos ainda negociam em Porto Real. Salladhor Saan não tem motivos para mentir para mim.
    - Suponho que não. - O rei percorreu a mesa com os dedos. - Joffrey... lembro-me de uma vez, uma gata de cozinha... os cozinheiros gostavam de lhe dar restos e cabeças de peixe. Um deles disse ao rapaz que ela tinha gatinhos na barriga, achando que ele poderia querer um, Joffrey abriu o pobre bicho com um punhal para ver se era verdade, Quando encontrou as crias, levou-as para mostrar ao pai, Robert bateu no garoto com tanta força que julguei que o tinha matado, - O rei tirou a coroa e pousou-a na mesa. - Anão ou sanguessuga, esse assassino prestou um serviço ao reino. Agora têm de mandar me buscar,
    - Não o farão - disse Melisandre, - Joffrey tem um irmão,
    - Tommen, - O rei proferiu o nome de má vontade.
    - Coroarão Tommen e governarão em seu nome.
    Stannis cerrou o punho.
    - Tommen é mais gentil do que Joffrey, mas nasceu do mesmo incesto. Outro mons¬tro por se formar. Outra sanguessuga sobre a Terra. Westeros precisa de uma mão de homem, não de criança.
    Melisandre aproximou-se.
    - Salve-os, senhor. Permita-me que acorde os dragões de pedra. Três são três. Dê-me o garoto.
    - Edric Storm - disse Davos.
    Stannis virou-se para ele numa fúria fria.
    - Eu set como ele se chama. Poupe-me de suas censuras. Não gosto mais disso do que você, mas o meu dever é para com o reino. O meu dever... - Voltou a virar-se para Me¬lisandre. - Jura que não há outra maneira? Jure por sua vida, porque juro que morrerá devagarinho se mentir para mim.
    - O senhor é quem tem de se erguer perante o Outro. Aquele cuja vinda foi profetiza¬da há cinco mil anos. O cometa vermelho foi o seu arauto, O senhor é o príncipe que foi prometido, e se cair, o mundo cairá junto. - Melisandre aproximou-se dele, de lábios en- treabertos, com o rubi a latejar. - Dê-me este garoto - sussurrou - e eu darei o seu reino,
    - Ele não pode - disse Davos. - Edric Storm partiu.
    - Partiu? - Stannis virou-se, - O que quer dizer com partiu?
    - Está a bordo de uma galé lisena, em segurança no mar. - Davos observava o rosto pálido e em forma de coração de Melisandre. Viu aí o tremeluzir do desânimo, a súbita incerteza. Ela não o viu!
    Os olhos do rei eram hematomas azul-escuros nos buracos de seu rosto.
    - O bastardo foi levado de Pedra do Dragão sem a minha autorização? Uma galé, você diz? Se esse pirata liseno pensa em usar o garoto para me extorquir ouro...
    - Isso é obra da sua Mão, senhor. - Melisandre lançou a Davos um olhar sabedor. - Vai trazê-ío de volta, senhor, Vai fazer isso.
    - O garoto está fora do meu alcance - disse Davos. - E fora do seu também, senhora.
    Os olhos vermelhos da mulher fizeram-no contorcer-se por dentro.
    - Devia tê-lo deixado no escuro, sor. Sabe o que fez?
    - O meu dever.
    - Alguns chamariam de traição. - Stannis dirigiu-se à janela e fitou a noite. Estará à procura do navio? - Eu tirei-o da lama, Davos. - Soava mais cansado do que irritado. - Seria demais esperar lealdade?
    - Quatro dos meus filhos morreram pelo senhor na Água Negra. Eu mesmo podia ter morrido. Tem a minha lealdade, sempre. - Davos Seaworth pensara dura e longamen¬te sobre as palavras que diria em seguida; sabia que a sua vida dependia delas. - Vossa Graça, fez-me jurar dar-lhe conselhos honestos e rápida obediência, defender o seu reino contra seus inimigos, proteger o seu povo. Não será Edric Storm um membro do seu povo? Um daqueles que jurei proteger? Obedeci aos meus votos. Como pode isso ser traição?
    Stannis voltou a ranger os dentes.
    - Nunca pedi esta coroa. O ouro é frio e pesado na cabeça, mas enquanto for o rei, tenho um dever a cumprir... Se tiver de sacrificar uma criança às chamas para salvar um milhão da escuridão... Sacrifício... nunca é fácil, Davos. Se for, não é um verdadeiro sacri¬fício. Diga-lhe, senhora.
    Melisandre falou:
    - Azor Ahai temperou a Luminífera com o sangue do coração de sua amada esposa, Se um homem com mil vacas der uma a deus, isso nada é. Mas um homem que oferece a única vaca que possui...
    - Ela fala de vacas - disse Davos ao rei. - Eu estou falando de um garoto, amigo de sua filha, filho de seu irmão.
    - O filho de um rei, com o poder do sangue real em suas veias. - O rubi de Melisan- dre cintilava como uma estrela vermelha à sua garganta. - Pensa que salvou este garoto, Cavaleiro das Cebolas? Quando a longa noite cair, Edric Storm morrerá com os outros, não importa onde esteja

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    Re: Parte 2 3 realm

    Mensagem  Admin em Qui Jun 14, 2012 3:32 pm

    escondido. E os seus filhos também. As trevas e o frio cobrirão a terra. Intromete-se em assuntos que não compreende.
    - Há muitas coisas que não compreendo - admitiu Davos. - Nunca fingi o contrário. Conheço os mares e os rios, a forma das costas, onde há rochedos e baixios. Conheço angras escondidas onde um barco pode aportar sem ser visto. E sei que um rei protege o seu povo, caso contrário não é rei nenhum.
    O rosto de Stannis escureceu.
    - Zomba de mim na minha cara? Será que preciso aprender quais são os deveres de um rei com um contrabandista de cebolas?
    Davos ajoelhou.
    - Se o ofendi, corte minha cabeça. Morrerei como vivi, um homem que lhe é leal. Mas primeiro escute-me. Escute-me em nome das cebolas que lhe trouxe, e dos dedos que me tirou.
    Stannis desembainhou a Luminífera. O brilho da espada encheu a sala.
    - Diga o que quiser, mas diga depressa. - Os músculos no pescoço do rei projetavam- -se como cordões.
    Davos apalpou dentro do manto e tirou um pedaço amarfanhado de pergaminho. Parecia uma coisa pequena e banal, mas era todo o escudo que possuía,
    - Uma Mão do Rei deve saber ler e escrever. Meistre Pylos tem me ensinado. - Ali- sou a carta no joelho e começou a ler à luz da espada mágica.

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    Re: Parte 2 3 realm

    Mensagem  Admin em Qui Jun 14, 2012 3:32 pm

    Jon 743



    Sonhou que estava de volta a Winterfell, passando mancando pelos reis de pedra em seus tronos. Seus olhos de granito, cinzentos, viravam-se para segui-lo e seus dedos de granito apertavam-se no cabo das espadas enferrujadas que descansavam sobre suas coxas. Não é um Stark, ouvia-os resmungar, em pesadas vozes de granito. Não há lugar para você. Vá embora. Caminhou mais profundamente para o interior das trevas.
    - Pai? - chamou. - Bran? Rickon? - ninguém respondeu. Um vento gelado soprava em seu pescoço. - Tio? - chamou. - Tio Benjen? Pai? Por favor, pai, ajude-me. - Ouviu o som de tambores vindo de cima. Estão se banqueteando no Salão Grande, mas não sou bem¬-vindo lá. Não sou um Stark, e este não é o meu lugar. A muleta escorregou e ele caiu de joe¬lhos. As criptas estavam se tornando mais escuras. Uma luz apagou-se, em algum lugar. - Ygritte? - sussurrou. - Perdoe-me. Por favor. - Mas era apenas um lobo gigante, cinza e sinistro, salpicado de sangue, com os olhos dourados brilhando tristemente na escuridão...
    A cela estava escura e a cama era dura sob seu corpo. Lembrou-se de que era a sua cama, a sua cama em sua cela de intendente que ficava abaixo dos aposentos do Velho Urso. Deveria ter-lhe trazido sonhos melhores. Mesmo sob as peles tinha frio. Fantasma era seu companheiro de cela antes de partirem em patrulha, aquecendo-a contra o frio da noite. E depois Ygritte dormira ao seu lado. Ambos se foram agora. Ele mesmo tinha queimado Ygritte, como sabia que ela teria desejado, e o Fantasma... Onde está? Estaria também ele morto, seria esse o significado de seu sonho, o lobo ensangüentado nas crip¬tas? Mas o lobo no sonho era cinza, não branco. Cinza como o lobo de Bran. Teriam os Thenns o caçado, o teriam matado após Coroadarrainha? Se fosse isso que tinha aconte¬cido, Bran estava perdido para ele, completamente e para sempre.
    Jon estava tentando descobrir um sentido naquilo quando o berrante soou.
    O Berrante do Inverno, pensou, ainda confuso do sono. Mas Mance não chegara a en¬contrar o berrante de Joramun, portanto não podia ser. Seguiu-se um segundo sopro, tão longo e profundo quanto o primeiro. Jon tinha de se levantar e ir para a Muralha, bem sabia, mas era tão difícil...
    Empurrou as peles para o lado e sentou-se. A dor na perna parecia mais amortecida, nada que não pudesse suportar. Tinha dormido vestido com os calções, túnica e roupa interior, para obter mais calor, portanto tinha apenas de calçar as botas e vestir couro, cota de malha e manto. O berrante voltou a soar, dois sopros longos, por isso pôs Garra¬longa ao ombro, pegou a muleta e manquejou escada abaixo.
    Lá fora era noite cerrada, fazia um frio cortante e o céu estava coberto» Os irmãos jorravam de torres e fortalezas, afivelando os cintos de espada e dirigindo-se para a Mu¬ralha. Jon procurou Pyp e Grenn, mas não conseguiu encontrá-los. Talvez fosse um deles a sentinela que soprava o berrante. Ê Mance, pensou. Finalmente chegou. Isso era bom. Travaremos uma batalha, e depois descansaremos. Vivos ou mortos, descansaremos.
    Onde estivera a escada só restava um imenso monte de madeira carbonizada e gelo quebrado à sombra da Muralha. Agora era o guincho que os içava, mas a gaiola só era suficiente para dez homens de cada vez, e já subia quando Jon chegou. Teria de esperar a sua volta. Outros esperaram com ele; Cetim, Mully, Bota Extra, Barricas, o grande e louro Hareth com seus dentes salientes. Todo mundo o chamava de Cavalo. Tinha sido cavalariço em Vila Toupeira, um dos poucos toupeiras que ficaram em Castelo Negro. Os outros tinham corrido de volta aos seus campos e cabanas, ou para as suas camas no bordel subterrâneo. Mas Cavalo queria vestir o negro, o grande tolo do dentuço. Zei, a prostituta que se mostrara tão habilidosa com o arco, também ficou, e Noye acolheu três garotos órfãos cujos pais tinham morrido na escada. Eram novos - nove, oito e cinco anos -, mas ninguém mais parecia querê-los.
    Enquanto esperavam que a gaiola descesse, Clydas trouxe-lhes taças de vinho quente temperado, enquanto Hobb Três-Dedos distribuía nacos de pão escuro. Jon recebeu dele uma côdea e começou a roê-la.
    - E o Mance Rayder? - perguntou ansiosamente Cetim.
    - Podemos ter essa esperança. - Havia coisas piores do que selvagens na escuridão. Jon lembrava-se das palavras que o rei selvagem proferira no Punho dos Primeiros Ho¬mens, enquanto conversavam na neve cor-de-rosa. "Quando os mortos caminham, mura¬lhas, estacas e espadas nada significam. Não pode lutar com os mortos, Jon Snow. Nin¬guém sabe disso tão bem quanto eu," Só de pensar naquilo o vento pareceu soprar um pouco mais frio.
    Por fim, a gaiola voltou a descer, retinindo e oscilando na ponta da longa corrente, e eles aglomeraram-se lá dentro, em silêncio, e fecharam a porta.
    Mully puxou três vezes a corda da sineta. Um momento mais tarde, começaram a subir, a princípio aos trancos, depois mais suavemente. Ninguém falou. No topo, a gaiola balançou para o lado e saltaram para fora, um por um. Cavalo ajudou Jon a descer para o gelo. O frio atingiu-o nos dentes como um soco.
    Uma linha de fogos ardia ao longo do topo da Muralha, em cestos de ferro montados em postes mais altos do que um homem. O vento, frio como uma faca, agitava e fazia as chamas rodopiarem, de modo que a lúgubre luz laranja estava sempre mudando. Feixes de flechas, lanças e dardos para as bestas e as balistas estavam em posição por todo lado. Havia pilhas de pedra com três metros de altura, grandes barris de madeira cheios de piche e de óleo de lâmpadas alinhavam-se a seu lado. Bowen Marsh deixara Castelo Ne¬gro bem abastecido de tudo, menos de homens.

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    Re: Parte 2 3 realm

    Mensagem  Admin em Qui Jun 14, 2012 3:32 pm

    O vento chicoteava o manto negro das sentinelas-espantalhos montadas ao longo das ameias, de lança na mão,
    - Espero que não tenha sido um deles que soprou o berrante - disse Jon a Donal Noye quando se aproximou dele coxeando.
    - Ouviu isso? - perguntou Noye.
    Havia o vento, e cavalos, e algo mais.
    - Um mamute - disse Jon. - Isso foi um mamute.
    O hálito do armeiro gelava assim que saía de seu nariz largo e achatado. A norte da Muralha havia um mar de escuridão que parecia estender-se até o infinito. Jon conseguia distinguir a tênue cintilação vermelha de fogos distantes em movimento através da flo¬resta. Era Mance, táo certo como a alvorada. Os Outros náo acendiam archotes.
    - Como é que lutamos contra eles se não os vemos? - perguntou Cavalo.
    Donal Noye virou-se para dois grandes trabucos que Bowen Marsh tinha restaurado e posto em funcionamento.
    - Deem-me luzl - rugiu.
    Barris de piche foram apressadamente carregados nos estilingues e incendiados com um archote. O vento soprou as chamas até se transformarem numa viva fúria vermelha.
    - AGORA! - berrou Noye. Os contrapesos precipitaram-se para baixo e os braços de arremesso ergueram-se até baterem com estrondo nas barras transversais almofadadas. O piche ardente partiu rodopiando pela escuridão, lançando uma fantasmagórica luz os¬cilante sobre o terreno lá embaixo. Jon vislumbrou mamutes que se moviam imponente¬mente à meia-luz, e com a mesma rapidez deixou de vê-los. Uma dúzia, talvez mais. Os barris atingiram a terra e estouraram. Ouviram uma trombeta soar num baixo profundo, e um gigante rugiu qualquer coisa no Idioma Antigo, com a voz num trovão ancestral que provocou arrepios na espinha de Jon.
    - Outra vez! - gritou Noye, e os trabucos foram de novo carregados. Mais dois barris de piche ardente partiram, crepitando, para as sombras, e esmagaram-se entre o inimigo. Daquela vez um deles atingiu uma árvore morta, envolvendo-a em chamas. Não é uma dúzia de mamutes, viu Jon, é uma centena.
    Aproximou-se da borda do precipício. Cuidado, recordou a si mesmo, é uma longa queda até lá embaixo. Alyn Vermelho fez soar mais uma vez o seu berrante de sentinela, Aaaaahuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu, aaaaaaahuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu. E agora os selva¬gens responderam, não com um berrante, mas com uma dúzia, e também com tambores e gaitas. Chegamos, pareciam dizer, chegamos para quebrar a sua Muralha, para tomar suas terras e roubar suas filhas. O vento uivava, os trabucos rangiam e estrondeavam, os barris voavam. Atrás dos gigantes e dos mamutes, Jon viu homens avançando contra a muralha com arcos e machados. Haveria vinte ou vinte mil? Na escuridão, não havia como dizer, Esta é uma batalha de cegos, mas Mance tem alguns milhares mais do que nós.
    - O portão! - gritou Pyp. - Eles estão no PORTÃO!
    A Muralha era grande demais para ser assaltada por meios convencionais; alta de¬mais para escadas ou torres de cerco, espessa demais para aríetes. Nenhuma catapulta era capaz de arremessar uma pedra suficientemente grande para abrir uma brecha nela, e caso se tentasse incendiá-la, o gelo derretido extinguiria as chamas. Era possível escalá-la, como os assaltantes tinham feito perto de Guardagris, mas só se os alpinistas fossem for¬tes, estivessem em forma e tivessem mãos seguras, e mesmo assim podiam acabar como JarI, empalados numa árvore. Eles têm de tomar o portão, caso contrário não poderão passar.
    Mas o portão era um túnel sinuoso através do gelo, menor do que qualquer portão de castelo dos Sete Reinos, tão estreito que os patrulheiros tinham de levar os garranos em fila indiana. Três portões de ferro fechavam a passagem interior, todos trancados e acor¬rentados e protegidos por um alçapão. A porta exterior era de carvalho antigo, com vinte e três centímetros de espessura e reforçada com ferro, difícil de quebrar. Mas Mance tem mamutes, recordou a si mesmo, e também tem gigantes.
    - Deve estar frio lá embaixo - disse Noye. - Que dizem de os aquecermos, rapa¬zes? - uma dúzia de potes de óleo para lâmpadas tinham sido alinhados junto ao pre¬cipício. Pyp percorreu a fileira com um archote, incendiando-os. Owen Idiota seguiu-o, empurrando-os borda afora, um por um. Línguas de fogo amarelo-claro rodopiaram em volta dos potes quando estes mergulharam. Depois de o último ter sido atirado, Grenn soltou com um pontapé os calços de um barril de piche e fez com que também caísse pela borda da Muralha, rolando e ressaltando. Os sons que vinham de baixo transformaram- -se em berros e gritos, doce música para os seus ouvidos.
    Mas os tambores ainda ressoavam, os trabucos estremeciam e estrondeavam, e o som das gaitas de foles veio em baforadas pela noite, como se fosse a canção de umas aves quaisquer, estranhas e ferozes, Septão Cellador também começou a cantar, com a voz trêmula e carregada de vinho.

    Gentil Mãe,
    de clemência fonte,
    nossos filhos livre da disputa, pare espadas,
    pare flechas, deixe-os ver...
    Donal Noye virou-se para ele.

    - O primeiro homem aqui que parar a espada, eu mando a porcaria da bunda caída lá pra baixo... começando por você, septão. Arqueiros! Temos aí algum maldito arqueiro?
    - Aqui - disse Cetim,
    - E aqui - disse Mully. - Mas como é que encontro um alvo? Tá escuro como se esti¬véssemos dentro de uma barriga de porco. Onde estão eles?

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    Re: Parte 2 3 realm

    Mensagem  Admin em Qui Jun 14, 2012 3:32 pm

    Noye apontou para o norte.
    - Dispare flechas suficientes e pode ser que acerte alguns. Pelo menos vai deixá-los inquietos. - Olhou em volta do círculo de rostos iluminados pelo fogo, - Preciso de dois arcos e de duas lanças para me ajudar a defender o túnel, caso eles consigam quebrar o portão. - Mais de dez deram um passo adiante, e o ferreiro escolheu seus quatro. - Jon, a Muralha é sua até eu voltar.
    Por um momento Jon julgou ter ouvido mal. Parecera que Noye estava deixando-o no comando,
    - Senhor?
    - Senhor? Eu sou um ferreiro. Disse que a Muralha é sua.
    Há homens mais velhos, Jon quis dizer, homens melhores. Ainda estou verde como a grama do verão. Estou ferido, efui acusado de deserção. Tinha ficado com a boca seca como um osso.
    - Sim - conseguiu dizer,
    Mais tarde Jon Snow teria a sensação de aquela noite ter sido um sonho. Lado a lado com os soldados de palha, com arcos e bestas apertados em mãos meio congela¬das, seus arqueiros atiraram uma centena de nuvens de flechas contra homens que não chegavam a ver. De tempos em tempos uma flecha dos selvagens surgia em resposta. Enviou homens para as catapultas menores e encheu o ar com pedras angulosas do ta¬manho de um punho de gigante, mas a escuridão engolia-as como um homem poderia engolir um punhado de nozes. Mamutes bramiam nas trevas, estranhas vozes gritavam em línguas ainda mais estranhas, e o Septão Cellador rezava pela chegada da alvorada tão alto e com uma voz tão ébria que Jon se sentiu tentado a atirá-lo ele mesmo da Mu¬ralha. Ouviram um mamute morrendo bem abaixo deles e viram outro arremetendo pela floresta, ardendo, esmagando tanto homens como árvores, O vento soprava cada vez mais frio. Hobb foi içado com taças de caldo de cebolas e Owen e Clydas serviram- -nas aos arqueiros em seus postos, para que pudessem emborcá-las entre flechas. Zei ocupou um lugar entre eles com a sua besta. Horas de repetidos abalos e choques sol¬taram qualquer coisa no trabuco da direita, e seu contrapeso libertou-se, súbita e ca- tastroficamente, torcendo o braço de arremesso para o lado e estilhaçando-o. O trabu¬co da esquerda continuou a arremessar, mas os selvagens tinham aprendido depressa a evitar a zona onde suas cargas caíam.
    Devíamos ter vinte trabucos, e não dois, e eles deviam estar montados em trenós e bases rotativas para podermos movê-los, Era um pensamento fútil. Podia também desejar mais mil homens e talvez dois ou três dragões.
    Donal Noye não voltou, assim como os outros que o acompanharam a fim de defen¬der aquele túnel negro e frio, A Muralha é minha, lembrava Jon a si mesmo sempre que sentia as forças fraquejarem. Ele também tinha pegado um arco e sentia os dedos cheios de cãibras e duros, meio congelados. A febre também estava de volta, e às vezes a perna tremia descontroladamente, enviando uma incandescente faca de dor pelo interior de seu corpo. Mais uma flecha, e descanso, disse a si mesmo meia centena de vezes. Só mais uma. Sempre que a aljava se esvaziava, um dos toupeiras órfãos trazia-lhe outra. Mais uma flecha, e basta. Não podia faltar muito tempo para o nascer do dia.
    Quando a manhã chegou, a princípio nenhum deles notou. O mundo continuava escu¬ro, mas o negro transformara-se em cinza e silhuetas entrevistas começavam a emergir das sombras. Jon baixou o arco para fitar a massa de pesadas nuvens que cobria o céu oriental. Via um brilho atrás delas, mas talvez estivesse apenas sonhando. Encaixou mais uma flecha.
    Então o sol nascente penetrou por entre as nuvens e arremessou pálidas lanças no quilômetro de terra limpa que se estendia entre a Muralha e o limite da floresta. Em metade de uma noite tinham-na transformado num deserto de grama enegrecida, piche borbulhante, pedra estilhaçada e cadáveres. A carcaça do mamute queimado já começava a atrair corvos. Havia também gigantes mortos no chão, mas atrás deles...
    Alguém gemeu à sua esquerda, e ouviu o Septão Cellador dizer:
    - Que a Mãe tenha piedade de nós, oh. Oh, oh, oh, que a Mãe tenha piedade de nós.
    Sob as árvores estavam todos os selvagens do mundo; corsários e gigantes, wargs e troca-peles, homens das montanhas, marinheiros do mar salgado, canibais do rio de gelo, cavernícolas com o rosto pintado, bigas puxadas por cães vindas da Costa Gelada, ho¬mens de Cornopé com suas solas semelhantes a couro fervido, todo o estranho povo sel¬vagem que Mance reunira para quebrar a Muralha. Esta não é a sua terra, Jon quis gritar para eles. Não há lugar para vocês aqui. Vão embora. Conseguia ouvir Tormund Terror dos Gigantes rindo daquilo. "Você não sabe nada, Jon Snow", teria dito Ygritte. Flexio¬nou a mão da espada, abrindo e fechando os dedos, embora soubesse perfeitamente que as espadas não entrariam em ação ali em cima.
    Estava gelado e febril, e de repente o peso do arco foi demasiado. Compreendeu que a batalha com o Magnar não havia sido nada, e a luta da noite, menos que nada, nada mais que uma sonda, um punhal no escuro para tentar apanhá-los desprevenidos. A verdadei¬ra batalha estava começando agora.
    - Não sabia que seriam tantos - disse Cetim.
    Jon sabia. Já os vira antes, mas não assim, não organizados em ordem de batalha. Durante a marcha, a coluna dos selvagens tinha-se espalhado ao longo de léguas como se fosse um enorme verme, e nunca era vista toda ao mesmo tempo. Agora...
    - Aí vêm eles - disse alguém em voz rouca.
    Jon viu que mamutes formavam o centro das fileiras dos selvagens, cem ou mais, mon¬tados por gigantes armados com malhos e enormes machados de pedra. Mais gigantes corriam ao lado dos animais, puxando um tronco de árvore apoiado em grandes rodas de madeira, com a ponta afiada em bico. Um aríete, pensou friamente. Se o portão ainda resistisse, lá embaixo, alguns beijos daquela coisa em pouco tempo o transformariam em lascas. De ambos os lados dos gigantes vinha uma onda de cavaleiros com couraça de couro fervido e lanças endurecidas pelo fogo, uma massa de arqueiros correndo, centenas de homens com lanças, estilingues, tacapes e escudos de couro.

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    Re: Parte 2 3 realm

    Mensagem  Admin em Qui Jun 14, 2012 3:33 pm

    As bigas de osso da Costa Gelada avançavam chocalhando nos flancos, balançando sobre pedras e raízes atrás de parelhas de enormes cães brancos. A fúria da terra bravia, pensou jon ao ouvir o gemido das gaitas de foles, o ladrar e latir dos cães, o bramido dos mamutes, os assobios e gritos do povo livre, os rugidos dos gigantes no Idioma Antigo. Os tambores ecoavam no gelo como trovões.
    Sentia o desespero a toda a volta.
    - Devem ser cem mil - gemeu Cetim. - Como poderemos parar tantos?
    - A Muralha para-os - Jon ouviu-se dizendo. Virou-se e voltou a dizer isso, mais alto. - A Muralha para-os. A Muralha defende-se. - Palavras ocas, mas precisava dizê-las, quase tanto quanto os irmãos precisavam ouvi-las. - Mance quer nos desencorajar com seus números. Será que acha que somos burros? - estava agora gritando, com a perna esquecida, e todos os homens o escutavam. - As bigas, os cavaleiros, todos aqueles pa- lermas a pé... o que irão fazer conosco aqui em cima? Algum de vocês já viu um mamute escalar uma muralha? - soltou uma gargalhada, e Pyp, Owen e meia dúzia dos outros riram com ele. - Eles não são nada, têm menos utilidade do que os nossos irmãos de pa¬lha aqui, não podem chegar até nós, não podem nos fazer mal, e não nos assustam, certo?
    - CERTO! - gritou Grenn.
    - Eles estão lá embaixo e nós aqui em cima - disse Jon e enquanto defendermos o portão não podem passar, Eles não podem passar! - todos já estavam gritando, rugindo de volta suas próprias palavras, brandindo espadas e arcos no ar enquanto as faces se enru- besciam. Jon viu Barricas ali em pé, com um berrante de guerra metido debaixo do braço, - Irmão - disse-lhe -, faça soar o toque de batalha.
    Sorrindo, Barricas levou o berrante aos lábios e soprou as duas longas notas que significavam selvagens. Outros berrantes imitaram o chamamento até que a própria Muralha pareceu estremecer e o eco daqueles grandes gemidos guturais afogou todos os outros sons.
    - Arqueiros - disse Jon depois de os berrantes se silenciarem -, apontem para os gigantes que trazem o aríete, todos vocês. Disparem às minhas ordens, não antes. OS GI¬GANTES E O ARÍETE, Quero que chovam flechas sobre eles a cada passo, mas espera¬remos até estarem ao alcance. Qualquer homem que desperdiçar uma flecha que seja vai ter de descer a Muralha e ir buscá-la, estão me ouvindo?
    - Eu estou - gritou Owen Idiota. - Eu estou ouvindo, Lorde Snow,
    Jon riu, riu como um bêbado ou um louco, e seus homens riram com ele. Viu que as bigas e os cavaleiros dos flancos agora estavam bem à frente do centro. Os selvagens ainda não tinham atravessado um terço do quilômetro, mas sua linha de batalha já se dissolvia.
    - Carregar o trabuco com estrepes - disse Jon. - Owen, Barricas, virem as cata¬pultas para o centro, Balistas, carregar com lanças incendiárias e disparar às minhas ordens. - Apontou para os rapazes de Vila Toupeira. - Você, você e você, fiquem à espera com archotes.
    Os arqueiros selvagens disparavam ao avançar; precipitavam-se para a frente, para¬vam, disparavam e depois corriam mais dez metros. Eram tantos que o ar estava cons¬tantemente cheio de flechas, todas elas em voos lamentavelmente curtos. Um desperdício, pensou Jon. Sua falta de disciplina está se revelando. Os arcos de chifre e madeira do povo livre, menores, tinham um alcance mais reduzido do que os grandes arcos de teixo da Patrulha da Noite, e os selvagens estavam tentando disparar contra homens que se en¬contravam duzentos metros acima deles.
    - Deixem-nos disparar - disse Jon. - Esperar. Agüentar. - Os mantos batiam atrás deles. - Temos o vento na cara, isso irá custar-nos alcance. Esperar. - Mais perto, mais perto. As gaitas de foles gemiam, os tambores trovejavam, as flechas dos selvagens esvoa- çavam e caíam.
    - PUXAR, - Jon levantou o próprio arco e puxou a flecha até a orelha. Cetim fez o mesmo, e o mesmo fizeram Grenn, Owen Idiota, Bota Extra, Jack Negro Bulwer, Arron e Emrick. Zei levou a besta ao ombro. Jon observava o aríete que se aproximava cada vez mais, com os mamutes e gigantes a acompanhá-lo pesadamente de ambos os lados. Pare¬ciam tão pequenos que Jon poderia esmagar a todos com uma mão. Se ao menos a minha mão fosse suficientemente grande. Começaram a atravessar a extensão coberta de cadáveres. Uma centena de corvos levantou voo da carcaça do mamute morto quando os selvagens passaram trovejando por ela. Mais perto e ainda mais perto até que... - DISPARAR!
    As flechas negras silvaram para baixo, como serpentes em asas de penas. Jon não es¬perou para ver onde caíam. Estendeu a mão para uma segunda flecha assim que a primei¬ra deixou o seu arco.
    - ENCAIXAR. PUXAR. DISPARAR. - Assim que a flecha partiu, pegou outra. - ENCAIXAR. PUXAR. DISPARAR. - E outra vez, e depois outra vez. Jon gritou pelo trabuco, e ouviu um rangido e um pesado tum quando uma centena de estrepes de aço cheias de espigões partiram girando pelo ar. - Catapultas - gritou -, balistas. Arqueiros, disparar à vontade. - Flechas dos selvagens atingiam a Muralha, trinta metros abaixo deles. Um segundo gigante girou e cambaleou. Encaixar, puxar, disparar. Um mamute virou de encontro a outro que seguia ao seu lado, derrubando gigantes ao chão. Encai¬xar, puxar, disparar. Viu que o aríete estava caído e quebrado, com os gigantes que o tinham empurrado mortos ou agonizando, - Flechas incendiárias - gritou. - Quero o aríete queimando. - Os berros dos mamutes feridos e os gritos ressonantes dos gigantes misturavam-se com os tambores e as gaitas, criando uma música horrível, mas seus ar¬queiros continuavam puxando e disparando, como se todos tivessem se tornado tão sur¬dos quanto o falecido Dick Follard. Podiam ser a escória da ordem, mas eram homens da Patrulha da Noite, ou tão perto disso que não fazia diferença. É por isso que não passarão.
    Um dos mamutes corria, descontrolado, atingindo selvagens com a tromba e esma¬gando arqueiros debaixo das patas. Jon puxou seu arco uma vez mais e lançou outra fle¬cha contra o dorso felpudo do animal, para incentivá-lo a continuar. Para leste e para oes¬te, os flancos da tropa dos selvagens tinham chegado à Muralha sem oposição. As bigas aproximaram-se do centro ou viraram enquanto os cavaleiros davam voltas sem rumo, sem objetivo, sob a enorme falésia de gelo.

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    Re: Parte 2 3 realm

    Mensagem  Admin em Qui Jun 14, 2012 3:33 pm

    - No portão! - soou um grito. Talvez o Bota Extra. - Mamute no portão!
    - Fogo - ladrou Jon. - Grenn, Pyp,
    Grenn pôs o arco de lado, derrubou um barril de óleo e rolou-o até a borda da Mu¬ralha, onde Pyp fez saltar a rolha que o selava com uma martelada, enfiou no orifício um pano torcido e o incendiou com um archote. Empurraram-no juntos borda afora. Trinta metros abaixo, o barril atingiu a Muralha e estourou, enchendo o ar com tábuas estilhaçadas e óleo fervente. Grenn já estava rolando um segundo barril até o precipício, e Barricas também tinha um, Pyp incendiou-os a ambos.
    - Acertaram! - gritou Cetim, esticando tanto a cabeça que jon teve certeza de que estava prestes a cair. - Acertaram, acertaram, ACERTARAM! - Ouviu o rugido do fogo. Um gigante em chamas surgiu no seu campo de visão, tropeçando e rolando no chão.
    Então, de repente, os mamutes puseram-se em fuga, afastando-se da fumaça e das chamas e colidindo em seu terror com os que se encontravam atrás, Esses também recua¬ram, com os gigantes e selvagens atrás deles, correndo para saírem do caminho. Em meio segundo, o centro inteiro ruía. Os cavaleiros nos flancos viram-se abandonados e decidi¬ram também retirar, sem que nenhum tivesse chegado a ter o seu batismo de sangue. Até as bigas se afastaram ribombando, não tendo feito nada além de parecer temíveis e pro¬duzir muito barulho, Quando quebram, quebram de verdade, pensou Jon Snow enquanto os via se afastando, Todos os tambores tinham se silenciado, Que tal essa música, Mance? O que achou da mulher do dornês?
    - Temos alguém ferido? - perguntou.
    - Os malditos filhos da mãe acertaram minha perna. - Bota Extra arrancou a flecha e brandiu-a por cima da cabeça. - A de madeira!
    Uma aclamação irregular ergueu-se na Muralha. Zei pegou Owen pelas mãos, girou- -o em círculos e deu-lhe um longo beijo molhado ali mesmo, à vista de todos, Também tentou beijar Jon, mas ele segurou-a pelos ombros e afastou-a gentil mas firmemente.
    - Não - disse. Acabaram-se os beijos para mim, Subitamente sentiu-se cansado demais para se manter em pé, e a perna era uma agonia do joelho à virilha. Procurou a muleta às apalpadelas, - Pyp, ajude-me a ir até a gaiola. Grenn, a Muralha é sua.
    - Minha? - disse Grenn.
    - Dele? - disse Pyp. Era difícil dizer qual dos dois estava mais horrorizado.
    - Mas - gaguejou Grenn - M-mas o que é que eu faço se os selvagens voltarem a atacar?
    - Pare-os - disse-lhe Jon.
    Enquanto desciam na gaiola, Pyp tirou o elmo e limpou a testa.
    - Suor congelado. Há alguma coisa mais nojenta do que suor congelado? - Soltou uma gargalhada. - Deuses, acho que nunca tive tanta fome. Era capaz de comer um au- roque inteiro, juro, Acha que o Hobb nos cozinharia o Grenn? - Quando viu o rosto de Jon, seu sorriso morreu. - Que foi? E a perna?
    - Ê a perna - concordou Jon. Até as palavras eram um esforço.
    - Mas não é a batalha? Nós ganhamos a batalha.
    - Pergunte-me depois de ter visto o portão - disse Jon sombriamente. Quero um fogo, uma refeição quente, uma cama morna e qualquer coisa que faça com que minha perna pare de doer, disse a si mesmo. Mas primeiro tinha de ir verificar o túnel e descobrir o que acontecera a Donal Noye.
    Depois da batalha com os Hienns tinham levado quase um dia tirando o gelo e as vigas quebradas do portão interno. Pate Malhado, Barricas e alguns dos outros constru¬tores argumentaram acaloradamente sobre se deviam simplesmente deixar ali o entulho, mais um obstáculo para Mance. Mas isso teria significado o abandono da defesa do tú¬nel, e Noye não quis ouvir falar do assunto. Com homens nos alçapões e arqueiros e lan¬ças atrás de cada um dos portões interiores, alguns irmãos determinados seriam capazes de repelir cem vezes o seu número de selvagens e atulhar o caminho de cadáveres. Não pretendia dar a Mance Rayder livre trânsito através do gelo. E assim, com picaretas, pás e cordas, tinham afastado os degraus quebrados e escavado um caminho até o portão.
    Jon esperou junto das frias barras de ferro enquanto Pyp ia pedir a chave reserva ao Meistre Aemon. Surpreendentemente, o próprio meistre voltou com ele, e Clydas tam¬bém, trazendo uma lanterna.
    - Venha me fazer uma visita quando terminarmos - disse o velho a Jon enquanto Pyp lutava com as correntes. - Tenho de trocar sua atadura e aplicar um cataplasma fres¬co, e você vai querer um pouco de vinho dos sonhos para as dores.
    Jon assentíu debilmente. A porta abriu-se. Pyp entrou à frente, seguido por Clydas e pela lanterna. Jon só foi capaz de acompanhar o passo de Meistre Aemon. O gelo apertava-se em volta deles, e ele sentia o frio enfiando-se em seus ossos, o peso da Mu¬ralha por cima de sua cabeça. Era como penetrar na goela de um dragão de gelo, O túnel descreveu uma curva e depois outra. Pyp destrancou um segundo portão de ferro, Avan¬çaram, viraram novamente e viram luz mais à frente, tênue e pálida através do gelo. Isso é ruim, soube Jon de imediato. Isso é muito ruim.
    Então Pyp disse:
    - Há sangue no chão.
    Foi nos últimos seis metros do túnel que eles tinham lutado e morrido. A porta exte¬rior de carvalho reforçado tinha sido atacada e quebrada e por fim arrancada das dobra- diças, e um dos gigantes arrastara-se para dentro através das lascas. A lanterna banhava a macabra cena com uma luz soturna e avermelhada, Pyp virou-se para o lado e vomitou, e Jon deu por si a invejar a cegueira de Meistre Aemon.

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    Re: Parte 2 3 realm

    Mensagem  Admin em Qui Jun 14, 2012 3:33 pm

    Noye e seus homens tinham estado à espera dentro do túnel, por trás de um portão de pesadas barras de ferro igual aos dois que Pyp havia acabado de destrancar. Os dois besteiros tinham disparado uma dúzia de dardos enquanto o gigante lutava para chegar até eles. Então os lanceiros devem ter avançado, projetando as lanças através das barras. Mesmo assim, o gigante ainda encontrara forças para estender as mãos por entre as bar¬ras, arrancar a cabeça de Pate Malhado, agarrar o portão de ferro e afastar as barras. Elos de uma corrente quebrada estavam espalhados pelo chão. Um gigante. Tudo isso foi obra de um gigante.
    - Estão todos mortos? - perguntou o Meistre Aemon em voz baixa,
    - Sim. Donal foi o último. - A espada de Noye estava profundamente enterrada na garganta do gigante, até o meio da lâmina. O armeiro sempre tinha parecido a Jon um homem tão grande, mas preso aos enormes braços do gigante quase parecia uma criança. - O gigante esmagou sua coluna. Náo sei quem morreu primeiro. - Pegou a lanterna e aproximou-se para ver melhor. - Mag. - "Eu sou o último dos gigantes." Sentia a tristeza que havia ali, mas não tinha tempo para tristezas. - Foi Mag, o Pode¬roso. O rei dos gigantes.
    Sentiu então necessidade do sol. Dentro do túnel estava frio e escuro demais, e o fe¬dor do sangue e da morte era sufocante. Jon devolveu a lanterna a Clydas, esgueirou-se em volta dos corpos e através das barras torcidas e caminhou para a luz do dia, para ver o que havia atrás da porta estilhaçada.
    A enorme carcaça de um mamute morto bloqueava parcialmente a passagem. Uma das presas do animal prendeu seu manto e rasgou-o quando passou por ele. Mais três gigantes jaziam lá fora, meio enterrados por baixo de pedras, gelo sujo e piche endureci¬do. Via os locais onde o fogo derretera a Muralha, onde grandes lençóis de gelo tinham se desprendido com o calor e se estilhaçado no chão enegrecido. Ergueu os olhos para o local de onde tinham vindo. Quando estamos aqui, parece imensa, como se estivesse prestes a nos esmagar.
    Jon voltou para dentro, para onde os outros aguardavam,
    - Temos de reparar o portão exterior o melhor possível e depois bloquear esta seção do túnel. Entulho, montes de gelo, qualquer coisa. Até o segundo portão, se conseguir¬mos. Sor Winton terá de assumir o comando, é o último cavaleiro que resta, mas tem de agir já, os gigantes estarão de volta antes de percebermos. Temos de lhe dizer...
    - Diga-lhe o que quiser - disse Meistre Aemon em voz baixa. - Ele sorrirá, fará um aceno, e esquecerá. Há trinta anos, Sor Wynton Stout esteve a uma dúzia de votos de ser Senhor Comandante. Teria sido dos bons. Há dez anos ainda podia ter sido capaz. Mas não mais. Sabe disso tão bem quanto Donal sabia, Jon,
    Era verdade.
    - Então dê você a ordem - disse Jon ao meistre. - Passou a vida inteira na Muralha, os homens vão segui-lo, Temos de fechar o portão.
    - Eu sou um meistre acorrentado e juramentado, A minha ordem serve, Jon. Nós damos conselhos, não ordens.
    - Alguém tem de...
    - Você. Você tem de liderar.
    - Não,
    - Sim, Jon. Não precisa ser por muito tempo. Só até a guarnição retornar. Donal escolheu-o, e Qhorin Meia-Mão também, antes dele. O Senhor Comandante Mormont fez de você o intendente dele. É um filho de Winterfell, sobrinho de Benjen Stark. Tem de ser você, ou não será ninguém. A Muralha é sua, Jon Snow.


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    Re: Parte 2 3 realm

    Mensagem  Admin em Seg Jun 18, 2012 2:44 pm

    Sansa 792




    A escada que levava ao castelo de proa era íngreme e cheia de lascas, por isso Sansa aceitou ajuda de Lothor Brune, Sor Lothor, teve de recordar a si mesma. O homem tinha sido armado cavaleiro pelo valor demonstrado na Batalha da Água Negra. Embora nenhum cavaleiro de verdade usasse aqueles calções marrons remendados e aquelas bo¬tas gastas, nem aquele gibão de couro rachado e manchado pela água» Atarracado, com rosto quadrado, nariz amassado e um emaranhado de fortes cabelos grisalhos, Brune ra¬ramente falava. Mas é mais forte do que parece. Ela percebeu isso pela facilidade com que a ergueu no ar, como se não pesasse nada.
    Para lá da proa do Rei Bacalhau estendia-se uma costa nua e pedregosa, varrida pelo vento, desprovida de árvores e pouco convidativa. Mesmo assim, era uma visão bem- -vinda. Havia bastante tempo que vinham se afastando da costa no caminho de volta. A última tempestade tinha-os varrido para longe da vista da terra, e atirara tamanhas ondas contra os lados da galé que Sansa tivera certeza de que iam todos se afogar. Tinha ouvido o velho Oswell dizer que dois homens haviam sido arrastados borda afora e outro caíra do mastro e quebrara o pescoço,
    Ela raramente se aventurava até o convés. Sua pequena cabine era úmida e fria, mas Sansa passara a maior parte da viagem doente... doente de terror, doente de febre, ou doen¬te de enjoo... Não conseguia manter nada no estômago e até o sono custava a vir. Sempre que fechava os olhos via Joffrey rasgando o colarinho, arranhando a suave pele da garganta, morrendo com flocos de crosta de torta nos lábios e manchas de vinho no gibão, E os la¬mentos do vento no cordame faziam-lhe lembrar o terrível e agudo som de sugar que ele tinha feito enquanto lutava para inspirar ar. As vezes sonhava também com Tyrion.
    - Ele não fez nada - tinha dito ao Mindinho quando ele fez uma visita à sua cabine para ver se ela estava se sentindo melhor.
    - Ele não matou Joffrey, é verdade, mas as mãos do anão estão longe de estar limpas. Teve uma esposa antes de você, sabia?
    - Ele contou-me.
    - E ele contou que, quando se cansou dela, deu-a de presente aos guardas do pai? Podia ter feito o mesmo com você, a seu tempo. Não derrame lágrimas pelo Duende, senhora.
    O vento fez correr dedos salgados por seus cabelos, e Sansa estremeceu» Até tão perto da costa, o balanço do barco deixava seu estômago indisposto. Precisava desesperada-
    mente de um banho e de uma muda de roupa. Devo parecer tão descomposta como um cadáver, e cheiro a vômito.
    Lorde Petyr surgiu a seu lado, alegre como sempre.
    - Bom dia. O ar salgado é tonificante, não lhe parece? Aguça-me sempre o apetite. - Rodeou seus ombros com um braço compreensivo. - Está bem? Parece tão pálida,
    - E só a minha barriga. O enjoo,
    - Um pouco de vinho será bom para isso. Vamos arranjar uma taça para você, assim que estivermos em terra firme. - Petyr apontou para o local onde uma velha torre de pederneira se delineava contra o céu cinzento sem vida, com as ondas se esmagando nas rochas abaixo dela. - Animado, não é? Temo que aqui não haja ancoradouro seguro. Ire¬mos para a terra num bote.
    - Aqui? - não queria ir para a terra ali. Tinha ouvido dizer que os Dedos eram um lu¬gar lúgubre, e havia algo de abandonado e desolado na pequena torre. - Não podia ficar no navio até zarparmos para Porto Branco?
    - Daqui, o Rei vira para leste rumo a Bravos. Sem nós,
    - Mas... senhor, disse... disse que íamos para casa.
    - E aqui está ela, por mais miserável que seja. A minha casa ancestral. Temo que não tenha nome. A sede de um grande senhor devia ter um nome, não concorda? Winterfell, Ninho da Águia, Correrrio, esses são castelos. Agora Senhor de Harrenhal, isso soa bem, mas o que era eu antes? Senhor da Bosta de Ovelha e dono do Forte Triste? Falta alguma coisa aí, - Seus olhos cinza-esverdeados olharam-na inocentemente. - Parece perturba¬da. Achava que nos dirigíamos a Winterfell, querida? Winterfell foi tomado, queimado e saqueado. Todos os que conhecia e amava estão mortos. Os nortenhos que não caíram perante os homens de ferro estão fazendo guerra entre si. Até a Muralha está sob ataque, Winterfell foi o lar de sua infância, Sansa, mas já não é uma criança. E uma mulher-feita, e tem de criar o seu lar.
    - Mas não aqui - disse ela, consternada. - Parece tão...
    - ... pequeno, sem vida e insignificante? E tudo isso, e ainda pior. Os Dedos são um lugar adorável para quem por acaso for uma pedra. Mas nada tema, não nos demora¬remos mais do que uma quinzena. Calculo que a sua tia já esteja a caminho para nos encontrar. - Sorriu, - A Senhora Lysa e eu vamos nos casar,
    - Casar? - Sansa estava atordoada. - O senhor e a minha tia?
    - O Senhor de Harrenhal e a Senhora do Ninho da Águia.
    Disse que era a minha mãe que amava. Mas claro que a Senhora Catelyn estava morta, por isso, mesmo se tivesse amado secretamente Petyr e se lhe tivesse entregado a virgin¬dade, agora não importava.
    - Tão silenciosa, senhora - disse Petyr. - Estava certo de que gostaria de me dar a sua bênção. E coisa rara que um rapaz nascido para herdar pedras e cocozinhos de ovelha se case com a filha de Hoster Tully e viúva de Jon Arryn.

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    Re: Parte 2 3 realm

    Mensagem  Admin em Seg Jun 18, 2012 2:44 pm

    - Eu... eu rezo para que passem longos anos juntos, tenham muitos filhos e sejam muito felizes um com o outro. - Tinham-se passado anos desde que Sansa vira a irmã da mãe. Ela será gentil comigo, certamente. É do meu sangue. E o Vale de Arryn era belo, todas as canções diziam isso. Talvez não fosse assim tão terrível ficar ali durante algum tempo.
    Lothor e o velho Oswell assumiram os remos e levaram-nos para terra. Sansa aconchegou-se à proa sob o seu manto com o capuz puxado para proteger a cabeça do vento, interrogando-se sobre o que a esperava. Criados saíram da torre ao encontro do grupo; uma velha magra e uma gorda de meia-idade, dois anciãos de cabelos brancos e uma menina com dois ou três anos e terçol num olho. Quando reconheceram Lorde Pe- tyr, ajoelharam-se nas pedras.
    - O meu pessoal - disse ele. - Não conheço a criança. Outro dos bastardos de Kella, suponho. Ela põe um no mundo a cada dois ou três anos.
    Os dois velhos entraram na água até as coxas para erguer Sansa do barco de modo que não molhasse as saias. Oswell e Lothos foram espirrando água até chegarem à mar¬gem, e o mesmo fez o próprio Mindinho. Este deu à velha um beijo na bochecha e sorriu à mais nova.
    - Quem é o pai desta, Kella?
    A gorda riu,
    - Não sei bem, senhor, Não sou mulher pra lhes dizer que não.
    - E todos os moços da terra são gratos por isso, tenho certeza.
    - E bom tê-lo em casa, senhor - disse um dos velhos. Parecia ter pelo menos oitenta anos, mas usava uma brigantina com rebites e uma espada longa presa ao flanco. - De quanto tempo será a sua estadia?
    - O menos possível, Bryen, não tenha medo. Diria que o lugar está habitável neste momento?
    - Se soubéssemos que vinham, teríamos posto esteiras novas, senhor - disse a velha.
    - Há um fogo de esterco queimando.
    - Nada diz "casa" como o cheiro de esterco queimando. - Petyr virou-se para Sansa.
    - Grisel foi a minha ama de leite, mas agora toma conta de meu castelo. Umfred é o meu intendente e Bryen... não o nomeei capitão da guarda da última vez que estive aqui?
    - Nomeou, senhor. Disse também que ia arranjar mais alguns homens, mas não fez isso. Eu e os cães fazemos todas as vigias.
    - E muito bem, tenho certeza. Ninguém fugiu com nenhuma das minhas pedras e cocôs de ovelha, vejo-o claramente. - Petyr indicou com um gesto a gorda. - Kella cuida de meus vastos rebanhos. Quantas ovelhas tenho no momento, Kella?
    Ela teve de pensar por um momento.
    - Vinte e três, senhor. Havia vinte e nove, mas os cães de Bryen mataram uma e aba¬temos algumas das outras pra salgar a carne.
    - Ah, carneiro frio em salmoura. Devo estar mesmo em casa. Quando quebrar o je¬jum com ovos de gaivota e sopa de algas, terei certeza.
    - Se quiser, senhor - disse a velha chamada Grisel,
    Lorde Petyr fez uma careta.
    - Venha, vejamos se o meu palácio é tão lúgubre como o recordo. - Subiu a costa à frente dos outros, por rochas tornadas escorregadias por algas em putrefação. Um pu¬nhado de ovelhas vagueava em volta da base da torre de pederneira, pastando a escassa grama que crescia entre o curral e o estábulo de telhado de colmo. Sansa teve de pisar com cuidado; havia cocô de ovelha por todo lado.
    Lá dentro, a torre parecia ainda menor. Uma escada aberta de pedra corria em volta da parede interior, desde a galeria subterrânea até o telhado. Cada piso não era mais do que um único cômodo. Os criados viviam e dormiam na cozinha, no piso térreo, dividin¬do o espaço com um enorme mastim malhado e meia dúzia de cães pastores. Por cima havia um pequeno salão, e ainda mais acima o quarto de dormir. Não existiam janelas, mas havia seteiras em intervalos regulares na parede exterior, ao longo da curvatura da escada. Por cima da lareira pendia uma espada longa quebrada e um desgastado escudo de carvalho, com a tinta rachada e descascando.
    Sansa não conhecia o símbolo pintado no escudo; uma cabeça de pedra cinza com olhos de fogo em fundo verde-claro.
    - O escudo do meu avô - explicou Petyr quando a viu a fitá-lo. - O pai dele nasceu em Bravos e veio para o Vaie como mercenário contratado por Lorde Corbray, e por isso o meu avô escolheu a cabeça do Titã como símbolo quando foi armado cavaleiro.
    - É muito feroz - disse Sansa.
    - Feroz demais, para um cara amigável como eu - disse Petyr. - Prefiro de longe o meu tejo.
    Oswell fez mais duas viagens até o Rei Bacalhau para descarregar mantimentos. Entre as cargas que trouxe para terra havia vários toneis de vinho. Petyr serviu uma taça a San¬sa, como prometido.
    ~ Aqui está, senhora, isso deve ajudar a sua barriga, espero eu.
    Ter terra firme debaixo dos pés já ajudara, mas Sansa ergueu obedientemente o cálice com ambas as mãos e bebeu um golinho. O vinho era muito bom; uma bela colheita da Árvore, pensou. Tinha toques de carvalho, fruta e noites quentes de verão e os sabo¬res desabrochavam em sua boca como flores abrindo-se ao sol. Só esperava conseguir mantê-lo na barriga. Lorde Petyr estava sendo tão gentil que não queria estragar tudo vomitando em cima dele.
    Ele estava estudando-a por sobre seu próprio cálice, com os brilhantes olhos cinza-esverdeados cheios de... seria divertimento? Ou outra coisa? Sansa não tinha certeza.
    - Grisel - gritou ele para a velha -, traga um pouco de comida. Nada pesado demais, que a senhora tem uma barriga fraca. Um pouco de fruta poderá, talvez, servir. Oswell trouxe algumas laranjas e romãs do Rei.
    - Sim, senhor.
    - Seria possível também tomar um banho quente? - perguntou Sansa,

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    Re: Parte 2 3 realm

    Mensagem  Admin em Seg Jun 18, 2012 2:45 pm

    - Eu mando Kella ir buscar água, senhora,
    Sansa bebeu outro gole de vinho e tentou pensar em algo polido para dizer, mas Lor¬de Petyr poupou-a do trabalho. Quando Grisel e os outros criados foram embora, disse:
    - Lysa não virá sozinha. Antes de ela chegar, temos de esclarecer quem você é.
    - Quem sou... não compreendo,
    - Varys tem informantes por todo lado. Se Sansa Stark for vista no Vale, o eunuco vai ficar sabendo dentro de uma volta de lua, e isso criaria lamentáveis... complicações. Não é seguro ser um Stark neste momento. Portanto, diremos ao pessoal de Lysa que é minha filha ilegítima.
    - Ilegítima? - Sansa estava horrorizada. - Quer dizer uma bastarda?
    - Bem, dificilmente poderia ser minha filha legítima. Nunca tomei esposa, isso é bem sabido, Como se chamaria?
    - Eu,., poderia usar o nome de minha mãe...
    - Catelyn? Um pouco óbvio demais... mas o de minha mãe serviria. Alayne. Você gosta?
    - Alayne é bonito. - Sansa esperava conseguir lembrar-se. - Mas eu não poderia ser filha legítima de algum cavaleiro a seu serviço? Ele poderia ter morrido galantemente na batalha, e...
    - Não tenho cavaleiros galantes a meu serviço, Alayne. Uma história dessas atrairia tantas perguntas indesejáveis quanto um cadáver atrai corvos. Porém, é falta de educação bisbilhotar a origem dos filhos ilegítimos de um homem. - Ergueu a cabeça. - Então, quem é?
    - Alayne... Stone, é? - quando ele confirmou com a cabeça, ela disse: - Mas quem é a minha mãe?
    - A Kella?
    - Não, por favor - disse ela, mortificada.
    - Estava brincando. Sua mãe era uma senhora de Bravos, filha de um príncipe merca¬dor. Conhecemo-nos em Vila Gaivota quando era encarregado do porto. Ela morreu ao dá-la à luz e confiou-a à Fé. Tenho alguns livros devocionais sobre os quais pode passar os olhos. Aprenda a citá-los. Nada desencoraja mais as perguntas indesejadas do que uma torrente de ladainha piedosa. Seja como for, em sua floração decidiu que não era seu desejo ser uma septã e escreveu-me. Foi então que eu soube da sua existência. - Afagou a barba. - Acha que é capaz de se lembrar de tudo isso?
    - Espero que sim. Será como jogar um jogo, não é?
    - Gosta de jogos, Alayne?
    Ia ter de habituar-se ao novo nome.
    -Jogos? Eu... suponho que dependeria de...
    Grisel reapareceu antes de poder dizer mais, equilibrando uma grande bandeja. Apoiou-a entre ambos. Havia maçãs, peras e romãs, um punhado de uvas feiosas, uma enorme laranja sangüínea. A velha tinha trazido também uma rodela de pão e um pote de manteiga. Petyr cortou uma romã em duas com o seu punhal e ofereceu metade a Sansa.
    - Devia tentar comer, senhora.
    - Obrigada, senhor. - As sementes de romã sujavam tanto; Sansa preferiu uma pera, e deu uma pequena mordidinha delicada. Estava muito madura; o sumo escorreu pelo seu queixo.
    Lorde Petyr desalojou uma semente com a ponta do punhal,
    - Deve sentir terrivelmente a falta de seu pai, eu sei. Lorde Eddard era um homem corajoso, honesto e leal... mas um jogador bastante incapaz. - Levou a semente à boca com a faca, - Em Porto Real, há dois tipos de pessoas. Os jogadores e as peças.
    - E eu era uma peça? - receou a resposta.
    - Sim, mas não deixe que isso a perturbe, Ainda é quase uma criança. Todos os ho¬mens começam sendo peças, e todas as donzelas também. Mesmo alguns que acham que são jogadores. - Comeu outra semente. - Cersei, para começar. Julga-se astuta, mas na verdade é completamente previsível. Sua força reside na beleza, no nascimento e na ri¬queza. Só a primeira dessas coisas é realmente dela, e em breve a abandonará. Nessa hora, terei pena dela. Deseja o poder, mas não tem idéia do que fazer com ele quando o obtém. Todo mundo quer alguma coisa, Alayne. E quando ficar sabendo o que um ho¬mem quer, saberá quem ele é, e como jogar com ele.
    - Tal como jogou com Sor Dontos para envenenar Joffrey? - concluíra que tinha de ter sido Sor Dontos.
    Mindinho riu.
    - Sor Dontos, o Tinto, era um odre de vinho com pernas. Nunca poderia ser confia¬da a ele uma tarefa de tal magnitude. Ele, se não a estragasse, teria me traído. Não, tudo que Dontos teve de fazer foi tirá-la do castelo... e assegurar-se de que usava a rede de prata para cabelos.
    As ametistas negras.
    - Mas... se não foi Dontos, quem? Você tem outras... peças?
    - Poderia virar Porto Real do avesso e não encontraria um único homem com um tejo cosido sobre o coração, mas isso não significa que eu não tenho amigos. - Petyr dirigiu-se até junto da escada. - Oswell, venha aqui em cima e deixe que a Senhora Sansa olhe para você.
    O velho apareceu alguns momentos mais tarde, sorrindo e fazendo uma reverência. Sansa examinou-o, incerta.
    - O que eu deveria estar vendo?
    - Não o conhece? - perguntou Petyr.
    - Não.
    - Olhe melhor,
    Sansa estudou o rosto do velho, enrugado e queimado pelo vento, seu nariz adunco, os cabelos brancos e as enormes mãos nodosas. Havia algo de familiar nele, mas Sansa teve de sacudir a cabeça.
    - Não o conheço. Nunca vi Oswell antes de entrar no barco dele, tenho certeza.
    Oswell sorriu, mostrando uma boca cheia de dentes tortos.

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    Re: Parte 2 3 realm

    Mensagem  Admin em Seg Jun 18, 2012 2:45 pm

    - Não, mas a senhora talvez tenha conhecido os meus três filhos.
    Foram os "três filhos" e também aquele sorriso,
    - Kettleblack! - os olhos de Sansa esbugalharam-se, - E um Kettleblack!
    - Sim, senhora, às suas ordens.
    - Ela está fora de si de alegria. - Lorde Petyr mandou-o embora com um gesto e voltou à romã enquanto Oswell descia os degraus. - Diga-me, Alayne... o que é mais perigoso, o punhal brandido por um inimigo, ou o punhal escondido encostado às suas costas por alguém que não chega a ver?
    - O punhal escondido.
    - Aí está uma garota esperta, - Ele sorriu, com os lábios finos tornados vermelhos pelas sementes de romã, - Quando o Duende mandou os guardas dela embora, a rainha mandou Sor Lancei contratar-lhe mercenários. Lancei encontrou os Kettleblack, o que deliciou o pequeno senhor seu esposo, visto que os rapazes eram pagos por ele através do seu homem, Bronn. - Petyr soltou um risinho. - Mas fui eu quem disse a Oswell para mandar os filhos para Porto Real quando soube que Bronn andava à procura de espadas. Três punhais escondidos, Alayne, agora perfeitamente posicionados.
    - Então um dos Kettleblack pôs o veneno na taça de Joff? - lembrou-se de que Sor Osmund tinha passado a noite inteira perto do rei.
    - Terei dito isso? - Lorde Petyr cortou a laranja sangüínea em duas com o punhal e ofereceu metade a Sansa. - Os rapazes são traiçoeiros demais para participarem de uma tramóia dessas... e Osmund tornou-se especialmente indigno de confiança desde que en¬trou para a Guarda Real. Acho que aquele manto branco faz coisas aos homens. Até a homens como ele. - Inclinou o queixo para trás e espremeu a larania sangüínea para aue o sumo escorresse para sua boca. - Adoro o sumo, mas abomino os dedos pegajosos - reclamou, limpando as mãos. - Mãos limpas, Sansa. Faça o que fizer, assegure-se de que as suas mãos estejam limpas.
    Sansa levou à boca um pouco de sumo de sua laranja com uma colher.
    - Mas se não foram os Kettleblack e não foi Sor Dontos... você nem sequer estava na cidade, e não pode ter sido Tyrion...
    - Não quer fazer outra tentativa, querida?
    Ela sacudiu a cabeça.
    - Eu não...
    Petyr sorriu.
    - Aposto que a certa altura durante a noite alguém lhe disse que a rede para cabelos estava torta e a endireitou para você.
    Sansa levou uma mão à boca.
    - Não pode querer dizer... ela queria me levar para Jardim de Cima, para me casar com o neto...
    - O gentil e piedoso Willas Tyrell, com a sua boa índole. Fique grata por ter sido poupada, ele teria aborrecido você até a morte. Mas a velha não é entediante, admito. Uma temível velha bruxa, e que não é nem de perto tão frágil como finge ser. Quando cheguei a Jardim de Cima para regatear a mão de Margaery, ela deixou que o senhor seu filho fanfarronasse enquanto ela fazia perguntas mordazes a respeito da natureza de Joffrey. Elogiei-o até os céus, com certeza... enquanto os meus homens espalhavam histó- rias perturbadoras entre os criados de Lorde Tyrell. E assim que se joga o jogo.
    "Também plantei a idéia de Sor Loras vestir o branco. Não que o tenha sugerido, isso teria sido rude demais. Mas homens em minha comitiva disseminaram medonhas histó¬rias sobre o modo como o povo tinha matado Sor Preston Greenfield e violado a Senho¬ra Lollys, e fiz chegar algumas moedas de prata ao exército de cantores de Lorde Tyrell para que cantassem sobre Ryam Redwyne, Serwyn do Escudo Espelhado e Príncipe Ae- mon, o Cavaleiro do Dragão. Uma harpa pode ser tão perigosa como uma espada, nas mãos certas.
    "Mace Tyrell pensou mesmo que era sua a idéia de fazer a inclusão de Sor Loras na Guarda Real parte do contrato de casamento. Quem melhor para proteger a filha do que o seu magnífico irmão cavaleiro? E aliviou-o da difícil tarefa de tentar encontrar terras e uma noiva para um terceiro filho, o que nunca é fácil, e se torna duplamente difícil no caso de Sor Loras.
    "Mas, seja como for, a Senhora Olenna não estava disposta a permitir que Joff fizesse mal à sua preciosa e querida neta, mas ao contrário do filho também compreendeu que, sob as suas flores e trajes finos, Sor Loras é tão temperamental quanto Jaime Lannister. Atire Joffrey, Margaery e Loras numa panela, e tem os ingredientes para um guisado de regicida. A velha compreendeu também outra coisa, O filho estava decidido a fazer de Margaery uma rainha, e para isso precisava de um rei... mas não precisava de Joffrey. Te¬remos em breve outro casamento, espere e verá. Margaery casará com Tommen. Manterá a sua coroa de rainha e a sua virgindade, nenhuma das quais deseja em especial, mas que importa isso? A grande aliança ocidental será preservada... pelo menos por algum tempo."
    Margaery e Tommen. Sansa não sabia o que dizer. Gostava de Margaery Tyrell e tam¬bém de sua pequena avó de língua afiada. Tinha pensado com anseio em Jardim de Cima, com seus pátios e músicos, e as barcaças de prazer no Vago; a uma distância enorme daquela costa desolada. Pelo menos aqui estou a salvo. Joffrey está morto, já não pode me machucar, e agora sou só uma bastarda. Alayne Stone não tem marido e não tem pretensões. E, além disso, a tia estaria ali em breve. O longo pesadelo de Porto Real tinha ficado para trás e sua caricatura de casamento também. Podia criar para si um novo lar ali, tal como Petyr havia dito.
    Passaram-se oito longos dias até Lysa Arryn chegar. Choveu em cinco desses dias, enquanto Sansa permanecia sentada, entediada e inquieta junto à lareira, ao lado do velho cão cego. O animal estava doente e desdentado demais parà montar guarda com Bryen, e o que fazia era principalmente dormir, mas quando ela lhe fez festas ele ganiu e lambeu sua mão, e depois disso tornaram-se bons amigos. Quando as chuvas para¬ram, Petyr percorreu com ela o perímetro de sua propriedade, o que demorou menos de meio dia. Ele possuía um monte de pedras, tal como tinha

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    Re: Parte 2 3 realm

    Mensagem  Admin em Seg Jun 18, 2012 2:45 pm

    dito. Havia um local onde a maré saltava de uma furna, projetando-se dez metros no ar, e um outro onde alguém esculpira a estrela de sete pontas dos deuses novos num pedregulho. Petyr disse que aquilo marcava um dos locais onde os ândalos tinham desembarcado, quando vieram do outro lado do mar para arrancar o Vale das mãos dos Primeiros Homens.
    Mais para o interior, uma dúzia de famílias vivia em cabanas de pedras empilhadas ao lado de uma turfeira.
    - A minha plebe - disse Petyr, embora só o mais velho parecesse conhecê-lo. Havia também uma gruta de eremita em suas terras, mas sem eremita. - Ele agora está mor¬to, mas quando eu era rapaz, meu pai levou-me para visitá-lo. O homem não se lavava havia quarenta anos, portanto pode imaginar o cheiro, mas supostamente tinha o dom da profecia. Apalpou-me um pouco e disse que eu seria um grande homem, e por isso o meu pai deu-lhe um odre de vinho. - Petyr fungou. - Eu teria dito a mesma coisa por meia taça.
    Por fim, numa tarde cinzenta e ventosa, Bryen correu de volta à torre com os cães la¬tindo logo atrás, para anunciar que se aproximavam cavaleiros vindos de sudoeste.
    - Lysa - disse Lorde Petyr. - Venha, Alayne, vamos ao encontro dela.
    Vestiram os mantos e esperaram lá fora. Os cavaleiros não eram mais de uma vinte- na; uma escolta muito modesta para a Senhora do Ninho da Águia. Acompanhavam-na três aias, bem como uma dúzia de cavaleiros envergando cota de malha e placa de peito. Tinha trazido também um septão e um cantor atraente com um bigode fino e longos caracóis cor de areia.
    Poderá aquela ser a minha tia? A Senhora Lysa era dois anos mais nova do que sua mãe, mas aquela mulher parecia dez anos mais velha. Grossas tranças ruivas caíam-lhe abaixo da cintura, mas sob o dispendioso vestido de veludo e corpete decorado com pe¬dras preciosas, o corpo mostrava-se flácido e saliente. O rosto vinha rosado e pintado, os seios eram pesados, os membros, grossos. Era mais alta do que Mindinho e também mais pesada; e não mostrou qualquer graça no modo desajeitado com que desceu do cavalo.
    Petyr ajoelhou para lhe beijar os dedos.
    - O pequeno conselho do rei ordenou-me que a cortejasse e conquistasse, senhora. Acredita que poderá me aceitar como seu senhor e esposo?
    A Senhora Lysa projetou os lábios e puxou-o de volta em pé, para plantar um beijo em sua bochecha.
    - Oh, talvez possa ser convencida. - Soltou um risinho. - Trouxe presentes para derreter meu coração?
    - A paz do rei.
    - Oh, que se dane a paz, o que mais me trouxe?
    - A minha filha. - Mindinho fez sinal com uma mão a Sansa para avançar. - Senho¬ra, permita-me que lhe apresente Alayne Stone.
    Lysa Arryn não pareceu grandemente satisfeita por vê-la. Sansa fez uma profunda reverência, com a cabeça baixa.
    - Uma bastarda? - ouviu a tia dizer. - Petyr, foi maroto? Quem era a mãe?
    - A moça está morta. Tinha a esperança de levar Alayne para o Ninho da Águia.
    - O que farei com ela lá?
    - Tenho algumas idéias - disse Lorde Petyr. - Mas neste momento estou mais inte¬ressado no que farei com a senhora.
    Toda a severidade derreteu no rosto redondo e rosado da tia, e por um momento Sansa pensou que Lysa Arryn estivesse a ponto de chorar,
    - Querido Petyr, tive tantas saudades suas, não faz idéia, não pode fazer idéia. Yohn Royce tem andado instigando toda espécie de problemas, exigindo que eu convoque os vassalos e parta para a guerra, E todos os outros enxameiam à minha volta, Hunter, Cor- bray e aquele horrendo Nestor Royce, todos desejando desposar-me e tomar o meu filho como protegido, mas nenhum deles me ama realmente. Só você, Petyr. Sonhei com você durante tanto tempo,
    - E eu com você, senhora. - Passou um braço pelas costas dela e beijou-a no pescoço, - Quando podemos nos casar?
    - Já - disse a Senhora Lysa, suspirando. - Trouxe o meu próprio septão e um cantor, e hidromel para o banquete de casamento.
    - Aqui? - aquilo não lhe agradou. - Preferiria casar com a senhora no Ninho da Águia, com toda a corte presente.
    - Que se dane a corte. Esperei durante tanto tempo que não agüento esperar nem mais um momento. - Envolveu-o com os braços, - Quero partilhar a sua cama esta noi¬te, meu querido. Quero que façamos outro filho, um irmão para Robert ou uma doce filhinha.
    - Eu também sonhei com isso, querida. Mas há muito a ganhar com uma grande boda pública, com todo o Vale...
    - Não. - Lysa bateu o pé. - Quero-o agora, nesta mesma noite. E devo prevenir-lo de que depois de todos esses anos de silêncio e sussurros pretendo gritar quando me amar. Vou gritar tão alto que vão me ouvir no Ninho da Águia.
    - Talvez possa dormir com você agora e casar mais tarde?
    A Senhora Lysa soltou risinhos como se fosse uma menina,
    - Oh, Petyr Baelish, você é tão maroto. Não, não, eu sou a Senhora do Ninho da Águia e ordeno que se case comigo neste exato momento.
    Petyr encolheu os ombros.
    - Nesse caso, seja como a senhora ordena. Sou impotente perante você, como sempre.
    Proferiram seus votos menos de uma hora depois, em pé sob um dossel azul-celeste
    enquanto o sol se afundava a oeste. Depois, mesas foram montadas junto da pequena torre de pederneira e banquetearam-se com codorna, veado e javali assado, empurrando tudo com um

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    Re: Parte 2 3 realm

    Mensagem  Admin em Seg Jun 18, 2012 2:45 pm

    bom e leve hidromel. Archotes foram acesos quando o ocaso se instalou. O cantor de Lysa tocou"0 voto não proferido" "Estações do meu amor" e"Dois corações que batem como um só". Vários jovens cavaleiros até pediram a Sansa para dançar. A tia também dançou, fazendo rodopiar as saias quando Petyr a girou nos seus braços. O hi¬dromel e o casamento tinham tirado anos de cima da Senhora Lysa. Ria de tudo desde que segurasse a mão do marido, e os olhos pareciam cintilar sempre que o olhava.
    Quando chegou a hora de os levarem para a cama, os cavaleiros carregaram-na para a torre, despindo-a no caminho e gritando gracejos lascivos. Tyrion poupou-me disso, recor¬dou Sansa. Não teria sido assim tão ruim ser despida para um homem que amasse, por amigos que os amassem a ambos. Mas por Joffrey... Estremeceu.
    A tia só tinha trazido três senhoras consigo, por isso insistiram com Sansa para que ajudasse a despir Lorde Petyr e a empurrá-lo para a sua cama de núpcias. Ele submeteu- -se com boa vontade e uma língua maliciosa, devolvendo o que recebia. Quando o con¬seguiram pôr dentro da torre e fora da roupa, as outras mulheres estavam coradas, com cordões soltos, vestidos tortos, saias em desarranjo. Mas Mindinho só sorria a Sansa en¬quanto o levavam para o quarto onde a senhora sua esposa esperava.
    A Senhora Lysa e o Lorde Petyr tinham o quarto do terceiro andar para si, mas a tor¬re era pequena... e cumprindo a promessa que havia feito, a tia gritou. Tinha começado a chover lá fora, levando os convivas para o salão um piso mais abaixo, e assim ouviram quase todas as palavras.
    - Petyr - gemeu a tia de Sansa. - Oh, Petyr, Petyr, querido Petyr, oh oh oh. Aí, Petyr, aí. E aí o seu lugar. - O cantor da Senhora Lysa lançou-se numa versão lasciva de "O jantar da senhora", mas nem mesmo a sua voz e o som do instrumento foram capazes de abafar os gritos de Lysa. - Faça-me um bebê, Petyr - gritou -, faça-me outro bebezi- nho, querido. Oh, Petyr, meu precioso, meu precioso, PEEEEEEEEEETYR! - O último guincho foi tão alto que pôs os cães para ladrar, e duas das damas da tia quase não conse¬guiram conter o riso.
    Sansa desceu a escada e penetrou na noite. Caía uma chuva ligeira sobre os restos do banquete, mas o ar tinha um cheiro fresco e limpo. A memória da sua noite de núpcias com Tyrion não a deixava. "No escuro, sou o Cavaleiro das Flores", ele tinha dito. "Po¬deria ser bom para você." Mas aquela foi apenas mais uma mentira Lannister. "Um cão consegue farejar uma mentira, sabei", disse-lhe um dia o Cão de Caça. Quase conseguia ouvir a aspereza rude de sua voz. "Olhe em volta e dê uma boa fungadela. Aqui são todos mentirosos... e todos eles são melhores do que você." Perguntou a si mesma o que teria acontecido a Sandor Clegane. Saberia que Joffrey tinha sido morto? Será que se importa¬ria? Durante anos, ele fora o escudo juramentado do rei.
    Permaneceu fora durante bastante tempo. Quando por fim foi em busca de sua cama, molhada e friorenta, só o tênue clarão de um fogo de esterco iluminava o salão escureci¬do. Não se ouvia um som vindo de cima. O jovem cantor estava sentado em um canto, tocando uma canção lenta para si mesmo. Uma das aias da tia beijava um cavaleiro no cadeirão de Lorde Petyr, ambos com as mãos atarefadas debaixo das roupas do outro. Vários homens tinham bebido até adormecer e um estava na latrina, vomitando ruidosa¬mente. Sansa foi encontrar o velho cão cego de Bryen na sua pequena alcova debaixo da escada e deitou-se ao lado dele. Ele acordou e lambeu-lhe o rosto.
    - Meu velho e triste cão de caça - disse, afagando seu pelo.
    - Alayne. - O cantor da tia estava em pé acima dela. - Querida Alayne. Chamo- -me Marillion. Vi você entrar vinda da chuva. A noite está gelada e úmida. Deixe-me aquecê-la.
    O velho cão ergueu a cabeça e rosnou, mas o cantor deu-lhe um tabefe e o cão esca¬puliu, ganindo.
    - Marillion? - disse ela, insegura, - É... bondoso por pensar em mim, mas... peço que me desculpe. Estou muito cansada,
    - E está muito bela. Tenho passado toda a noite fazendo canções para você na ca¬beça. Um deleite para os seus olhos, uma balada para os seus lábios, um dueto para os seus seios. Mas não as cantarei. Eram coisas fracas, indignas de tal beleza. - Sentou-se em sua cama e pôs a mão em sua perna, - Deixe-me em vez disso cantar para você com o meu corpo,
    Um pouco do hálito dele chegou-lhe ao nariz.
    - Está bêbado.
    - Eu nunca fico bêbado, O hidromel só me deixa alegre. Estou em fogo. - A mão des¬lizou coxa acima. - E você também.
    - Tire as mãos de cima de mim. Está fora de si.
    - Misericórdia. Há horas que canto canções de amor. Meu sangue está agitado, E o seu também está, eu sei... não há garota que tenha metade da luxúria das que nasceram bastardas. Está molhada para mim?
    - Eu sou uma donzela - protestou.
    - Sério? Oh, Alayne, Alayne, minha bela donzela, dê-me o presente de sua ino¬cência. Irá agradecer aos deuses por tê-lo feito. Farei com que cante mais alto do que a Senhora Lysa.
    Sansa afastou-se dele com um empurrão, assustada.
    - Se não me largar, a minh... o meu pai vai enforcá-lo. Lorde Petyr.
    - O Mindinho? - ele soltou um risinho abafado, - A Senhora Lysa gosta bastante de mim, e eu sou o favorito de Lorde Robert, Se o seu pai me ofender, vou destruí-lo com um verso. - Pousou uma mão em seu seio e apertou, - Vamos tirar essa roupa molhada, Não vai querê-la rasgada, eu sei. Venha, doce senhora, ceda o coração...
    Sansa ouviu o som suave do aço raspando em couro.
    - Cantor - disse uma voz rude é melhor sair daqui, se quiser voltar a cantar. - A luz era fraca, mas ela viu o tênue brilho de uma lâmina,
    O cantor também a viu.
    - Arranje uma mulher para você... - A faca relampejou, e ele gritou. - Você me cortoul
    - E faço coisa pior, se não for embora.

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    Re: Parte 2 3 realm

    Mensagem  Admin em Seg Jun 18, 2012 2:45 pm

    E, num instante, Marillion desapareceu. O outro ficou ali, erguendo-se acima de San¬sa na escuridão.
    - Lorde Petyr disse para vigiá-la. - Percebeu que era a voz de Lothor Brune. Não, não éa do Cão de Caça, como poderia ser? Claro que tinha de ser Lothor...
    Naquela noite, Sansa quase não dormiu; em vez disso agitou-se e virou-se como fizera a bordo do Rei Bacalhau. Sonhou com a morte de Joffrey, mas quando ele arranhou a gar¬ganta e o sangue escorreu por seus dedos, Sansa viu com horror que era o irmão Robb. E sonhou também com a sua noite de núpcias, com os olhos de Tyrion a devorá-la enquanto se despia. Mas então ele tornou-se maior do que Tyrion tinha direito a ser, e quando se meteu na cama, tinha cicatrizes só de um lado do rosto. "Quero que me cante uma canção", rouquejou ele, e Sansa acordou e deu com o velho cão cego de novo a seu lado.
    - Gostaria que fosse a Lady - disse.
    Ao chegar a manhã, Grisel subiu até o quarto para servir ao senhor e à senhora uma travessa de pão matinal, com manteiga, mel, frutas e creme de leite. Voltou para dizer que Alayne era chamada. Sansa ainda estava tomada pelo sono e precisou de um momento para se lembrar de que a Alayne era ela.
    A Senhora Lysa ainda se encontrava deitada, mas Lorde Petyr estava de pé e vestido.
    - A sua tia quer falar com você - disse a Sansa enquanto puxava uma bota. - Disse- -lhe quem é.
    Deuses, sejam bons.
    - Eu... agradeço, senhor.
    Petyr enfiou a outra bota.
    - Já agüentei o máximo do lar que sou capaz de suportar. Partimos para o Ninho da Águia esta tarde. - Beijou a senhora sua esposa e lambeu um resto de mel de seus lábios, e então desceu a escada.
    Sansa ficou em pé aos pés da cama enquanto a tia comia uma pera e a estudava.
    - Agora vejo - disse a Senhora Lysa, ao deixar de lado o caroço. - E tão parecida com Catelyn.
    - É bondade sua dizê-lo.
    - Não era para ser um elogio. A bem da verdade, é parecida demais com Catelyn. Algo tem de ser feito. Vamos escurecer seus cabelos antes de levarmos você para o Ninho da Águia, acho eu.
    Escurecer meus cabelos?
    - Se isso a agrada, tia Lysa.
    - Não pode me chamar disso. Não podemos permitir que nenhuma palavra sobre a sua presença aqui chegue a Porto Real. Não pretendo deixar que o meu filho corra perigo. - Mordiscou um canto de um favo. - Mantive o Vale fora desta guerra. A nossa colheita foi abundante, as montanhas protegem-nos, e o Ninho da Águia é inexpugnável. Mesmo assim, não será bom atrair sobre nós a ira de Lorde Tywin. - Lysa apoiou o favo e lambeu mel dos dedos. - Petyr disse que esteve casada com Tyrion Lannister. Aquele anão nojento.
    - Obrigaram-me a desposá-lo. Eu nunca quis isso.
    - Assim como eu - disse a tia. - Jon Arryn não era anão, mas era velho. Pode não acreditar ao me ver agora, mas no dia em que casamos estava tão linda que envergonhei a sua mãe. Mas tudo que Jon desejava eram as espadas de meu pai, para ajudar os seus queridos rapazes. Devia tê-lo recusado, mas era um homem tão velho, quanto tempo poderia viver? Já não tinha metade dos dentes, e o hálito fedia a queijo ruim. Não con¬sigo suportar um homem com mau hálito. O hálito de Petyr é sempre fresco... mas ele foi o primeiro homem que beijei, sabia? Meu pai disse que o nascimento dele era baixo demais, mas eu sabia como ele havia de subir alto. Jon entregou-lhe a alfândega de Vila Gaivota para me agradar, mas quando ele aumentou os lucros dez vezes o senhor meu esposo se deu conta de sua inteligência e deu-lhe outros cargos, até o levou a Porto Real para ser mestre da moeda. Isso foi duro, vê-lo todos os dias e continuar casada com aque- íe velho frio. Jon cumpria o seu dever no quarto, mas não era mais capaz de me dar prazer do que foi capaz de me dar filhos. A sua semente era velha e fraca. Todos os meus bebês morreram, exceto Robert; três meninas e dois meninos. Todos os meus queridos bebês mortos, e aquele velho durava e durava com o seu hálito fedido. Portanto, como vê, eu também sofri. - A Senhora Lysa fungou. - Sabe que a sua pobre mãe está morta?
    - Tyrion contou-me - disse Sansa. - Disse que os Frey a assassinaram nas Gêmeas, com Robb.
    Lágrimas jorraram de repente dos olhos da Senhora Lysa.
    - Somos agora mulheres sós, você e eu. Tem medo, filha? Seja brava. Nunca me recu¬saria a acolher a filha de Cat. Estamos ligadas pelo sangue. - Chamou Sansa para mais perto com um gesto. - Pode vir me beijar no rosto, Alayne.
    Obedientemente, Sansa aproximou-se e ajoelhou-se junto à cama. A tia estava enso¬pada num odor doce, embora por baixo houvesse um cheiro azedo e leitoso. A bochecha tinha gosto de maquiagem e pó.
    Quando Sansa se afastou, a Senhora Lysa pegou seu pulso.
    - E agora diga-me - disse em tom penetrante. - Está esperando bebê? Quero a ver¬dade, saberei se mentir para mim.
    - Não - disse Sansa, sobressaltada pela pergunta.
    - É uma mulher já florescida, não é?
    - Sim. - Sansa sabia que a verdade sobre a sua floração não podia ser escondida por muito tempo no Ninho da Águia. - Tyrion não... ele nunca... - Sentiu o rubor subir ros¬to acima. - Sou ainda uma donzela.
    - O anão era incapaz?
    - Não. Ele era só... era... - Gentil? Não podia dizer isso, não ali, àquela tia que o odia¬va tanto. - Ele.,, ele tinha prostitutas, senhora. Ele próprio me disse.
    - Prostitutas. - Lysa largou seu pulso. - Claro que sim. Que mulher se deitaria com tal criatura, se não por ouro? Devia ter matado o Duende quando esteve em meu poder, mas ele ludibriou-me, E

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    Re: Parte 2 3 realm

    Mensagem  Admin em Seg Jun 18, 2012 2:45 pm

    cheio de baixa astúcia, esse aí. O mercenário dele matou o meu bom Sor Vardis Egen. Catelyn não o devia ter trazido para o Ninho, eu disse a ela, E ainda foi embora com o meu tio. Foi um gesto errado. O Peixe Negro era o meu Cava¬leiro do Portão, e desde que nos deixou os clãs da montanha têm se tornado muito ou¬sados. Mas Petyr em breve deixará tudo isso como deve ser. Farei dele Senhor Protetor do Vale. - A tia sorriu pela primeira vez, quase com calor. - Ele pode não ser tão alto ou forte como certos homens, mas vale mais do que todos eles. Confie nele e faça o que lhe disser,
    - Farei, tia... senhora.
    A Senhora Lysa pareceu agradada com aquilo.
    - Eu conheci o rapaz, o Joffrey. Costumava chamar o meu Robert por nomes cruéis, e uma vez bateu nele com uma espada de madeira. Um homem dirá que o veneno é deson¬roso, mas a honra de uma mulher é diferente. A Mãe talhou-nos para protegermos nos¬sos filhos, e nossa única desonra reside no fracasso. Saberá disso quando tiver um filho,
    - Um filho? - disse Sansa com incerteza.
    Lysa fez um gesto negligente com a mão.
    - Não será antes de se passarem muitos anos. E nova demais para ser mãe. Mas um dia vai querer filhos. Tal como vai querer se casar.
    - Eu., . eu sou casada, senhora.
    - Sim, mas em breve será viúva, Fique feliz por o Duende preferir as rameiras dele. Não teria sido adequado que o meu filho recebesse as sobras daquele anão, mas como nunca a tocou... Que acharia de se casar com o seu primo, Lorde Robert?
    A idéia abateu Sansa. Tudo o que sabia sobre Robert Arryn era que se tratava de um garotinho, e enfermiço. Não é comigo que ela quer que o filho case, é com a minha pretensão. Ninguém casará comigo por amor. Mas mentir era agora fácil.
    - Eu... mal posso esperar para conhecê-lo, senhora. Mas ele ainda é uma criança, não é?
    - Tem oito anos. E não é robusto. Mas é um rapaz tão bom, tão vivo e inteligente. Será um grande homem, Alayne. A semente é forte, disse o senhor meu esposo antes de morrer. Foram as suas últimas palavras. Os deuses deixam-nos às vezes vislumbrar o futuro quando estamos morrendo, Não vejo motivo para que não possa se casar assim que souber que o seu marido Lannister está morto. Um casamento secreto, claro. Não se pode pensar que o Senhor do Ninho da Águia se casaria com uma bastarda, isso não seria próprio. Os corvos devem trazer-nos a notícia de Porto Real quando a cabeça do Duende rolar. Você e Robert poderão se casar no dia seguinte, não seria isso uma alegria? Será bom para ele ter uma pequena companheira. Ele brincava com o filho de Vardis Egen quando voltamos ao Ninho da Águia, e também com os filhos de meu intenden¬te, mas sempre foram duros demais, e não tive alternativa exceto mandá-los embora. Lê bem, Alayne?
    - A Septã Mordane tinha a gentileza de dizer que sim.
    - Robert tem olhos fracos, mas gosta que leiam coisas para ele - confidenciou a Se¬nhora Lysa. - Gosta de histórias sobre animais, principalmente. Conhece aquela canção- zinha sobre a galinha que se vestiu de raposa? Canto-a para ele o tempo todo, e ele nunca se cansa. E gosta de brincar de salto das rãs, de gira a espada, e de entra no meu castelo, mas tem de deixar que ganhe sempre. E apropriado, não acha? Afinal de contas, ele é o Senhor do Ninho da Águia, não pode nunca se esquecer disso. E bem-nascida, e os Stark de Winterfell sempre foram orgulhosos, mas Winterfell caiu, e agora na realidade não passa de uma pedinte, portanto deixe esse orgulho de lado. A gratidão caberá melhor a você, nas atuais circunstâncias. Sim, e a obediência. Meu filho terá uma esposa grata e obediente.

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    Re: Parte 2 3 realm

    Mensagem  Admin em Seg Jun 18, 2012 2:46 pm

    Jon 808




    O
    s machados ressoavam dia e noite. Jon já não se lembrava da última vez que tinha dormido. Quando fechava os olhos, sonhava com a luta; quando acordava, lutava. Mesmo na Torre do Rei ouvia o incessante tunc de bronze, pederneira e aço roubados mordendo a madeira, e ouvia-o mais alto quando tentava descansar na cabana de aque¬cimento no topo da Muralha. Mance também tinha martelos trabalhando, assim como longas serras com dentes de osso e pederneira. Uma vez, quando Jon estava deslizando para um sono exausto, ouviu-se um grande estalo vindo da floresta assombrada e uma árvore-sentinela caiu numa nuvem de poeira e agulhas.
    Quando Owen veio buscá-lo, estava acordado, tentando sem sucesso arranjar posição numa pilha de peles espalhada sobre o chão da cabana de aquecimento.
    - Lorde Snow - disse Owen, sacudindo seu ombro a alvorada. - Estendeu uma mão a Jon para ajudá-lo a ficar em pé. Outros homens também estavam acordando, acotovelando-se uns aos outros enquanto calçavam as botas e afivelavam o cinto da es¬pada no apertado confinamento da cabana. Ninguém falava. Estavam todos cansados demais para falar. Por aqueles dias, eram poucos os que chegavam a descer da Muralha. Demorava muito tempo para subir e descer na gaiola. Castelo Negro tinha sido abando¬nado ao Meistre Aemon, a Sor Wynton Sout e a mais alguns homens, velhos ou enfer¬mos demais para lutar.
    - Sonhei que o rei tinha vindo - disse Owen num tom feliz. - Meistre Aemon en¬viou um corvo, e o Rei Robert veio com todas as suas forças. Sonhei que via os seus estandartes dourados.
    Jon obrigou-se a sorrir.
    - Isso seria uma visão bem-vinda, Owen. - Ignorando a pontada de dor em sua per¬na, colocou um manto negro de peles sobre os ombros, apanhou a muleta e saiu para a Muralha, a fim de enfrentar mais um dia.
    Uma rajada de vento enfiou finas gavinhas geladas em seus longos cabelos castanhos. A um quilômetro para o norte, os acampamentos dos selvagens acordavam, com as fo¬gueiras erguendo dedos fumacentos para coçar o pálido céu da alvorada. Tinham erguido as suas tendas de peles ao longo do limite da floresta, incluindo mesmo um edifício tosco feito de troncos de árvores e ramos entretecidos; havia linhas de cavalos a leste, mamutes a oeste, e homens por todo lado, afiando as espadas, pondo pontas em lanças rústicas, vestindo armaduras improvisadas de peles, chifre e osso. Para cada homem que conse-
    guia ver, Jon sabia que havia vinte outros invisíveis na floresta. A vegetação dava-lhes algum abrigo contra os ataques e escondia-os dos olhos dos odiados corvos.
    Os arqueiros deles já avançavam, empurrando os manteletes rolantes.
    - Aí vêm as nossas flechas para o café da manhã - anunciou Pyp alegremente, tal como fazia todas as manhãs. É bom que ele possa fazer disso uma brincadeira, pensou Jon. Alguém tem de fazer. Três dias antes, uma dessas flechas do café da manhã tinha atingido o Alyn Vermelho da Mata de Rosas na perna. Quem se debruçasse o suficiente ainda conseguia ver o seu corpo junto à base da Muralha. Jon tinha de pensar que era melhor eles sorrirem da brincadeira de Pyp do que pensarem a respeito do cadáver de Alyn.
    Os manteletes eram escudos de madeira inclinados, suficientemente largos para es¬conder cinco membros do povo livre. Os arqueiros empurravam-nos para perto da Mura¬lha e depois ajoelhavam-se atrás deles para disparar suas flechas através de fendas abertas na madeira. Da primeira vez que os selvagens os tinham levado, Jon gritou por flechas in¬cendiárias e deixou meia dúzia em chamas, mas depois disso Mance começou a cobri-los com peles cruas. Nem todas as flechas incendiárias do mundo seriam capazes de botar fogo nelas agora. Os irmãos tinham até começado a fazer apostas sobre qual das sentine- las de palha colecionaria mais flechas antes do fim. Edd Doloroso liderava com quatro, mas Othell Yarwyck, Tumberjon e Watt do Lago Longo tinham três cada. Também foi Pyp que começou a batizar os espantalhos com o nome dos irmãos desaparecidos.
    - Faz com que pareça que há mais de nós - disse.
    - Mais de nós com flechas espetadas na barriga - protestou Grenn, mas o hábito parecia dar ânimo aos irmãos, e assim Jon permitiu que os nomes ficassem e as apostas prosseguissem.
    Na borda da Muralha, um ornamentado olho de Myr em latão apoiava-se em três longos pés. Meistre Aemon usara-o antigamente para contemplar as estrelas, antes de lhe falharem os olhos. Jon virou o tubo para baixo, a fim de observar o inimigo. Até aquela distância a enorme tenda branca de Mance Rayder, feita com peles de ursos-brancos, era inconfundível. As lentes de Myr traziam os selvagens para tão perto que Jon conseguia distinguir os rostos. Do próprio Mance não viu sinal naquela manhã, mas a sua mulher, Dalla, estava do lado de fora cuidando da fogueira, enquanto a irmã Vai ordenhava uma cabra junto à tenda. Dalla parecia tão inchada que era uma surpresa conseguir se mover. O bebê deve chegar muito em breve, pensou Jon. Girou o olho para leste e procurou entre as tendas e árvores até encontrar a tartaruga. Aquilo também deve chegar muito em breve. Os selvagens tinham esfolado um dos mamutes mortos durante a noite e estavam amar¬rando firmemente a pele crua e ensangüentada à armação da tartaruga, mais uma camada por cima das peles de ovelha e outros animais. A tartaruga tinha um topo arredondado e oito enormes rodas, e sob as peles havia uma robusta armação de madeira. Quando os selvagens começaram a construí-la, Cetim pensou que estivessem fazendo um barco. Não se enganou por muito. A tartaruga era um casco virado ao contrário e aberto na frente e atrás; um edifício sobre rodas.
    - Está pronta, não está? - perguntou Grenn.

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    Re: Parte 2 3 realm

    Mensagem  Admin em Seg Jun 18, 2012 2:46 pm

    - Quase. - Jon afastou os olhos. - Virá hoje, provavelmente. Encheu os barris?
    - Todos. Congelaram bem durante a noite, o Pyp verificou.
    Grenn tornara-se muito diferente do grande e desajeitado rapaz de pescoço verme¬lho de quem Jon ficara amigo. Tinha crescido quinze centímetros, o peito e os ombros tinham se alargado e não cortava o cabelo e a barba desde o Punho dos Primeiros Ho¬mens. Isso dava-lhe um aspecto tão enorme e hirsuto como se fosse um auroque, a alcu¬nha zombeteira que Sor Alliser Thorne tinha colado nele durante o treino. Agora parecia cansado, porém. Quando Jon disse isso, ele assentiu.
    - Ouvi os machados deles a noite toda, Não consegui dormir com todas as machadadas.
    - Então vá dormir agora.
    - Não preciso...
    - Precisa. Quero que esteja descansado. Vá lá, não o deixo dormir durante a luta. - Obrigou-se a sorrir. - Ho único que consegue mover estes malditos barris.
    Grenn foi embora resmungando, e Jon voltou à lente, perscrutando o acampamento dos selvagens. De tempos em tempos, uma flecha passava por cima da sua cabeça, mas tinha aprendido a ignorá-las. Os tiros eram longínquos e o ângulo ruim, portanto, as chances de ser atingido eram pequenas. Continuou sem ver sinal de Mance Rayder no acampamento, mas viu Tormund Terror dos Gigantes e dois de seus filhos em volta da tartaruga. Os filhos lutavam com a pele de mamute enquanto Tormund roía uma perna assada de cabra e berrava ordens. Em outro local, localizou o troca-peles selvagem, Vara- myr Seis-Peles, caminhando entre as árvores com seu gato-das-sombras em seu encalço,
    Quando ouviu o chocalhar das correntes do guincho e o gemido férreo da porta da gaiola se abrindo, soube que seria Hobb trazendo-lhes o café da manhã, tal como fazia todas as manhãs. A visão da tartaruga de Mance tinha roubado o apetite de Jon. Já quase não tinham óleo, e o último barril de piche fora atirado da Muralha havia duas noites. Em breve as fle¬chas também começariam a escassear, e não havia ninguém fazendo mais delas. E na noite antes da última chegara um corvo do oeste, de Sor Denys Mallister. Bowen Marsh persegui¬ra os selvagens até a Torre Sombria, aparentemente, e ainda mais adiante, penetrando nas sombras da Garganta. Na Ponte das Caveiras tinha defrontado o Chorão e trezentos selva¬gens e vencido uma sangrenta batalha. Mas a vitória tinha saído cara, Mais de cem irmãos mortos, entre os quais Sor Endrew Tarth e Sor Aladale Wynch. A Velha Romã em si havia sido levada de volta à Torre Sombria gravemente ferida. Meistre Mullin estava tratando dele, mas passaria algum tempo até estar em condições de retornar a Castelo Negro.
    Quando leu aquilo, Jon despachou Zei para Vila Toupeira no melhor cavalo que possuíam, a fim de suplicar aos aldeões que ajudassem a guarnecer a Muralha. A mu¬lher não tinha voltado. Quando enviou Mully à sua procura, este voltou relatando que a aldeia inteira estava deserta, incluindo o bordel, O mais certo era que Zei os tivesse seguido, pela estrada do rei afora. Talvez devêssemos todos fazer o mesmo, refletiu Jon sombriamente.
    Obrigou-se a comer, com ou sem fome. Já era suficientemente ruim que não conse¬guisse dormir, não poderia prosseguir se também não se alimentasse. Além do mais, esta pode ser minha última refeição. Pode ser a última refeição para todos nós. E, assim, Jon tinha a barriga cheia de pão, bacon, cebolas e queijo quando ouviu Cavalo gritar: -A COISA VEM Aí!
    Ninguém precisou perguntar o que "a coisa" era. E Jon também não precisou do olho de Myr do meistre para vê-la saindo de entre as tendas e as árvores.
    - Afinal não se parece lá muito com uma tartaruga - comentou o Cetim. - As tarta¬rugas não têm pelo.
    - A maior parte delas também não tem rodas - disse Pyp,
    - Faça soar o berrante de guerra - ordenou Jon, e Barricas deu dois longos sopros, para acordar Grenn e os outros homens adormecidos, que tinham estado de vigia duran¬te a noite. Se os selvagens iam atacar, a Muralha precisaria de todos os homens. E os deu¬ses sabem como temos poucos. Jon olhou para Pyp, Barricas e Cetim, Cavalo e Owen Idio¬ta, Tim Língua-Presa, Mully, Bota Extra e os outros, e tentou imaginá-los avançando, lado a lado, espada com espada, contra uma centena de selvagens aos gritos na escuridão gelada do túnel, sem nada além de algumas barras de ferro entre uns e outros. Seria a esse ponto que se chegaria, a menos que conseguissem parar a tartaruga antes de ela abrir uma brecha no portão.
    - E grande - disse Cavalo.
    Pyp deu um estalo com os lábios.
    - Pense em toda a sopa que vai dar. - A piada nasceu morta. Até Pyp tinha uma voz fatigada. Ele parece meio morto, pensou Jon, mas todos nós estamos.
    O Rei-para-lá-da-Muralha tinha tantos homens que podia atirar atacantes frescos contra eles sempre, mas era o mesmo punhado de irmãos negros que tinha de agüentar todos os assaltos, e isso deixara-os em cacos.
    Jon sabia que os homens por baixo da madeira e das peles estariam puxando com força, pondo nisso os ombros, esforçando-se por manter as rodas girando, mas depois que a tartaruga estivesse instalada contra a Muralha trocariam as cordas por machados. Pelo menos Mance não tinha mandado os mamutes naquele dia. Jon sentiu-se satisfeito por isso. A espantosa força dos animais era desperdiçada na Muralha, e o seu tamanho só os transformava em alvos fáceis. O último tinha demorado um dia e meio para morrer, soltando bramidos fúnebres terríveis de se ouvir.
    A tartaruga aproximou-se lentamente por entre pedras, tocos de árvores e arbustos. Os ataques anteriores tinham custado ao povo livre uma centena de vidas ou mais. A maior parte dos mortos ainda jazia no local onde tinha caído. Nos momentos de calma¬ria, os corvos vinham lhes fazer companhia, mas agora as aves fugiam aos guinchos. Não gostavam mais do aspecto daquela tartaruga do que ele.

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